Conheci Gilberto Tinetti nos meus tempos de USP. Desconhecia, então, o fato comum de que ambos havíamos migrado para a música após dedicarmos anos de estudo em outro campo do conhecimento. Mas isso também é música. Multifacética. A prontidão e altruísmo deste grande mestre logo o fizeram, mesmo tudo tão breve, a querer também me orientar no que hoje é minha vida profissional: o piano. Todas as pessoas – e o que surpreende é a unanimidade – referem-se a ele com enorme respeito e gratidão.
Observo um desejo desenfreado de tantas celebridades de se eternizarem gravando seus nomes em placas comemorativas, em homenagens ou até mesmo em uma calçada, como a da fama, em Hollywood, onde são inúmeros os exemplos cômicos deste empenho. Mas Gilberto Tinetti, apesar do reconhecimento que lhe é tributado, optou por gravar seu nome no coração das pessoas. E o fez de modo imperativo em diversos profissionais - desde o ano de 1961, onde vem exercendo importante papel na formação de jovens pianistas brasileiros – que devem a ele o conhecimento que possuem. De 1980 a 2002, foi professor do Departamento de Música da Escola de Comunicações e Artes da USP. Desde 1986, vem apresentando programas dedicados ao repertório pianístico, através da Rádio Cultura FM de São Paulo.
Para comemorar seus 80 anos, celebrados no último dia 06 de abril, o Theatro São Pedro promove amanhã, dia 23 de maio, 20h30, com entrada gratuita e sob regência do maestro Julio Medaglia, uma grande festa musical. Um concerto comemorativo. Retifico, um concerto de agradecimento. Para essa data, Tinetti atuará como solista no Concerto n.5 para piano e orquestra em mi bemol maior, Op.73, mais conhecido como “Imperador”. Sugestivo, não é?
Caros amigos, passo aqui para contar que na próxima terça-feira, dia 01 de maio, estarei no Programa do Jô conversando sobre música. E música de alta voltagem! Aos que tiverem alguma sugestão de abordagem, por favor, sintam-se à vontade para sugerir aqui abaixo nos comentários, OK?
Aguardo vocês por lá.
Hoje se inicia a série de concertos do Cultura Artística, às 21h, na Sala São Paulo. A Orquestra Nacional Russa, sob a regência de José Serebrier, foi a convidada a dar a largada. Os primeiros acordes desta noite (que inclui grandes nomes como Lang Lang, Yevgeny Kissin, Renée Fleming) ficarão a cargo de Beethoven, compositor escolhido para iniciar a temporada com a sua célebre Abertura Egmont. E é sobre isso que me detenho.
Egmont, de Goethe, foi escrito em 1786, e composta por Beethoven no final de 1809. A obra é um drama clássico sobre liberação política. O conde Egmont, herói de Flandres, século XVI, lidera a revolta do povo flamengo contra a tirania espanhola. Capturado, encarcerado e, após tentativa fracassada de sua amante Clärchen em resgatá-lo, Egmont toma conhecimento de que Clärchen, desesperada, se envenena. Dentro de sua cela, enquanto aguarda a execução, Egmont tem uma visão transcendental da imagem da liberdade como uma mulher, fisicamente semelhante a Clärchen – que, aproximando-se de Egmont, lhe deposita uma coroa de louros na cabeça. Uma música militar soa externamente. Egmont é levado para a sua execução, sacrificando-se pelo seu país, sabendo que a liberdade vai prevalecer. O início pesante mostra a profunda opressão sofrida pelo povo flamengo (início até o minuto 2:10). No allegro o crescente tumulto (a partir do minuto 2:10) a e a revolta, que atinge seu climax na coda refletindo a captura de Egmont e morte por decapitação, representado pelo abrupto corte sonoro (minuto 6:47). É então que vem a música da vitória (minuto 7:03) iniciando num pianíssimo ao climax em fortíssimo.
Beethoven, ao final, como sempre, vence!
Confesso que foi grande minha alegria (e surpresa!) ao verificar hoje, no google, uma homenagem ao grande artista brasileiro Villa-Lobos pelos seus 125 anos de nascimento. Dia de festa!
Ainda jovem, “Villa” (como muitos o chamamos) recebeu de seu pai Raul Villa-Lobos, o que seria seu primeiro violoncelo, instrumento ao qual especialmente se devotou. Após o falecimento de seu pai, quando o jovem Heitor Villa-Lobos contava com apenas 12 anos de idade, foi este o instrumento escolhido por ele para tentar “ganhar a vida” nos bares, teatros e bailes da cidade do Rio de Janeiro, cidade onde nasceu e morreu. Carioca da gema, portanto, mas de coração universal. Seu corpo, que se encontra no cemiterio São João Batista, é alvo de muitos visitantes. Fui um deles faz pouco. E fiquei ali por um longo tempo, em oração, de olhos fechados. Eu não estava diante de um homem qualquer.
