A primeira apresentação do Quarteto Borodin, ontem, pela temporada do Cultura Artística, transformou o palco da Sala São Paulo em laboratório. Isso mesmo. A teoria virou prática. Tendo como testemunhas uma platéia atenta, os músicos transformaram em realidade aquele legítimo desejo de todo verdadeiro artista em desaparecer em fusão com seu instrumento. Em alguns momentos, até os próprios instrumentos pareciam desaparecer, onde somente sons puros eram fabricados por músicos sorridentes. O interessante é que – vale a pena fazer essa inserção – quando isso ocorre, não são somente os músicos intérpretes que estão sobre o cenário, mas também os compositores. E Brahms foi o primeiro a pisar no chão de madeira da sala. Um momento mágico.
A execução do Quarteto de Cordas n.3 em si bemol maior, Op.67, do compositor alemão ganhou especial destaque com a presença segura e extremamente musical do violista Igor Naidin. Para os não iniciados, a viola é um instrumento de difícil afinação, dado que seu timbre e escopo sonoro oscilam entre o dos violinos e do violoncelo. E é a viola quem deve unir essas duas partes. Igor Naidin revelou extrema maturidade e musicalidade. A afinação dos violinos de Ruben Aharonian e Sergey Lomovsky, segura, os transformava em um único instrumento. Em realidade, os quatro instrumentos eram apenas um, semeando a mãos cheias aos ouvidos de todos os presentes um conteúdo que dificilmente se pode esquecer. Tudo ágil. Tudo coerente. Tudo real. A vida, naquele momento, se chamava música.
Quando Tchaikovsky entrou em cena, com seu Quarteto de Cordas n.3 em mi bemol maior, Op.30, os intérpretes sabiam que estariam conversando sobre uma linguagem que lhes é conatural: a música russa. E foi aqui que mostraram o melhor que estava por vir. A presença de Vladimir Balshin, em seu cello bem timbrado, de sonoridade densa e altamente estética, estabeleceu conversa de gente grande com o restante do grupo.A presença do primeiro violino, Ruben Aharonian, fez-se mais presente, com fraseados, controle técnico e lirismo invejável (a umidade climática dificultou, durante a primeira parte do programa, uma maior projeção sonora em seu instrumento).
Para aqueles que se intimidaram diante da fria noite resta uma esperança: o quarteto faz mais uma última apresentação – a última – em SP na quarta-feira, dia 05.
Sala de concerto é uma realidade atual: as mais antigas foram inauguradas no século XIX. Em outras palavras, Mozart, Haydn, Beethoven, entre tantos outros grandes músicos, nunca experimentaram serviços automatizados de compra de ingressos, bilheteria, ECAD. Nada disso. A colocação, um tanto cômica, é um fato. Antes do advento da inauguração das nossas salas de concerto – o Musikverein, em Viena, é uma das mais antigas do velho continente – os concertos eram todos realizados em salas pequenas, na residência da aristocracia, para um público seleto que, no entardecer, se reunia para ouvir boa música, composta para um pequeno grupo de instrumentistas que se adaptasse ao tamanho das câmaras do palácio. Mas a música – como elemento vivo que é – passou por suas transformações e, com o movimento romântico, o tamanho dos grupos orquestrais foram revolucionados, em mudança forçosa de paradigmas. Surge, então, a necessidade da construção de ambientes de maior capacidade para acolher esses grupos.
O termo música de câmara, nos dias atuais, é usado para a música executada por um pequeno número de músicos, em atmosfera mais íntima. Um enorme desafio. As palavras que mais escutamos não são aquelas proferidas aos gritos, mas as sussurradas ao ouvido. E isso é a música de câmara: tudo fica exposto, todas as linhas melódicas de cada instrumento ficam explicitadas, qualquer deslize se evidencia, qualquer desafinação, assim como qualquer momento de profunda inspiração musical. Goethe comparou, certa vez, a música de câmara a uma conversa de intelectuais:poucas pessoas falando em diálogo denso.
