A passagem de Yuja Wang por São Paulo merece dois adjetivos: estarrecedora, inesquecível. Dona de uma técnica precisa, limpa, a pianista encantou. Jogou pó de pirilim-pim-pim na platéia e hipnotizou a Sala SP. Sua arte emudeceu os detentores do conhecimento do bem e do mal. Um momento memorável. Sem dúvida, a nova diva do piano mundial. A avalanche artística, que dava direito a cascatas de notas jorradas do piano em velocidade estonteante, encontrou no público, infelizmente, uma atitude inesperada.
Como de costume, nos avisos dados antes do início dos concertos, uma gravação pedia a todos os presentes que desligassem seus celulares. Em seu recital de despedida de terras brasileiras, o público preferiu desobedecer ao pedido. E foi deselegante. Após apresentar-se por três dias consecutivos interpretando o colossal Concerto n.3 para piano e orquestra de Prokofiev, até por respeito, o público deveria ter sido mais educado. Na primeira parte do programa, por quatro vezes, celulares dispararam, furiosamente, com toques de chamada em estilo cavalaria. Parecia proposital. Como não poderia ser diferente, a pianista se desconcentrou. E eu me questionava: “será que as pessoas não ouviram o pedido realizado pela sala?”
De minha poltrona, a distração também começou tomar contar de mim. Muitos dos presentes preferiram deixar seus aparelhos no modo silencioso. Na primeira fileira via-se um senhor enviando torpedos. Uma senhora ao meu lado checava seu facebook. Durante a execução dos Etude-Tableaux Op.39, de Rachmaninov, o festival de tosse tomou conta. Houve momentos em que as pessoas começaram a se entreolhar perplexas: não acreditavam muito no que estava ocorrendo. Foi aí que comecei a me convencer de que, talvez, tudo fosse proposital mesmo. Somente espero que, baseado no preparo e educação que verifiquei em alguns dos presentes, eles não tenham pensado que as tosses fizessem parte da obra… Imaginem vocês se, no momento 2:32 do vídeo acima, um festival de tosses ou um celular começasse a disparar… Pois bem, foi exatamente isso o que ocorreu. E a pianista fechou o programa precisamente com essa obra.
Início da segunda parte. Um novo aviso é gentilmente veiculado na sala, pedindo aos presentes que encarecidamente desliguem seus celulares. Desta vez, o pedido também fez referência aos celulares que estavam no modo silencioso. De fato, a luz emitida pelos diversos aparelhos comprometia a penumbra da sala… Foi um aviso claro. Segundos antes de iniciar o último movimento da Sonata n.6 de Prokofiev (assista ao vídeo acima), Yuja Wang colocou-se em posição de ataque: seria a finalização da catarse grega daquela inesquecível tarde. É nesse momento que, agora na fileira anterior à minha, o celular de uma senhora dispara dentro de sua bolsa. Dopada, ou distraída, ou as duas coisas ao mesmo tempo, não sei, ela não tomava providência alguma. Seu olhar estava fixo no teto da sala, como se aquilo não fosse com ela, como se o aparelho não fosse dela. A pianista aguardou. Diversos segundos depois o celular foi desligado. Foi aí que Wang se reconcentrou para interpretar uma das páginas mais ousadas do repertório. Durante a execução, os parentes da distraída senhora a recriminavam, com cochichos intermináveis. Que lástima! Enquanto isso, à minha direita, outra senhora ajeitava sua echarpe de peles enquanto admirava o anel de brilhantes que usava.
O recital acabou. A artista foi ovacionada. Enquanto aplausos intermináveis pediam mais música – entre outras obras Wang se entregou à Toccata, de Prokofiev, de modo sobrenatural – diversas pessoas se retiravam da sala, sem nenhum tipo de escrúpulo. Senti vergonha alheia.
Quando voltava para minha casa tomei consciência de que tudo aquilo que havia ocorrido não era maldade humana. Era despreparo. O homem moderno perdeu a capacidade de ouvir, de abrir-se ao outro, de sair de si mesmo em busca de tudo aquilo que não é ele mesmo.
A música de concerto é música, como qualquer outra. Tem qualidade. Tem muita qualidade. O que a diferencia dos outros gêneros é a forma de escuta: pede silêncio, atenção. E é daí que vem o enriquecimento pessoal. Fica a lição.
