O futuro das duas empresas que inventaram o presente
- 28 de outubro de 2012|
- 16h20|
- Por Alexandre Matias
Jobs e Gates criaram uma indústria que não existia
No dia 30 de maio de 2007, na cidade de Carlsbad, na Califórnia, o jornalista norte-americano Walter Mossberg, uma das principais referências do jornalismo de tecnologia do mundo, recebeu os dois maiores nomes da história da computação dos últimos 30 anos para um encontro há muito esperado. Bill Gates e Steve Jobs compareceram à conferência D5, organizada por Mossberg a partir de sua plataforma All Things Digital, do jornal Wall Street Journal, para um encontro que seria naturalmente histórico. Faziam anos que os dois não compareciam a um mesmo evento simultaneamente e agora estavam novamente juntos para uma sabatina em conjunto.
Os dois começaram trabalhando juntos, nerds idealistas que viam a possibilidade de transformar o computador – um aparelho que antes ocupava salas inteiras – em um aparelho presente na casa da maioria das pessoas. Era uma utopia tecnófila e pouco provável para os principais futuristas daquele tempo, mas Gates e Jobs insistiram tanto que fundaram duas empresas que determinaram nosso estilo de vida nas últimas três décadas. Juntas, Microsoft e Apple dominaram um mercado que não existia, movimentaram bilhões de dólares, criaram uma indústria literalmente do nada e – ao mesmo tempo – eram rivais, cada uma defendendo uma lógica da computação pessoal, uma estética.
Por isso era natural que se esperasse que o encontro pudesse ser um espetáculo de farpas e alfinetadas por sobre um clima tenso e pesado.
Não foi o que aconteceu. Foi justamente o contrário. Os dois, claro, ironizaram as empresas um do outro – além de brincar com a própria reputação pessoal e de suas empresas. Foi quase um reencontro de turma de classe, com os dois lembrando os primeiros dias de trabalho ao mesmo tempo em que projetavam previsões para um futuro próximo, especificamente aquele que aconteceria em cinco anos.
A conferência foi em 2007, cinco anos depois estamos em 2012. Vale lembrar agora o que os dois projetaram para o nosso presente.
Um deles disse que achava que não teríamos apenas um dispositivo para acessar a internet. “Acho que teremos uma grande tela portátil que nos fará ler dramaticamente mais. Eu acredito muito no formato do tablet. Você terá um aparelho com teclado e algumas ferramentas para isso. E você também terá outro aparelho que cabe em seu bolso, em que você terá toda a noção de inúmeras funções que podem ser postas ali. Você sabe, localização, mídia, telefonia. A tecnologia nos permite colocar cada vez mais coisas ali, mas você deve afiná-los para que as pessoas tenham uma ideia sobre o que esperar. Por isso há muita experimentação neste aparelho de bolso. Mas acho que estes são fatores naturais e teremos uma evolução da máquina portátil.”
O outro completou: “Você sabe que houve a era da produtividade, com processadores de texto, planilhas eletrônicas e tudo aquilo que fazia toda a indústria se mover. E isso se estabilizou por um tempo e estava começando a ficar velho quando veio a internet e todo mundo precisava de computadores mais poderosos para acessar a internet. Vieram os navegadores e, com eles, toda a era da internet. Foi quando surgiu essa noção de que o computador pessoal – chame de hub digital ou de centro multimídia da casa – começou a decolar graças a câmeras digitais e pelo compartilhamento das coisas via internet. E assim o computador renasceu como o hub de sua vida digital. E dá para ver que há algo novo começando de novo. Não está exatamente claro sobre o que é isso, mas o computador vai funcionar com outros serviços online e coisas do tipo. E, claro, computadores vão se tornar ainda mais móveis. Por isso acho que o computador pessoal deverá continuar existindo.”
A primeira fala é de Bill Gates. A segunda é de Steve Jobs. Se parece que seria o contrário, é porque os dois, na verdade, fazem parte do mesmo negócio. Se opõem, mas estão juntos.
Cinco anos depois, Jobs está morto e Gates não faz mais previsões sobre o futuro, longe da empresa que fundou. Apple subiu ao topo da cadeia tecnológica e vive seu melhor momento enquanto a ainda gigante Microsoft dá seu passo mais radical (o Windows 8 ) para se manter importante. Passou, inclusive, a produzir hardware, como a Apple.
O encontro virou piada na internet anos mais tarde num quadrinho em que os dois magnatas brincam com o fato de serem ricaços (veja um exemplo nesta página). Não há rusga, não há briga. Há dois nerds milionários rindo para além de uma rivalidade de butique. Juntos, eles mudaram o mundo. Resta saber se suas empresas o mudarão ainda mais.