Pois bem, e é uma das referências da música de câmara internacional que aterrissa no Brasil para apresentações pela temporada da Sociedade de Cultura Artística: o quarteto de cordas Borodin (2 violinos, viola e violoncelo). Formado em 1945 por estudantes do Conservatório de Moscou, é o mais antigo quarteto de cordas do mundo em atividade ininterrupta. Composto atualmente por Ruben Aharonian e Sergei Lomovsky (violinos), Igor Naidin (viola) e Vladimir Balshin (violoncelo), o quarteto chegou até a se apresentar nos USA em pleno momento da Guerra Fria, apesar das restrições impostas aos artistas soviéticos. Reverenciado como um dos melhores conjuntos de câmara do mundo, com gravações recebidas com aclamação pela crítica internacional, o mundo quer ver e ouvir o Quarteto Borodin em performances ao vivo. Contam-se em milhares as apresentações em todo o mundo. Já houve quem afirmasse que o Borodin Quartet não possui quatro instrumentos distintos, mas um único instrumento com dezesseis cordas.
Em São Paulo, pela Cultura Artística, Sala São Paulo, o grupo se apresenta nos dias 02 e 05 de junho, às 21h.
Pois é, parece brincadeira, mas não é. Agora é a vez dos músicos da Sinfônica do Recife entrarem com um abaixo assinado pedindo a saída de seu maestro titular Osman Giuseppe Gioia dos cargos de diretor artístico e regente titular da OSR. O efeito dominó – que tem se alastrado por diversas orquestras – parece não ter fim, o que muito preocupa. A profundidade e solidez de um alicerce é o determinante para a altura de um edifício. No Brasil, em diversos estratos, esses alicerces aparentam estar frouxos. Bastante frouxos.
Ontem, uma comissão de músicos da Orquestra Sinfônica do Recife, entregou à secretária de Cultura a solicitação da substituição “em caráter urgente” do maestro. Uma cópia foi também entregue ao prefeito Geraldo Julio. Criada em 1930 e mantida pela prefeitura, os músicos da Orquestra Sinfônica do Recife (OSR) também pedem apoio a uma estabilidade profissional mais coerente, com direito a um plano de cargos, salários, carreira.
Assinado por mais de 70% dos músicos, o documento afirma que “o referido cargo se encontra ocupado pelo maestro Osman Gioia há mais de 12 anos, fato que tem ocasionado um grande desgaste na gestão perante os músicos da orquestra e que, inclusive, já vem comprometendo a qualidade dos concertos realizados pela OSR. Assim, tornamos a Secretaria de Cultura do Recife ciente de que a permanência do maestro Osman Gioia no cargo tem se tornado algo cada vez mais insustentável e impraticável para os músicos da OSR. Desse modo, solicitamos sua substituição em caráter urgente”. O conflito foi agravado quando, no ensaio de terça-feira, anteontem, cerca de dez músicos expressaram abertamente seu descontentamento com o maestro. O valor salarial inicial pago à orquestra é de R$ 1,1 mil.
Talento não é virtude. Talento é presente, um dom, uma capacidade inata, uma facilidade que aleatoriamente recai sobre certas pessoas. Há alguns que nasceram com maior inteligência, outros com maior capacidade de comunicação, outros com maior aptidão para o futebol, outros para a vida artística. Tudo aleatório. Não há mérito. A virtude é algo bem diferente (do latim, virtus = força, determinação, empenho). Mais do que uma simples característica ou aptidão, a virtude revela a têmpera de um homem em seu esforço por transformar ações isoladas em qualidades estáveis. Dar uma esmola não é o mesmo que ser generoso. Chegar a um encontro na hora marcada não é necessariamente ser um homem pontual. A virtude, de fato, é o que revela o caráter de uma pessoa. Houve quem dissesse que caráter, virtude, é o que você faz quando ninguém está te observando. Enquanto isso, o talento continua sendo somente um talento.
