Não estamos aqui diante de um problema artístico, mas humano. Ao longo da vida, a evidência de nossas limitações afetivas, físicas, espirituais e intelectuais caminha de mãos dadas com uma necessidade indeclinável de superação. É como se, por um lado, o instinto de perfeição, beleza, felicidade e realização que temos nos engrandecesse mas, por outro, o contraste com a nossa realidade nos atormentasse. Quando experimentamos nossas limitações ou a minguada estatura da nossa personalidade, pode brotar no nosso íntimo uma insatisfação que, quando mal compreendida, pode converter-se em sentimento de inferioridade, de comparação ou de insegurança. Em sentido contrário, essa constatação pode ser também um estímulo para subirmos alto: John Kennedy, que sofria de sérios problemas de coluna, ou Franklin Roosevelt, que andava de cadeiras de rodas, não se sentiam inferiorizados por terem essas graves limitações físicas. O que para uns é motivo de afundamento, inibição e medo, para outros é um verdadeiro desafio. É o mistério da liberdade humana.
Alguns – e isso acontece – escolhem um terceiro caminho: negam suas limitações e convencem-se de que sua personalidade real coincide com a criada pela imaginação. Diante do impulso essencial do homem para a unidade, a vítima tenta provar que sua personalidade fingida coincide com a personalidade real; ou, melhor, que sua personalidade real é a fingida. Aqui reside a falência artística. O artista é aquele que transmite a verdade da sua arte durante a performance, reflexo da verdade de vida. Esse artista comprometerá a música verdadeira.Não convencerá.
Quando a fonte de segurança artística baseia-se em aprovações externas, no que vão dizer de mim e na expectativa do sucesso ou do fracasso, estabelece-se o quadro da ansiedade, originada por um desajuste interno baseado, muitas vezes, no que pensarão de mim. É o caso, por exemplo, do artista que tem fama e teme perdê-la. Os ansiosos se esquecem de que a verdadeira segurança é consequência do ajuste com o que realmente somos e não da opinião dos outros sobre nós. O medo – algo diferente – é um temor específico gerado por algo que vem de fora de nós trazendo inquietação, desassossego e alarme. A ansiedade origina-se
O homem seguro aceita-se a si mesmo: seja eu capaz ou não de algo, seja eu pouco ou muito hábil, seja eu artisticamente inclinado mais aos compositores românticos ou seja tecnicamente despreparado para os compositores modernos, enfim, tudo caminha dentro de um quandro claro e aceite.
O homem seguro não tem medo de errar: simplicidade, transparência e espontaneidade são o melhor remédio para a tensão e timidez. Olhar as pupilas alheias como um espelho onde se reflete a nossa própria imagem denota um comportamento raquítico e decadente: cheira a mofo do próprio Eu, imobiliza, retrai, inibe e tranca a espontaneidade. Uma pessoa nessas condições não está preparada para pisar no palco.
O homem seguro abre-se aos outros: superar a insegurança implica esquecimento de si próprio. A preocupação excessiva com o sucesso pessoal e o contínuo retorno ao próprio Eu é o que traz consigo o medo do fracasso. A coragem para abrir-se traz consigo a abertura que dá coragem.
Um alto executivo confidenciava esses dias que o que falta em muitos profissionais não é competência técnica, mas competência humana. É claro que um artista responsável não ousa pisar no palco sem estar musicalmente preparado, mas que não esqueçamos que pouco valem os dedos ágeis de um artista quando o coração e a cabeça – onde está a música – ficaram parados no tempo, olhando a banda passar…
Em 1980, durante o 10° Concurso Internacional Fryderyk Chopin , os holofotes da música erudita mundial voltaram-se para o pianista Ivo Pogorelich. Motivo? Sua desclassificação. A injustiça foi proclamada aos quatro ventos pela deusa do piano, a pianista argentina Martha Argerich, que protestou e até se retirou da banca examinadora. Foi um constrangimento só. O indigesto impasse, infelizmente, arranhou a reputação da competição e acabou trazendo ao pianista iugoslavo toneladas de convites para recitais, além de contrato de gravação com um dos mais respeitados selos da música de concerto. O vencedor, o vietnamita Dang Thai Song que se apresentará em São Paulo nos dias 06 e 07 de agosto pela Sociedade de Cultura Artística (vale a pena conferir), acabou sendo eclipsado. Um eclipse quase total.
Em 2006, no Brasil, a tentativa de sediar uma competição internacional de piano – o Concurso Villa-Lobos – trouxe muita lama ao teclado. Em diversas reportagens (Veja , O Estado de São Paulo, entre muitas outras), todo o panorama de influências e jogos de poder veio à tona, tornando quase impossível separar-se o joio do trigo. O mesmo já me foi testemunhado por diversas pessoas do alto escalão de competições internacionais referente a tantos outros concursos. Embora não haja “comprovação”, o fato é sempre mais ou menos o mesmo.
Vencer uma competição traz visibilidade. OK. O principal prêmio pela vitória – juntamente com uma soma em dinheiro, recitais e gravação de CDs – é a visibilidade. Mas diante do quadro acima exposto – parcial, porém real – e de casos de músicos bem sucedidos que nunca enfrentaram uma competição – como exemplo o russo Yevgeny Kissin – muitas dúvidas surgem. Chama a atenção, por exemplo, a quantidade de emails sobre o pianista Daniil Trifonov – terceiro lugar na competição Chopin de 2010 e que esteve recentemente no Brasil – e quase nenhum sobre a vencedora do mesmo concurso, a russa Yulianna Avdeeva. São diversas as indagações.
