Imagine um filme-show em um cinema-pista-de-dança
- 29 de janeiro de 2012|
- 20h01|
- Por Alexandre Matias
Longa do Chemical Brothers mistura tudo
Uma hora e meia em uma sala de cinema assistindo a um show dos Chemical Brothers gravado no Japão. A experiência pode parecer atordoante para quem associa tal exibição aos velhos concertos de rock que eram lançados em salas de cinema, como The Song Remains the Same, do Led Zeppelin, lançado no Brasil com o infame nome de Rock É Rock Mesmo, nos anos 70. Ainda mais porque muita gente ainda vê apresentações de música eletrônica como meros nerds apertando botões e mexendo em equipamentos que pouco lembram instrumentos musicais.
O fato é que Don’t Think, o primeiro longa-metragem da dupla que popularizou a música eletrônica nos anos 90, foi exibido na quinta-feira passada em São Paulo e em outras 19 cidades no mundo inteiro, como pré-estreia. O lançamento de verdade acontece no próximo fim de semana e deve chegar a outros cinemas do Brasil (por enquanto foram anunciadas, além de São Paulo, datas no Rio de Janeiro, em Fortaleza, no Recife, em Curitiba e em Salvador).
Don’t Think, no entanto, é mais do que um simples “filme de show”. Para começar, em vez de ser lançado em DVD, como a maioria dos lançamentos desta natureza, Ed Simons e Tom Rowlands preferiram lançá-lo no cinema, para que a audiência não ficasse isolada, em casa, e sim conectada com mais gente interessada no evento.
E o filme vai além do mero registro do show. Afinal, apesar de ser uma dupla, os Chemical Brothers contam com um terceiro elemento, Adam Smith, responsável pela projeção das imagens que invadem os telões durante os shows dos Brothers. É ele quem assina a direção do filme – e, assim, mistura imagens que foram capturadas por dezenas de câmeras no show com as imagens que foram projetadas durante o show, transformando a tela de cinema num telão.
Aí basta seguir o conselho do título do filme – Não Pense, em inglês – e se deixar levar pela avalanche de sons e imagens, com hits como “Hey Boy Hey Girl”, “Block Rockin’ Beats” e “Galvanize” servindo de trilha sonora para cortes rápidos que intercalam imagens de animais, igrejas, palhaços e pessoas dançando com o público japonês extático.
O único problema é assistir a isso numa poltrona. O ideal é que a sala não tivesse cadeiras e o público pudesse dançar. E que o som (7.1 na gravação original) fosse bem mais alto.
O que me levou a imaginar um futuro em que bandas podem fazer shows e retransmiti-los em salas de cinema como se o público estivesse no lugar.
Imagine cidades do mundo inteiro interconectadas por um show que está acontecendo em um só lugar, transmitido em tempo real e com imagens editadas na mesma hora.
A telepresença não é novidade – São Paulo já assiste a transmissões de ópera feitas no exterior em salas de cinema, por exemplo –, mas ao destruir as barreiras entre filme, show e registro de show, os Chemical Brothers podem estar dando origem a um novo tipo de formato.
‘Link’ começa o ano com estreia de quatro colunas
A coluna da repórter Tatiana de Mello Dias nesta edição é uma das novidades do Link em 2012. Ela não chama-se P2P à toa – é a face impressa do blog de mesmo nome, publicado no site do Link desde o início de 2010, sobre as transformações que o digital vem impondo à cultura. Ao assumir o blog, Tati virou setorista e seria natural que assumisse uma coluna sobre o tema. A partir de hoje, o blog P2P passa a ter seu nome.
Sua coluna, quinzenal, alterna-se com a coluna No Arranque, do editor-assistente Filipe Serrano, dedicada ao cenário de startup no Brasil e no mundo. Filipe tem um blog com seu nome desde o fim de 2011 e também começa 2012 como colunista do Link. Outras novas colunas já circulam no caderno desde o início do ano, estas semanais. Homem-Objeto, do repórter Camilo Rocha, dedicada a testes de aparelhos, e esta Impressão Digital, que deixou as páginas do Caderno 2 no final de 2011 para frequentar este caderno. E são apenas as primeiras novidades de 2012. Outras virão.
O pós-iPad e o digital inevitável
- 14 de abril de 2010|
- 15h31|
- Por Alexandre Matias
(Antes de começar a falar da edição da segunda-feira, peço desculpas pelo atraso em sua publicação online e um problema técnico nos forçou a publicar a versão do Link no Papel no blog do Link como medida de emergência. A edição inteira de segunda-feira pode ser lida )
A semana que passou será lembrada num futuro próximo como mais uma prova de que a Apple quando se dispõe a tornar-se centro das atenções ela consegue. O iPad inevitavelmente soma-se à lista de produtos que a empresa se gabará em apresentar em suas performances de mídia do futuro: “Primeiro foi o iPod, depois o iPhone e o iPad e agora…”, anunciará Steve Jobs ou algum outro porta-voz da empresa ao criar clima para o lançamento de mais um produto. Se o iPad irá vender ou não, se irá revolucionar o mercado ou não, se consolidará ou não uma nova fase para a computação pessoal – não importa. O circo armado pela Apple já foi o suficiente para seguir tatuando o logotipo da empresa no inconsciente coletivo do século 21.