Deixo aqui minha homenagem a este grande artista apoiando-me, como ele o fez, no violoncelo. A Orchestre Du Violon Sur Le Sable, inteiramente composta por violoncelos, e interpretando a bela ária da Bachiana n.5, tange o inefável.
Contrariando o que a tradição de tantas décadas afirmou, os momentos últimos de Liszt sobre a terra, em Bayreuth, foram repletos de indiferença, maus tratos e solidão. Após cair enfermo durante visita a essa cidade que consagrou seu genro Richard Wagner, Liszt recebe atendimento médico incompetente e, por parte de sua filha Cosima, é tratado com severidade e frieza. A filha, embora residindo em Wahnfried (a bela casa onde viveu com Richard Wagner), deixa o pai moribundo vivendo em quartos de aluguel. O belo e irresistível jovem Franz Liszt havia se transformado em um homem idoso, com sobrepeso, perda de dentes…
Essas revelações bombásticas, entre outras, são as que estão recolhidas em publicação baseada nos diários de Lina Schmaulhausen (vide foto abaixo), aluna de Liszt que se responsabilizou de cuidar, para se dizer de alguma forma, do grande mestre em sua senilidade. Editado por Alan Walker, o livro The Death of Franz Liszt: Based on the unpublished diary of his pupil Lina Schmaulhausen, será um dos fios condutores do recital de despedida deste que foi, para os pianistas, ícone incontestável.
Com curadoria de Regina Porto, o recital será, sem dúvida, o adeus final de 2011, ano em que o mundo celebra o bicentenário de nascimento do compositor. Sintam-se todos convidados!
O jovem e excêntrico príncipe russo Orlofsky, que acaba de se instalar em Viena, decide realizar uma grande festa em seu rico palácio. É aí que tudo se inicia, com o entrelaçamento da estória de 3 personagens.
Logo no início da opereta, Gabriel von Eisenstein, um galanteador romântico que adora pregar peças, é sentenciado a oito dias na prisão por desacato civil. Momentos antes de sair de casa para a prisão, após despedir-se de sua esposa Rosalinda, é interceptado por seu amigo Dr. Falke que o convence a aceitar um convite que lhe traz, da parte do príncipe, para comparecer disfarçado ao baile desta noite. Nada aconteceria caso se entregasse às autoridades somente na manhã seguinte. Por detrás desta proposta, o jovem e engenhoso Dr. Falke quer lhe dar o troco a uma humilhação que sofreu no passado, quando Eisenstein o deixou, após as festas de carnaval, dormido no chão, em plena luz do dia, fantasiado de morcego. É o momento da revanche.
Rosalinda, a esposa de Eisenstein, cansada da atitude galanteadora do marido, deixa-se cortejar por Alfred, que a chama agora de sua pombinha e lhe faz serenatas. Assim que o marido se despede “para dirigir-se à prisão”, Rosalinda abre as portas de sua casa a Alfred convidando-o a jantar. É neste momento que, inesperadamente, chega o diretor da prisão para prender o chefe da família. Vendo-se confusa e flagrada, Rosalinda entrega Alfred à prisão que, mesmo insistindo em provar que não é o homem procurado, recebe o descrédito do diretor da prisão, principalmente, quando é indagado por Rosalinda se este seria capaz de imaginá-la ceando a esta hora da noite com alguém que não fosse seu marido. Alfred é capturado e Rosalinda, mesmo tendo se protegido, embora desesperada, teme o pior: o encontro de Alfred e Eisenstein na prisão. Mas uma pergunta paira no ar: porque o marido partiu para a prisão vestido a rigor? Rosalinda decide ir ao baile. Adele, a bela e atrativa criada da família, depois de conseguir um belo vestido e lançando mão de falsa desculpa, dirige-se também ao palácio do príncipe russo.
No auge da festa, o príncipe faz questão de que tudo corra bem, e ai daquele que se recuse a beber com ele. Todos fantasiados. Eisenstein, apresenta-se na festa como sendo o marquês Renard e, não reconhecendo a própria mulher, que havia se apresentado como uma condessa húngara, começa a cortejá-la. E a confusão se instaura. O resto da estória? É esperar para ver. Onde?