Uma pessoa esforçada poderá ser um músico de destaque? Não! A arte que encanta, que emociona, não é proveniente somente de um esforço, mas também de um talento artístico. A genialidade de um Pelé, ou de um Garrincha, não são provenientes somente de horas de treino. Há quem treine sem nunca chegar lá. O mesmo na arte. Há insights, inspirações, luzes interpretativas que aparecem on the spur of the moment ao Artista, e que nunca aparecerão a um profissional, mesmo que extremamente esforçado. A facilidade psico-motora para um determinado instrumento, o tal do “ouvido absoluto” que alguns músicos afirmam possuir, entre outros, são características tão aleatórias quanto uma pinta no rosto (e olhe que uma pinta, bem utilizada, também pode ter suas vantagens…)
A dicotomia Talento x Virtude joga luz em duas situações perigosas:
1. O perigo daqueles que se prevalecem pelo talento que possuem, esquecendo-se que a posse desse talento é mera casualidade. Sempre me chamou a atenção uma situação, um tanto comum, de sala de aula: aqueles dois alunos – um de inteligência prodigiosa e outro de inteligência mediana – que, mesmo tirando a mesma nota máxima em uma prova, são alvo de análise falseada. Para o aluno de inteligência avantajada, que muito pouco estudou, muitos afirmam, com admiração: “Como é inteligente! Nota máxima sem estudo!”, enquanto que para o segundo, com desdém, afirmam: “Ah, estudando qualquer um!”. Essa conclusão enganosa não percebe que o aluno de valor, merecedor de reconhecimento, é o segundo. E fica a pergunta: o que seria do segundo aluno se possuísse o talento do primeiro?
2. O perigo dos artistas deslumbrados, que encaram o talento como mérito pessoal. Essa visão míope não tarda em se manifestar em atitudes altivas, presença de palco egocentrada e uma certa complacência nas capacidades pessoais, encaradas como próprias. Neste trajeto que acaba em valeta, não é difícil que outros artistas – verdadeiros artífices do Belo – sejam encarados como ameaça. Como resolver a questão? Olhar para dentro e, com auto-crítica, repensar no que pretendo com minha arte.
O mundo necessita da Beleza. O mundo espera pessoas amadurecidas que sejam capazes de transmitir a Beleza.
O violoncelo – um dos 4 instrumentos que integra o naipe de cordas de uma orquestra, juntamente com o violino, viola e contrabaixo – é tido, por muitos, como o rei dos instrumentos de cordas. Sempre me impressionou a extensão de seu alcance sonoro: seus agudos simulam um violino, enquanto seus graves são contrabaixísticos. De origem datada de 1680, com Stradivarius, e de som encorpado e detentor de timbre melancólico e seguro, o violoncelo é daqueles instrumentos que é abraçado pelo intérprete durante a execução. Um instrumento que desafia o músico.
O descrito acima, em dose dupla, poderá ser observado no Duo Santoro em seu primeiro CD “Bem Brasileiro”, a ser lançado amanhã, dia 28, às 20:30h, no Espaço Tom Jobim – RJ Todo ele dedicado a compositores brasileiros do século XX e contemporâneos, o disco é o primeiro gravado pelos gêmeos Paulo e Ricardo Santoro, em atividade musical a mais de duas décadas. A fraternidade univitelínea dos irmãos é comprovada nas 24 faixas musicais do disco em momentos em que o violoncelo se transforma em voz humana. Em outros, tambor.
Uma homenagem, na primeira faixa do disco, a Villa-Lobos que, em sua iniciação musical, escolheu o violoncelo como instrumento. Com direção artística do pai, o contrabaixista Sandrino Santoro, com quem os gêmeos iniciaram seus estudos desde meninos, e produzido por Sergio Roberto de Oliveira, indicado ao Grammy Latino 2012.
Duo Santoro
Nascidos no Rio de Janeiro, os gêmeos Paulo e Ricardo fazem parte da Orquestra Sinfônica Brasileira desde 1986 e da Orquestra Sinfônica da UFRJ desde 1989, no mesmo ano em que se graduaram pela Escola de Música da UFRJ com nota máxima e dignidade acadêmica Magna Cum Laude. Com Mestrado em Música, já se apresentaram como solistas à frente de várias orquestras, além de participarem de outras formações camerísticas distintas, tais como Trios, Quartetos e outros Duos.
Único duo de violoncelos em atividade permanente no Brasil, o Duo Santoro estreou em 1990 e já se apresentou nas principais salas de concerto do Brasil. Seus recitais incluem um leque eclético de estilos que vai do erudito ao popular. As transcrições e arranjos para violoncelos são assinados, na sua maioria, pelo próprio Duo. Uma das principais metas do Duo Santoro é a divulgação da música brasileira. Para isso, contam com a colaboração de vários compositores, que dedicaram algumas de suas principais obras ao Duo.
