Os seres humanos possuem características comuns que o identificam como tal. A filosofia grega, jogando luz sobre a realidade humana, verificou serem a Unidade (Unum), Bondade (Bonum), Verdade (Verum) e a Beleza (Pulchrum) categorias do ser humano, o que não é difícil de verificar. Uma pessoa que fere, a título de exemplo, a unidade – comportando-se com duplicidades de atitude – arranha a imagem esperada do ser humano íntegro, assim como uma pessoa que falte com a bondade ou a verdade. No entanto, a tão almejada estabilidade de comportamento, também no terreno emocional, só é possível quando há ajuste em nosso centro vital, quando há calma, paz e serenidade suficientes para entender a vida como ela é. Esse sentido de perspectiva só se consegue com a reflexão e contemplação: com interiorização. Não é por acaso que o contato com o Belo, com a Beleza, transforma-se em necessidade.
O vazio de muitos – essas autênticas neuroses de vazio – é muitas vezes erroneamente combatido com trabalho e, tantas outras vezes, com a diversão e suas variantes: o jogo, a bebida, as drogas, as relações fúteis, festas e reuniões superficiais, a boa mesa, o “corre-corre” frenético, as viagens que nos levam a ver tudo sem se deter em nada, a vontade quase irracional de mudar de lugar e de sentir sempre novas experiências. E acabam matando a sede com água do mar. Saem de uma fuga – o trabalho – para entrar noutra – a diversão. Ou melhor: enchem o vazio com um vazio ainda mais denso. É o que relata o psiquiatra judeu Viktor Frankl: “Nós, os psiquiatras, mais do que nunca, nos encontramos com pacientes que se queixam de um sentimento de futilidade. Permitam-me citar – continuava Frankl – uma carta que recebi de um jovem estudante americano: “Tenho 22 anos, um diploma, carro, previdência social e a disponibilidade de mais sexo do que necessito. Agora, apenas preciso explicar a mim mesmo qual o sentido de tudo isso”.
A verdadeira arte, o verdadeiro artista e a Música – estou convencido disso – devem transcender e nos tornar capazes de ouvir e enxergar, com maior sensibilidade e riqueza, o sentido último e profundo das coisas. E a resposta não está fora: está dentro. Faz falta olhar para dentro de si. O artista erudito (“ex-rude”) deve ser um instrumento catalisador desta transformação, deste desembrutecimento ao que se propõe. Uma nova visão da cultura: ser uma ponte entre o mundo da Beleza e a realidade diária, tendo consciência de sua verdadeira vocação e responsabilidade. O artista, quando corrompido em sua essência, perverte seu verdadeiro fim e acaba comprometendo sua própria arte. O artista foi feito para as alturas. E como diz o ditado: “Quanto maior a altura, maior pode ser o tombo”.
Ainda nos dias de hoje, no âmbito da saúde, quando alguém sofre de algum tipo de indisposição gástrica, aparece um doutor que, após informar-se dos sintomas e causas do mal-estar, ordena: “Mostre a língua! Tire a língua!”. E da língua esbranquiçada, ou sulcada, às vezes avermelhada, surge o diagnóstico acertado. Pois bem, quando o assunto é relacionamento humano, mostrar a língua é o mesmo que deixar ver o coração. As palavras – com suas mil tonalidades, cargas, intenções e acentos – são um retrato falado do que trazemos dentro. Quem não se lembra do sentimento de gratidão que nasce quando alguém nos estimula com palavras de otimismo e conforto após um erro cometido? Quem não se sente cativado diante de um conselho desinteressado e verdadeiro? É a língua a serviço do bem.
Pelo contra-exemplo, quem pratica a maledicência, mais do que jogar luz sobre aspectos negativos dos outros, evidencia o que traz dentro de si. Na realidade, evidencia o que é. Esta prática, infelizmente comum em alguns ambientes, é um dos frutos mais baratos da inveja: uma tentativa de diminuir o brilho alheio que incomoda. Como não se consegue subir tenta-se abaixar o outro. O livro O Imbecil Coletivo, de Olavo de Carvalho, narra de modo divertido alguma dessas situações. No entanto, a maledicência nada tem de divertido por ter sua origem na baixeza humana (desde uma vingança até um desejo de hegemonia profissional) ou, simplesmente, na ausência de conteúdo intelectual: não se sabendo sobre o que se falar, fala-se do capítulo da novela, ou sobre a celebridade do dia, critica-se algo que nos desagradou e, em clima de conversa girada em torno de fofocas e tititis – pensam eles – prolongam-se relacionamentos “amistáveis”, mas que não se sustentam. E o que somos deep inside fica cada vez mais envidenciado.