Talvez alguns ainda não o saibam, mas no último 31 de janeiro de 2011 uma histórica sentença jurídica decretou ser a cela n.4 a verdadeira cela que abrigou o compositor Frederic Chopin quando de sua passagem em Valldemossa, cidade localizada na ilha de Maiorca, a maior das Ilhas Baleares (Espanha), durante o inverno 1838-1839 . Até então pensava-se que a verdadeira cela era a de n.2.
http://www.abc.es/20110201/cultura-musica/abcp-engano-mayor-celda-chopin-20110201.html
Desfrutando da companhia da escritora George Sand, Solange e Maurice – os dois últimos filhos de Sand - Chopin finalizou e revisou neste local o seu Scherzo n.3, Prelúdios, Polonaises, entre diversas outras obras. George Sand, em sua obra Um inverno em Maiorca, retrata este período com enorme realismo. Aconselho vivamente a leitura.
Tive a honra de ser o pianista convidado a realizar o primeiro recital oficial dentro da verdadeira cela (n.4). O recital representou o encerramento do Congresso sobre Interculturalidade promovido pelo Instituto Ramón Llull (www.ramonllull.net). O evento, fechado, contou com a presença de personalidades de diversos países, representantes culturais e membros da ONU. É muito difícil descrever o que se sente neste momento. Enquanto eu tocava, um enorme quadro de George Sand e outro de Chopin, ao meu lado, me observavam atentamente. Janelas, à minha esquerda, levavam meu olhar a paisagens incríveis. Tive a oportunidade de observar diversos manuscritos do autor e, inclusive, ver a roupa que ele utilizou em seu último recital: um colete de cor azul marinho, com forro de cetim branco. Surpreendeu-me verificar que, por exemplo, o manuscrito do Estudo Op.25 n.2 não corresponde a nenhuma das diversas edições que conheço… (aos pianistas interessados posso explicar exatamente isso). Firmei o livro da Cartoixa.
Em breve estará sendo lançado o DVD da apresentação, contando com um making of que inclui tomadas de diversas ruas desta pequena cidade que é Valldemossa, a cerca de 15km de Palma, a principal cidade da ilha. A vida sempre nos reserva momentos como esse!
Abaixo um pequeno trecho, gravado por um amador, dos momentos de ensaio, de reconhecimento do piano. Recordar é viver!
Aos interessados, fotos aqui
Caríssimos, passo aqui rapidamente para lembrar a todos que a pianista Yuja Wang estará se apresentando com a OSESP nesta semana. Imperdível! Haverá ensaio aberto na próxima quinta-feira, às 10h. No repertório, o fabuloso Concerto n.3 para piano e orquestra de Prokofiev.
Como aperitivo, um video com o conhecido vôo do besouro. Nos vemos por lá!
O livro Beethoven – A Música e a Vida, escrita por Lewis Lockwood, um dos grandes especialistas em Beethoven da atualidade, contém declarações de diversas pessoas que tiveram a sorte de conviver com o compositor alemão. Muitos dos depoimentos recolhidos jogam luz sobre um aspecto curioso.
A família Fischer, proprietários da casa onde Beethoven cresceu, em Bonn, relata: “Era homem baixo e forte, de ombros largos, pescoço curto, cabeça grande e nariz redondo, com tez escura. Ele sempre se inclinava um pouco para frente ao caminhar”.
Em outros diários: “Era baixo e de aparência comum, de rosto feio, avermelhado e cheio de marcas. Seu cabelo era muito escuro e caía, desarrumado, em torno do rosto. (…) Suas roupas eram ordinárias, não muito diferentes da moda daqueles dias. (…) Falava com um sotaque forte e de uma maneira bastante comum. (…) Seu rosto, de expressão resoluta, exibia marcas, talvez de varíola”. A análise de sua máscara mortuária revela também a existência de lesões e sulcos.
O editor da revista Pride, dedicada à comunidade africana e antilhesa do Reino Unido, afirma ser evidente a existência de um complô com a finalidade de ocultar a origem negra de Beethoven. Shabazz Lamumba, autor do artigo, afirma se tratar de um desejo dos brancos em se apropriar do compositor. Lamumba cita, ainda, a descrição do antropólogo Frederick Hertz que, em seu livro Raça e Civilização, descreve a pele morena e o nariz largo do gênio de Bonn.
