Noivas de preto, com vestidos curtos, de sapatos coloridos… Noivos em pé, sentados, carrancudos… Retratos no dia do casamento sempre foram um must nos acervos fotográficos das famílias brasileiras. Neste post, selecionamos algumas fotos de casais no dia de seu casamento. E você? Também tem alguma imagem desse tipo guardada em casa?











A composição dos retratos tirados nos estúdios de antigamente costumava ser cuidadosamente pensada – e variar segundo a preferência e a criatividade dos fotógrafos. Repare, por exemplo, nas fotos acima, feitas por L. C. Fattinnanzi, um dos profissionais italianos que trabalhavam em São Paulo no início do século passado. Não bastasse os vestidos e as botinhas das meninas cuidadosamente preparados para o instante da foto, vários objetos ajudam a formar a cena – a pose em cima da cadeira, os tapetes sob os pés, os vasos, cachorros, instrumento musical e outros objetos de decoração.

As mãos eram fundamentais na composição. Muitas mulheres aparecem com elas na cintura, os dedos cruzados à frente do corpo, ou sentadas, com os punhos apoiados nos joelhos. Posar segurando objetos também era um “must”. Ramalhetes de flores – algumas flagrantemente artificiais –, guarda-chuvas (que podiam aparecer na foto fechados ou abertos) e livros (também fotografados abertos ou fechados) não podiam faltar como opção. Para as crianças, estúdios especializados costumavam oferecer triciclos, réplicas em miniatura de carrões, bolas, ursinhos, cavalinhos. O importante era fazê-las parar quietas para o instante da foto.

A expressão do rosto do fotografado é outro detalhe que merece observação atenta. O que se vê na maior parte das fotos deste blog – e nos retratos da época em geral – são fisionomias sérias e contidas. Ou ainda um semblante meditativo ou reflexivo. Poucos mostram sorrisos, talvez porque naquele tempo era preciso congelar a pose por mais tempo do que hoje para que fosse tomada a imagem. Vejam, por exemplo, as expressões desse casal de noivos. Certamente por recomendação do fotógrafo, não sorriem nem fixam o olhar diretamente na lente da câmera.

O traje também era bem planejado. Ao contrário dos registros das ruas, que flagravam roupas de passeio, os figurinos de estúdio pareciam escolhidos especialmente para tirar a foto, sem descuidar do penteado e da pose. Como lembra Maurício Lissovsky, em seu Guia prático das fotografias sem pressa, “nas fotografias feitas em estúdio, homens, mulheres e crianças exibem suas melhores roupas ou aquelas de maior qualidade, disponibilizadas pelos fotógrafos, obrigando-nos a olhar para essas imagens com alguns cuidados. Em primeiro lugar, se a roupa exibida era a mais sofisticada ou rica que o portador possuía ou tinha acesso, constituía-se num traje de exceção: era a roupa da festa, da missa, das idas aos teatros ou das visitas às casas dos amigos”.
Algumas peças costumavam se repetir nas primeiras décadas do século: terno, gravata e sapatos geralmente bem lustrados para homens, vestidos para mulheres. Vejam, por exemplo, os figurinos do retrato abaixo. Ele foi enviado por Marcos Craveiro e tem mais de cem anos. Segundo ele, que já colaborou em outros posts do nosso blog, trata-se de uma foto rara de seus bisavós (em pé, à direita). Foi tirada no dia do noivado deles, em 1907. À esquerda estão sua tataravó Justina e o marido.

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Estúdio no começo do século passado era assunto de homem. À mulher cabia no máximo ajudar na administração. Em 1914, só havia uma fotógrafa profissional em São Paulo, segundo o texto O Retrato da Ousadia, de André Lima. Chamava-se Gioconda Rizzo e era filha de Michele Rizzo, dono do Ateliê Rizzo, que no final da década de 1890 se apresentava como o primeiro fotógrafo italiano radicado em São Paulo.


Michele Rizzo costumava fotografar pessoas importantes, famílias tradicionais e formaturas da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Manteve por décadas seu estúdio na Rua Direita, centro paulistano. Pelas inscrições presentes nas molduras e nos versos das fotos, é possível observar dois endereços diferentes na mesma via: no número 10C e no 55.

A filha pegou o gosto do pai e, diz André Lima, sua estreia na fotografia surpreendeu: “Gioconda enquadrou apenas os ombros e o rosto, quando ainda era comum entre os fotógrafos retratar as pessoas de corpo inteiro, em pé ou sentadas. A atitude ousada de Gioconda rompeu com os padrões da época e chamou a atenção das damas da alta sociedade paulistana. Em pouco tempo, ela ganhou fama e clientela própria”.
Por ordem do pai, Gioconda só atendia senhoras e crianças – com preferência para as primeiras, pois as segundas davam muito trabalho – e entre 1914 e 1916 teve até estúdio próprio. Batizado de Photo Femina, também funcionava na Rua Direita. O local só fechou porque um dia seu irmão mais velho percebeu entre as clientes cortesãs francesas e polonesas. Sem escolha, Gioconda teve de voltar a trabalhar com o pai.

