Neste final de semana revi a ópera Carmen, com a extasiante mezzo-soprano grega Agnes Baltsa, no Metropolitan de NY, sob regência de James Levine. Estou refeito!
A cigana Carmen, um animal vivo, orgulhoso, alegre, que planejava assassinatos e roubava ao som do prazer, não conhecia regras nem escrúpulos. Amava quando queria, por quanto quisesse, sem nunca se prender a alguém. No início da ópera se envolve em rebelião dentro da fábrica de tabacos onde trabalha e fere com uma navalha uma de suas companheiras. A estória se passa em Sevilha. O desenrolar trágico dos acontecimentos, envolvendo uma traição ao soldado que lhe fez juras de amor, empalideceu a platéia parisiense que, imóvel, assistiu a estréia da obra, no dia 3 de março de 1875, no Opera-Comique de Paris. Carmencita, sem dúvida, era uma violação. A platéia retirou-se do teatro em um silêncio de gelo. A crítica veio tempestuosa nos dias seguintes afirmando até mesmo estar a orquestra musicalmente encolerizada e alucinada, louca, pela energia declarada já na abertura da obra.
O fracasso da estréia afetou a saúde de Bizet, já desgastado pelos ensaios, mental e espiritualmente. Carmen era uma obra muito original para a época, que havia se acostumado a celebrar finais de tramas onde tudo é positivo, onde os corretos valores da vida são exaltados e os imorais recriminados. A estória – principalmente seu final – quebrou todos os moldes e protocolos da época. Quando as cortinas do palco se fecham, a cigana Carmen é deixada morta no palco.
Para recuperar-se, Bizet se retirou a uma cidadezinha do interior da França – Bougival – para recuperar-se do forte ataque de angina que sofrera. Enquanto ainda tentava se recuperar, Lyon, Marselha, Angers, entre outras cidades francesas, também representavam a opera e, fora da França, Áustria, Itália, Rússia, Alemanha, Inglaterra… era a consagração. O valor da obra prevaleceu, apesar da atitude dos “entendidos” de arte, dos críticos musicais, que a retalharam. Esta quarta e última opera do compositor francês firmou-se como um marco. A admiração surge também entre diversos músicos, de Wagner a Brahms, de Tchaikovsky a Busoni. Mas, infelizmente, Bizet não gozou do sucesso de sua obra prima: faleceu no dia 03 de junho de 1875, três meses após a estréia, em seu retiro em Bougival.
Deixo abaixo o vídeo da célebre abertura desta trágica estória: um must. E para meu deleite, espero que também seu, uma das cenas que sempre me rouba a atenção de modo especial. Desfrutem!
Moral da estória: o negócio é tomar mais cuidado com a forma como criticamos, oral ou por escrito, o trabalho dos outros.
Overture
Agnes Baltsa canta “Les tringles des sistres tintaient”
acho que ja esqueci quantas vezes assisti esta opera, ainda acho o enredo extraordinariamente atual. O o libreto assim como o don giovanni ou a nozze de figaro, é realmente chocante para a época, portanto, sim, a liberdade sexual, pode molestar e muito na época em que esta era totalmente reprimida, e hoje? sera que todos aceitam essa liberdade, a de amar, sem ser para sempre e sem responsabilidade? bem o mundo vai mudando, e por isso, o drama da carmen ainda é atual. A musica espanhola mostra novamente sua força dramatica, e como os franceses dessa epoca procuravam a liberdade que nao tinham em latin lovers espanhois, mas, na belle epoque com certeza a liberade ja existia, mas ainda a hipocresia era muito maior, em fim, a opera fala do que na realidade acontece em todoas as epocas, mas a sociedade reprime…. bom Alvaro, a musica e a arte escenica traduzida neste grande trabalho de Bizet, sao eternos, e sempre estarao no nosso inconsciente.
Maravilhosa regência de James Levine. Sempre nos acrescenta muito estes artigos escritos com tanta propriedade e reflexão, acrescidos com vídeos espetaculares. Recomendo!
Maria de Fátima, a música faz o ser humano ser mais humano. E a Agnes Baltsa é excepcional!
Temos que marcar o dia onde poderei conhecer seu novo piano. Um abraço
2012
2011
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