Estou convencido de ter presenciado ontem um dos grandes momentos musicais da história da Sala São Paulo: o recital do pianista canadense Marc-André Hamelin. Detentor de técnica impecável, Hamelin deu seu recado. Apoiado em repertório eclético – Alban Berg, Fauré, Villa-Lobos e Rachmaninov -, os presentes comprovaram que o mito Hamelin tem motivos de sobra para ser mitificado. Ocorreu, durante a execução do pouco tocado Rudepoema, de Villa-Lobos, algo inusitado: percebi que, entre piano e pianista, eu havia perdido o controle de quem acionava e de quem era acionado. Piano e pianista, um diante do outro, pareciam fisicamente se complementar. Mais do que isso, tive a clara impressão de que o dono da bola era o piano. Hamelin somente o obedecia. E acabou ensinando a nós, brasileiros, como se interpreta Villa-Lobos. Seu Fauré, galante, leve, viajava pelos quatro cantos da sala. Ao final da primeira parte do programa, iniciada com sólida versão da Sonata n.1 do contemporâneo Alban Berg, a platéia ganhou consciência do que tinha visto. E, de pé, contundentemente, registrou um ardido aplauso para aquele momento.
A segunda parte do programa iniciou com um conjunto de variações, de sua autoria, sobre o Capricho n.24 de Paganini. Apareceu de tudo: jazz, trechos da quinta sinfonia de Beethoven (sim, aquela do tchã tchã tchã tchã), a célebre La Campanella e pedaços entrecortados de valsas vienenses. Uma senhora ao meu lado, que acompanhava com o olhar cada mínimo detalhe, chegou a segurar-se na cadeira, beirando o desequilíbrio. Em meio a um silêncio memorável por parte da platéia, os dedos de Hamelin se multiplicavam. O respeito do pianista pela arte educou forçosa e imediatamente aqueles que, talvez menos preparados, estivessem na sala por mera curiosidade. E quando o fôlego já havia se esgotado, iniciou-se outro tour de force pianístico: Rachmaninov, incluindo sua segunda sonata para piano. Indescritível. A sala veio abaixo. Como “token of gratitude”, Debussy e Radamés Gnatalli.
Nos próximos dias 02, 03 e 04, Hamelin estará solando o Concerto n.19 para piano e orquestra, de Mozart, frente à OSESP. E, quem sabe, após seu Mozart ainda haja espaço para outros “token of gratitude”.
Contaram-me certa vez que a verdade artística sempre convence, impacta. Lembrei-me deste comentário quando, após o recital, deparei-me com o silêncio de alguns, com uma falta de desejo de falar de outros, um olhar mais distante e reflexivo de terceiros, ou até mesmo a euforia de muitos que, ainda em êxtase, vinham me cumprimentar. Eu optei pelo silêncio.
Os 3 shows de Andre Rieu, transformados em 24, serão 36. Sim, o músico holandês retorna ao Brasil para mais 12 shows a partir do dia 10 de setembro. “Como é que pode?”, pensará alguém, enquanto outros já reservam a data na agenda. A indignação dos primeiros, um mix de rancor e desprezo ao “rei da valsa”, choca com a euforia do segundo grupo que, diariamente lotando o Ginásio do Ibirapuera, não está nem aí com o blá-blá-blá dos azedados, intensificado após a aparição de Rieu com o “Ai se eu te pego”. Preferi guardar silêncio, mantendo-me distante dos fatos e reações, em espera de calmaria das opiniões mais apaixonadas. Além disso, eu precisava olhar o fenômeno de perto. Li quase tudo o que foi escrito e, em final de semana prolongado onde milhares de pessoas migraram para fora de SP, uni-me a outros milhares com outro destino: o Ginásio do Ibirapuera.
O show – com direito a chuva de bexigas e até neve artificial – interage e provoca. Em poucos minutos, em ressonância com o palco, a multidão aplaude, dança, fotografa como ator coadjuvante do evento. O próprio local – um ginásio – revela qual é a proposta que, longe de ser um concerto, não é nem melhor ou pior que este. É diferente. Desde My Way ou Hava Nagila até pot-pourri adaptado de Mozart, passando por diversas valsas de Strauss, a proposta musical é puro entretenimento. É lazer bem sucedido. E a prova disso é o rio de gente que diariamente aflui ao espetáculo. Viva a liberdade. Mesmo que em outra vertente, igualmente, não há como negar o enorme sucesso e apelo que a música sertaneja tem exercido em milhares de pessoas. Pessoalmente não me interesso nada por ela, mas contra fatos não há argumentos.
