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Genialidade é ranzinza?

Alvaro Siviero

quinta-feira 21/08/14

Genialidade não é sinônimo de competência e não aparece por empenho. Não é assim que funciona. Os gênios são seres escolhidos que nascem com um brilho inusitado que encanta e espanta. É prodigiosidade. Eles aparecem do nada, quando menos se espera, com esse dom que, mesmo sendo aleatório (em inglês gift, a gifted person), não dispensa os esforços para que se aprimore ainda mais. Esse esforço (a virtude), isso sim, é de todos. A genialidade não. E surgem os Einsteins, os Pelés e os  Michelangelos da vida.

Bach e Mozart foram dois gênios, de dimensões cósmicas. Os exemplos abaixo são somente a ponta de um iceberg. A primeira obra, de Bach, é a Oferenda Musical, uma coleção de composições baseadas em um tema proposto pelo Rei Frederico II da Prússia, e a ele dedicada. Conta a tradição que Bach, conhecido por seu talento na arte da improvisação, recebeu o tema da obra – até hoje conhecido como Thema Regium (tema do rei) – para que improvisasse de bate-pronto. Conta a tradição que a intenção do rei não era das melhores. O plano havia sido construído de tal forma  para que ao tema musical proposto não se pudesse aplicar as regras da polifonia (várias melodias simultâneas que se autocompletam). Para espanto de todos, Bach o improvisou em 3 vozes melódicas simultâneas. Desnorteado, o rei exigiu que Bach novamente improvisasse para 6 vozes, uma tarefa considerada impossível por todos. Bach, que mal acabara de chegar ao palácio do rei após longa viagem, desculpou-se pelo cansaço mas, em 15 dias, enviou ao rei sua resposta na forma de Oferenda Musical. Alguns compositores acreditam na hipótese (não comprovada) de que o tema, criado para humilhar Bach devido à complexidade em dar-lhe tratamento polifônico, teria sido composto por algum outro músico que não o próprio rei, uma vez que Frederico não possuía o conhecimento musical necessário para elaborar uma peça dessa natureza. Alguns afirmam ter sido Johann Christian, um dos filhos de Bach. Será?

 

O segundo exemplo abaixo, de Mozart, é auto-explicativo: um efeito espelho na escrita da partitura. Pura brincadeira musical, repleta de bom humor. Para os que estiverem com tablets ou celulares, basta virá-lo de ponta cabeça. Para os que estão em laptop ou desktop… é melhor imprimir a partitura :)

E para os que, talvez, entendam os gênios como pessoas estranhas, mal-humoradas ou azedas, fica o contra-exemplo.

 

 

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