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Música e identidade: a canção dos homens

Alvaro Siviero

14 junho 2012 | 09:49

Faz poucos dias, deparei-me com um texto da poetisa africana Tolba Phanem que, de modo simples e direto, reproduzo. Externa algo que me deixou pensativo.

“Quando uma mulher, de certa tribo da África, sabe que está grávida, segue para a selva com outras mulheres e, juntas, rezam e meditam até que apareça a “canção da criança”. Nascida a criança, a comunidade se une para lhe cantar a sua canção. Logo, quando a criança começa sua educação, os habitantes da tribo unem-se novamente, e lhe cantam sua canção. Quando se torna adulto, novamente, unem-se e cantam essa melodia. Quando chega o momento do seu casamento a pessoa escuta a sua canção. Finalmente, quando sua alma está para deixar este mundo, a família e amigos aproximam-se e, como no momento de seu nascimento, cantam a sua canção para acompanhá-lo na viagem. Mas há outra ocasião na qual os integrantes desta tribo africana cantam a canção: se em algum momento da vida a pessoa cometer um crime ou um ato social aberrante. Levam-no até o centro do povoado onde as pessoas da comunidade, formando um círculo ao seu redor, cantam a sua canção com toda a alma. A tribo reconhece que a correção para as condutas anti-sociais não é o castigo: é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade. Quando reconhecemos nossa própria canção já não temos desejos nem necessidade de prejudicar ninguém. Teus amigos conhecem a tua canção e a cantam quando a esqueces. Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes ou as escuras imagens que mostras aos demais. Eles recordam tua beleza quando te sentes feio, tua totalidade quando estás quebrado, tua inocência quando te sentes culpado e teu propósito quando estás confuso.”

O texto – que evidencia o valor e grandeza do coração africano – reforça a certeza do valor do ser humano, que independe de sua raça, língua, valores econômicos, prestígio, saúde, cor ou crenças. O valor é sagrado, como a canção que o acompanha. Decidi-me a também escolher uma canção, uma música, que começará a me acompanhar.  Quando o peso das dificuldades ou a alegria da vida chegarem mais perto, lembrarei o que sou. E, embora ainda não o seja, lembrarei também ao que fui criado a ser. Fica o convite.