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Alvaro Siviero

A passagem da Orchestre National du Capitole de Toulouse pela capital paulistana deixou rastro. E profundo. São como esses sustos que nos alertam a preparar decisões de melhoria ou mudança. As duas apresentações da orquestra (15 e 16 de maio), com repertórios intencionalmente diversificados, ratificaram a intenção do grupo em mostrar sua excelência em planícies musicais tão diversas como Berlioz, Ravel, Liszt e Mussorgsky. O repertório francês da apresentação do dia 15 transformou-se, ontem, em manancial cristalino de música eslava. Era música jorrando por todos os lados. E a platéia, encharcada, acompanhava hipnotizada cada compasso da execução. Não exagero. Fraseado perfeito, ataques precisos e unidade sonora raramente presenciados. Os músicos todos se divertiam enquanto faziam música. Violinistas das últimas fileiras do naipe se jogavam em seus instrumentos como se fosse a última vez. Tudo isso sob o comando seguro, preciso e altamente musical de Sokhiev (foto acima). Era como se a Sociedade de Cultura Artística relembrasse a todos os presentes que, de fato, estamos em ano de centenário.

O pianista Bertrand Chamayou (abaixo), solista convidado das duas apresentações, consciente ou não do fato, tinha diante de si o fantasma Argerich. Explico melhor. O imaginário coletivo, apoiado na perfeição e energia com que o fenômeno Martha Argerich fagocita os dois concertos interpretados pelo solista oriundo de Toulouse – o Concerto de Ravel e o Concerto n.1 de Liszt – fez com que, de alguma forma, essas obras se transformassem quase em propriedade da pianista argentina. Durante a apresentação de ontem, enquanto Chamayou assombrava os presentes, tive a clara impressão de que o reinado Argerich não deveria ser absoluto. Em realidade, somente a música deve ser absoluta. O entrosamento musical entre regente e solista chamava a atenção: quase um uníssono. Quando a orquestra, ao final de sua apresentação, soava os últimos acordes de A Grande Porta de Kiev, a platéia alvoroçada se colocava unanimemente de pé. Mesmo com o impecável e sensível Liszt que Chamayou ofereceu como bis, a orquestra brindou os presentes em dose dupla, como que pavimentando as propostas musicais de suas duas apresentações: a Abertura da ópera Carmen, do compositor francês Bizet, e a Dança Russa, da Suíte Quebra-Nozes, do russo Tchaikovsky.

Após o concerto, travei longa conversa com o solista e maestro. Tudo muito amistável. Éramos músicos conversando sobre tudo: sobre a sala de concertos, sobre as dificuldades técnicas de execução, sobre carreira. Enquanto a conversa discorria, em meio a risadas e conteúdos mais profundos, percebi que estava diante de verdadeiros artistas, daqueles que vale a pena conhecer: gente simples, com clara consciência e conhecimento de serem meramente um instrumento. Refiro-me a conhecimento prático, não teórico. Gente. Gente a serviço. Auto-promoção virou coisa do passado. Sokhiev, que agora se prepara para assumir a Sinfônica de Berlim, quando indagado sobre suas percepções a respeito do público paulistano, não pensou duas vezes ao responder: que público caloroso! Chamayou, mesmo desconhecendo o que Sokhiev havia dito, mas novamente em uníssono, afirmou o mesmo.

E esse calor era resposta ao que o público havia recebido.

 

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Era tal o domínio e conhecimento que Beethoven possuía sobre Mozart que, em muitas de suas composições, o próprio Beethoven afirmava não saber se em suas obras estava criando algo novo ou plagiando o músico austríaco. O grande desejo de Beethoven era o de ser aluno de Mozart.

A relação entre os dois músicos vai além do meramente musical. Max Franz, irmão mais novo do imperador José II e de Maria Antonieta,  filhos da imperatriz Maria Teresa, era um apaixonado por música e por Mozart, em quem pretendia investir sólido patrocínio. Mas a Mozart não lhe interessou o posto de mestre capela de Bonn. A negativa de Mozart foi o provável motivo que o fez investir em um talento local: Beethoven. E com este apoio,  então com 16 anos, o jovem Beethoven fez sua primeira viagem a Viena onde, após assistir uma apresentação de Mozart afirmou: “Mozart toca bem, mas muito picado, sem legato“. Essa afirmação foi-nos transmitida através de Czerny, aluno de Beethoven.