No ano de 1992, tiveram seu trabalho reconhecido através das condecorações “Medalha de Ouro” e “Medalha de Prata” conferidas pela Escola de Música da UFRJ, iniciando, a partir daí, participações constantes em gravações para televisão e rádio. Já tocaram ao lado de mestres da música popular como Sivuca, Robertinho do Recife, Bibi Ferreira, Maria Bethânia e Gilberto Gil, entre outros; e em palcos teatrais ao lado dos atores Carlos Vereza e Nathalia Timberg, além de participações em discos de Guilherme Arantes, Simone, Almir Sater e Roberto Carlos, entre outros.
Em 1995, Paulo e Ricardo Santoro receberam por unanimidade da “União Brasileira de Escritores” o Prêmio PERSONALIDADE CULTURAL. Nas comemorações dos 20 anos do Duo Santoro, em 2010, se apresentaram em praticamente todo o Brasil e na República Dominicana, coroando o ano com um recital no famoso Carnegie Hall de Nova York.
Serviço
Local: Espaço Tom Jobim -RJ
Rua Jardim Botânico, 1.008, Jardim Botânico
Hora: 20:30h
Entrada: R$10,00 (inteira) e R$5,00 (idosos e estudantes)
Informações: (21) 2274-7012
Estacionamento Grátis
Kátia é uma enfermeira no Rio de Janeiro. O grave estado de saúde de sua mãe fê-la abandonar uma semana inteira de trabalho em seu hospital para estar ao lado de Dona Júlia, que morava em Petrópolis. Generosa, Kátia sofreu muito ao seu lado. Ao regressar, angustiada, esperando do marido uma palavra de aconchego – ele nem havia telefonado para saber como se encontrava a sogra – encontrou um panorama desolador: louças sujas, cinzeiros cheios, camas desarrumadas, uma bagunça generalizada. Quando chegou à sala, o marido, sem tirar os olhos da TV, disse-lhe: “Ainda bem que você voltou, pois este lugar está parecendo um depósito de lixo”. Não é difícil compreender como se sentiu a Kátia: como o próprio pano de chão. O fato – tão real e verdadeiro quanto a falta de sensibilidade do marido – surpreende. Qualquer um é capaz de enxergar a falta de tato – grossura! – do Roberto. Menos ele. É assim que funciona o egocentrado, que tem olhos somente para seus próprios interesses, incapaz de olhar para os outros sem passar algum tipo de fatura.
Sensibilidade – ou sua falta – não é problema de educação ou de cumprimento de regras de etiqueta. É problema da alma. As reais e enormes diferenças psicológicas, somáticas, emocionais e físicas entre o sexo masculino e feminino não nos faz concluir que sensibilidade é coisa de mulheres: já vi mulheres grosseiras, bem como homens refinados e generosos. O problema, de fato, é anímico. Embora o choque de interesses e de indiferenças seja doloroso à pessoa sensível, pior e mais doloroso é o isolamento e a incapacidade de relações verdadeiras e altruístas que recai sobre a pessoa self-centered, consequências naturais da frieza semeada. O sensível – incluída aqui a dose de esforço pessoal – chega sempre mais longe, talvez por saber escolher pessoas ao invés de coisas.
No entanto, a tendência de um homem ou de uma mulher a girar em torno de si mesmo, a converter o próprio ego no centro dos pensamentos e no ponto de referência de todas as ações – o egocentrismo – é o principal aliado de muitos ressentimentos que, em pouco tempo, são capazes de transformar suas vítimas em seres extremamente vulneráveis, que reagem com intensidade desproporcionada a ofensas ou afrontas que, alimentadas pela imaginação, se agigantam de forma gratuita, como o de alguém que pensa que o outro não quis cumprimentá-lo, quando este, na realidade, nem chegou a dar-se conta da sua presença. E os sintomas, muitas vezes motivados por carências afetivas, se multiplicam: vitimismos, hipersensibilidades, que não me consideram, que se esqueceram de mim, que não me convidaram, que não… Enrique Rojas, celebrado psiquiatra, adverte: “uma das coisas que mais entristece o homem é a egolatria, origem de sofrimentos inúteis, produzidos por uma excessiva preocupação por tudo o que é pessoal”.
