Em Música, o símbolo BBB (freqüentemente citado em qualquer livro ou caderno de cultura) é uma referência direta a três gênios da música alemã: Bach, Beethoven e Brahms. Esse BBB, que foi o que sempre conheci, possui tal força que se perpetuará mesmo que você, caro leitor, não esteja mais neste mundo. Meu primeiro contato com este símbolo, faz anos, foi no programa Concertos para a Juventude, veiculado pela Rede Globo, que rompeu barreiras entre a música erudita e o grande público. Um verdadeiro sucesso. Inicialmente, o programa consistia na exibição de pequenos concertos didáticos, tudo ao vivo. Posteriormente, passou a apresentar até obras mais complexas, sempre com excelente audiência, chegando a ser apontado pela Unesco como modelo de divulgação de cultura. Permaneceu 19 anos no ar (1965-1984).
Hoje a sigla bbb (em letras minúsculas, propositalmente, pelo seu mérito) ganhou outro significado: o do vale tudo. A capa da revista VEJA desta semana (talvez buscando o mesmo ibope do bbb, quem sabe?) “veicula a notícia” nos mesmos moldes que o programa de TV. Tudo muito sutil (ou nem tanto). Afirmar, como o profissional entrevistado na edição o faz, de que a TV brasileira caminha junto com a sociedade, que reflete a sociedade atual é, no mínimo, uma falácia. É exatamente o contrário. A TV norteia o comportamento de toda uma sociedade que se imbecilizou, e da qual faço parte.
Para se cozinhar uma rã não podemos jogá-la em água quente: todos sabem que ela pula para fora da panela. No entanto, colocando-a em água agradavelmente morna, com fogo contínuo, a constante e sutil elevação de temperatura passa imperceptível ao animal, que morre cozido em plena água fervente, em ebulição. Faça a experiência. É assim mesmo. E assim também é a consciência humana. Existem, sim, consciências calejadas. Em nome da tolerância e do horror à qualquer tipo de discriminação, a garganta do brasileiro virou tubulação de esgoto. “Não falo por moralismo, tampouco senti reação negativa do público por questões morais”, afirma o ex-dirigente na entrevista. Sem dúvida, uma frase “politicamente correta”. Mas a reação nacional mostrou, como nos casos de corrupção política que vivenciamos, que existe, sim, moralidade. Depende de mim. De você.
Foi com o programa Concertos para a Juventude que senti a forte mordida da música dentro de mim. Foi aí que recebi o empurrão para escolher minha profissão. Estou falando aqui da minha vida, não de teorias, onde a TV brasileira ainda exercia a cidadania. Agradeço o antigo programa da Rede Globo que me ensinou a admirar o genuíno BBB. Sou hoje um homem mais feliz por ser um profissional realizado e, de coração, espero estar fazendo neste momento, com este depoimento, uma contribuição à vida cultural de meu país.
Tenho filhos pequenos e sou assinante da Veja. Ao recebê-la no final de semana, a primeira coisa que fiz, foi rasgar a capa e jogá-la fora. Este programa não representa o povo brasileiro, não serve como análise em estudos científicos e não agrega nada à alma, diferente da boa cultura!
Parabéns mais uma vez pelo artigo!
Cristiane, de fato, a última coisa que eu gostaria para mim é ser equiparado a qualquer dos “heróis” do bbb. Agradeço suas palavras de parabenização mas, em realidade, estou retransmitindo o que tantas e tantas pessoas comentam…
Um abraço
Fiquei indignada ao ver a capa da Veja – Passou dos limites? Quem? a Veja ou o bbb? Os dois!!
A Veja foi muito infeliz. Para criticar não tinha que entrar no mesmo barco naufragando junto com a Globo. Dizer que brasileiro gosta de porcaria não é verdade. Sou moralista sim. O ser humano tem uma dignidade que merce ser respeitada. Parabenizo ao Alvaro por mais uma vez ser porta voz dos que ainda buscam melhorar a educação e cultura deste país.
