Nos últimos tempos, o Natal transformou-se em mistério. Bichinhos pulando, Papai-Noel gigante, reflexões sobre a Floresta Amazônica, bolinhas reluzentes e estrelinhas douradas. O Natal comemora, como a própria etimologia da palavra assegura, nascimento. Mas onde colocaram o aniversariante? Como você se sentiria se, no dia do teu aniversário, o assunto fosse a comida e a bebida da festa, com o detalhe de que os convidados não te parabenizassem? Sem dúvida, um mistério. Minha avó, em tom brejeiro, diria que para isso existe outro nome.
Questionamentos mais profundos à parte, o Natal sempre foi e será um momento mágico. Durante os anos em que me dediquei também às ciências exatas – Física, Química, Matemática, entre outros – aprendi que o prefixo per (permanganato, perclorato, etc) é utilizado para designar casos onde a estrutura molecular de um composto não comporta mais átomos de oxigênio: ela está em seu nível máximo. A estrutura permanganato MnO4, por exemplo, encontra-se em sua capacidade máxima de oxigênio precisamente por se chamar permanganato (não existe o composto MnO5). O mesmo com o ânion perclorato ClO4 (não existe ClO5).
Nesta época de Natal, onde a doação humana se torna mais real, que maravilha se muitos tomassem também a decisão de levar essa doação em seu nível máximo, perdoando. Não se trata de algo artificial, formal, de obrigação, mas deve vir do coração. E quem perdoa esquece.
Perdoar não é o mesmo que desculpar. Desculpar é tirar a culpa de alguém que cometeu um erro inadvertidamente. Sendo assim, eu desculpo meu filho que quebrou o controle remoto da TV, assim como desculpamos um garçom que, tropeçando, derruba em nós a garrafa de vinho. Perdoar é diferente. É uma decisão de dar-se a alguém, perdoando um agravo real cometido, consciente. Sem dúvida, uma atitude nobre, de pessoas com têmpera e elegância humana.
A transcendência da música pede alinhamento anímico, de nobreza de sentimentos no coração. O verdadeiro artista não deve ser mesquinho, mas cordial.
A todos desejo, extensivo a familiares e amigos, um Santo, Feliz e Musical Natal!
Gounod, compositor parisiense (1818-1893), muito jovem entrou para o Conservatório de Paris. Após viver na Itália, onde ficou fascinado pela música polifônica, antes de regressar à França, residiu em Viena. Conheceu duas mulheres que tiveram grande influência na sua vida: a cantora Pauline Viardot (muito amiga de Chopin), que o introduziu ao mundo da ópera, e Fanny Hensel, que apresentou a Gounod seu irmão, o célebre compositor alemão Felix Mendelssohn.
A relação entre Gounod e Mendelssohn ganhou outro paralelo sob a ótica do pianista italiano Roberto Prosseda (www.robertoprosseda.com). Após dedicar diversos anos à pesquisa da obra do mestre alemão, em que Prosseda descobriu e gravou o Concerto n.3 para piano e orquestra de Mendelssohn pelo selo Decca, com a Orquestra Gewandhaus, além de diversas outras obras para piano solo do mestre alemão, recentemente executou outra obra, fruto de sua mais recente pesquisa: o concerto de Gounod para piano-pédalier e orquestra, escrito em 1889. Fruto da paixão pelo órgão que Gounod nutriu em sua vida (chegou a deter o cargo de organista na Igreja das Missões Estrangeiras em Paris, por mais de três anos), a obra se apresenta como um verdadeiro exercício de coordenação psico-motora para o intérprete. Vale a pena conferir!