Que nós artistas nunca nos esqueçamos disso. E que todos nós lembremos que, como diz o ditado, felicidade é uma porta que se abre para fora.
Caros amigos, esta é a decisão (recebida da assessoria de imprensa da Prefeitura do Rio de Janeiro).
“Atendendo à solicitação do conselho da Fundação Orquestra Sinfônica Brasileira, com quem se reuniu na tarde desta quinta-feira, dia 2 de maio, o prefeito Eduardo Paes decidiu manter o apoio financeiro da Prefeitura do Rio para a OSB, nos atuais R$ 8 milhões por ano. Durante a reunião, ficou acertado também que o secretário municipal de Cultura, Sérgio Sá Leitão, passa a integrar o conselho em nome da Prefeitura do Rio. O prefeito Eduardo Paes e os membros do conselho estabeleceram o desafio de transformar a OSB na principal orquestra do Brasil até 2016″.
Saudações musicais a todos!
Um resumo dos últimos e infelizes acontecimentos que rondam a OSB: o prefeito do Rio de Janeiro declarou, de modo contundente e desbragado, que a OSB não mais receberá o patrocínio da prefeitura do Rio, embora afirmasse que continuará a ajudar a OSB (de que forma?). Propôs, além disso, que a OSB – Orquestra Sinfônica Brasileira sofra uma fusão com a OPES – Orquestra Petrobrás Sinfônica, dado que o Rio de Janeiro necessita, somente, um grupo sinfônico forte.
“O Rio tem duas orquestras sinfônicas: a OSB e a OPES. Uma tem como regente Isaac Karabtchevsky, meu querido amigo. Outra tem Minczuk, com quem tenho boa relação. Os músicos que tocam nelas são, em muitos casos, os mesmos. A OSB custa R$40 milhões por ano. A outra, R$20 milhões. (…) A cidade merece ter uma orquestra sinfônica, mas a prefeitura não vai bancar vaidades”, disparou o prefeito. Desnecessário dizer que o pronunciamento levantou a ira de todos. “O dinheiro público tem que ser investido em coisas que, de fato, tragam projeção à cidade”, declarou.
Minha análise pessoal faz acreditar que a OSB poderá continuar a desenvolver seu trabalho, prescindindo deste apoio financeiro. Mas evidencia, sem sombra de dúvida, esse desinteresse preocupa. Encarar uma orquestra como maquiagem para projeção de uma cidade é, no mínimo, um engano. Hoje, em diversas cidades em que passo por motivos profissionais neste mundo afora, o Rio de Janeiro é conhecido como seara do futebol, de mulatas peladas, do samba e da cerveja.
Alguns dados importantes:
1. O prefeito não fez alusão à Orquestra do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a mais antiga do Rio de Janeiro, fundada em 1931 (OSB-1940, OSB “Ópera&Repertório-2011 e OPES-1972). Ao afirmar que o Rio possui duas orquestras acabou deslizando pesado.
2. O assunto, ventilado para o grande público através dos meios de comunicação, nunca havia sido discutido anteriormente, de forma interina, com as partes interessadas.
3. A medida diminuirá a oferta de espetáculos, o mercado de trabalho e a abrangência geográfica de concertos. O presidente da Fundação OSB, Eleazar de Carvalho Filho, afirmou que, caso seja necessário fazer cortes, o conselho verificará onde o dano será menor. E o principal gasto da Fundação OSB é a folha de pagamento.
4. Em diversos países do mundo, desenvolvidos, existe uma média de 1(uma) orquestra para cada 300 mil habitantes. O Rio possui 8 milhões. Tóquio possui 11 grupos sinfônicos, e cidades como Paris, Viena, Londres… possuem, aproximadamente, 5 grupos sinfônicos em cada uma dessas cidades. Cultura virou despesa?
5. No país do futebol em que estamos, faria sentido a fusão do Vasco com o Fluminense? Ou do Flamengo com o Palmeiras? Que tipo de contenção de gastos se busca? Qual o critério para se afirmar que a OSB “não traz projeção à cidade”?
Entrei em contato com a assessoria de imprensa da prefeitura, pedindo respostas a essas colocações. Tão logo as tenha, enviarei as respostas.
