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Cinco anos mudando a cara do jornalismo de tecnologia

  • 14 de abril de 2013
  • 16h00
  • Por Alexandre Matias

Despeço-me depois de a coluna completar 3 anos

É inevitável ouvir Jim Morrison sussurrar a frase que batiza o maior épico dos Doors à medida que começo a digitar. É a última Impressão Digital que assino, um mês após ela completar três anos. A coluna, que começou no Caderno 2 em 2010, era o último vínculo que tinha com este centenário jornal. Agora encerro a jornada que comecei em 2007.

(Minha relação com o Estado, contudo, é anterior ao Link. Durante os anos 90, colaborei com o extinto caderno Zap! e em sua versão reduzida, o Caderno Z. Foi ali que publiquei minha primeira matéria num grande veículo, ao comemorar o cinquentenário do gênio psicodélico Syd Barrett. Portanto, o fim da Impressão Digital talvez seja o encerramento do meu segundo ciclo na casa, não minha despedida final.)

Comecei a trabalhar no Link em maio de 2007, após sair da gravadora Trama. Em abril, o antigo editor-assistente do Link, Guilherme Werneck, me chamou para conversar. Ele estava saindo para dirigir a redação da revista Trip. Perguntou se eu toparia assumir seu cargo. Gostei da ideia – já acompanhava o caderno por atuar na cobertura de tecnologia desde o início da década passada.

Era outra época. O Orkut ainda era forte, o Facebook não existia fora dos EUA, o iPhone acabara de ser lançado, a Lei Azeredo pairava cogitando a obrigatoriedade de se digitar o CPF para acessar a internet, a internet via celular ainda era WAP, Rafinha Bastos e Danilo Gentili eram estrelas do YouTube.

Quando o Ilan Kow, que hoje ocupa o cargo de diretor de projetos da casa, assumiu a gestão dos suplementos do jornal, ele achou que eu funcionaria melhor como editor do Link. Foi aí, em maio de 2009, que comecei a mudar a forma como o caderno funcionava.

Transformei a seção de tecnologia do portal Estadão.com.br no site do Link. Ao procurar alguém para ser meu editor-assistente, Ilan e seu braço direito Luiz Américo Camargo me sugeriram a Heloisa Lupinacci, que trabalhava no caderno de Turismo da Folha de S. Paulo. No primeiro almoço que tive com Helô ela disse que não conhecia muito de tecnologia. “Não importa”, frisei, “você tem que entender de jornalismo”, antes de repetir um dos meus mantras: essa é das poucas profissões em que você é pago para aprender.

Com Helô como copilota, reestruturei a equipe que ficara desfalcada. Chamei Tatiana de Mello Dias, que já havia trabalhado comigo na Trama e estava na IstoÉ, o amigo Fred Leal para ser o “personal nerd” e Ana Freitas, que havia acabado de terminar o estágio no portal. O Filipe, repórter, tornou-se o editor do site do Link e, no ano seguinte, todo mundo ganhou sua coluna.

Estas mudanças atingiram a pauta de tal forma que o Link logo tornou-se referência não apenas entre os veículos que cobrem tecnologia, mas no jornalismo brasileiro. Na época a Helô, que hoje é editora-assistente do caderno Paladar, dizia que o Link não era um caderno, era um experimento jornalístico.

Ao fim de 2012, recebi o convite para dirigir a redação da Galileu. Mas o diretor de redação do Estado, Ricardo Gandour, queria manter meu vínculo no jornal e me propôs continuar com esta coluna. Filipe Serrano, que tornou-se o editor-assistente após a saída da Helô, assumiu a edição do caderno, cargo que ocupa hoje.

Nesta nova fase do Link, a Impressão Digital chega ao fim. Foram 152 colunas ininterruptas. Parece motivo de tristeza, mas é bom que as coisas terminem. Encerro meu segundo ciclo na centenária redação com uma pontinha de saudade e um enorme orgulho. Sei do bom trabalho que fiz e como foi bom conhecer todos que conheci – e são dezenas de pessoas, de velhos amigos que reencontrei a novos conhecidos que tornaram-se chapas, amigos e confidentes. Despeço-me de todos aqui – mas a vida continua e com certeza nos encontraremos por aí. Quem sabe, num futuro, até mesmo nas páginas deste jornal.