Certa vez, um amigo afirmou nunca se basear no que os outros lhe falavam para tirar conclusões sobre pessoas ou fatos: suas opiniões baseavam-se em suas próprias observações. Como diretor de uma grande empresa que era, não queria receber nenhuma informação prévia sobre seus funcionários. Poucos dias depois, coincidentemente, empreendi uma longa viagem profissional. Assim que cheguei ao aeroporto, um músico que me esperava, em uma espécie de arranque de insegurança pessoal e profissional, dirigiu-me uma enxurrada de comentários muito pouco edificantes sobre diversos músicos, muitos dos quais conheço. Enquanto ele fazia suas análises, algumas bastante ácidas, percebi como algumas pessoas, entre duas formas de se dizer a mesma coisa, são capazes de optar pela forma mais antipática. Durante toda aquela cascata de maledicências fiquei calado. Eu não o conhecia em profundidade e, diante de meu silêncio, após um certo tempo, o tema da conversa mudou. Pensei: se esta pessoa vem me falar mal de outros, quem me garante que algum dia não fará o mesmo sobre a minha pessoa a terceiros? Lembrei-me da sábia atitude daquele meu amigo empresário: de que devemos pensar por conta própria. Hoje, com a perspectiva do tempo e contando com a verdade dos fatos, surpreende verificar como este músico caminha cada vez mais para o anonimato.
É evidente que, se falamos mal de alguém, é porque antes pensamos mal. E dentro deste quadro, em efeito dominó crescente, não é de se estranhar que à maledicência e à crítica, acrescente-se a mentira, transformando a maledicência em calúnia. Dizem-se e escrevem-se aberrações sem fundamento, baseadas em simples suspeitas, ou no que “se diz” (isto é, no que alguma pessoa mal intencionada comentou).
Como em Hamlet, “há algo de podre no reino da Dinamarca”. E a podridão não está fora. Está dentro. Mas cada um faz da própria vida o que quiser. Fica o convite.
Tive o prazer de conversar com a pianista venezuelana Gabriela Montero. Simpática, ela passou pelo Brasil deixando o seu recado. Suas performances foram antecedidas por depoimentos francos e diretos, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em que, entre outras coisas, lamenta o foco egocêntrico colocado por muitos na carreira, “característica de 10 entre 10 pianistas da cena atual”. A declaração é forte. Deixou-me pensativo. Fui estudar um pouco o assunto, afinal de contas sou pianista…
Em diversos livros e abordagens que pesquisei verifiquei que o egocentrado pode ser rapidamente detectado por algumas características que lhe são muito próprias. Hoje, discorrerei sobre duas delas.
A primeira delas refere-se ao alto conceito que faz de si mesmo. É um fato que, sem humildade pessoal é impossível crescer, simplesmente porque o orgulho impede enxergar os erros de conduta. Não se supera aquilo que não se reconhece e se aceita. Como o egocentrado utiliza o recurso da justificativa diante dos próprios erros, acaba não se enxergando. Ele corrige os outros de modo duro, severo, rigoroso e humilhante (alegando ser exigência da posição que ocupa) e se desculpa dos seus próprios erros. Outras vezes é dotado de uma “hipersensibilidade” em que tudo vê agravo, ofensa, injustiça e, ao mesmo tempo, como cara e coroa da mesma moeda, julga os outros e sente-se dono do bem e do mal, do certo e do errado. O egocentrado também experimenta “afundamentos” e “depressões” diante de críticas desfavoráveis ao seu trabalho artístico, mas, paralelamente, é o primeiro a criticar negativamente o trabalho dos outros. O egocentrado defende suas posições até o último reduto, gerando uma teimosia própria de quem não sabe enxergar outras posições que não a sua, mesmo que os argumentos contrários sejam convincentes. O artigo de João Marcos Coelho, no C2/Erudito, do último dia 05 de novembro, e o blog de João Luiz Sampaio jogam luz sobre esse desafio do comportamento humano ao divulgarem a recente quebra de parceria entre a pianista francesa Helène Grimaud e o maestro Claudio Abbado. O motivo? Uma divergência musical. Tudo muito triste. Conhecemos que a divergência é própria do ser humano, mas o diálogo também o é. Não falo aqui sobre as pessoas. Falo sobre os fatos.
A moda do salto alto deve-se a Luís XV para disfarçar a sua pequena estatura. A moda do cabelo curto para as mulheres – à la garçonne – nasceu quando Maria Antonieta começou a perder o cabelo. A gola alta foi introduzida no Renascimento apenas porque Ana Bolena tinha um horrível defeito no pescoço. São tentativas de maquiar problemas físicos. No âmbito ético, a tentativa de maquiar problemas morais é perigosa por contrariar princípios elementares do desenvolvimento da personalidade. Quem sai ganhando? A nossa falsa imagem.