Há envolvido, sem dúvida, um problema de valor cultural. Até mesmo dentro do âmbito da música de concerto as opiniões divergem. A matéria de João Luiz Sampaio (leia aqui), publicada quando da chegada da trupe ao Brasil, é a ponta do iceberg desta divergência também comprovada em diversas conversas que travei com a classe erudita. Há outro problema, de natureza mais grave: o de nível cultural. O batuque “Ai se eu te pego”, que é um dos símbolos atuais da música brasileira, não responsabiliza o músico holandês sobre nossa pobreza cultural. Rieu nem pretende consertar esse problema, que não é de sua responsabilidade. Acredito que ele nem tenha como finalidade transformar seu ouvinte em ouvinte “legítimo” de Tchaikovsky, Ravel ou quem quer que seja. Ele quer divertir as pessoas, deixá-las felizes e, falando claro, ser bem remunerado. E quem não quer? E quem me garante que ele não possa estar causando algum tipo de interesse maior pela música de concerto? Como testemunho, confesso que foi ouvindo um LP do maestro argentino Waldo de los Rios (uma espécie de Rieu dos anos 70) que, entre outros, senti-me cativado ao mundo da música de concerto. E comecei, então, a ouvir os originais. Que bom seria se uma parcela, mesmo que pequena, fizesse o mesmo, pois no âmbito da música de concerto os originais são sempre mais interessantes que adaptações. Mas o desejo de crescer culturalmente é uma decisão pessoal. Que bom seria se preguicites diante da TV se transformassem em leitura de bons livros. Que diferença se perdas de tempo na internet dessem passagem a um sério empenho de qualificação profissional. Que maravilha se batuques abrissem espaço à música de enriquecimento. Cuidado: o problema não está no batuque. O problema está em somente se ouvir batuque ou dar-lhe a importância que não merece. É aí que mora o perigo. E esse desafio é pessoal. Acredito que os problemas de uma sociedade não passam de uma projeção ampliada dos problemas pessoais que cada um, diariamente, trava dentro de si. Se você, leitor, e eu nos decidirmos a deixarmos de ser pilantras, tenha essa certeza, serão dois pilantras a menos no mundo. Quem sabe, com decisões de melhoria cultural, algum dia, até mesmo a mulher brasileira deixe de ser vista, como infelizmente ocorre hoje, como a mulata semi-nua que sabe rebolar. Foi assim que a projetamos no ano do Brasil na França.
O Ginásio do Ibirapuera
Surpreendeu-me também a confusão gerada pela mídia, e faço aqui um mea culpa, onde jornalistas da área cultural classificam o show como concerto. Manchetes do estilo – “Rieu mostra em SP por que é popstar da música erudita”, “André Rieu, um novo Beethoven?” (confesso que nesta segunda cheguei a gargalhar), entre outras – causam um dano real. Verifiquei isso em diversas publicações e revistas a que tive acesso. Isso confunde. E depois, quando a grande massa desinformada diz que vai a um “concerto” de André Rieu, acaba sendo criticada pela mesma imprensa. Agora sou eu quem pergunta: Como é que pode? No Ibirapuera, a sensível interpretação da canção Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá, emocionou muita gente. Eu me incluo. Mas não se pode confundir xícara com chácara.
O efeito dominó da confusão é tal que há quem, inclusive, queira questionar a licitude da atividade desenvolvida por Rieu. Isso é complicado. Outros, mais ousados em suas estripulias mentais, comparam o músico holandês ao pianista chinês Lang-Lang colocando tudo no mesmo saco, afinal de contas os dois estariam usurpando a cultura como forma de autopromoção. Isso é mais complicado. E a saraivada é interminável: os ingressos são caros demais (você já os comparou aos bilhetes de uma boa partida de futebol?), o repertório é batido, a vestimenta da orquestra é despropositada, etc. Enfim, a lista é interminável. E as críticas também, afinal de contas ela faz parte da nossa natureza humana, onde falar mal e julgar traz ibope e “prestígio” (será?). Mas Rieu parece não estar nem um pouco preocupado com isso. Como profissional empreendedor e empresário experiente, o seu sucesso fala por si. E não há como negá-lo. Enquanto meia dúzia de pessoas dedica-se a explicar os motivos do desagrado provocado por sua música, outros milhares o aplaudem. Não estou defendendo Rieu e não assistiria a seus shows como única forma de lazer ou descanso. Aprendi a descansar nos originais das obras, sempre mais interessantes e enriquecedores. Além disso, mais importante que a crítica é a autocrítica. E neste espaço democrático lembro-me da figura de Pilatos que, antes de seu ato de covardia, teve um rompante de honestidade ao questionar: “O que é a verdade?”
