
Um dos cenários prediletos dos lambe-lambes do começo do século 20 era a antiga basílica de Aparecida, cidade do Vale do Paraíba à beira da Rodovia Presidente Dutra, que foi batizada de “capital da fé” após se tornar centro de peregrinação de milhões de devotos.
Tudo começou em 1717, quando, logo após encontrarem no Rio Paraíba do Sul uma imagem em terracota da Virgem Maria, pescadores conseguiram encher o barco de peixes. E isso em um dia que até então tinha sido pra lá de fraco. Em 1745, foi inaugurada próxima do local a primeira igreja em homenagem a Nossa Senhora. Ela resistiu por quase um século, até que as torres e a fachada começaram a ameaçar ruir. Decidiu-se então erguer um novo templo.

A igreja conhecida hoje como antiga basílica levou mais de 40 anos para ser construída e só foi inaugurada em junho de 1888. Feita de pedra e cal, com janelas de madeira e duas torres de quartzito amarelo, logo virou a alegria dos lambe-lambes, como J. Abbade, autor da foto acima. Desde o início da manhã, ele e outros profissionais disputavam o melhor espaço na praça para poder enquadrar o retratado em primeiro plano e a igreja ao fundo. Era comum também posar ao lado de automóveis levados para benzer.

O costume de visitar ou seguir em romaria até Aparecida se intensificou com a chegada da estação ferroviária. E era praxe: além dos óleos milagrosos, terços, medalhinhas e imagens, a maioria dos fiéis não abria mão de levar uma foto como lembrança. Para compor o cenário, valia até utilizar um cartaz representando a fachada da igreja.

Em 1930, 213 anos depois que a imagem foi encontrada e dois anos após Aparecida se emancipar de Guaratinguetá, a santa foi oficialmente coroada Padroeira do Brasil por decreto do papa Pio XI. Quarenta e oito anos depois, Aparecida se tornou a primeira estância turístico-religiosa do País. Nessa época, já estava em construção a nova Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Muito maior que a antiga, foi inaugurada em julho de 1980, durante a visita ao Brasil do papa João Paulo II, e é também conhecida como Santuário Nacional de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. Muito antes, porém, quando as missas deixaram de ser celebradas com freqüência na velha basílica de duas torres, o movimento dos lambe-lambes já havia despencado.


Os lambe-lambes não eram coisa só do Brasil. Em alguns países da América Latina, eles eram chamados de “minuteiros”. Mas aqui foram fundamentais para documentar como brasileiros e imigrantes das primeiras décadas do século 20 viveram, passearam, divertiram-se. Mestres em eternizar momentos importantes, geralmente alegres, eles construíram parte de nossa memória visual, popularizando flagrantes de personagens anônimos, espaços públicos, instantes de religiosidade, lazer, comportamento, vestuário e costumes, não só em pontos chave da São Paulo da época, como o Jardim da Luz, o Museu do Ipiranga e o Parque Dom Pedro II, como em várias outras cidades muito procuradas por turistas, como Santos, Guarujá, Aparecida, Poços de Caldas e outras estâncias hidrominerais.

Pelos retratos dos lambe-lambes, geralmente impressos em pedaços de papel fotográfico, de 9 por 14 centímetros, podemos observar hoje poses de família no começo do século, casais apaixonados em dias especiais, grupos de amigos se divertindo no carnaval, fiéis em cidades religiosas com a igreja ao fundo, crianças brincando, gente em férias pelo litoral, orgulhosos proprietários – ou aspirantes a proprietários – de automóveis.

Para driblar a concorrência, muitos lambe-lambes expunham suas fotografias em galhos de árvores, cordas amarradas a estacas improvisadas, no chão e até nos botões das próprias roupas. As laterais da câmera também serviam de mostruário. E muitos não abriam mão de um espelhinho, para que os interessados se penteassem.
2013
2012