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Alvaro Siviero

Caros amigos, depois de alguns emails e telefonemas que recebi sobre o post Carmen, de Bizet: um escândalo, que se encontra abaixo deste, como pianista, sinto-me no dever de dividir com vocês a transcrição desta obra para piano, elaborada pelo pianista russo Vladimir Horowitz. A obra apoia-se, fundamentalmente, no tema da ária Les tringles des sistres tintaient, que se encontra no post abaixo. Como sugestão, assista primeiramente o original abaixo para, depois, se embrenhar em toda a riqueza e beleza musical que Horowitz verteu nesta estarrecedora e difícil transcrição. O pianista também russo Yevgeny Kissin, que estará realizando uma série de recitais pelo Brasil em 2012, é quem interpreta. Recomendo já garantir seus ingressos!

 

 

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Neste final de semana revi a ópera Carmen, com a extasiante mezzo-soprano grega Agnes Baltsa, no Metropolitan de NY, sob regência de James Levine. Estou refeito!

A cigana Carmen, um animal vivo, orgulhoso, alegre, que planejava assassinatos e roubava ao som do prazer, não conhecia regras nem escrúpulos. Amava quando queria, por quanto quisesse, sem nunca se prender a alguém. No início da ópera se envolve em rebelião dentro da fábrica de tabacos onde trabalha e fere com uma navalha uma de suas companheiras. A estória se passa em Sevilha. O desenrolar trágico dos acontecimentos, envolvendo uma traição ao soldado que lhe fez juras de amor, empalideceu a platéia parisiense que, imóvel, assistiu a estréia da obra, no dia 3 de março de 1875, no Opera-Comique de Paris.  Carmencita, sem dúvida, era uma violação. A platéia retirou-se do teatro em um silêncio de gelo. A crítica veio tempestuosa nos dias seguintes afirmando até mesmo estar a orquestra musicalmente encolerizada e alucinada, louca, pela energia declarada já na abertura da obra.

O fracasso da estréia afetou a saúde de Bizet, já desgastado pelos ensaios, mental e espiritualmente. Carmen era uma obra muito original para a época, que havia se acostumado a celebrar finais de tramas onde tudo é positivo, onde os corretos valores da vida são exaltados e os imorais recriminados. A estória – principalmente seu final – quebrou todos os moldes e protocolos da época. Quando as cortinas do palco se fecham, a cigana Carmen é deixada morta no palco.

Para recuperar-se, Bizet se retirou a uma cidadezinha do interior da França – Bougival – para recuperar-se do forte ataque de angina que sofrera. Enquanto ainda tentava se recuperar, Lyon, Marselha, Angers, entre outras cidades francesas, também representavam a opera e, fora da França, Áustria, Itália, Rússia, Alemanha, Inglaterra… era a consagração. O valor da obra prevaleceu, apesar da atitude dos “entendidos” de arte, dos críticos musicais, que a retalharam.  Esta quarta e última opera do compositor francês firmou-se como um marco. A admiração surge também entre diversos músicos, de Wagner a Brahms, de Tchaikovsky a Busoni. Mas, infelizmente, Bizet não gozou do sucesso de sua obra prima: faleceu no dia 03 de junho de 1875, três meses após a estréia, em seu retiro em Bougival.

Deixo abaixo o vídeo da célebre abertura desta trágica estória: um must. E para meu deleite, espero que também seu, uma das cenas que sempre me rouba a atenção de modo especial.  Desfrutem!

Moral da estória: o negócio é tomar mais cuidado com a forma como criticamos, oral ou por escrito, o trabalho dos outros.

Overture

Agnes Baltsa canta “Les tringles des sistres tintaient”

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24.janeiro.2012 09:15:32

BBB?