Abaixo uma homenagem ao maestro Waldo de los Rios, falecido em 1977, e o registro efusivo do exigente público londrino que, abarrotando o célebre Royal Albert Hall, recebeu Rieu em entusiasmada execução do Hava Nagila. Bom lazer!
A passagem da OSB pela Sala São Paulo na tarde de ontem causou excelente impressão. O experiente maestro Semyon Bychkov – que já regeu as Filarmônicas de NY, Viena e Berlim, Concertgebouw de Amsterdã e foi titular da WDR de Colônia por mais de uma década – mostrou o que de melhor pode ser encontrado nas duas sinfonias que compuseram o programa: a Sinfonia em si menor, D.759, a “Inacabada” de Schubert, e a célebre Sinfonia n.5 em dó sustenido menor, de Mahler. A performance da OSB salientou e explorou, de modo contundente, o abismo anímico existente entre as duas obras, desde a entrada soturna e cálida da obra de Schubert, com direito à sublime exposição temática realizada em pianíssimo pelos cellos e contrabaixos, até a explosão esquizofrênica realizada pelo trompete já na abertura da sinfonia de Mahler (Trauermarsch – Marcha Fúnebre), magistralmente conduzido ao limite do insano no terceiro movimento da obra (Scherzo). Os laivos de histeria no Allegro central do segundo movimento deixaram por alguns minutos a platéia em suspenso. Tudo coeso. Era uma história com começo, meio e fim que estava sendo contada a todos os presentes.
Victor Hugo afirmou certa vez que a música expressa tudo aquilo que as palavras não conseguem exprimir e que não pode deixar de ser dito. Pois bem, a OSB ontem, com sua execução segura, afirmava a todos o que é que, neste momento, vale a pena: olhar para frente! Passado é passado. Apesar de ainda não serem poucas as interrogações que pairam sobre o grupo sinfônico, a OSB contou muitos de seus segredos, quase todos, nos 95 minutos de música que fabricou. Não sei dizer o motivo, mas durante a execução de Mahler, via na postura de cada músico uma clara tentativa de contar um pouco mais sobre os embates ao qual, em um passado não tão longínquo, o grupo sinfônico se submeteu. E era dentro deste contexto que eu buscava ouvir o que ainda não havia sido dito.
Dentro desta nova fase, chamou-me a atenção a nova linguagem visual da OSB em suas peças gráficas. Em tributo aos 90 anos do Modernismo, celebrados em 2012, tomei conhecimento (Bold Design) que três estão sendo os artistas homenageados: Burle Marx (responsável pela identidade paisagística da cidade do RJ), Paulo Mendes da Rocha (arquiteto e urbanista paulistano) e Athos Bulcão (colaborou com Niemeyer e Lucio Costa na construção de Brasília), referenciando as três cidades onde a OSB desenvolve sua temporada em 2012.
Em assuntos opináveis, como afirmou Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra. É muito boa a diversidade da vida humana que desemboca, necessariamente, em divergências de opiniões. O contrário é lavagem cerebral. E o valor do ser humano mede-se, em grande parte, por sua abertura e respeito ao que é alheio.
Lang Lang, com seu approach musical revolucionário, provoca celeuma, quebra paradigmas do politicamente (musicalmente) correto e cria uma legião de contestatários. Mas inova. Já o taxaram de produto comercial, descontrolado musical, manifestaram-lhe ojeriza e, curiosamente, o crescimento de sua popularidade somente acirra os ânimos daqueles que não lhe devotam afeição. Tudo meio inconsciente (ou não), mas real. No último concerto de Lang Lang em São Paulo, deparei-me com alguns desses contestatários que, mesmo antes do início do espetáculo, já manifestavam comentários dúbios e irônicos. Foi neste momento que transformei-me em tábua rasa, aberto ao que viesse. Como pianista que já havia trabalhado extensamente no repertório a ser interpretado, decidi simplesmente ouvir, esquecendo tudo e todos.
