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Dilema digital

  • 5 de junho de 2011|
  • 7h56|
  • Por Alexandre Matias

Quadrinhos no século eletrônico

A encruzilhada digital é implacável. Indústrias estabelecidas no século 20 graças à cultura de massas penam, no novo século, para se adaptar a uma realidade que celebra a cultura do nicho. Mais que isso, numa cultura digital, em que tudo pode ser copiado e reproduzido sem que o autor tenha controle da distribuição, fica cada vez mais complicado gerir um negócio que lide com a produção de conteúdo feita para milhões de pessoas.

A indústria do disco sentiu isso na pele ao servir de boi de piranha digital quando assumiu o papel de primeiro antagonista da web e processou quem baixava MP3 sem pagar. Hollywood sente dolorosamente essa mudança, quando o download de filmes via torrent a obrigou a apostar em superproduções e em novas tecnologias, como as salas Imax e 3D. Emissoras de TV do mundo inteiro veem suas programações escoarem para fora da grade rumo ao YouTube.

Música, cinema e TV estão sempre nas notícias quando se fala nesse assunto, mas uma indústria que é a cara do século 20 e está quase sempre à margem dessa discussão vem penando para retomar sua importância na era digital: os quadrinhos.

E quando se fala em indústria dos quadrinhos, dois nomes se destacam: Marvel e DC, editoras que criaram o conceito de super-herói moderno. A primeira tem se mexido drasticamente para continuar relevante nos dias de hoje, principalmente longe das revistas. Seu principal feito foi se transformar em estúdio de cinema para levar seus personagens para um público que não lê páginas em papel. A Marvel também pulou no iPad na primeira hora, criando um dos aplicativos mais festejados logo que o tablet apareceu. Mas a conta ainda não fechou – e a Marvel continua em busca de alternativas para fazer suas histórias em quadrinhos sobreviverem no século 21.

Sua principal rival, a DC, começou a se mexer de verdade na semana passada, quando anunciou que iria zerar sua linha de super-heróis e recomeçar a contagem de suas revistas, todas com um novo número 1. Não é a primeira vez que a editora que inventou o Super-Homem e o Batman tenta isso. Nos anos 80, conseguiu reiniciar seu universo com a saga Crise nas Infinitas Terras, em que permitiu que seus heróis pudessem fazer sentido no fim do século passado.

O novo reinício mira no digital. Além dos novos números 1, a editora deverá publicar, digitalmente, as mesmas histórias exatamente no dia em que elas chegam às bancas. O preço deverá ser mais barato que o das versões impressas, pois a editora quer que seu novo público volte para o papel uma vez que sentir o gosto dos novos títulos online.

Mas isso pode dar bem errado, já que, assim, eles podem matar um de seus principais redutos, que são as lojas de quadrinho – como a música online fez com as tradicionais lojas de disco. A estratégia trará novos leitores se der certo. Mas se der errado, pode afugentar até os velhos. Ninguém disse que seria fácil.

A coluna Impressão Digital, do editor do Link Alexandre Matias, é publicada todos os domingos, no Caderno 2

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4 Comentários
  • 06/06/2011 - 08:03
    Enviado por: O AleMello

    Gostei, Matias. Um detalhe que me passa na cabeça e, acho, é crucial: conteúdo.
    Mais do que investir na forma, as editoras têm que se preocupar com o conteúdo.
    Histórias boas em sequência (não uma ou outra ou uma série ‘revolucionária’ que vai zerar tudo, de novo), enredos bem estruturados, narrativas visuais atraentes e arte bem feita são essenciais.

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  • 06/06/2011 - 11:35
    Enviado por: Fabiano Alvez

    “E quando se fala em indústria dos quadrinhos, dois nomes se destacam: Marvel e DC”
    Marvel e DC são só a casca.

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  • 06/06/2011 - 12:54
    Enviado por: José

    As lojas de quadrinhos já perdem espaço a algum tempo. Na verdade muitos dos velhos leitores no EUA passaram a dar preferência aos encadernados ao invés das tradicionais revistas mensais. Creio que boa parte das vendas de revistas mensais passará para a WEB, enquanto os encadernados serão para o mercado de quadrinhos o equivalente aos vinis no mercado musical, com um publico menor, mas consumidor fiel.

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  • 06/06/2011 - 15:07
    Enviado por: Paulo Cezar

    > “Não é a primeira vez que a editora que inventou o
    > Super-Homem e o Batman tenta isso.”

    Não sei exatamente o que você quis dizer com isso, mas cuidado aí. Essas editoras não “inventaram” nada, especialmente no caso do Super-Homem onde processos judiciais se arrastaram por décadas.

    Quanto ao famoso “reboot”, não passa de uma grande jogada de m*rda já tentada antes. O Batman quebrou a espinha, o Super-Homem foi dividido em dois e coisa e tal, mas nada funcionou. Não parece ser isso que o leitor quer.

    Um novo universo refeito também não parece ser solução. Concordo com o comentário anterior: bons enredos e bons desenhistas e principalmente sem tripudiar sobre o pobre leitor com aquele negócio de “continua no próximo número”.

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