ir para o conteúdo
 • 

Alvaro Siviero

13.janeiro.2012 15:57:25

Beethoven, uma enquete e o sofrimento humano

Enquanto alguns desanimam com as naturais dificuldades da vida, outros se tornam fortes e seguros. Amadurecem. O sofrimento, sempre, é experiência pessoal e intransferível. Podemos unir-nos ao sofrimento alheio, podemos dar conforto aos que passam por um mal momento e até podemos buscar sentir a dor que outros sentem. Mas não podemos viver essa dor.

Beethoven experimentou o sofrimento em larga escala. Seu nome, Ludwig, sempre lhe traria à memória a breve vida de seu irmão mais velho, também Ludwig, que havia falecido inesperadamente antes do nascimento daquele que se tornaria o grande músico. Não sei se algum dos leitores carrega a afetuosa e dolorosa experiência de possuir o nome de um irmão falecido. Algo tocante… e emocionalmente exigente. Como se isso não bastasse, Beethoven perdeu também 3 irmãos menores, os mais jovens, sendo que antes do falecimento do último – a caçula a quem Beethoven nutria especial carinho –  também faleceu de modo repentino sua mãe, de tuberculose. Seu pai, um bêbado inveterado, não deixou outra opção a não ser transformá-lo em arrimo de família dos outros dois irmãos menores, os únicos sobreviventes. Tudo isso quando o jovem Ludwig contava apenas 16 anos de idade.

Um dos grandes sonhos de Beethoven era ter estudado em Viena com Mozart. O desejo não se concretizou devido ao falecimento da mãe. O jovem Ludwig, que já se encontrava na cidade austríaca, foi obrigado a retornar a Bonn para cuidar dos irmãos. Anos depois, quando retorna a Viena para realizar seu sonho, é Mozart quem desta vez vem a falecer. Paralelamente, de modo crescente, se inicia o processo da surdez. A obra recolhida no vídeo abaixo, retirada de célebre cena do filme O Segredo de Beethoven, foi composta quando o autor praticamente não mais escutava.

Há não muito tempo atrás, decidi reproduzir entre diversos amigos e pessoas conhecidas, uma interessante pesquisa realizada em universidade americana no âmbito da psicologia. Queria certificar-me do que havia lido. Na pesquisa, diversas pessoas foram entrevistadas, das mais diversas idades e classes sociais, se aceitariam entrar em uma “máquina” que teria a capacidade de exterminar todo e qualquer tipo de sofrimento ou dificuldade que pudessem vir a experimentar na vida. A entrada nesta “máquina” ocorreria de modo irreversível, ou seja, aqueles que entrassem nunca mais experimentariam a dor humana. Como na pesquisa americana realizada, nenhum de meus entrevistados  – mais de 50 pessoas – aceitou a proposta. Insisto: ne-nhum. E ficou claro para mim que o sofrimento faz parte da vida. Retirá-lo seria deixar de viver. Seria somente existir.

Pessoalmente, estou convencido que o pequeno Ludwig transformou-se em Beethoven por ter vivido o que viveu. E essa é a gênese de sua música. As dificuldades somente se transformam em problemas para os que cultivam uma personalidade problemática. Sempre é possível fazer com o limão uma limonada.

1 Comentário | comente

1 Comentário Comente também
  • 17/01/2012 - 23:55
    Enviado por: Isabela Bisconcini

    Olá, Alvaro,

    Gostei bastante da reflexão que você fez a partir da história pessoal de Beethoven. A história de todo e cada ser humano é um épico, não é mesmo?

    Sinto que a questão está na resposta que cada um consegue dar ao sofrimento. Sim, o sofrimento faz parte desta dimensão da vida que vivemos e sinto que enquanto nos fazemos a pergunta ‘por que’ (isso aconteceu comigo?) nos fazemos a pergunta errada, pois talvez devêssemos nos perguntar ‘para que’ (isso aconteceu comigo? Ou, onde essa experiência pode me levar, ou o que poderei me tornar por meio dela?). Mas a qualidade da resposta que cada um consegue dar ao sofrimento é que é o X da questão. E não porque não se queira – tenho fé, acredito que somos como árvores: por mais que nos retorçamos, buscamos sempre a luz – mas porque não se consegue.

    Beethoven deu uma resposta extraordinária à limitação imposta pelas perdas e pelos bloqueios da vida. E foi por isso que ele foi quem foi. Cabe-nos nos superar um pouco a cada dia nessa nossa vida que, mesmo anônima e comum, possui a mesma beleza e as mesmas dificuldades! Esses exemplos são sempre inspiradores.

    Abraço,

    Isabela

    responder este comentário denunciar abuso

Deixe um comentário:

  • Quem faz

    Alvaro Siviero é pianista, especializado em Educação Multicultural pelo Lesley College e graduado em Física pela USP.

Comentários recentes

  • Simone Catto: Assisti ao concerto do dia 16 de maio e também fiquei encantada com o brilhantismo das execuções e o...
  • Thais: Pena que não vieram a Curitiba…..estamos ansiosos por grandes apresentações !!!
  • Fernando Barra: Essa afirmação de que o custo era de 80 e passou a 500 é mentirosa apesar de tecnicamente certa....
  • Vinícius Medeiros: Orff é magnífico!
  • Alvaro Siviero: Dora, boa música é como furacão: por onde passa arrasta! Não largue nunca o piano: é verdadeiro...

Arquivos