Com uma técnica colossal, Lang Lang decidiu fazer um passeio pegando pela mão cada um dos presentes ao mesmo tempo que jogava luz em inúmeras vozes melódicas internas da obra. Tudo estava ali, renovado, com clareza meridiana. Seu Bach – com contrastes dinâmicos recheados de pianíssimos e sutilezas sonoras – meio que me derrubaram naqueles momentos iniciais. A Giga final, interpretada com leveza e enfoque dançante, funcionou como um arauto ao que ainda estava por vir.
A Sonata n.23, em si bemol maior D.960, de Schubert, composta em 1828, é considerada um verdadeiro capolavoro, um dos grandes trabalhos para piano do autor. A leitura era de dor, de uma dor serena, com direito a rompantes de revolta, refletindo a simbiose de quem já prevê seu fim próximo (Schubert faleceu meses depois, aos 31 anos) e que, ao mesmo tempo, sente o desprezo de verificar que suas obras são negligenciadas por serem consideradas, dramática e estruturalmente, inferiores às sonatas de Beethoven. Mas o andamento do tema principal, no primeiro movimento, e o Andante Sostenuto poderiam ter sido mais fluidos: a opção por andamentos mais lentos unido a uma suavidade incomum de toque, quando extensamente prolongados, provocam a perda da contextualização estrutural da obra e possível desinteresse do ouvinte, principalmente do ouvido despreparado.
Os Estudos Op.25 de Chopin arrebataram a platéia. Não me refiro a estripulias cênicas, refiro-me a música de altíssima voltagem. Tive a oportunidade de conhecer dezenas de interpretações desses Estudos, por diversos pianistas, ao vivo e em longas sessões em minha discoteca. O que vi marcou. Como toda obra de estilo romântico dá ao intérprete maior liberdade de ação, em alguns momentos Lang Lang tomava a liberdade de levemente alterar a partitura – um andamento Vivace transformado em Moderato (Estudo n.5), pausas inexistentes e notas dobradas que ganham vida (Estudo n.9), pianíssimos isolados transformados em fortíssimos (Estudo n.1) – como quem propunha uma leitura inovadora da obra. Via claramente que o sinal vermelho estava, em alguns momentos, sendo atravessado. Mas a resolução musical da nova proposta se fechava. E convencia. Especial atenção à avalanche de notas magistralmente acionadas nos Estudos n.3, n.4, n.6, n.10, n.11 e n.12. Ao meu lado observava pessoas emocionadas. Lágrimas. Não era farsa. Ao final do recital eu mesmo, em reação incontida, me encontrava de pé.
Decepcionante foi a platéia. Um grupo de, aproximadamente, 50 retardatários entraram na Sala São Paulo após a finalização da primeira obra, a Partita n.1, de Bach. Até aí tudo bem. O pianista, em silêncio, aguardava o silêncio para o início da sonata de Schubert. Foi aí que apareceu, com total falta de semancol, um dos senhores que, melhor teria sido se estivesse vestido de pavão, foi até sua cadeira reservada, a poucos metros do pianista, e pediu para que toda a fila se levantasse para se sentar, mesmo havendo outras cadeiras vazias em locais mais distantes. Foi um constrangimento só. O detalhe é que, antes de se sentar, o dito cujo fez questão de observar, de modo calmo e solene, toda a sala (inclusive olhando para trás) que, lotada, sentia vergonha alheia. Eu senti. Una-se ao fato a chuva de tosses e pigarros enrustidos. Cheguei a pensar que meu ingresso mais valia para uma sinfonia para pulmão e garganta, com fundo musical de piano. Para não faltar a percussão na nova obra criada por pulmões, veio a percussão: uma pilha de papéis caiu ao chão. Falo sério. Era evidente o despreparo de muitos dos presentes que, desnecessário dizer, comprometeu muitas das sutilezas sonoras do recital. Celulares? Ao me lado dispararam sete! A produção do evento, em tentativa elegante de controle segundos antes do início da segunda parte, com a luz de cena já acionada, fez novamente soar a mensagem gravada para que os presentes desligassem seus celulares. Mas muitos, de pé, ainda batiam papo quando Lang Lang entrou.