Contrariando o que a tradição de tantas décadas afirmou, os momentos últimos de Liszt sobre a terra, em Bayreuth, foram repletos de indiferença, maus tratos e solidão. Após cair enfermo durante visita a essa cidade que consagrou seu genro Richard Wagner, Liszt recebe atendimento médico incompetente e, por parte de sua filha Cosima, é tratado com severidade e frieza. A filha, embora residindo em Wahnfried (a bela casa onde viveu com Richard Wagner), deixa o pai moribundo vivendo em quartos de aluguel. O belo e irresistível jovem Franz Liszt havia se transformado em um homem idoso, com sobrepeso, perda de dentes…
Essas revelações bombásticas, entre outras, são as que estão recolhidas em publicação baseada nos diários de Lina Schmaulhausen (vide foto abaixo), aluna de Liszt que se responsabilizou de cuidar, para se dizer de alguma forma, do grande mestre em sua senilidade. Editado por Alan Walker, o livro The Death of Franz Liszt: Based on the unpublished diary of his pupil Lina Schmaulhausen, será um dos fios condutores do recital de despedida deste que foi, para os pianistas, ícone incontestável.
Com curadoria de Regina Porto, o recital será, sem dúvida, o adeus final de 2011, ano em que o mundo celebra o bicentenário de nascimento do compositor. Sintam-se todos convidados!
A récita de O Morcego, opereta que encerra a programação do Theatro Municipal de São Paulo, mostrou qual o porquê de estar com seus ingressos esgotados. Além de sólida presença cênica e lírica dos artistas envolvidos, une-se a conexão com o público criada pela adequação do seu conteúdo ao contexto dos dias atuais, tanto pela tradução adaptada ao português como pela utilização de cenários e figurinos modernos. Sem dúvida, pontos positivos para o diretor William Pereira. A tentativa de apoiar o caráter cômico da obra em excessivas ironias, em liberdades excessivas de contextualização ou até mesmo em sexualidade barata – preservativos, lingeries, danças do mastro, entre outros, em destaque especial – acabaram em alguns momentos criando certo desconforto, ou até mesmo neutralizando o humor espontâneo que a própria obra já possui. Mas talvez, essa fosse exatamente a proposta: uma crítica à real sociedade atual, banalizada em matérias que merecem maior importância e respeito. Tudo muito sutil. Sem dúvida, uma contraproposta à Viena do século 19.
A Orquestra Sinfônica Municipal, sob a experiente regência de Abel Rocha, em plena forma, quase dividindo o palco com os personagens, assumiu em muitos momentos o protagonismo, transmitindo aos presentes a viva impressão de que, quando se sabe o que se faz, o fosso é mera geografia. O esmero de sonoridade, as dinâmicas criadoras de novos ânimos aos diferentes momentos da estória e, acima de tudo, a segurança transmitida por Abel Rocha, explicaram o caloroso e merecido aplauso recebido.
Já no primeiro ato, Edna D’Oliveira (Adele) revelou seu lado cômico incomum, unido à sua marcante presença cênica e lírica. Em conjunto com as igualmente marcantes presenças de Rosana Lamosa (Rosalinde) e Fernando Portari (Eisenstein), conseguiram deixar o público inquieto e expectante para o segundo ato. Destaque também especial para Rubens Medina, no papel de Alfred. É também no segundo ato que Rosana Lamosa mostra porque hoje é considerada uma das grandes cantoras líricas da atualidade, em sua magistral interpretação da célebre czarda húngara, em timbre sonoro aveludado. Sem dúvida, um dos pontos altos da récita. Fernando Portari, com sua voz segura, atua como perfeito fio condutor da trama. Leonardo Neiva (Falke) e Regina Elena Mesquita (príncipe Orlofsky), experientes, deram ao espetáculo o sabor que a estória exigia. A utilização de diversos musicais durante o segundo ato – inclusive a figura do samba brasileiro – trouxeram à festa do príncipe Orlofsky aquela pitada cômica extra que cativou o grande público.
Quando a récita se encerrou, público e elenco estavam de mãos dadas. Que venha 2012 com outros presentes – agora que se aproxima o Natal – como esse!