Theatro Municipal de São Paulo – Praça Ramos de Azevedo, s/n. Dias 09.12, 12.12 e 14.12 às 21h. Dia 10.12 às 20h. Dia 11.12 às 17h. Bilheteria: 11-3397-0327
Johann Strauss, o jovem, já era famoso como compositor de música vienense de dança antes de se voltar ao estilo das operetas. Entre os muitos momentos marcantes da festa, após o término do balé apresentado por dançarinos profissionais contratados pelo príncipe russo, este convida todos os presentes a dançarem uma valsa. É a famosa Valsa do Morcego (minuto 3’ do vídeo abaixo). Deixo a abertura da opereta para vocês e, também, a famosa transcrição, de Grunfeld, da mesma valsa, interpretada por Yevgueny Kissin, uma das que mais gosto de executar! Ah, o pianista russo estará neste ano se apresentando por aqui, na temporada do Cultura Artística. Não percam!
Caros amigos, a Sala São Paulo está contada entre as maiores salas de concerto do mundo. Certamente, a melhor do Brasil. Mas não é artigo de luxo. Não foi concebida para ser somente uma caixinha de jóias para eventos internacionais ou apresentações de queridinhos: isso é perigoso. E seria um erro. O que é nacional também tem espaço lá dentro, muito espaço. No entanto, para surpresa de muitos, somente duas Orquestras Sinfônicas Estaduais se apresentaram nesta sala: a Sinfônica de São Paulo-OSESP e a Sinfônica de Sergipe-ORSSE, onde tive o prazer de ser o solista no concerto n.3 para piano e orquestra, de Rachmaninov.
Chegou agora um momento muito importante da cultura musical nacional, eu diria histórico: a vinda da OSP a esta sala de concerto. E entrando pela porta da frente. Curitiba sempre foi, tradicionalmente, uma cidade cultural. E não pode perder essa vocação. Imbuídos deste fato, através do apoio incondicional do Grupo Paranaense de Comunicação-GRPCom, sem o qual nada disso seria possível, a Sala SP receberá, no próximo dia 27, às 17h, este grupo sinfônico. No programa, obras de Beethoven (Abertura Egmont e Sinfonia n.7) e Brahms (Concerto n.2 para piano e orquestra, no qual sou o solista convidado). Tudo sob regência do maestro Osvaldo Ferreira, maestro titular da orquestra.
No último dia 20 de novembro, em uma manhã ensolarada, e com um Guairão lotado (vide foto abaixo), ocorreu a première desta apresentação em terras paranaenses. Veja algumas fotos aqui ou reportagem televisiva aqui. Espero, vivamente, que esta tradição da vinda de grupos sinfônicos estaduais não se interrompa. Há tantas Sinfônicas Estaduais que merecem estar se apresentando nesta sala de concertos para mostrar o excelente trabalho que desenvolvem neste Brasil afora.
Os governos estaduais devem se convencer de que cultura não é despesa. É investimento. O Estado de São Paulo, hoje, goza de repercussão internacional, também pela orquestra que possui. Que o modelo e exemplo destas pioneiras empurre muitas outras orquestras a fazer o mesmo. Que outras empresas também se decidam a seguir o exemplo acima, através de investimentos culturais, exercendo seu papel na responsabilidade cultural que carregam consigo. São Paulo os receberá de portas abertas. A Sala São Paulo igualmente. E o grande público aplaude!
Sempre me surpreendo ao pensar que antigamente, em recitais, era pedido ao artista que, além das obras previstas no programa, também mostrasse sua capacidade de improvisação criando, in acto, uma obra musical. A platéia sugeria um tema musical, ou cantarolava algo, e o artista desenvolvia a obra diante de todos. Uma loucura! Chopin era mestre na improvisação.
Atualmente, a música clássica “somente” ao artista-intérprete que faça sua arte com o conteúdo exato da partitura, nem mais, nem menos: não há espaço para invenções no texto melódico. Ao intérprete é exigido entender em profundidade a obra, captando a intenção do autor. E isso não é pouco. Não é trivial. O intérprete somente domina a obra quando a obra o domina. E esse trabalho exige maturação. Apesar de os moldes da música clássica não permitirem alterações no texto melódico, há um espaço em diversas - denominado cadenza – onde ao intérprete é dada essa liberdade de criação do texto melódico. Lembro-me de uma apresentação que realizei do Concerto n.24 em dó menor, de Mozart, com uma cadenza totalmente criada por mim. Foi uma experiência muito legal, divertida. No entanto, não me vejo especialmente vocacionado para a composição, para uma atitude mais jazzística diante de meu trabalho.