Ao término do recital muitos saíram da sala, às pressas, como quem tira o pai da forca. Já tinham visto o brinquedinho chinês e agora podiam ir embora. Ainda bem. Foi então que, com uma Sala São Paulo pela metade – esse deveria ter sido o verdadeiro público presente desde o início -, Lang Lang deu seu karatê final presenteando os que ali estávamos com um Liszt impecável, incluindo uma vertiginosa versão de La Campanella.
E tenho dito.
A passagem da Orchestre National du Capitole de Toulouse pela capital paulistana deixou rastro. E profundo. São como esses sustos que nos alertam a preparar decisões de melhoria ou mudança. As duas apresentações da orquestra (15 e 16 de maio), com repertórios intencionalmente diversificados, ratificaram a intenção do grupo em mostrar sua excelência em planícies musicais tão diversas como Berlioz, Ravel, Liszt e Mussorgsky. O repertório francês da apresentação do dia 15 transformou-se, ontem, em manancial cristalino de música eslava. Era música jorrando por todos os lados. E a platéia, encharcada, acompanhava hipnotizada cada compasso da execução. Não exagero. Fraseado perfeito, ataques precisos e unidade sonora raramente presenciados. Os músicos todos se divertiam enquanto faziam música. Violinistas das últimas fileiras do naipe se jogavam em seus instrumentos como se fosse a última vez. Tudo isso sob o comando seguro, preciso e altamente musical de Sokhiev (foto acima). Era como se a Sociedade de Cultura Artística relembrasse a todos os presentes que, de fato, estamos em ano de centenário.
O pianista Bertrand Chamayou (abaixo), solista convidado das duas apresentações, consciente ou não do fato, tinha diante de si o fantasma Argerich. Explico melhor. O imaginário coletivo, apoiado na perfeição e energia com que o fenômeno Martha Argerich fagocita os dois concertos interpretados pelo solista oriundo de Toulouse – o Concerto de Ravel e o Concerto n.1 de Liszt – fez com que, de alguma forma, essas obras se transformassem quase em propriedade da pianista argentina. Durante a apresentação de ontem, enquanto Chamayou assombrava os presentes, tive a clara impressão de que o reinado Argerich não deveria ser absoluto. Em realidade, somente a música deve ser absoluta. O entrosamento musical entre regente e solista chamava a atenção: quase um uníssono. Quando a orquestra, ao final de sua apresentação, soava os últimos acordes de A Grande Porta de Kiev, a platéia alvoroçada se colocava unanimemente de pé. Mesmo com o impecável e sensível Liszt que Chamayou ofereceu como bis, a orquestra brindou os presentes em dose dupla, como que pavimentando as propostas musicais de suas duas apresentações: a Abertura da ópera Carmen, do compositor francês Bizet, e a Dança Russa, da Suíte Quebra-Nozes, do russo Tchaikovsky.
Após o concerto, travei longa conversa com o solista e maestro. Tudo muito amistável. Éramos músicos conversando sobre tudo: sobre a sala de concertos, sobre as dificuldades técnicas de execução, sobre carreira. Enquanto a conversa discorria, em meio a risadas e conteúdos mais profundos, percebi que estava diante de verdadeiros artistas, daqueles que vale a pena conhecer: gente simples, com clara consciência e conhecimento de serem meramente um instrumento. Refiro-me a conhecimento prático, não teórico. Gente. Gente a serviço. Auto-promoção virou coisa do passado. Sokhiev, que agora se prepara para assumir a Sinfônica de Berlim, quando indagado sobre suas percepções a respeito do público paulistano, não pensou duas vezes ao responder: que público caloroso! Chamayou, mesmo desconhecendo o que Sokhiev havia dito, mas novamente em uníssono, afirmou o mesmo.
E esse calor era resposta ao que o público havia recebido.
Era tal o domínio e conhecimento que Beethoven possuía sobre Mozart que, em muitas de suas composições, o próprio Beethoven afirmava não saber se em suas obras estava criando algo novo ou plagiando o músico austríaco. O grande desejo de Beethoven era o de ser aluno de Mozart.
A relação entre os dois músicos vai além do meramente musical. Max Franz, irmão mais novo do imperador José II e de Maria Antonieta, filhos da imperatriz Maria Teresa, era um apaixonado por música e por Mozart, em quem pretendia investir sólido patrocínio. Mas a Mozart não lhe interessou o posto de mestre capela de Bonn. A negativa de Mozart foi o provável motivo que o fez investir em um talento local: Beethoven. E com este apoio, então com 16 anos, o jovem Beethoven fez sua primeira viagem a Viena onde, após assistir uma apresentação de Mozart afirmou: “Mozart toca bem, mas muito picado, sem legato“. Essa afirmação foi-nos transmitida através de Czerny, aluno de Beethoven.