Esse embasamento histórico vai ao encontro das declarações do pianista Nelson Freire, como atesta João Luiz Sampaio, em recente entrevista publicada no Estado (leia íntegra). O concerto n.20 para piano, de Mozart, interpretado por Freire, era um dos concertos preferidos de Beethoven. “Não é por acaso, Beethoven já está ali nessa obra, ainda que de forma embrionária”, afirmou o pianista. Pois bem, Freire interpretou Mozart com a visão beethoveniana, dando à performance um caráter mais romântico, com a utilização de rubatos , pedal generoso e legatos. O rondo final recebeu do pianista accelerandos assumidos em algumas retomadas de tema. E Freire assumiu esta responsabilidade. O primeiro contato com esse concerto de Mozart, declarou Freire, foi na juventude, em uma apresentação da pianista Guiomar Novaes, de quem é fã declarado.

A platéia, que lotava a Sala São Paulo, em delírio, aplaudia o pianista. Vê-se que Freire está acima do bem e do mal. Tem carisma musical. Ao final, como uma dedada de mel aos presentes e agradecimento à pianista Guiomar Novaes, veio o inevitável: o seu Gluck-Sgambatti.

E Mozart e Beethoven, juntos, tornaram-se mais próximos do que nunca.

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A récita de O Morcego, opereta que encerra a programação do Theatro Municipal de São Paulo, mostrou qual o porquê de estar com seus ingressos esgotados. Além de sólida presença cênica e lírica dos artistas envolvidos, une-se a conexão com o público criada pela adequação do seu conteúdo ao contexto dos dias atuais, tanto pela tradução adaptada ao português como pela utilização de cenários e figurinos modernos. Sem dúvida, pontos positivos para o diretor William Pereira. A tentativa de apoiar o caráter cômico da obra em excessivas ironias, em liberdades excessivas de contextualização ou até mesmo em sexualidade barata – preservativos, lingeries, danças do mastro, entre outros, em destaque especial – acabaram  em alguns momentos criando certo desconforto, ou até mesmo neutralizando o humor espontâneo que a própria obra já possui. Mas talvez, essa fosse exatamente a proposta: uma crítica à real sociedade atual, banalizada em matérias que merecem maior importância e respeito. Tudo muito sutil. Sem dúvida, uma contraproposta à Viena do século 19.

A Orquestra Sinfônica Municipal, sob a experiente regência de Abel Rocha, em plena forma, quase dividindo o palco com os personagens, assumiu em muitos momentos o protagonismo, transmitindo aos presentes a viva impressão de que, quando se sabe o que se faz, o fosso é mera geografia. O esmero de sonoridade, as dinâmicas criadoras de novos ânimos aos diferentes momentos da estória e, acima de tudo, a segurança transmitida por Abel Rocha, explicaram o caloroso e merecido aplauso recebido.

Já no primeiro ato, Edna D’Oliveira (Adele) revelou seu lado cômico incomum, unido à sua marcante presença cênica e lírica. Em conjunto com as igualmente marcantes presenças de Rosana Lamosa (Rosalinde) e Fernando Portari (Eisenstein), conseguiram deixar o público inquieto e expectante para o segundo ato. Destaque também especial para Rubens Medina, no papel de Alfred. É também no segundo ato que Rosana Lamosa mostra porque hoje é considerada uma das grandes cantoras líricas da atualidade, em sua magistral interpretação da célebre czarda húngara, em timbre sonoro aveludado. Sem dúvida, um dos pontos altos da récita. Fernando Portari, com sua voz segura, atua como perfeito fio condutor da trama. Leonardo Neiva (Falke) e Regina Elena Mesquita (príncipe Orlofsky), experientes, deram ao espetáculo o sabor que a estória exigia. A utilização de diversos musicais durante o segundo ato – inclusive a figura do samba brasileiro – trouxeram à festa do príncipe Orlofsky aquela pitada cômica extra que cativou o grande público.

Quando a récita se encerrou, público e elenco estavam de mãos dadas. Que venha 2012 com outros presentes – agora que se aproxima o Natal – como esse!

                                              

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A passagem de Yuja Wang por São Paulo merece dois adjetivos: estarrecedora, inesquecível. Dona de uma técnica precisa, limpa, a pianista encantou. Jogou pó de pirilim-pim-pim na platéia e hipnotizou a Sala SP. Sua arte emudeceu os detentores do conhecimento do bem e do mal. Um momento memorável.  Sem dúvida, a nova diva do piano mundial. A avalanche artística, que dava direito a cascatas de notas jorradas do piano em velocidade estonteante, encontrou no público, infelizmente, uma atitude inesperada.