Sabe-se que os antepassados paternos de Beethoven eram flamengos e que, devido ao cabelo espesso e pele morena, o compositor era muitas vezes chamado por seus amigos de “espanhol”. Teorias afirmam que Beethoven descenderia de escravos emigrados das colônias holandesas da América Central (em particular, da colônia de São Domingos). A dominação espanhola nos Países Baixos – com a anterior dominação moura na Península Ibérica durante a Idade Média - mostra não ser impossível que corresse nas veias do compositor certa porção de sangue ibérico ou, em última instância, mouro, remotando às supostas origens africanas do músico.
Pessoalmente, atrevo-me a afirmar que causou-me surpresa as feições que encontrei na máscara mortuária do compositor quando tive a oportunidade de vê-la em Heiligenstadt, Viena. Por curiosidade, busquei no Google mais informações sobre o assunto… outra surpresa!
Será que onde há fumaça há fogo?
Abaixo, o último movimento da Sinfonia n.5 em dó menor, Op.67. O famoso início da obra (o célebre tchã-tchã-tchã-tchããããã), não pode eclipsar o que se encontra neste último movimento: Beethoven na mais pura fonte, repleta de profundo heroísmo revolucionário, de contestação.
O concerto de Ano Novo da Filarmônica de Viena – o célebre Das Neujahrskonzert der Wiener Philharmoniker – vem sendo realizado nas manhãs do dia 01 de janeiro, desde 1939, com ingressos esgotados. A sala de concertos principal (o GroβerSaal) do Musikverein, em Viena, chega a atingir um público estimado em mais de 50 milhões de pessoas, em mais de 70 países. O video abaixo mostra um significativo momento do concerto de 2002, regido pelo maestro Seiji Ozawa. Diversos músicos das mais variadas raças, culturas, tradições, nacionalidades – enfim, gente que não pensa igual – dão um show de bola ao desejar a todos os presentes uma feliz entrada de ano. O vídeo exala alegria, otimismo.
Hoje, 11 de setembro, lembro-me de minha recente estada no ground zero, em Nova York, há poucas semanas: tudo muito triste, carregado de energia pesada. Entre muitas fotos que tirei, comoveu-me a da roupa de um bombeiro, de material extremamente resistente, que faleceu entre os escombros das Twin Towers, deixada dentro de uma pequena igreja localizada no quarteirão vizinho ao das torres gêmeas. Esse templo católico foi, segundo me explicaram, o apoio e consolo de muitíssimos parentes das vítimas, de bombeiros e de gente da rua que, desolados, buscavam conforto espiritual neste momento de dor ( postei fotos em www.alvarosiviero.com). Caminhando pelas ruas de Manhattan, tomei consciência do maravilhoso mosaico de cores e formas que é a vida humana, ferida quando deparada com aqueles que enxergam na multiculturalidade – entenda-se também divergência – motivo de desunião, de guerra.
Os problemas de uma sociedade não passam de uma projeção ampliada dos conflitos íntimos que cada um traz dentro de si. Queremos que a sociedade seja mais? Então sejamos melhores. É uma decisão pessoal. É atitude.
Fica essa homenagem aos vitoriosos do 11 de setembro de 2001. O mundo pode ser esse grande palco eclético de música – como abaixo mostrado em video – que une, soma e constrói. Tenham a certeza de que as nossas semelhanças são muito maiores que nossas diferenças.

Paulo Zuben, em seu escritório na sede da EMESP
Acredito que qualquer sucesso, pessoal ou corporativo, apóia-se em duas importantes pilastras: paciência e foco. O impaciente, como diz o ditado, come frio. E o desfocado, por não saber exatamente o que busca, não chega muito longe, se é que chega a algo. E é essa segunda pilastra que parece estar tombando dentro do mais importante Festival de Música da América Latina, organizado e realizado pelo Governo do Estado de São Paulo em conjunto com a OS Santa Marcelina Cultura. Conversei com Paulo Zuben, diretor artístico-pedagógico do Festival, que também acumulava a direção executiva nos últimos anos: a mudança de perfil do Festival desejada pela Secretaria de Cultura pode estar colocando fim à gestão da OS Santa Marcelina Cultura.
Como surgiram essas incompatibilidades?