Pois é, a Prefeitura do Rio de Janeiro cancelou o repasse de R$ 8 milhões que faria à Fundação OSB, previsto para 2013. O valor, que representa 20% do orçamento das atividades, foi suspenso formalmente através de uma carta assinada pelo prefeito Eduardo Paes. Qual a justificativa? Poupar fundos para investimento na preparação da Copa do Mundo (2014) e Jogos Olímícos (2016), que ocorrerão na cidade maravilhosa, e outros eventos de grande envergadura.
A notícia pegou de surpresa a todos, incluindo a superintendência da Fundação Orquestra Sinfônica. Segundo o superintendente Ricardo Levisky, a colocação é clara: “Estamos pleiteando encontro com o Prefeito que sempre foi muito parceiro da OSB. Toda grande cidade tem uma grande orquestra. O Rio precisa mostrar ao mundo sua beleza natural, seu carnaval e sua música, que é parte da identidade do Brasil”.
O motor econômico da Fundação OSB funciona na seguinte proporção: 20% patrocínio realizado pela Secretaria de Cultura Municipal, 70% de verba doada pela iniciativa privada (incluindo-se, aqui, as leis de incentivo) e 10% com verba de bilheteria e doações. A situação tem contornos de algo definitivo: a decisão veio formalmente, com carta assinada pelo próprio prefeito, onde sua assessoria afirma que o prefeito não pretende se pronunciar sobre o assunto. Resta, agora, a possibilidade de se estudar outras formas de ajuda pois, pelo que tudo indica, a torneira fechou mesmo: a Secretaria de Cultura não quis se pronunciar sobre o assunto, assim como ninguém do Gabinete da Prefeitura.
Após a crise que assolou a orquestra, em 2011, com a demissão e recontratação de 33 de seus músicos, a Fundação OSB tem mantido duas orquestras: a OSB e a OSB “Ópera&Repertório”, esta formada pelos dissidentes readmitidos, e que morde uma boa fatia desse orçamento. Duas orquestras independentes, e que quase não se falam. Um marido que sustenta duas famílias. Complicado.
Recentemente estive solando com a OSB. A atenção esmerada, o imenso profissionalismo e atenção que recebi, o zelo pela excelência constante nos detalhes, contudo, não conseguia encobrir um certo ressentimento ainda solto no ar, ressentimento esse exacerbado com a demissão recente de Fernando Bicudo, diretor artístico da OSB “Ópera e Repertório”. Sem dúvida, um impasse.
A próxima turnê que farei pela Holanda, em novembro, trouxe-me um mix de alegria e surpresa. Alegria, dado que ela se encerrará, em Amsterdam, no célebre Concertgebouw, um santuário da música clássica universal. A surpresa? Farei o desafiante Concerto n.1 para piano e orquestra, de Shostakovich, compositor russo raramente interpretado no Brasil. Sua obra foi mais executada a partir dos anos 90, sobretudo pela OSESP, na época de Neschling. O Lauro Machado Coelho lançou, no Brasil, uma biografia pela editora Perspectiva: Shostakovitch: Vida, Música, Tempo.
A vida e obra deste compositor sempre me trouxeram um aperto na boca do estômago. Uma confusão entre cultura e política. Alguns fatos, permeados de contradição:
Ao final da vida, afetado por diversos problemas de saúde crônicos, uma doença debilitante afetou sua mão direita forçando-o a parar de tocar piano. Sofria também de poliomielite. Sofreu diversos ataques cardíacos e chegou a quebrar as duas pernas em diversas quedas que sofreu. Faleceu de câncer, em 1975, e seu sepultamento ocorreu em Moscou. O obituário oficial não apareceu no Pravda até três dias depois de sua morte: o texto necessitava prévia aprovação por parte do alto escalão, por Brezhnev e restantes membros do Politburo.
Na Holanda, viverei esse momento musical – e quaisquer outros momentos musicais que eu viva, onde quer que eu esteja neste mundo globalizado – com uma clara determinação: política cultural, sim! Interferência política na cultura, não!
Aos interessados, uma excelente versão do Concerto n.1, com a pianista Martha Argerich. Um concerto ágil, repleto de contestação e com direito a um final eletrizante (com participação especial do trompete!)
2013
2012
2011
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