Em Música, o símbolo BBB (freqüentemente citado em qualquer livro ou caderno de cultura) é uma referência direta a três gênios da música alemã: Bach, Beethoven e Brahms. Esse BBB, que foi o que sempre conheci, possui tal força que se perpetuará mesmo que você, caro leitor, não esteja mais neste mundo. Meu primeiro contato com este símbolo, faz anos, foi no programa Concertos para a Juventude, veiculado pela Rede Globo, que rompeu barreiras entre a música erudita e o grande público. Um verdadeiro sucesso. Inicialmente, o programa consistia na exibição de pequenos concertos didáticos, tudo ao vivo. Posteriormente, passou a apresentar até obras mais complexas, sempre com excelente audiência, chegando a ser apontado pela Unesco como modelo de divulgação de cultura. Permaneceu 19 anos no ar (1965-1984).

Hoje a sigla bbb (em letras minúsculas, propositalmente, pelo seu mérito) ganhou outro significado: o do vale tudo. A capa da revista VEJA desta semana (talvez buscando o mesmo ibope do bbb, quem sabe?) “veicula a notícia” nos mesmos moldes que o programa de TV. Tudo muito sutil (ou nem tanto). Afirmar, como o profissional entrevistado na edição o faz, de que a TV brasileira caminha junto com a sociedade, que reflete a sociedade atual é, no mínimo, uma falácia. É exatamente o contrário. A TV norteia o comportamento de toda uma sociedade que se imbecilizou, e da qual faço parte.

Para se cozinhar uma rã não podemos jogá-la em água quente: todos sabem que ela pula para fora da panela. No entanto, colocando-a em água agradavelmente morna, com fogo contínuo, a constante e sutil elevação de temperatura passa imperceptível ao animal, que morre cozido em plena água fervente, em ebulição. Faça a experiência. É assim mesmo. E assim também é a consciência humana. Existem, sim, consciências calejadas. Em nome da tolerância e do horror à qualquer tipo de discriminação, a garganta do brasileiro virou tubulação de esgoto. “Não falo por moralismo, tampouco senti reação negativa do público por questões morais”, afirma o ex-dirigente na entrevista. Sem dúvida, uma frase “politicamente correta”. Mas a reação nacional mostrou, como nos casos de corrupção política que vivenciamos, que existe, sim, moralidade. Depende de mim. De você.

Foi com o programa Concertos para a Juventude que senti a forte mordida da música dentro de mim. Foi aí que recebi o empurrão para escolher minha profissão. Estou falando aqui da minha vida, não de teorias, onde a  TV brasileira ainda exercia a cidadania. Agradeço o antigo programa da Rede Globo que me ensinou a admirar o genuíno BBB. Sou hoje um homem mais feliz por ser um profissional realizado e, de coração, espero estar fazendo neste momento, com este depoimento, uma contribuição à vida cultural de meu país.

 

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Andando pela Avenida Paulista, com pressa paulistana, dias antes do Natal, deparei-me com a capa de um livro: Great Contemporary Pianists Speak for Themselves (Grandes Pianistas contemporâneos falam por si). Parei diante da vitrine. Ao entrar na loja pude verificar que o livro recolhe 25 entrevistas com célebres pianistas: Wladimir Horowitz, Emil Gilels, Jorge Bolet, Ivo Pogorelich, Ashkenazy, Brendel, Glenn Gould, Cláudio Arrau, entre muitos outros falavam de sua arte, vida e desafios. A aquisição do volume foi imediata.  Una-se a isso o fato de a entrevistadora/autora Elyse Mach ser musicista o que, segundo os próprios pianistas, facilitou enormemente o diálogo dando ao livro não somente um caráter de entrevista, mas em oportunidade de dividir impressões musicais entre quem as vivencia, aprofundando o conteúdo do diálogo: o medo pré-concerto, a exaustão pós-concerto – onde o pianista Stephen Hough o compara à síndrome pós-parto -,  o como encarar e preparar passagens difíceis de uma obra (faz-se alusão à coda da Balada em fá menor de Chopin) e, o que muito me prendeu, em como trabalhar o lado fraco e forte da mão de um pianista. Talvez  muitos não saibam, nós pianistas temos um grande desafio: como dar força aos dedos anular e minguinho, problemáticos quando comparados à força existente no polegar, indicador e médio.