A missão da OS Santa Marcelina Cultura é eminentemente pedagógica: queremos dar formação integral à geração dos novos músicos do amanhã, envolvendo não somente o aspecto técnico-musical como também o aspecto humano, da construção de suas personalidades. Esse é o nosso foco. Obviamente, como em um mosaico, há também excelentes apresentações artísticas no evento, onde a fina flor da sociedade paulistana marca forte presença. Você, Álvaro, atuou artisticamente lá em Campos e teve a oportunidade de ver tudo isso. Mas o nosso foco não é o glamour. Nossa intenção não é transformar esse momento em plataforma de visibilidade. O bolsista não pode ser cenário para outros interesses. Durante as edições do festival já houve até quem usasse as apresentações para gravar e lançar discografia, em exercício de autopromoção. Quando o maestro Eleazar de Carvalho idealizou este festival, a intenção era somente pedagógica. Aproveito para ressaltar que o principal patrocinador do evento quer como foco das atividades a preocupação com o pedagógico, pois essa é a essência deste festival.
É possível exemplificar de modo mais palpável o que significa essa preocupação pedagógica?
Na Orquestra do Festival, por exemplo, os bolsistas atuaram como chefes de naipes, e não como meros coadjuvantes. Para conseguir isso, estamos intensificando fortemente a prática da música de câmara durante os dias do festival, fazendo com que professores renomados dividam o palco com alunos, todos em mesmo nível de importância. A prática da música de câmara evidencia tanto as potencialidades como os pontos fracos do músico, tudo fica muito claro, transparente. Já no repertório sinfônico, para grandes orquestras, corre-se o risco de o aluno se tornar mero número dentro daquela massa enorme de pessoas o que, pedagogicamente, não é interessante.
Realizamos, ao final do festival, uma pequena turnê por diversas cidades do Estado, o que acabou possibilitando aos bolsistas ganhar experiência de palco e de conjunto. A programação das aulas e masterclasses contribuíram para que houvesse muito intercâmbio de informação. Facilitamos diversos contatos internacionais para que os alunos do festival pudessem ampliar suas possibilidades de estudar no exterior. Nestes dois últimos anos, nos concertos de Campos replicados em São Paulo, os ingressos gratuitos oferecidos para alunos de baixa renda, que estudam em programas de música nas periferias da cidade, permitiram que eles dividissem o mesmo espaço com o público de assinantes costumeiro das apresentações mais caras de temporada. Para se conhecer a música clássica, todos devem ter acesso e a mesma oportunidade.
Em 2011 os alunos realizaram recitais em asilos, hospitais e em pequenas comunidades, visando esse crescimento humano do artista e mostrando o quão importante é sairmos de nós mesmos e nos doarmos um pouco mais aos outros. É a prevenção contra problemas de gerenciamento de egos futuros.
Existe a percepção de que a população da cidade de Campos do Jordão tem pouco acesso, ou quase nenhum, aos eventos do festival. Se a música clássica deve ter a mesma importância, como você afirmou, como você explicaria isso?
Entendo que há uma dívida de gratidão do festival para com a cidade. Todos sabem que Campos do Jordão, durante o mês de julho, não guarda nenhuma relação com a realidade desta cidade durante o resto do ano. Os habitantes de lá afirmavam que a única contribuição que a cidade recebia ao final do festival era o lixo, deixado por todos os que ali haviam passado. Neste ano, realizamos mais da metade dos concertos gratuitos nas Igrejas e Praça, além de também apresentá-los no Teatro Cláudio Santoro, justamente para inserir e fazer a cidade participar do festival. Foi grande a nossa alegria quando descobrimos que, pela primeira vez, um dos bolsistas era de lá. São 42 anos de parceria com a cidade. Já estava na hora…
Mas nossa ligação com a comunidade de Campos do Jordão não se resumiu a isso, procuramos construir uma relação muito mais profunda. Fizemos reuniões com líderes comunitários e elaboramos juntos um amplo programa que chamamos de Festival na Comunidade. Foram oferecidos cursos de iniciação musical a centenas de crianças, formamos professores da rede pública local, e mobilizamos dezenas de artistas que se apresentam no Festival para dar aulas aos músicos da cidade. A própria equipe de produção ofereceu voluntariamente um curso de formação em projetos culturais para dezenas de agentes locais. Acho que plantamos uma semente e hoje muita gente na cidade acredita que a relação com o Festival vai ser diferente.
Você mencionou a turnê ocorrida no Festival. Mas os músicos todos sabem que isso foi um drible para contornar o corte de verbas para a edição deste ano. Correto?