O que afirmar de diversos vencedores de competições internacionais que vivem no mais absoluto anonimato? Existe diferença entre vencedor e finalista? Pode-se comparar uma competição a uma entrega do Oscar, com suas cartas previamente marcadas? Difícil saber…
O exímio pianista e professor Karl-Heinz Kämmerling (6-V-1930; 14-06-2012) acaba de falecer. Uma geração de pianistas passaram por suas mãos. Lecionava no Mozarteum, em Salzburg, na Hoschule de Hanover e era professor convidado da Universidade de Música de Zagreb. Para se ter uma idéia: na celebração de seus 80 anos, 80 de seus estudantes já haviam vencido competições nacionais, 50 haviam vencido competições internacionais e 21 eram professores acadêmicos. R.I.P.
Faz poucos dias, deparei-me com um texto da poetisa africana Tolba Phanem que, de modo simples e direto, externa algo que me deixou pensativo.
“Quando uma mulher, de certa tribo da África, sabe que está grávida, segue para a selva com outras mulheres e, juntas, rezam e meditam até que aparece a “canção da criança”. Quando nasce a criança, a comunidade se une e lhe cantam a sua canção. Logo, quando a criança começa sua educação, o povo une-se novamente, e lhe cantam sua canção. Quando se torna adulto, os integrantes da tribo se juntam novamente e cantam. Quando chega o momento do seu casamento a pessoa escuta a sua canção. Finalmente, quando sua alma está para ir-se deste mundo, a família e amigos aproximam-se e, igual como em seu nascimento, cantam a sua canção para acompanhá-lo na viagem. Nesta tribo da África há outra ocasião na qual os homens cantam a canção. Se em algum momento da vida a pessoa comete um crime ou um ato social aberrante, o levam até o centro do povoado onde as pessoas da comunidade formam um círculo ao seu redor para cantarem a sua canção. A tribo reconhece que a correção para as condutas anti-sociais não é o castigo: é o amor e a lembrança de sua verdadeira identidade.
Quando reconhecemos nossa própria canção já não temos desejos nem necessidade de prejudicar ninguém. Teus amigos conhecem a “tua canção” e a cantam quando a esqueces. Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes ou as escuras imagens que mostras aos demais. Eles recordam tua beleza quando te sentes feio, tua totalidade quando estás quebrado, tua inocência quando te sentes culpado e teu propósito quando estás confuso.”
O texto – que evidencia o valor e grandeza do coração africano – reforça a certeza do valor do ser humano, que independe de sua raça, língua, valores econômicos, prestígio, saúde, cor ou crenças. O valor é sagrado, como a canção que o acompanha. Decidi-me a também escolher uma canção, uma música, que começará a me acompanhar. Quando o peso das dificuldades ou a alegria da vida chegarem mais perto, lembrarei o que sou. E, embora ainda não o seja, lembrarei também ao que fui criado a ser. Fica o convite.
O brasileiro Luíz Fïlíp venceu, em 24 de maio, o concurso para a vaga de 1º violino da Filarmônica de Berlim. Foi a primeira vez que a orquestra votou em unanimidade para um candidato. Luíz Fïlíp era constantemente convidado a tocar na orquestra desde 2009 com contratos temporários. Com a oportunidade de uma vaga aberta no início do ano, Luíz Fïlíp teve que enfrentar 60 candidatos oriundos de diversos países para se tornar agora um membro efetivo da orquestra.
As provas para um concurso desse porte se resumem em duas performances apresentadas a portas fechadas para os integrantes da orquestra reunidos na platéia da Philharmonie, a imponente sala de concertos da Filarmônica. A primeira prova exigiu a execução de um concerto de Mozart, quando resultaram quatro candidatos para a prova final. A segunda prova, um concerto romântico. Luíz Fïlíp executou o concerto de Brahms. Fato raro, recebeu palmas nas duas provas, quebrando o rígido protocolo alemão.
O violinista começou a estudar em São Paulo, sua cidade natal, aos 4 anos. Aos 16, enquanto visitava a irmã na Alemanha, tocou para o violinista suéco Ulf Wallin, professor do Conservatório Superior de Música Hanns Eisler de Berlim, que lhe ofereceu de pronto uma vaga. Nesse período Luíz Fïlíp se especializou em diversas escolas de música como no Conservatório Real da Suécia, na Universidade de Artes de Berlin e na Academia da Filarmônica de Berlim, tendo aulas com violinistas como Zakhar Bron, Guy Braunstein e Axel Gerhardt. E venceu três concursos internacionais: Henri Marteau, Tibor Varga e Gerhard Taschner.
Luíz Fïlíp integra o renomado grupo de câmara da Filarmônica de Berlim. Como o próprio Luíz Fïlíp comentou, “a perfeição não era suficiente, tive de fazer mágica”.
PS: Conheço o violinista, já fizemos música juntos (lembro-me agora de uma apresentação com a Sonata n.3 de Brahms… ) e estou imensamente orgulhoso por essa vitória mais do que merecida. Será que exemplos como esse empurrarão nosso governo a entender que cultura não é despesa, mas investimento?
Nesta semana, em companhia do Leandro Gardini, conversamos extensamente sobre música. Falei muito do que penso. Falei sobre o que é a responsabilidade de ser um artista. Falei também do sagrado que é trabalhar com música. Há quem possa pensar diferente, o que é muito bom. Mas falei o que penso. Falei muita coisa…
Fazer música não é um hobby. Música não é profissão: é entrega.
Quando o programa “Trilhando Clássicos” encerrou – o tempo havia se esgotado – havia ainda uma série de tópicos programados para essa conversa que ficaram por ser tratados. O assunto é denso.
De fato, como diria uma pessoa que muito respeito – e estou cada vez mais convencido disso – a Música é infinita como o Universo.
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