O livro recolhe depoimentos divertidos envolvendo diversas problemáticas. O pianista André Watts, por exemplo, faz extensa explicação sobre sua dedicação de horas ao estudo e o que significa ser bem sucedido na carreira artística. Horowitz comenta sobre o início de sua carreira. Gilels comenta sobre seu primeiro recital em Odessa. E tudo isso regado por digressões da autora que, ao desenvolver suas impressões pessoais sobre o entrevistado,  posiciona o leitor dentro da conversa. Enfim, um livro que se impõe como uma excelente aquisição a todos os que admiram música e, quase, como uma necessidade àqueles que sabem interpretar o instrumento.

Com introdução de Sir Georgi Solti, o livro recolhe interessantes fotos (preto e Branco) dos entrevistados. Editora Dover Books.

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Escolhi o Rio de Janeiro – cidade maravilhosa – para ser cenário e fonte de inspiração para meu início de 2012, onde ainda me encontro.  Em um dia ensolarado, passeando pela Barra da Tijuca, deparei-me com as obras da Cidade da Música. Atualmente denominada Cidade das Artes. Gostaria de dividir algumas informações com vocês. Somente fatos.

1. O projeto da obra, apoiado em desejo do prefeito César Maia e idealizado pelo arquiteto francês  Christian de Portzamparc, foi apresentado em outubro de 2002, com inauguração prevista para o final de 2004 e custo total de R$ 80 milhões de reais. Em agosto de 2008, quatro anos após a previsão do projeto, a prefeitura do Rio de Janeiro decide inaugurar o complexo. O desejo é vetado pelo Corpo de Bombeiros da cidade (assista ao vídeo). Neste momento, o investimento já havia chegado a R$431 milhões de reais. Enfrentando críticas da opinião pública e de seus opositores, César Maia estabelece o mês de dezembro como nova data para inauguração do complexo cultural, quando o prefeito já apagava as luzes do seu período de mandato. “Ficará para a posteridade da cidade. A polêmica foi exagerada por politicagem. É isso que gravará meu nome nela. Se tivessem inaugurado quatro meses depois (ou seja, já no mandato do atual prefeito Eduardo Paes) ninguém se lembraria da autoria”, declarou o antigo prefeito. A “inauguração”, ocorrida há mais de 3 anos, teve direito, inclusive, a tombo do entusiasmado prefeito (assista ao video).

2. A Cidade da Música receberia o nome do jornalista Roberto Marinho, recém-falecido. O decreto (n° 23243), que dava o nome à Cidade da Música, teve que ser alterado, a pedido da própria família Marinho, que não queria ver o nome do empresário das Organizações Globo associado ao complexo.

3. No início de sua gestão, o novo prefeito Eduardo Paes não poupou críticas ao projeto milionário. Contratou-se uma auditoria que levantou indícios de fortes irregularidades. Esfriada a polêmica criada, a atual gestão da prefeitura retomou as obras. Até o final de 2011 já foram investidos na obra, aproximadamente, R$515 milhões de reais. No dia 15 de dezembro de 2011, um princípio de incêndio, em uma das salas, é controlado por bombeiros. Ninguém ficou ferido.

Entre os espaços da Cidade das Artes – um gigante faraônico de 90 mil metros quadrados – encontram-se estão 13 salas de ensaio, 13 salas de aula, 3 lojas, videoteca, 3 salas de cinema, sala de eletroacústica, restaurante, cafeteria, 738 vagas de estacionamento, entre outros, além de sua sala principal de concertos, com capacidade de até 1.800 lugares, uma sala secundária, com capacidade de 800 lugares.  A Cidade das Artes demandará 35 milhões de reais anuais para sua manutenção.

Conversando com um dos funcionários, fui informado que muita coisa foi refeita, em uma tentativa de seguir o projeto inicial. Entre outras coisas, alguns funcionários comentaram que as poltronas importadas tiveram que ser todas retiradas, dado que algumas etapas da construção haviam sido suprimidas. Houve mudanças também no palco, antes fixo e agora automatizado, além de toda a questão acústica que havia sido, praticamente, abortada. O importante era “inaugurar”.