Como de costume, nos avisos dados antes do início dos concertos, uma gravação pedia a todos os presentes que desligassem seus celulares.  Em seu recital de despedida de terras brasileiras, o público preferiu desobedecer ao pedido. E foi deselegante. Após apresentar-se por três dias consecutivos interpretando o colossal Concerto n.3 para piano e orquestra de Prokofiev, até por respeito, o público deveria ter sido mais educado. Na primeira parte do programa, por quatro vezes, celulares dispararam, furiosamente, com toques de chamada em estilo cavalaria. Parecia proposital. Como não poderia ser diferente, a pianista se desconcentrou. E eu me questionava: “será que as pessoas não ouviram o pedido realizado pela sala?”

De minha poltrona, a distração também começou tomar contar de mim. Muitos dos presentes preferiram deixar seus aparelhos no modo silencioso. Na primeira fileira via-se um senhor enviando torpedos. Uma senhora ao meu lado checava seu facebook. Durante a execução dos Etude-Tableaux Op.39, de Rachmaninov, o festival de tosse tomou conta. Houve momentos em que as pessoas começaram a se entreolhar perplexas: não acreditavam muito no que estava ocorrendo. Foi aí que comecei a me convencer de que, talvez, tudo fosse proposital mesmo. Somente espero que, baseado no preparo e educação que verifiquei em alguns dos presentes, eles não tenham pensado que as tosses fizessem parte da obra…  Imaginem vocês se, no momento 2:32 do vídeo acima, um festival de tosses ou um celular começasse a disparar… Pois bem, foi exatamente isso o que ocorreu. E a pianista fechou o programa precisamente com essa obra.

Início da segunda parte. Um novo aviso é gentilmente veiculado na sala, pedindo aos presentes que encarecidamente desliguem seus celulares. Desta vez, o pedido também fez referência aos celulares que estavam no modo silencioso. De fato, a luz emitida pelos diversos aparelhos comprometia a penumbra da sala… Foi um aviso claro. Segundos antes de iniciar o último movimento da Sonata n.6 de Prokofiev (assista ao vídeo acima), Yuja Wang colocou-se em posição de ataque: seria a finalização da catarse grega daquela inesquecível tarde. É nesse momento que, agora na fileira anterior à minha, o celular de uma senhora dispara dentro de sua bolsa. Dopada, ou distraída, ou as duas coisas ao mesmo tempo, não sei, ela não tomava providência alguma. Seu olhar estava fixo no teto da sala, como se aquilo não fosse com ela, como se o aparelho não fosse dela. A pianista aguardou. Diversos segundos depois o celular foi desligado. Foi aí que Wang se reconcentrou para interpretar uma das páginas mais ousadas do repertório.  Durante a execução, os parentes da distraída senhora a recriminavam, com cochichos intermináveis. Que lástima! Enquanto isso, à minha direita, outra senhora ajeitava sua echarpe de peles enquanto admirava o anel de brilhantes que usava.

O recital acabou. A artista foi ovacionada. Enquanto aplausos intermináveis pediam mais música – entre outras obras Wang se entregou à Toccata, de Prokofiev, de modo sobrenatural – diversas pessoas se retiravam da sala, sem nenhum tipo de escrúpulo. Senti vergonha alheia.

Quando voltava para minha casa tomei consciência de que tudo aquilo que havia ocorrido não era maldade humana. Era despreparo. O homem moderno perdeu a capacidade de ouvir, de abrir-se ao outro, de sair de si mesmo em busca de tudo aquilo que não é ele mesmo.

A música de concerto é música, como qualquer outra. Tem qualidade. Tem muita qualidade. O que a diferencia dos outros gêneros é a forma de escuta: pede silêncio, atenção. E é daí que vem o enriquecimento pessoal. Fica a lição.

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  • Quem faz

    Alvaro Siviero é pianista, especializado em Educação Multicultural pelo Lesley College e graduado em Física pela USP.

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  • Thais: Pena que não vieram a Curitiba…..estamos ansiosos por grandes apresentações !!!
  • Fernando Barra: Essa afirmação de que o custo era de 80 e passou a 500 é mentirosa apesar de tecnicamente certa....
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  • Alvaro Siviero: Dora, boa música é como furacão: por onde passa arrasta! Não largue nunca o piano: é verdadeiro...

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