Esse embasamento histórico vai ao encontro das declarações do pianista Nelson Freire, como atesta João Luiz Sampaio, em recente entrevista publicada no Estado (leia íntegra). O concerto n.20 para piano, de Mozart, interpretado por Freire, era um dos concertos preferidos de Beethoven. “Não é por acaso, Beethoven já está ali nessa obra, ainda que de forma embrionária”, afirmou o pianista. Pois bem, Freire interpretou Mozart com a visão beethoveniana, dando à performance um caráter mais romântico, com a utilização de rubatos , pedal generoso e legatos. O rondo final recebeu do pianista accelerandos assumidos em algumas retomadas de tema. E Freire assumiu esta responsabilidade. O primeiro contato com esse concerto de Mozart, declarou Freire, foi na juventude, em uma apresentação da pianista Guiomar Novaes, de quem é fã declarado.
A platéia, que lotava a Sala São Paulo, em delírio, aplaudia o pianista. Vê-se que Freire está acima do bem e do mal. Tem carisma musical. Ao final, como uma dedada de mel aos presentes e agradecimento à pianista Guiomar Novaes, veio o inevitável: o seu Gluck-Sgambatti.
E Mozart e Beethoven, juntos, tornaram-se mais próximos do que nunca.
A récita de O Morcego, opereta que encerra a programação do Theatro Municipal de São Paulo, mostrou qual o porquê de estar com seus ingressos esgotados. Além de sólida presença cênica e lírica dos artistas envolvidos, une-se a conexão com o público criada pela adequação do seu conteúdo ao contexto dos dias atuais, tanto pela tradução adaptada ao português como pela utilização de cenários e figurinos modernos. Sem dúvida, pontos positivos para o diretor William Pereira. A tentativa de apoiar o caráter cômico da obra em excessivas ironias, em liberdades excessivas de contextualização ou até mesmo em sexualidade barata – preservativos, lingeries, danças do mastro, entre outros, em destaque especial – acabaram em alguns momentos criando certo desconforto, ou até mesmo neutralizando o humor espontâneo que a própria obra já possui. Mas talvez, essa fosse exatamente a proposta: uma crítica à real sociedade atual, banalizada em matérias que merecem maior importância e respeito. Tudo muito sutil. Sem dúvida, uma contraproposta à Viena do século 19.
A Orquestra Sinfônica Municipal, sob a experiente regência de Abel Rocha, em plena forma, quase dividindo o palco com os personagens, assumiu em muitos momentos o protagonismo, transmitindo aos presentes a viva impressão de que, quando se sabe o que se faz, o fosso é mera geografia. O esmero de sonoridade, as dinâmicas criadoras de novos ânimos aos diferentes momentos da estória e, acima de tudo, a segurança transmitida por Abel Rocha, explicaram o caloroso e merecido aplauso recebido.
Já no primeiro ato, Edna D’Oliveira (Adele) revelou seu lado cômico incomum, unido à sua marcante presença cênica e lírica. Em conjunto com as igualmente marcantes presenças de Rosana Lamosa (Rosalinde) e Fernando Portari (Eisenstein), conseguiram deixar o público inquieto e expectante para o segundo ato. Destaque também especial para Rubens Medina, no papel de Alfred. É também no segundo ato que Rosana Lamosa mostra porque hoje é considerada uma das grandes cantoras líricas da atualidade, em sua magistral interpretação da célebre czarda húngara, em timbre sonoro aveludado. Sem dúvida, um dos pontos altos da récita. Fernando Portari, com sua voz segura, atua como perfeito fio condutor da trama. Leonardo Neiva (Falke) e Regina Elena Mesquita (príncipe Orlofsky), experientes, deram ao espetáculo o sabor que a estória exigia. A utilização de diversos musicais durante o segundo ato – inclusive a figura do samba brasileiro – trouxeram à festa do príncipe Orlofsky aquela pitada cômica extra que cativou o grande público.
Quando a récita se encerrou, público e elenco estavam de mãos dadas. Que venha 2012 com outros presentes – agora que se aproxima o Natal – como esse!
