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Carnegie Hall abre portas ao Brasil: balança mas não cai?

Alvaro Siviero

19 agosto 2014 | 13:50

O sonho da OSTNCS – Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro (Brasília) de apresentar-se no Carnegie Hall de Nova York, no próximo 01 de dezembro de 2014, pode não se realizar. O fato não se deve a imprevistos normais ou até mesmo à má vontade da instituição americana. Nada disso. São os entraves burocráticos e administrativos, adjetivados como necessários pelo órgão público, que deitarão abaixo a possibilidade de colocar a música de concerto brasileira dentro da maior e mais idolatrada sala de concertos do mundo. Seria a primeira vez, assim mesmo, que uma orquestra sinfônica “legítima” do nosso país colocaria ali os seus pezinhos. Um golaço. Uma medalha que a história nunca tiraria do peito. O entusiasmo e otimismo dos envolvidos afirma que tudo dará certo, que não há o que temer. Os fatos, no entanto, caminham na contramão. Um embate entre burocracia tsunâmica e o desejo de não se morrer na praia.

Muitas instituições enfrentam igual dificuldade. A busca de alternativas legais de independização da burocracia governamental tem sido, para muitas orquestras, a palavra de ordem do momento. Improvisações,  falta de previsão, atabalhoamentos, entre outros, impedem o mínimo de profissionalismo capaz de estabelecer uma temporada de apresentações, de renovar contratos, atualizar folhas de pagamento, firmar parcerias com instituições patrocinadoras e até mesmo de levar, como é o caso que se apresenta em questão, sua arte a um local de evidência e prestígio incontestável no cenário musical mundial.

Monica Rischbieter, Superintendente do Centro Cultural Teatro Guaira, encontrou um caminho para que o restauro do Guairão se iniciasse com a intervenção da iniciativa privada. “Nesta primeira fase, a Renault investiu R$ 2.800.000,00 para a reforma de todas as poltronas, carpetes e cortinas, diretamente com a empresa restauradora. Um presente. A ajuda do governador foi fundamental. Mas a verba não passou por nós, caso contrário travaria no processo. A seguir, reformaremos camarins, banheiros. O teatro ficará novo, maravilhoso”, celebra Rischbieter. ”Por outro lado, debruço-me agora em como resolver o caso de 40 músicos e 30 bailarinos comissionados que foram declarados inconstitucionais pela legislação”, lamenta. E a energia, que deveria ser canalizada para o aumento de qualidade, perde-se em rigores que, muitas vezes, não fazem sentido algum. Tudo em nome da “legalidade”. O bom senso se desqualifica, a política interfere na cultura e a própria”legalidade” é usada como escudo pelos pusilânimes.

Leonardo David, maestro titular da Orquestra SESI-ES e maestro adjunto da Orquestra Sinfônica do Espírito Santo, analisa o problema. “No ES, o Governo do Estado tem  apoiado de forma intensa a Orquestra Sinfônica do Estado do ES, contribuindo para a difusão da música de concerto em todo seu território. A gestão por uma máquina pública, Secretarias e Autarquias pode funcionar, mas nos traz dois grandes passivos negativos: a burocracia e a licitação, que impedem a forma plena na qualidade do serviço. Na maioria das vezes, leis que são criadas a nível federal para inibir práticas de corrupção, impedem administrar de forma mais econômica as nossas verbas. A diferença de valores de serviços para o governo e para um setor privado é absurda. Isso é um problema nacional. Compreendo e concordo que deveremos ter disputas de preços, mas a meritocracia deve ser também premiada. Não quero nem citar a quantidade de tempo demandado por uma licitação, que varia entre os estados brasileiros, mas, tenho ouvido de colegas de profissão de outros estados, que a demora chega a 9 meses ou mais”, afirma Leonardo David.

Os casos da Filarmônica de Minas Gerais – uma OSCIP de parceria público-privada, da Sinfônica do Estado de São Paulo, do dedicado e incansável trabalho de Beatriz Franco do Amaral que reformulou o status do Theatro Municipal de São Paulo, entre outros, com a criação de Fundações, OS’s, gestão pela iniciativa privada e afins, mostra o sentido para onde aponta o vetor. Sabemos que governos determinam suas prioridades onde saúde, educação e segurança pública são de importância fundamental. Mas, não nos esqueçamos, cultura também o é. Quem sabe não seja essa precisamente a solução: perceber que a cultura transforma. O metrô de Londres resolveu grande parte das pixações e vandalismos que corroíam a cidade britânica ao, em suas caixas de som, veicular aos passageiros música de concerto. Pasmem, foi assim mesmo! Eu mesmo me surpreendi ao, na estação Queensway, escutar em bom volume o Allegro Maestoso do Concerto n.2 de Chopin. E foi da boca de um policial britânico que recebi esta explicação.

Diz o ditado que o futuro a Deus pertence. OK. Mas pertence também a nós. Nós podemos, sim, fazer o futuro. Como diz uma conhecida canção: quem sabe faz a hora não espera acontecer. Resta-nos agora esperar, de modo entusiasmado, os estrondosos aplausos que receberá a OSTNCS em solo americano, não somente pelo brilho da memorável apresentação mas por, acima de tudo, provar que sonhos tornam-se realidade. Por fazer acontecer. Basta querer.