Teresinha.
Teresinha, parabéns a você por seu depoimento claro e destemido. Um abraço.
responder este comentário denunciar abusoSim, concordo! Os meios de comunicação passam dos limites. Há um excesso de exposição da vida alheia e um forte apelo a fraca memória e a imaginação dos que se colocam a assistir ou a ler determinadas matérias…faltam realmente com a realidade e não focam no conteúdo que deveria ser veiculado para elevar o nível dos relacionamentos. Chegam ao ridículo. Porém, cabe a nós, pertencentes a esta sociedade, mudar o canal ou trocar de leitura. Nós escolhemos e assim procuramos modificar o ambiente em que pertencemos.
O exemplo de nossas atitudes se perpetua…
Parabéns pela matéria e pelo talento artístico.
Maristela
Maristela, muito obrigado pelo comentário. De fato, não sei se é genético (?), mas a memória brasileira é bastante fraca. E eu acrescentaria, passiva. Vamos mudar o quadro!
responder este comentário denunciar abusoMeu pensamento ao respeito do bach beethoven e brahms posso dizer que sao realmente genios, mas vamos por partes, esse programa nasceu num pais de primeiro mundo, a holanda, a primeira republica do planeta, aonde a liberdade ainda é livre, e o povo disfruta de ver ou nao o que lhe é apresentado, mas acho que o bbb de la nao representa a holanda, mas como ser contra?? simples, desligando a tv e nao dando ibope pra eles, vao se afogar sem dinheiro e o programa vai acabar, agora, eles tem o poder da midia e a globo, sabemos que deve uma graninha, muita, pro governo, entao, pagam pra aparecer na veja e pronto, tudo é bussines, ninguem esta preocupado com o que o povo vai digerir, e sim o quanto eles vao comer… portanto, desliguem a televisao, nao comprem a veja, e mataremos o negocio deles, mas para isso tem que tirar o povo da ignorancia, e leva-lo pra lugares melhores… mas nao podemos restringir a liberdade que cada um tem de fazer da sua casa um alfineteiro ou um jardim.
Eduardo, lendo seu depoimento, somente posso torcer para que a nossa liberdade, a de cada um, não se transforme em alfinete. Já há muita gente picada…
responder este comentário denunciar abusoO Estado Brasileiro tem que fazer algo. Não pode se esconder atrás de uma falsa ideia de democracia. O povo consome aquilo que lhe é oferecido: deem ao povo o BBB que o Álvaro sabiamente lembrou, e teremos em poucos anos um país bem mais interessante. A que serve uma economia de primeiro mundo quando temos um povo com um nível cultural inacreditavelmente baixo? Desligar a televisão como foi dito acima, infelizmente não resolve. O nosso povo não tem discernimento para tanto.
Deus nos abençoe!!!
Raiff, tenho a certeza de que o discernimento virá quando a economia enxergar que cultura não é despesa, é investimento. Você concorda? Um abração
responder este comentário denunciar abusoSensacional o vídeo! Uma pérola!
E tá aí uma grande pedida: “Bial, larga esse bbb e monta pra gente um novo Concertos para a Juventude!!”
Paulo, muito boa ideia a sua: ressuscitar o programa de concertos. Quem sabe, talvez, até diminuindo um pouquinho a duração de alguma das inúmeras novelas…
Artigo contundente. Firmeza e idéias coerentes contra quem se imbecilizou não é falta de tolerância, e muito menos discriminação. Pegou pesado e disse tudo.
Guilherme, não pretendi “pegar pesado”, mas somente constatar fatos. Infelizmente, os fatos é que são pesados…
Um abraço para você
Caro Alvaro,
Belo texto! Obrigado por publicá-lo! Como nasci em 1985, desconhecia o “concertos para juventude” e confesso ter ficado surpreso que ele já existiu (e por longa duração).
Agradeço também por ter postado a entrevista com o artistica plástico Antonio Veronese.