Caros amigos
Talvez poucos saibam que Salomão Schvartzman é também pianista. Tive a oportunidade de conversar sobre isso e muitas outras coisas durante o set de gravação.
Compartilho com vocês algumas de minhas opiniões sobre Música em uma troca de idéias muito serena que mantive com esse grande jornalista. São opiniões, nada mais do que isso. Espero que desfrutem.
Um abraço musical
O jovem e excêntrico príncipe russo Orlofsky, que acaba de se instalar em Viena, decide realizar uma grande festa em seu rico palácio. É aí que tudo se inicia, com o entrelaçamento da estória de 3 personagens.
Logo no início da opereta, Gabriel von Eisenstein, um galanteador romântico que adora pregar peças, é sentenciado a oito dias na prisão por desacato civil. Momentos antes de sair de casa para a prisão, após despedir-se de sua esposa Rosalinda, é interceptado por seu amigo Dr. Falke que o convence a aceitar um convite que lhe traz, da parte do príncipe, para comparecer disfarçado ao baile desta noite. Nada aconteceria caso se entregasse às autoridades somente na manhã seguinte. Por detrás desta proposta, o jovem e engenhoso Dr. Falke quer lhe dar o troco a uma humilhação que sofreu no passado, quando Eisenstein o deixou, após as festas de carnaval, dormido no chão, em plena luz do dia, fantasiado de morcego. É o momento da revanche.
Rosalinda, a esposa de Eisenstein, cansada da atitude galanteadora do marido, deixa-se cortejar por Alfred, que a chama agora de sua pombinha e lhe faz serenatas. Assim que o marido se despede “para dirigir-se à prisão”, Rosalinda abre as portas de sua casa a Alfred convidando-o a jantar. É neste momento que, inesperadamente, chega o diretor da prisão para prender o chefe da família. Vendo-se confusa e flagrada, Rosalinda entrega Alfred à prisão que, mesmo insistindo em provar que não é o homem procurado, recebe o descrédito do diretor da prisão, principalmente, quando é indagado por Rosalinda se este seria capaz de imaginá-la ceando a esta hora da noite com alguém que não fosse seu marido. Alfred é capturado e Rosalinda, mesmo tendo se protegido, embora desesperada, teme o pior: o encontro de Alfred e Eisenstein na prisão. Mas uma pergunta paira no ar: porque o marido partiu para a prisão vestido a rigor? Rosalinda decide ir ao baile. Adele, a bela e atrativa criada da família, depois de conseguir um belo vestido e lançando mão de falsa desculpa, dirige-se também ao palácio do príncipe russo.
No auge da festa, o príncipe faz questão de que tudo corra bem, e ai daquele que se recuse a beber com ele. Todos fantasiados. Eisenstein, apresenta-se na festa como sendo o marquês Renard e, não reconhecendo a própria mulher, que havia se apresentado como uma condessa húngara, começa a cortejá-la. E a confusão se instaura. O resto da estória? É esperar para ver. Onde?
Theatro Municipal de São Paulo – Praça Ramos de Azevedo, s/n. Dias 09.12, 12.12 e 14.12 às 21h. Dia 10.12 às 20h. Dia 11.12 às 17h. Bilheteria: 11-3397-0327
Johann Strauss, o jovem, já era famoso como compositor de música vienense de dança antes de se voltar ao estilo das operetas. Entre os muitos momentos marcantes da festa, após o término do balé apresentado por dançarinos profissionais contratados pelo príncipe russo, este convida todos os presentes a dançarem uma valsa. É a famosa Valsa do Morcego (minuto 3’ do vídeo abaixo). Deixo a abertura da opereta para vocês e, também, a famosa transcrição, de Grunfeld, da mesma valsa, interpretada por Yevgueny Kissin, uma das que mais gosto de executar! Ah, o pianista russo estará neste ano se apresentando por aqui, na temporada do Cultura Artística. Não percam!