A pianista venezuelana Gabriela Montero é um fenômeno da improvisação nos dias atuais. Sua capacidade chamou a atenção da pianista argentina Martha Argerich, com quem realiza frequentemente concertos. A pressão das competições e do rigor que, infelizmente pode ocorrer em algumas esferas da música clássica, fizeram com que Gabriela abandonasse temporariamente o piano. Mas toda paixão, cedo ou tarde, pede aos apaixonados um reencontro. E Gabriela voltou aos palcos.
É esse esplendor que estará no Brasil para duas apresentações neste final de semana; no Rio de Janeiro (Theatro Municipal – dia 05, 16h) e São Paulo (Sala São Paulo, dia 06, 17h).
Em 1909, Paris era a capital cultural do mundo e o Conservatório de Paris era a mais importante instituição musical do planeta. Naquele ano, 338 candidatos pleiteavam as doze vagas oferecidas aos novos talentos. Quando uma das candidatas, uma jovem de 15 anos, terminou de tocar a 3ª Balada de Chopin para um júri presidido por Gabriel Fauré, um dos jurados contrariou todas as regras ao pedir à moça que tocasse novamente a Balada para seu deleite pessoal. A jovem era Guiomar Novaes e o jurado Claude Debussy. Os documentos de identidade de Guiomar Novaes haviam sido alterados para que ela pudesse ter a idade da maioridade que lhe permitisse viajar para a Europa sozinha.
O talento manifesto em Guiomar desde criança chamava a atenção. Ela corporificava a música pelas mãos, pelo nariz arrebitado, pelos olhos. Monteiro Lobato, que era vizinho do célebre professor Chiafarelli, com quem Guiomar estudou, ao notar o talento da criança, inspirou-se para criar o personagem a menina do narizinho arrebitado – a Narizinho do Sítio do Pica-Pau Amarelo.
Debussy, em carta de 1909 ao compositor francês André Caplet (1878-1925), afirma que a menina tinha os “olhos ébrios de música”: a poética frase descrevia o seu espanto e encantamento pela apresentação de Guiomar na prova de admissão no Conservatório de Paris, que somente soube da existência da carta no ano 1958, quando da organização do acervo deixado por Caplet. Em 1911, dois anos após a prova de admissão, Guiomar receberia o primeiro prêmio do Conservatório de Paris entre 35 candidatos, abrindo as portas para uma carreira de triunfo e que projetaria musicalmente o nome do Brasil no cenário internacional. Para comemorar o centenário deste prêmio, de 15 a 22 de outubro, a cidade de São Paulo recebe a Semana Guiomar Novaes.
A exposição contará com inúmeros documentos inéditos, correspondências e dedicatórias a Guiomar por compositores como Debussy, Prokofiev, Fauré, objetos pessoais, farto material fotográfico original, além de dois (dos 34) rolos originais de música, gravados em Piano Rolls por Guiomar, adquiridos em leilões internacionais pelos colecionadores Ciro Gonçalves Dias Jr e João Antonio Parizoto Filho, que desde 1996 são convidados a apresentar anualmente palestras sobre a nossa pianista brasileira na Juilliard School, a mais célebre universidade de música de Nova York.
Coincidência ou não, o recital de encerramento no dia 22/10, às 20h, ocorrerá exatamente no dia em que o mundo celebrará o bicentenário de nascimento do maior pianista de todos os tempos: Franz Liszt. Fui convidado a realizar este recital e, como não poderia deixar de ser, ele será todo devotado a Liszt. Na ocasião estarei lançando meu mais recente trabalho, o CD “Liszt Recital” .
Semana Guiomar Novaes – Exposição, palestras e recitais.
Visitação da Exposição: Domingo (16) a quinta-feira (20), das 14h30 às 17h30. Sábado (22), das 14h30min às 22h.
Entrada Franca.
Serviço: Sociedade Brasileira de Eubiose
Av. Lacerda Franco, 1059 – Aclimação
(11) 3208-9914 e (11) 3208-6699
Caríssimos, passo aqui rapidamente para lembrar a todos que a pianista Yuja Wang estará se apresentando com a OSESP nesta semana. Imperdível! Haverá ensaio aberto na próxima quinta-feira, às 10h. No repertório, o fabuloso Concerto n.3 para piano e orquestra de Prokofiev.
Como aperitivo, um video com o conhecido vôo do besouro. Nos vemos por lá!
2012
2011