Espero sinceramente que haja uma mudança intelectual nas próximas gerações, que deixem de valorizar o grotesco, fútil e estúpido e que valorizem a arte, educação e questionamento. Seria descabido dizer que necessitamos de uma nova revolução iluminista? Creio que não…
Pedro, meu caro, bela colocação a sua. Um abração.
responder este comentário denunciar abusoPuxa, mas dá o mote para um belo concerto (ou série de concertos): “O BBB, de fato: Bach, Beethoven e Brahms”. Seria uma resposta linda e elucidadora! Não combatemos o mal, o feio, ou negativo, mas enaltecemos o bom, o belo e o positivo.
Grande abraço,
Isabela, boa idéia. Já entrei em contato com um agente propondo a idéia. Se ela for adiante, como forma de agradecimento pela sugestão, você terá ingressos gratuitos ![]()
Um abraço
Puxa, adorei, Alvaro! Estou torcendo para dar certo!
responder este comentário denunciar abusoCaros amigos, nessas horas nao adianta nem fugir do pais. Se fugirmos para o Canada corremos os risco de encontrar com a Luiza e se formos para a Europa ainda escutaremos “If I catch you…delicious”. Ate agora nao entendi, é para rir ou chorar? Lamentável.
Pablo, é para chorar. Também fiquei surpreso com o episódio da Luiza. Mostra até que ponto chegou o nosso nível de estupidificação.
Um abraço
Dê ao povo o que ele quer, ou faça o povo querer o que você quer dar?
A frase acima é muito difícil de ser respondida, eu prefiro acreditar na segunda parte. Mas, vejamos… o povo é educado, em parte pela mídia. Se a nossa educação, desde cedo passa por isso, a mídia estará fazendo com que nós queiramos o que ela quer dar.
Para modificarmos essa situação, somente uma educação mais profunda no âmbito familiar em todos os níveis da sociedade seria solução. Passaríamos a querer o BBB em troca do bbb.
Com essa educação, mudaríamos a frase acima para:
Dê ao povo educado o que ele quer, mesmo que isso não seja o que você quer dar.
É claro que isso não é tão simples de acontecer, mas prefiro acreditar em “um sonho possível”, pois a realidade vem de grandes sonhos!
Fred, concordo quando você afirma que nós somos o tamanho do nosso sonho. Mas precisamos de educação séria, de pessoas mais preparadas intelectualmente. Não queria que meu desejo fosse como o de um discurso de candidatura. Resta-nos torcer para que nossos dirigentes tomem as medidas plausíveis… Enquanto isso, continuamos trabalhando!
Um abraço
Muito Bem colocado .
Hugo, valeu! Contra fatos não há argumentos.
Um abraço
BBB = Brasileiro Babaca com Bial.
- Atualizado p/o Brasil: GMB = Grande Mano Brazuca.
- BBB = Bye, Bye, Boninho.
Programa condizente com os madatários da República.
“Bye bye Boninho”. Diogenes, você acha que ele sai?
responder este comentário denunciar abusoMuito fácil servir mediocridade para um povo com formação medíocre. Hoje o BBB é reflexo dos anseios da maioria, pois não estaria ali sem ibope. Enquanto um professor ganhar R$600,00 por mês, sem qualquer formação ou avaliação, enquanto as escolas públicas forem utilizadas como palanques para influência política sobre crianças analfabetas, teremos este tipo de povo, sem cultura, moral, educação etc.
Parabéns pela publicação.
Marcus, concordo em grau, gênero e número com suas palavras. Sem educação, e com professores desmotivados, dá no que dá. Como reverter o quadro? Você tem solução? Essa é a questão.