E não se esqueçam: só melhora!

Um abraço e tudo de bom.

*Alexandre Matias é diretor de redação da Revista Galileu 

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O que acontece quando você faz algo que todo mundo espera

  • 7 de abril de 2013
  • 16h00
  • Por Alexandre Matias

House of Cards ou Arrested Development?

Já escrevi sobre isso aqui: por mais que goste das novidades digitais, estou longe de ser early-adopter, daqueles que saem por aí usando todas as possibilidades de um aparelho ou serviço recém-lançado. Tenho uma curiosidade branda em saber como funciona o que acabou de aparecer e está todo mundo comentando. Mas ficar horas na fila para comprar um telefone? Sonhar em usar uma certa atualização? Não sou desses.

(Lembro quando comecei a trabalhar no Link como editor-assistente em 2007. A chefia na época me deu o argumento definitivo para comprar um celular. O iPhone acabara de ser lançado e os celulares ainda não eram computadores de bolso. Eu não queria ser encontrado e levei anos para me acostumar com um telefone que te acompanha mesmo depois que você sai de casa. Mas me perguntaram: “E se acontecer algo urgente quando o jornal estiver indo para a gráfica?” Um argumento definitivo, cedi.)

A explicação para eu ser um late-adopter vem de um hábito que tem a ver com a profissão de jornalista e virou compulsão: consumir conteúdo. Sou fissurado por notícias, livros, filmes, programas de TV, games, sites e blogs – e por isso me contenho na hora de utilizar novas tecnologias. Também demorei a comprar DVD, fazer compras pela internet e comprar um e-reader.

Todo este enorme nariz de cera para dizer que finalmente aderi ao Netflix. E o motivo de não ter começado antes a pagar a assinatura digital para consumir conteúdo online é porque eu sabia que ia abrir uma porteira difícil de ser fechada. Mas resolvi ver qual era a deles a partir do anúncio de que começariam a exibir produções próprias.

House of Cards, série do diretor David Fincher, foi a escolhida para estrear a nova fase. Foi minha isca. Seu grande atrativo foi ter sido criada a partir de informações que a locadora digital tem dos usuários. Analisando os dados dos programas mais assistidos, chegaram a uma média que dizia que uma série sobre os bastidores da política estrelada por um protagonista sem escrúpulos seria de interesse de seus espectadores.

Comecei a assistir a série e… achei OK. Boas atuações, diálogos rápidos, uma trama que tem tudo para prender a atenção por alguns episódios e… um protagonista que vira-se para a câmera a cada dez minutos para explicar a cena e dizer quais são suas reais intenções. Precisava ser tão didático? Não passei do terceiro episódio, quem sabe um dia a retomo. Talvez não seja público-alvo típico da Netflix. Acontece.

Mas vi artigos e ouvi pessoas comentando que aquilo poderia ser um perigo, que a tendência era que a produção de conteúdo, quando é movida por algoritmos e estatísticas, poderia empacar a criatividade, criar produtos estanques, que não surpreendem e apenas saciam a vontade das pessoas por aquilo que ela já sabe que gosta.

Como se TVs e estúdios de cinema não fizessem pesquisas para saber como o público está reagindo a determinado filme ou série. Como se não existissem grupos de discussão, técnicas de foco de audiência e outros métodos para entender o que o público quer ver.

Bobagem ter esse receio. É inevitável que alguém surja com algo completamente inusitado que atraia as atenções – talvez pelo fato de que a maioria do conteúdo que é produzido hoje tende à banalidade justamente porque todos querem adivinhar o desejo do público.

Quero saber como será a volta de Arrested Development, uma das séries mais engraçadas de todos os tempos, cancelada em 2006 pela baixa audiência, justamente por ser inusitada, nonsense e exagerada – algo que nunca seria aprovado em uma reunião de conselho. Mas a série ganhou público e virou cult depois do cancelamento, a ponto do Netflix ter apostado em sua volta. A próxima temporada será lançada em 26 de maio. E agora? Arrested Development será como o público quer ver ou vão deixar a natureza livre, psicótica e absurda típica do seriado tomar conta novamente?

A ver.

*ALEXANDRE MATIAS é diretor de redação da Revista Galileu

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