A itinerância teve uma justificativa pedagógica muito importante: dar aos bolsistas a oportunidade de vivenciarem a experiência de uma turnê como numa orquestra profissional. Mas, realmente, a dificuldade financeira nos exigiu uma solução criativa para driblá-la. Passamos por um momento de dificuldade no início do ano. Verificamos que, de fato, sem todos os professores, funcionários, toda a hospedagem e estrutura na cidade de Campos do Jordão, o custo com a turnê seria menor e, portanto, viável. Mas, de fato, o festival diminuiu de tamanho, como foi amplamente veiculado. Principalmente porque as pessoas comparam com a edição de 2010, que em minha opinião e de muitos foi uma das melhores de toda a história do Festival.
O corte de verbas da edição de 2011 está relacionado a um desgaste de relação?
Este aspecto econômico, embora muito importante, não é o essencial.
Fala-se que a OSESP será a nova orquestra residente do festival…
Pois é… parece que sim.
O que dizer sobre o futuro?
A decisão não cabe a nós. Continuaremos trabalhando com afinco no festival se pudermos manter o foco no que é a missão da Santa Marcelina Cultura. Não estou aqui para julgar o que é o certo ou o errado. As condições atuais são bastante adversas e os desafios contínuos. Seguiremos desenvolvendo o nosso trabalho, investindo na cultura musical de tantos talentos que serão os músicos do amanhã. O futuro nos mostrará onde estaremos, mas certamente será formando pessoas.
Há poucos meses, em café com um maestro, profissional extraordinário com quem já tive o prazer de trabalhar, escutei: “Minhas maiores dificuldades na gestão do teatro não surgem por falta de competência técnica ou musical do staff, mas por falta de competência humana. Diante de fofocas, mexericos e rivalidades, sinto-me impotente. Há muita inveja aqui”. O desabafo deixou-me pensativo. Lembrei-me de Salieri, caricaturado no célebre e premiado filme Amadeus que, de uma forma ou de outra, sobrevive sem caricatura alguma na vida real de alguns profissionais do citado staff.
Há uma definição de inveja que é clássica: A inveja é a tristeza sentida diante do bem do outro. Embora nossas tristezas sejam causadas por um mal – um acidente, um fracasso, uma doença, uma perda – a inveja, pelo contrário, é causada por um bem, um bem alheio, que nós consideramos como um mal, simplesmente porque não o temos. Podemos ficar tristes pelo que os outros são: alegres, simpáticos, inteligentes, fortes. Podemos ficar tristes pelo que os outros têm: dinheiro, prestígio, cargos, carros, viagens, diversões. Podemos ficar tristes quando verificamos que os outros são mais queridos: é o grande capítulo dos ciúmes. E ficamos tristes porque esse bem alheio nos diminui.
Aristóteles afirma que a inveja procede da vanglória (Retórica, 2, c.9, n.5). A glória vã é o vício daqueles que desejam brilhar, destacar-se, salientar-se, ser mais do que os outros. Gente que não procura o bem, mas o brilho. E não é raro que dediquem antipatia, e até mesmo aversão, com aqueles que legitimamente provocam sombra. Uma forma incompetente de admirar.
Os filósofos apontam como fruto da inveja a maledicência: a tentativa de destruir com a língua e, se pode, com atos, aqueles que fazem sombra. As técnicas? Falar mal, lançar suspeita, semear insinuações, espalhar acusações falsas, desprezar com comentários o que merece louvor, podendo vir disfarçadas de sorrisos e palavras amáveis, como brasa na cinza, para prejudicarem a quem fingem estimar e até proteger.
Recentemente, um importante violinista de uma orquestra brasileira comentava que havia sido “afetuosamente” desencorajado por outro amigo, também violinista, a aceitar uma proposta – vantajosa em todos os sentidos – pois os horários do novo trabalho seriam demasiadamente estafantes, e lhe impediriam dedicar mais tempo à prática do instrumento, fundamental para seu crescimento. O importante violinista fez ouvidos surdos ao “amigo”: o convite foi aceito. Ao lado da maledicência, de mãos dadas, vem a má competição. A inveja pode transformar um ambiente de trabalho em ringue de boxe, ou melhor, de artes marciais com a regra do vale-tudo. Moacyr Castellani, psicólogo, atreve-se a fazer um diagnóstico: “Em vez de competir como forma de desenvolvimento, as pessoas se tornam rivais. Em vez de realizarem o melhor de si, desejam ser as melhores. Em vez de superarem seus limites, enfatizam suas próprias qualidades”.