A passagem de Yuja Wang por São Paulo merece dois adjetivos: estarrecedora, inesquecível. Dona de uma técnica precisa, limpa, a pianista encantou. Jogou pó de pirilim-pim-pim na platéia e hipnotizou a Sala SP. Sua arte emudeceu os detentores do conhecimento do bem e do mal. Um momento memorável. Sem dúvida, a nova diva do piano mundial. A avalanche artística, que dava direito a cascatas de notas jorradas do piano em velocidade estonteante, encontrou no público, infelizmente, uma atitude inesperada.
Como de costume, nos avisos dados antes do início dos concertos, uma gravação pedia a todos os presentes que desligassem seus celulares. Em seu recital de despedida de terras brasileiras, o público preferiu desobedecer ao pedido. E foi deselegante. Após apresentar-se por três dias consecutivos interpretando o colossal Concerto n.3 para piano e orquestra de Prokofiev, até por respeito, o público deveria ter sido mais educado. Na primeira parte do programa, por quatro vezes, celulares dispararam, furiosamente, com toques de chamada em estilo cavalaria. Parecia proposital. Como não poderia ser diferente, a pianista se desconcentrou. E eu me questionava: “será que as pessoas não ouviram o pedido realizado pela sala?”
De minha poltrona, a distração também começou tomar contar de mim. Muitos dos presentes preferiram deixar seus aparelhos no modo silencioso. Na primeira fileira via-se um senhor enviando torpedos. Uma senhora ao meu lado checava seu facebook. Durante a execução dos Etude-Tableaux Op.39, de Rachmaninov, o festival de tosse tomou conta. Houve momentos em que as pessoas começaram a se entreolhar perplexas: não acreditavam muito no que estava ocorrendo. Foi aí que comecei a me convencer de que, talvez, tudo fosse proposital mesmo. Somente espero que, baseado no preparo e educação que verifiquei em alguns dos presentes, eles não tenham pensado que as tosses fizessem parte da obra… Imaginem vocês se, no momento 2:32 do vídeo acima, um festival de tosses ou um celular começasse a disparar… Pois bem, foi exatamente isso o que ocorreu. E a pianista fechou o programa precisamente com essa obra.
Início da segunda parte. Um novo aviso é gentilmente veiculado na sala, pedindo aos presentes que encarecidamente desliguem seus celulares. Desta vez, o pedido também fez referência aos celulares que estavam no modo silencioso. De fato, a luz emitida pelos diversos aparelhos comprometia a penumbra da sala… Foi um aviso claro. Segundos antes de iniciar o último movimento da Sonata n.6 de Prokofiev (assista ao vídeo acima), Yuja Wang colocou-se em posição de ataque: seria a finalização da catarse grega daquela inesquecível tarde. É nesse momento que, agora na fileira anterior à minha, o celular de uma senhora dispara dentro de sua bolsa. Dopada, ou distraída, ou as duas coisas ao mesmo tempo, não sei, ela não tomava providência alguma. Seu olhar estava fixo no teto da sala, como se aquilo não fosse com ela, como se o aparelho não fosse dela. A pianista aguardou. Diversos segundos depois o celular foi desligado. Foi aí que Wang se reconcentrou para interpretar uma das páginas mais ousadas do repertório. Durante a execução, os parentes da distraída senhora a recriminavam, com cochichos intermináveis. Que lástima! Enquanto isso, à minha direita, outra senhora ajeitava sua echarpe de peles enquanto admirava o anel de brilhantes que usava.
O recital acabou. A artista foi ovacionada. Enquanto aplausos intermináveis pediam mais música – entre outras obras Wang se entregou à Toccata, de Prokofiev, de modo sobrenatural – diversas pessoas se retiravam da sala, sem nenhum tipo de escrúpulo. Senti vergonha alheia.
Quando voltava para minha casa tomei consciência de que tudo aquilo que havia ocorrido não era maldade humana. Era despreparo. O homem moderno perdeu a capacidade de ouvir, de abrir-se ao outro, de sair de si mesmo em busca de tudo aquilo que não é ele mesmo.
A música de concerto é música, como qualquer outra. Tem qualidade. Tem muita qualidade. O que a diferencia dos outros gêneros é a forma de escuta: pede silêncio, atenção. E é daí que vem o enriquecimento pessoal. Fica a lição.
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