Um abraço
Gostei muito do seu comentário, que por sinal, muito bem escrito, sobre o “bbb”! O que o Sr. Veronese fala no vídeo também não se pode contestar! Mas, amigo, como lutar com uma Rede Globo? Como lutar com uma Igreja Universal onde os “Pastores” enriquecem com milagres forjados e ainda televisionados, num total abuso da fé de multidões e, além de não serem punidos ainda são isentos do impôsto de renda! Num país onde não se valoriza a educação, a saúde, professores e médicos são mal remunerados, etc, etc, etc.
Então, aí vai meu primeiro ditado popular:- “É chover no molhado”.
Meu querido, você me emocionou quando citou o programa “Concertos para a Juventude” . Eu não perdia nenhum! Depois houve um tempo em que haviam concertos ao ar livre ( com o Maestro Karabichevisk) onde o povo de todas as classes se sentava na grama e ficava maravilhado!!! Mas…não dá IBOPE!!!
A verdade é que hoje o mundo é regido pelo PODER, DINHEIRO, CORRUPÇÃO E SEXO!!!!!!
Então, aqui vai meu 2º ditado popular que nos dá um pouco mais de esperança:- “Água mole em pedra dura tanto bate até que fura”.Amém!!!!!
De alguma forma ou de outra vamos continuar lutando por melhores dias.
Maria Helena, continuemos batendo nesta pedra dura, dura, dura. Ela vai furar! ![]()
Um abraço
Sou estrangeiro, morei aqui nos anos oitenta e agora voltei para ficar no Brasil porque gosto muito deste país e da sensibilidade musical do povo brasileiro.
Quero relatar uma experiência que tive em 1983 em ocasião de um convite para assistir a um concerto da OSPA. Acho que têm muito a ver com o que todos vocês estão falando e a necessidade de reagir.
Quando cheguei àquele concerto da OSPA havia uma multidão de jovens ali fora, gritando, e pensei que era algum protesto de estudantes revoltados. Até a polícia estava lá. Contudo, me aproximei à bilheteria para apresentar meu cartão de convidado e perguntei que era o que estava acontecendo. Explicaram-me que esses jovens estavam reclamando poder entrar apesar da sala estar lotada. Não se conformavam em perder o evento. Pois é, a OSPA teve que fazer a continuação uma segunda apresentação, repetindo o mesmo programa para esse público de jovens que brigaram para entrar.
Hoje, quase trinta anos depois, aquele fato é incrível para as novas gerações. Que aconteceu durante os últimos 28 anos no Brasil?
A questão não se limita à música clássica nem a quantas pessoas supõe-se ainda gostam dela, ou talvez saudosos de outros tempos. A música que entrou na orelha do grande público pela rádio, a TV, os CDs e DVDs mais comercializados e os gigantescos espetáculos organizados para multidões, nos fala claríssimo acerca do “som” que a maioria prefere no mundo… Quem duvidaria!
Se a mídia diz que o mundo inteiro gosta é como uma onda que vemos crescer. O grande inimigo não é tanta bobagem dita por pessoas supostamente entrevistadas para que digam quem fica ou não na famosa casa do bbb para “evidenciar” que o IBOPE está certo. O grande inimigo do BBB é essa musiqueta de ritmos pobres e monótonos, repetitiva e muitas vezes sem melodia, que segundo a mídia é a preferida no mundo.
Sou músico profissional, cultivo a música clássica e posso falar sem medo de ser qualificado de “antiquado”. Pode-se demonstrar tecnicamente que estamos perante a pobreza musical progressiva.
Mas poderia haver uma explicação lógica para justificar isto mesmo? Do ponto de vista da indústria da música, é altamente conveniente deteriorar o bom gosto do grande público. A vantagem? É muito simples, na medida em que o gosto do público vá mudando para uma menor exigência, será mais fácil vender lixo. O lixo é mais abundante que uma boa oferta de qualidade. Eis o mercado, muito aproveitável.
Gustavo, é muito forte o seu relato, infelizmente. Mas a decadência descrita acima pode ser suprida com o esforço de pessoas como você. Uma andorinha, sim, pode fazer verão. Vamos fazê-lo! Um abraço
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2012
2011
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