Aquele que pensa muito nas coisas que não tem, acaba se esquecendo das muitas coisas boas que tem. Food for thought!
Peço perdão por me prolongar na análise mas, após recital que realizei faz pouco, uma amiga, grávida de nove meses, veio efusivamente cumprimentar-me. O marido, orgulhoso, a acompanhava. Ao encontrá-la fiquei sem ação: eu tinha clara consciência de que o teatro poderia se transformar em maternidade a qualquer momento. Eufórica, ela descrevia todas as reações do bebê durante minha execução: os fortes “chutes” que o bebê havia dado durante as Polonaises Op.44 e Op.53 de Chopin, a tranqüilidade e calmaria durante a interpretação do Noturno de John Field… Confesso que não consegui prestar muita atenção no restante, tal minha aflição, perplexidade.
Estudos comprovam que, a partir do 4º mês de gestação, o feto já pode escutar. A batida do coração da mãe é o primeiro contato com o som rítmico, auxiliando-o a formar-se harmonicamente. Sabe-se hoje que sons de baixa freqüência tranqüilizam o bebê e que, por outro lado, a agitação vai em crescendo diante de sons agudos: o cérebro da criança assimila tudo isso, ao mesmo tempo que se estrutura. A voz aguda, por exemplo, é captada com maior facilidade pelos bebês, explicando o timbre agudo cômico que muitos adultos utilizam para conversar com recém-nascidos: tudo científico. Surge assim, além da comunicação pelo tato, uma nova forma de comunicação da gestante com o filho: a música (processo conhecido por Estimulação Precoce).
Em Londres, com o método da Estimulação Precoce, uma gestante utilizou a obra Primavera, de Vivaldi, para comunicar-se com o filho. No 5º mês de gestação o bebê já começava a responder aos estímulos. Surpreendentemente, quando a obra atingia o movimento Inverno, a resposta cessava. Outras vezes, aumentando-se o volume, o bebê começava a “chutar” com mais força. Anos mais tarde, já no período escolar, verificou-se a enorme facilidade lingüística desta criança, assim como sua invejável capacidade de reter palavras complicadas. Hoje é um orador e leitor voraz. A música que ele mais gosta? A Primavera, de Vivaldi. Em Madrid, uma professora utilizou música clássica nos momentos de troca de conteúdos das aulas, bem como durante intervalos entre atividades pedagógicas. Ao final do 3º trimestre era possível deixar a sala de aula por alguns breves minutos: todos os alunos permaneciam nos seus locais, serenamente trabalhando.
Uma criança possui milhões de neurônios ainda não inteiramente conectados nas zonas de sinapses nervosas, à espera de estímulos que os integrem no circuito neuro-cerebral. Através do método da Estimulação Precoce influenciamos diretamente no desenvolvimento da mente, não somente no aspecto físico (o som que incide no ouvido e provoca uma reação psicomotora), mas na ativação e desenvolvimento do próprio pensamento. As estatísticas mostram que, como tendência geral, os bebês expostos à música tendem a ser mais tranqüilos, com um sentido de curiosidade mais aguçado e com inteligência e imaginação mais criativas. Facilitando as conexões neuronais facilitamos a aprendizagem. Músicos como Bach, Mozart e Beethoven, a título de exemplo, asseguraram que seu amor à música era proveniente, em grande parte, do ambiente musical em que viveram.
A ciência define os hemisférios direito e esquerdo do cérebro como locais onde se hospedam, respectivamente, a capacidade musical e de linguagem. Como aprendemos a falar ouvindo, existe, como é razoável, uma relação entre esses hemisférios. Dom Campbell, em sua obra O efeito Mozart para crianças, vai além afirmando que, além da relação lingüística, a música conecta a parte racional do homem com a sua vertente emocional: alegramo-nos com a música alegre e protestamos diante da música desagradável, assim como trabalhamos de modo mais dinâmico e ágil com música rápida. Aos que tocam algum instrumento, afirma também o estudo, há maior facilidade de manifestar opiniões e pontos de vista. A influência musical comprovou, em adultos, um desenvolvimento lingüístico e habilidade motora superiores à média, maior desenvolvimento da capacidade espacial, maior desenvolvimento e educação afetiva entre a parte racional/emocional e ampliação da capacidade de concentração.
Minha amiga está perdoada!
2013
2012
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