É razoável que a construção chegue a seu final algum dia, colocando um ponto final a toda essa discussão, até mesmo por motivos políticos: o governo atual não pode e nem quer ser responsabilizado pela degradação.  O que surpreende é que, com a Jornada Mundial da Juventude, com as Olimpíadas e Copa do Mundo, o Rio certamente estará na vitrine do mundo, com muitas prioridades. Alguns afirmam que a conclusão da obra trará mais prejuízos aos cofres públicos. Segundo estudos, a Cidade das Artes tende a ser deficitária.

Com inauguração prevista para 2012, o complexo poderá trazer um forte impulso cultural ao Rio de Janeiro, já tão desgastado depois de tantas crises em seu meio artístico. Resta agora torcer.

 

 

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Enquanto alguns desanimam com as naturais dificuldades da vida, outros se tornam fortes e seguros. Amadurecem. O sofrimento, sempre, é experiência pessoal e intransferível. Podemos unir-nos ao sofrimento alheio, podemos dar conforto aos que passam por um mal momento e até podemos buscar sentir a dor que outros sentem. Mas não podemos viver essa dor.

Beethoven experimentou o sofrimento em larga escala. Seu nome, Ludwig, sempre lhe traria à memória a breve vida de seu irmão mais velho, também Ludwig, que havia falecido inesperadamente antes do nascimento daquele que se tornaria o grande músico. Não sei se algum dos leitores carrega a afetuosa e dolorosa experiência de possuir o nome de um irmão falecido. Algo tocante… e emocionalmente exigente. Como se isso não bastasse, Beethoven perdeu também 3 irmãos menores, os mais jovens, sendo que antes do falecimento do último – a caçula a quem Beethoven nutria especial carinho –  também faleceu de modo repentino sua mãe, de tuberculose. Seu pai, um bêbado inveterado, não deixou outra opção a não ser transformá-lo em arrimo de família dos outros dois irmãos menores, os únicos sobreviventes. Tudo isso quando o jovem Ludwig contava apenas 16 anos de idade.

Um dos grandes sonhos de Beethoven era ter estudado em Viena com Mozart. O desejo não se concretizou devido ao falecimento da mãe. O jovem Ludwig, que já se encontrava na cidade austríaca, foi obrigado a retornar a Bonn para cuidar dos irmãos. Anos depois, quando retorna a Viena para realizar seu sonho, é Mozart quem desta vez vem a falecer. Paralelamente, de modo crescente, se inicia o processo da surdez. A obra recolhida no vídeo abaixo, retirada de célebre cena do filme O Segredo de Beethoven, foi composta quando o autor praticamente não mais escutava.

Há não muito tempo atrás, decidi reproduzir entre diversos amigos e pessoas conhecidas, uma interessante pesquisa realizada em universidade americana no âmbito da psicologia. Queria certificar-me do que havia lido. Na pesquisa, diversas pessoas foram entrevistadas, das mais diversas idades e classes sociais, se aceitariam entrar em uma “máquina” que teria a capacidade de exterminar todo e qualquer tipo de sofrimento ou dificuldade que pudessem vir a experimentar na vida. A entrada nesta “máquina” ocorreria de modo irreversível, ou seja, aqueles que entrassem nunca mais experimentariam a dor humana. Como na pesquisa americana realizada, nenhum de meus entrevistados  – mais de 50 pessoas – aceitou a proposta. Insisto: ne-nhum. E ficou claro para mim que o sofrimento faz parte da vida. Retirá-lo seria deixar de viver. Seria somente existir.

Pessoalmente, estou convencido que o pequeno Ludwig transformou-se em Beethoven por ter vivido o que viveu. E essa é a gênese de sua música. As dificuldades somente se transformam em problemas para os que cultivam uma personalidade problemática. Sempre é possível fazer com o limão uma limonada.

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  • Quem faz

    O pianista Alvaro Siviero (www.alvarosiviero.com) já atuou como solista diante da London Festival Orchestra, Budapest Chamber Orchestra, Prague Philharmonic Orchestra, I Musici Montreal, Salzburg Chamber Solists, entre outras, além de extensa atuação como recitalista e camerista. Especializado em Educação Multicultural pelo Lesley College, Siviero é também graduado em Física pela USP.

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