Um passeio rápido pela tag “iPad” no site do Link – que já conta com seis páginas de matérias sobre o aparelho – nos revela o tamanho do impacto e expectativa gerada por um simples dispositivo eletrônico. As minhas favoritas: a história do russo que rodou um Windows 95 em seu iPad, os papéis de parede engraçadinhos, o americano bobalhão destruindo o brinquedo recém-comprado e os dos hacks – o de hardware e o de software da maquininha, fora a história da briga entre os desenvolvedores de flash e os fãs de Apple, em muitos casos, a mesma pessoa.
Mas passada mais de uma semana do lançamento do aparelho e tendo publicado uma resenha escrita por David Pogue na edição anterior, qual seria a nova abordagem que o caderno daria ao iPad? Uma dica veio embutida dentro de alguns comentários sobre o aparelho, de que ele seria tão fácil e simples de usar “a ponto de se esquecer da existência do mouse”. Isso ligou com uma pauta que já havia ameaçado ser capa do caderno algumas reuniões de pautas semanas atrás – a da evolução da forma como interagimos com o computador.
Mouse e teclado acompanham a computação pessoal desde seu nascimento no final dos anos 70, periféricos imprescindíveis para a utilização do computador como o conhecemos. Mas a popularização da tecnologia touchscreen com a chegada do celular e sensores de movimento cada vez mais presentes nos videogames veio mudar a forma como lidamos com dispositivos eletrônicos – e o iPad é mais um degrau nesta evolução. Os comentários na redação sobre o aparelho variavam de “é um iPhonão” – ou “iPod Touchão”, comentário quase sempre seguido da observação de que o novo tamanho causava na navegação – para “até eu consegui usar”, o grande trunfo da Apple no que diz respeito à intuitividade do uso. O que é bem peculiar vindo de um aparelho que, disposto a substituir os laptops, não conta nem com mouse nem com teclado.
E a partir da pauta encubada, gerou-se um esforço coletivo para dissecar a tendência apontada pela Apple. A repórter Ana Freitas havia ficado com a parte sobre telas sensíveis ao toque, enquanto Rafael Cabral explicou o projeto Sixth Sense, Jocelyn Auricchio falou das inciativas da Microsoft e Asus e testou o mouse touchscreen da Apple, enquanto Filipe Serrano comentou como o anúncio do novo sistema operacional da Apple – feito após o lançamento do iPad – é mais um passo de uma evolução que começou com o iPhone, quando a Apple conectou de vez o telefone móvel à internet. Rafael e Fred Leal se embateram sobre a importância do novo dispositivo (Rafa mais entusiasta, Fred cauteloso) e eu amarrei tudo no texto de abertura do caderno.
No resto do Link, além de traduzirmos duas matérias do New York Times – o Vida Digital sobre o novo game, online e social, da EA sobre Tiger Woods e outra sobre o hábito de fotografar comida lançado à era da câmera digital -, Tatiana de Mello Dias mais uma vez se viu às voltas com o Marco Civil da Internet, cujo anteprojeto – antecipado pelo Link há duas semanas – finalmente foi apresentado ao Ministério da Justiça. Aproveitamos para explicar o projeto em um infográfico de texto feito pelo Jairo Rodrigues, que a editora-assistente do caderno Heloísa Lupinacci batizou de “peça tipográfica” e eu encurtei para “infotipográfico” – um recurso que aparecerá com frequência nas próximas páginas do Link. Tatiana também entrevistou Leigh Morfoot, diretora do documentário Citizen 3.0 – e publicou a íntegra em seu blog, o obrigatório P2P.
Fora da rotina da equipe, o colunista Pedro Doria observa uma estranha aproximação entre a cultura das duas maiores cidades da Califórnia, enquanto Steve Jobs exibe-se como um jovem mestre numa arte pouco dominada pelo Vale do Silício de San Francisco e largamente abusada pela Hollywood de Los Angeles.
Uma aproximação que se reflete cada vez mais em algo que já é conhecido do leitor mais atento do Link – a de que a cultura digital é a cultura pop do início do século 21. Não é só um modismo ou uma nerdice – é algo que permeia quase todos os diferentes aspectos de nosso dia-a-dia e está mudando radicalmente hábitos, preceitos, regras e modelos. Seja na forma que mexemos no computador à maneira como as leis estão tendo de mudar ou como geeks vêm sendo tratados como popstars, uma coisa é fato: a vida digital mudou tudo para sempre.
Resta acostumarmos à mudança.
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