Alguns psicólogos afirmam que a origem de alguns casos de tratamento de dupla personalidade reside exatamente aqui: por um lado, a personalidade que se desenvolve na esfera imaginária inventada pelo orgulho, cheia de triunfos, qualidades e sucessos empolgantes; por outro lado, a personalidade que pertence ao mundo real, de acontecimentos prosaicos, de defeitos e falhas, de fatos pouco interessantes e apagados. Diante do impulso essencial do homem para a unidade, a vítima tenta provar que sua personalidade fingida coincide com a personalidade real; ou, melhor, que sua personalidade real é a fingida. “A tua principal função é a de te enganares a ti próprio e parece que o consegues porque a tua máscara é das mais enigmáticas”, afirma Kierkegaard.
A segunda delas refere-se ao critério do para mim, que preside suas tomadas de decisão: este acontecimento, esta circunstância, esta pessoa, que utilidade podem ter para mim? Os outros… quem são os outros? Os “outros” são aqueles com quem faço as minhas “tabelas”; os “outros” irão servir-me de degrau para me elevar e, se estão em nível superior, hão de ser bajulados para me guindar; os “outros”, com suas falhas, dão a oportunidade para que minhas qualidades brilhem. Os “outros”, no fundo, são instrumento útil da minha própria realização. Sem perceber, o egocêntrico serve-se dos outros e explora os outros. É um tipo de parasita. Obviamente, não se manifesta de forma direta.
Essa falta de maturidade humana é corrigida, muitas vezes, pela própria vida. A vida, afirmam alguns, sempre se encarrega de trazer de volta, para cada um de nós, tudo aquilo que somos e fazemos. É só uma questão de tempo.
Faz alguns dias, ajudei uma pessoa, bom pianista, a melhor interpretar a Sonata n.3 em si menor, Op.58, de Chopin. A performance estava bastante falha, desastrosa´, nem tanto no ponto de vista técnico, mas interpretativo. Analisávamos juntos o último movimento presto, non tanto: a necessidade de maior ênfase nas linhas melódicas, análise rítmica, a surpreendente coda (agora em si maior), entre outros detalhes. E aí veio o disparo: “Alvaro, não me sinto verdadeiro interpretando dessa forma. Posso me soltar? Preciso ser eu mesmo, autêntico”. Fiquei pensativo. Aquela tentativa da Sonata de Chopin, interpretada diante de mim, transformava-se em rio caudaloso, sem margens definidas, que encharcava tudo.
Muitos músicos – e também pessoas de diversas profissões – acreditam que fazendo o que se fizer, desde que seja autêntico, será valido. O importante é que esteja de acordo com o que você é, pensa e sente. Tem que sair de dentro. Não se reprima, repressão faz mal. E confunde-se espontaneidade com autenticidade, dois conceitos muito diversos. A confusão, pelo que pude verificar muitas vezes, não é só de palavras, mas de idéias; e isso é muito perigoso, porque as idéias determinam a conduta.
A espontaneidade é uma janela que mostra o que carregamos em nós: o que temos dentro vê-se pelo que sai espontaneamente para fora. Se for preguiça, vai sair preguiça. Se for rancor, vai sair rancor. Se for fofoca, sai fofoca. Se for amor, sai amor. Se for arrogância, sai arrogância. E a música fabricada por essa pessoa, o que é incrível, revela tudo isso… No palco, o artista se desnuda. Nada há, talvez, mais espontâneo em nós do que os nossos desejos, bons ou ruins. Confundindo autenticidade com espontaneidade, será lógico pensar que a atitude mais “autêntica” é a de seguir os nossos desejos, sejam eles quais forem. “Seja autêntico – diriam alguns espontâneos – e não se reprima. Você tem vontade de berrar? Berre. Tem vontade de beber? Beba”.
Não há ninguém que seja “autêntico” e mais nada, só autêntico. Um adjetivo assim isolado, pendurado no ar, não tem sentido. Por isso, quando alguém diz: “Eu quero ser autêntico”, deveríamos perguntar: “Você quer ser um autêntico quê? Um autêntico trabalhador? Um autêntico irresponsável? Um autêntico criminoso? Um autêntico homem? Um autêntico bicho?”.
Ontem, depois de dedicar horas preparando um concerto que em breve farei, fui ao armário de partituras. Busquei o álbum das sonatas de Chopin. E comecei a ler, com calma, todas as indicações dadas pelo autor…
O concerto de Ano Novo da Filarmônica de Viena – o célebre Das Neujahrskonzert der Wiener Philharmoniker – vem sendo realizado nas manhãs do dia 01 de janeiro, desde 1939, com ingressos esgotados. A sala de concertos principal (o GroβerSaal) do Musikverein, em Viena, chega a atingir um público estimado em mais de 50 milhões de pessoas, em mais de 70 países. O video abaixo mostra um significativo momento do concerto de 2002, regido pelo maestro Seiji Ozawa. Diversos músicos das mais variadas raças, culturas, tradições, nacionalidades – enfim, gente que não pensa igual – dão um show de bola ao desejar a todos os presentes uma feliz entrada de ano. O vídeo exala alegria, otimismo.