Sem Jobs, Apple volta a ser uma empresa como as outras
- 16 de setembro de 2012|
- 18h01|
- Por Alexandre Matias
O ciclo iniciado em 2007 se fechou neste ano
Desde que se soube a gravidade da doença de Steve Jobs, uma espécie de maldição parecia pairar sobre a Apple. A empresa sempre foi associada ao seu fundador mais pop. Suas decisões como executivo – inusitadas, improváveis – eram coerentes com sua personalidade.
Áspero e simpático na mesma medida, sua personalidade se refletia na condução de uma empresa que, em dez anos, deixou de ser uma tradicional fábrica de computadores para reinventar os mercados de música, de telecomunicações e de entretenimento digital. A lógica fez que ela se tornasse a marca mais valiosa do planeta.
A maldição apontava dois caminhos. Na primeira hipótese, fatal. A empresa degringolaria administrativamente sem seu líder. Esta possibilidade perdeu força à medida que nos acostumamos a Tim Cook, apresentado em janeiro de 2011 – com Jobs ainda vivo – como o novo condutor da empresa. A transição ocorreu tão bem que a coroa definitiva de CEO depois da morte de Jobs não pesou na cabeça de Cook. Foi sob sua administração que a Apple atingiu seus maiores trunfos como empresa.
A outra possibilidade é o cenário atual: a empresa apenas cuidaria do que já havia sido criado para não correr riscos. Este ano assistimos à conclusão de um processo iniciado em 1999, quando Steve Jobs voltou à empresa que criou (e que o demitiu). Ele começou com a criação do iPod e a transformação do iTunes de programa de computador para loja online, no vácuo deixado pelos erros da indústria fonográfica.
Depois veio o iPhone, que sucateou celulares com botões, tornou plausível o termo smartphone e reinventou o conceito de software para celulares que resultou na criação da economia dos aplicativos. A penúltima peça foi o iPad, que não só abriu uma nova categoria de aparelhos como tornou a possível um mundo sem computadores tradicionais para milhões de pessoas.
O ano de 2012 viu surgir uma nova linha de laptops e a aposta em um sistema de armazenamento online (o iCloud), que torna a comunicação entre Macbooks, iPads e iPhones mais intuitiva. Aos poucos o ecossistema se fecha. O iPhone 5, que seria lançado no ano passado caso Jobs não tivesse morrido, finalmente saiu na semana passada. Todas estas novidades eram previsíveis.
Pior: o iPhone 5 talvez seja o produto da empresa que menos emocionou as pessoas. Todas as suas novidades já haviam sido antecipadas, quebrando um padrão de sigilo que não era apenas rigoroso nos tempos de Jobs – era parte do show. Todo novo anúncio é cercado de mistério. O da quarta-feira passada trazia o “5” no próprio convite.
Falta uma peça para fechar o ecossistema doméstico digital bolado por Steve Jobs. É a Apple TV. Hoje, o aparelho é um hub de mídia que distribui conteúdo, comprado via iTunes, para todos os aparelhos da casa. Mas Jobs queria que este aparelho fizesse com o televisor o mesmo que o iPhone fez com o celular – o reinventasse. Uma das novidades do último aparelho lançado quando Jobs ainda era vivo, o iPhone 4S, foi algo pensado para a Apple TV: a Siri. Para Jobs, o assistente pessoal que conversa com o usuário seria o fim do controle remoto.
Para a Apple, como empresa, tudo bem. As ações sobem, os produtos vendem, os clientes ficam satisfeitos. Mas e agora? iPad 4 e iPhone 6? Até quando?
Talvez a resposta venha já no próximo mês. Rumores indicam que a empresa lançará um novo iPad, menor, talvez chamado Mini. Uma invenção que era menosprezada pelo próprio Jobs – que, contudo, não chegou a ver o sucesso feito pelo Kindle Fire, o tablet da Amazon (talvez a principal concorrente da Apple, nos próximos anos). Mas ainda é um iPad, não é um aparelho inesperado.
O desafio proposto a Tim Cook é o desafio de qualquer empresa, seja uma startup ou multinacional: quando vale a pena correr riscos para tentar crescer ainda mais? Jobs se antecipava a essa hora e simplesmente se desafiava continuamente. Sem ele, a Apple caminha para ser apenas uma empresa como as outras. Forte e líder, mas passível de queda, caso alguém tenha uma nova ideia que ninguém ainda havia imaginado.
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