Ainda nos dias de hoje, no âmbito da saúde, quando alguém sofre de algum tipo de indisposição gástrica, aparece um doutor que, após informar-se dos sintomas e causas do mal-estar, ordena: “Mostre a língua! Tire a língua!”. E da língua esbranquiçada, ou sulcada, às vezes avermelhada, surge o diagnóstico acertado. Pois bem, quando o assunto é relacionamento humano, mostrar a língua é o mesmo que deixar ver o coração. As palavras – com suas mil tonalidades, cargas, intenções e acentos – são um retrato falado do que trazemos dentro. Quem não se lembra do sentimento de gratidão que nasce quando alguém nos estimula com palavras de otimismo e conforto após um erro cometido? Quem não se sente cativado diante de um conselho desinteressado e verdadeiro? É a língua a serviço do bem.
Pelo contra-exemplo, quem pratica a maledicência, mais do que jogar luz sobre aspectos negativos dos outros, evidencia o que traz dentro de si. Na realidade, evidencia o que é. Esta prática, infelizmente comum em alguns ambientes, é um dos frutos mais baratos da inveja: uma tentativa de diminuir o brilho alheio que incomoda. Como não se consegue subir tenta-se abaixar o outro. O livro O Imbecil Coletivo, de Olavo de Carvalho, narra de modo divertido alguma dessas situações. No entanto, a maledicência nada tem de divertido por ter sua origem na baixeza humana (desde uma vingança até um desejo de hegemonia profissional) ou, simplesmente, na ausência de conteúdo intelectual: não se sabendo sobre o que se falar, fala-se do capítulo da novela, ou sobre a celebridade do dia, critica-se algo que nos desagradou e, em clima de conversa girada em torno de fofocas e tititis – pensam eles – prolongam-se relacionamentos “amistáveis”, mas que não se sustentam. E o que somos deep inside fica cada vez mais envidenciado.
Certa vez, um amigo afirmou nunca se basear no que os outros lhe falavam para tirar conclusões sobre pessoas ou fatos: suas opiniões baseavam-se em suas próprias observações. Como diretor de uma grande empresa que era, não queria receber nenhuma informação prévia sobre seus funcionários. Poucos dias depois, coincidentemente, empreendi uma longa viagem profissional. Assim que cheguei ao aeroporto, um músico que me esperava, em uma espécie de arranque de insegurança pessoal e profissional, dirigiu-me uma enxurrada de comentários muito pouco edificantes sobre diversos músicos, muitos dos quais conheço. Enquanto ele fazia suas análises, algumas bastante ácidas, percebi como algumas pessoas, entre duas formas de se dizer a mesma coisa, são capazes de optar pela forma mais antipática. Durante toda aquela cascata de maledicências fiquei calado. Eu não o conhecia em profundidade e, diante de meu silêncio, após um certo tempo, o tema da conversa mudou. Pensei: se esta pessoa vem me falar mal de outros, quem me garante que algum dia não fará o mesmo sobre a minha pessoa a terceiros? Lembrei-me da sábia atitude daquele meu amigo empresário: de que devemos pensar por conta própria. Hoje, com a perspectiva do tempo e contando com a verdade dos fatos, surpreende verificar como este músico caminha cada vez mais para o anonimato.
É evidente que, se falamos mal de alguém, é porque antes pensamos mal. E dentro deste quadro, em efeito dominó crescente, não é de se estranhar que à maledicência e à crítica, acrescente-se a mentira, transformando a maledicência em calúnia. Dizem-se e escrevem-se aberrações sem fundamento, baseadas em simples suspeitas, ou no que “se diz” (isto é, no que alguma pessoa mal intencionada comentou).
Como em Hamlet, “há algo de podre no reino da Dinamarca”. E a podridão não está fora. Está dentro. Mas cada um faz da própria vida o que quiser. Fica o convite.
2012
2011