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A Orquestra Filarmônica de Santo Amaro: uma festa para seus 10 anos!

Alvaro Siviero

14 junho 2014 | 10:15

O ponto de encontro foi um casarão localizado em plena Avenida João Dias, no bairro de Santo Amaro, zona zul da capital paulista. Foram dois ensaios. O concerto da Orquestra Filarmônica de Santo Amaro será amanhã, dia 15 de junho, às 11h, no Teatro UniÍtalo (Avenida João Dias, 2046), onde terei o prazer de participar como solista no segundo movimento do Concerto n.2 para piano e orquestra de Rachmaninov. Insisto, será um prazer. A Orquestra Filarmônica de Santo Amaro é resultado de esforço heróico, combativo, de muitas pessoas. Um profundo trabalho não somente musical, mas social. E será a primeira vez que tocarei com uma orquestra desprovida de recursos, que existe quase por milagre, onde músicos não remunerados recebem até mesmo ajuda econômica para pagar a condução que os trará aos ensaios. Essa ajuda estende-se à compra de gravatas ou maquiagem para que os músicos se apresentem com a elegância devida. Os trabalhos de impressão gráfica dos programas são pagos com recursos de bilheteria. O design dos programas é feito pelos próprios músicos. A subvenção pública para este maravilhoso projeto inexiste. 

Enquanto eu estacionava meu carro, o destemido e simpático segurança do local,  ainda suado e com respiração ofegante, contava-me que havia acabado de recuperar um estojo de violino das mãos de um ladrão de rua. Ao entrar no casarão, cheiro de pão fresco invadia a sala de ensaio, juntamente com um cafezinho acabava de sair. Era o momento do intervalo. Um dos músicos da orquestra, em ato de desbragada generosidade, dividia com todos um volumoso pacote de chocolates Hershey’s. Alegria e simplicidade espalhavam-se pelo ar. A presença massiva da orquestra em um dia de abertura da Copa do Mundo, um suposto feriado, era outro ponto positivo. Sentei-me ao piano e começamos o ensaio. Enquanto, em silêncio, eu tentava absorver todas essas informações, houve quem se desculpasse pela qualidade do piano disponibilizado para o ensaio. “Foi o que conseguimos”, afirmou.

Nascida em 2004, na Casa de Cultura de Santo Amaro – Manoel Cardoso de Mendonça, a Orquestra Filarmônica de Santo Amaro é fruto de oficinas musicais ministradas na Casa de Cultura, desde 1993, pela maestrina Silvia Luisada, fundadora responsável e mentora da iniciativa. Surgida há exatos dez anos, a Orquestra Filarmônica de Santo Amaro vem conquistando centenas e centenas de pessoas com seu trabalho escondido e silencioso, repleto de luz e transformação. Teoria e iniciação musical, musicalização infantil, iniciação instrumental (flauta doce, saxofone e canto coral) foram alguns dos ingredientes da ideia de criar a orquestra que atenderia a demanda de jovens músicos no desenvolvimento de suas habilidades musicais. Como se não bastasse todo esse empenho, a própria maestrina Silvia Luisada é quem frequentemente acaba oferecendo a ajuda econômica acima citada. A fornada de pão fresco, acima citada, é igualmente obra sua. 

Nestes dez anos de trabalho ininterrupto, iniciados pela primeira vez no Teatro Paulo Eiró, Silvia Luisada comemora um aceno de ajuda por parte das autoridades culturais locais: tão logo a reforma do Paulo Eiró finalize, a Orquestra Filarmônica de Santo Amaro poderá contar com este teatro, de modo estável,  para sede de seus concertos. “A Ofisa tem como objetivo mostrar diferentes períodos da musica erudita, com criatividade, fazendo uma verdadeira viagem pela história musical, do barroco ao contemporâneo. Com a preocupação de formação de público, queremos encantar e impressionar as pessoas, ensinando a ouvir e compreender a musica instrumental, abrindo espaço também às grandes trilhas sonoras de filmes e ao repertório popular de qualidade, com detalhes cênicos, projeções visuais, bailarinos e personagens, que levam o ouvinte a se transportar e, quem sabe, despertar novos talentos e vocações”, defende a combativa Silvia Luisada. Vale lembrar que diversos músicos provenientes do projeto encontram-se em orquestras profissionais. Outro deles, o violinista Adriano Cerqueira Gomes, acaba de receber uma bolsa de estudos para a Alemanha, consequência do trabalho incansável do grupo que batalhou por encontrar instituições que pudessem proporcionar o devido apoio cultural.

Atualmente com 53 músicos e 12 concertos anuais, a Ofisa recebeu o apoio da QPRO Mobile, experiente e respeitada empresa no mercado de produtos eletrônicos e serviços  www.qpromobile.com.br), com a elaboração de aplicativo para celular (google play ou app store). Tudo muito completo. Vale conferir! Além disso conta com website, canal no YouTube, FanPage no facebook e afins.

Dez anos não são dez dias. A solidez comprovada da iniciativa mostra, de certa forma, que somos o que fazemos: o que não se faz não existe. Mas fica a pergunta: qual o motivo para a falta de celeridade e adesão por parte das autoridades culturais locais para abraçar este projeto tão exemplar? Enquanto busco uma resposta, sem encontrar, lembro-me do ditado que diz que frei exemplo é o melhor pregador. Pois é.  Abraçando esta causa, amanhã, buscarei farei o meu melhor. E aplaudirei, do palco, esta iniciativa.