Hoje, 11 de setembro, lembro-me de minha recente estada no ground zero, em Nova York, há poucas semanas: tudo muito triste, carregado de energia pesada. Entre muitas fotos que tirei, comoveu-me a da roupa de um bombeiro, de material extremamente resistente, que faleceu entre os escombros das Twin Towers, deixada dentro de uma pequena igreja localizada no quarteirão vizinho ao das torres gêmeas. Esse templo católico foi, segundo me explicaram, o apoio e consolo de muitíssimos parentes das vítimas, de bombeiros e de gente da rua que, desolados, buscavam conforto espiritual neste momento de dor ( postei fotos em www.alvarosiviero.com). Caminhando pelas ruas de Manhattan, tomei consciência do maravilhoso mosaico de cores e formas que é a vida humana, ferida quando deparada com aqueles que enxergam na multiculturalidade – entenda-se também divergência – motivo de desunião, de guerra.
Os problemas de uma sociedade não passam de uma projeção ampliada dos conflitos íntimos que cada um traz dentro de si. Queremos que a sociedade seja mais? Então sejamos melhores. É uma decisão pessoal. É atitude.
Fica essa homenagem aos vitoriosos do 11 de setembro de 2001. O mundo pode ser esse grande palco eclético de música – como abaixo mostrado em video – que une, soma e constrói. Tenham a certeza de que as nossas semelhanças são muito maiores que nossas diferenças.
Há poucos meses, em café com um maestro, profissional extraordinário com quem já tive o prazer de trabalhar, escutei: “Minhas maiores dificuldades na gestão do teatro não surgem por falta de competência técnica ou musical do staff, mas por falta de competência humana. Diante de fofocas, mexericos e rivalidades, sinto-me impotente. Há muita inveja aqui”. O desabafo deixou-me pensativo. Lembrei-me de Salieri, caricaturado no célebre e premiado filme Amadeus que, de uma forma ou de outra, sobrevive sem caricatura alguma na vida real de alguns profissionais do citado staff.
Há uma definição de inveja que é clássica: A inveja é a tristeza sentida diante do bem do outro. Embora nossas tristezas sejam causadas por um mal – um acidente, um fracasso, uma doença, uma perda – a inveja, pelo contrário, é causada por um bem, um bem alheio, que nós consideramos como um mal, simplesmente porque não o temos. Podemos ficar tristes pelo que os outros são: alegres, simpáticos, inteligentes, fortes. Podemos ficar tristes pelo que os outros têm: dinheiro, prestígio, cargos, carros, viagens, diversões. Podemos ficar tristes quando verificamos que os outros são mais queridos: é o grande capítulo dos ciúmes. E ficamos tristes porque esse bem alheio nos diminui.
Aristóteles afirma que a inveja procede da vanglória (Retórica, 2, c.9, n.5). A glória vã é o vício daqueles que desejam brilhar, destacar-se, salientar-se, ser mais do que os outros. Gente que não procura o bem, mas o brilho. E não é raro que dediquem antipatia, e até mesmo aversão, com aqueles que legitimamente provocam sombra. Uma forma incompetente de admirar.
Os filósofos apontam como fruto da inveja a maledicência: a tentativa de destruir com a língua e, se pode, com atos, aqueles que fazem sombra. As técnicas? Falar mal, lançar suspeita, semear insinuações, espalhar acusações falsas, desprezar com comentários o que merece louvor, podendo vir disfarçadas de sorrisos e palavras amáveis, como brasa na cinza, para prejudicarem a quem fingem estimar e até proteger.
Recentemente, um importante violinista de uma orquestra brasileira comentava que havia sido “afetuosamente” desencorajado por outro amigo, também violinista, a aceitar uma proposta – vantajosa em todos os sentidos – pois os horários do novo trabalho seriam demasiadamente estafantes, e lhe impediriam dedicar mais tempo à prática do instrumento, fundamental para seu crescimento. O importante violinista fez ouvidos surdos ao “amigo”: o convite foi aceito. Ao lado da maledicência, de mãos dadas, vem a má competição. A inveja pode transformar um ambiente de trabalho em ringue de boxe, ou melhor, de artes marciais com a regra do vale-tudo. Moacyr Castellani, psicólogo, atreve-se a fazer um diagnóstico: “Em vez de competir como forma de desenvolvimento, as pessoas se tornam rivais. Em vez de realizarem o melhor de si, desejam ser as melhores. Em vez de superarem seus limites, enfatizam suas próprias qualidades”.
Aquele que pensa muito nas coisas que não tem, acaba se esquecendo das muitas coisas boas que tem. Food for thought!
2012
2011