PS: Veja mais informações sobre fotógrafos italianos que trabalhavam em São Paulo no começo do século passado no post Italianos.
Diferentemente dos fotógrafos populares, que usavam a paisagem como cenário, os fotógrafos de estúdio costumavam contar com cortinas para driblar as sombras e uma parafernália de objetos – selecionados segundo o perfil do cliente e o cenário que ele e o fotógrafo desejavam montar. Inspirados no que se fazia no exterior, sobretudo Paris, painéis e panos de fundo refinados eram utilizados para transportar o retratado para paisagens tão distintas quanto um jardim europeu ou uma floresta tropical. Alguns também tentavam reproduzir cartões-postais. Repare como o Corcovado carioca parecia no estúdio de L. Guerra mais pontudo que o original.

Muitos cenários inspiravam-se claramente em retratos de pintura. Outras imagens lembravam cenas de teatro. Acessórios também eram muito usados para compor a imagem e podiam incluir de uma cadeira e uma simples mesinha para apoiar a mão até colunas falsas, escadas, poltronas, cortinas, leques e animais empalhados. Como mostra a foto da menina sentada com os pés apoiados num banquinho de descanso e um dos braços apoiado numa mesa de vime com um vaso de flores em cima. No painel de fundo, vê-se uma espécie de cortina presa ao lado de uma coluna, representando uma porta abrindo-se a um terraço.

Nosso amigo Douglas Nascimento, do site São Paulo Antiga, nos enviou sete anúncios de estúdios, técnicas e/ou materiais fotográficos que são verdadeiras preciosidades. Foram publicados nas duas primeiras décadas do século passado em revistas importantes da época, como A Cigarra, Revista da Semana e A Ilustração Brasileira.
O primeiro deles é o mais antigo. Foi tirado em 1906 e faz propaganda do fotógrafo José Vollsack, que abriu seu estúdio na Rua Direita, 2, em São Paulo, em 1880. Como comentamos no post Homem de Mello, Vollsack foi gerente e sucessor da célebre Photographia Allemã, de Alberto Henschel, e atuou na capital paulista com seu Grande Photographia por mais de três décadas.


O segundo anúncio é de Theodoro Wendt, oficina de “clichês” de zincografia (arte de gravar ou imprimir usando lâminas de zinco) e fotogravura (processo fotográfico que permite obter placas gravadas utilizáveis na impressão tipográfica). Funcionou primeiro na Rua do Comércio e depois na Rua Líbero Badaró. Foi publicado em 1906.
Já o anúncio abaixo, da Photografia Casa Helio, é de 1917. Saiu na Revista da Semana e listava vários produtos oferecidos na Rua da Quitanda, 14. Vale a pena reparar em detalhes muito curiosos desta peça publicitária, como o “Vendas em grosso (atacado) e a varejo” e outros termos da época e o número de telefone, que há um século tinha apenas quatro números (!).

O anúncio de Otto Stück, que se apresentava como importador de artigos para fotografias na Rua da Boa Vista, 45-A, saiu na Revista da Semana, também em 1917. E, além do desenho da câmera fotográfica, traz linhas e arabescos comuns na propaganda da época.

Já o anúncio do Photographia Quaas saiu em 1920 na revista A Cigarra. E oferece “serviço especial para senhoritas e creanças”. Este detalhe é curioso, pois nem todo fotógrafo de antigamente gostava de tirar retratos de meninas e meninos pequenos. A maior reclamação é que eles costumavam dar muito trabalho para ficar quietos durante o tempo necessário para que a imagem fosse feita.

Douglas também nos enviou esse anúncio do estúdio do italiano Giovanni Sarracino. Já falamos dele no post Italianos. De acordo com o pesquisador Boris Kossoy, na década de 1910 havia 34 estúdios fotográficos funcionando na capital paulista. E os “oriundi” da colônia italiana representavam metade do mercado. Na foto abaixo, podemos ver mais uma vez a parafernália que os estúdios acumulavam. Todos esses objetos serviam para compor a foto e dar o clima que fotógrafo e retratado desejavam.

Vale destacar ainda uma outra imagem enviada por Douglas. Mostra o anúncio da filial brasileira da Kodak, que funcionava no Rio de Janeiro. Como lembramos em outro post, chamado Nos Estúdios, a proliferação das máquinas portáteis – e simplificação do ato de fotografar – marcou o começo do declínio dos antigos estúdios fotográficos.

A foto abaixo mostra Francisco Ignácio Homem de Mello e foi tirada em 24 de fevereiro de 1908 no estúdio de Joseph Vollsack, ou J.Vollsack. Segundo Guilherme Homem de Mello, o bisneto de Francisco Ignácio, que nos enviou sua foto, o estúdio ficava na Rua Direita, n.º 2, em São Paulo. Ele conta ainda que Vollsack atuou em S. Paulo entre 1880 e 1912 e foi gerente e sucessor da célebre Photographia Allemã, de Alberto Henschel.

Vale lembrar que a foto acima é um legítimo carte-de-visite, formato muito comum nas imagens do começo do século 20 no Brasil, como vimos ontem no post Do cabinet-portrait ao carte-de-visite. Para melhor visualização, ela foi ampliada. Na realidade, tinha o tamanho de um cartão de visitas – daí o nome.
Se você também quer ver alguma foto de família publicada, basta enviá-la para o e-mail blogalbumderetratos@gmail.com. O envio automaticamente autoriza a publicação, sem qualquer ônus às partes.
Até o começo do século 20 persistiam no Brasil, principalmente em estúdios de fotógrafos estabelecidos fora do Rio de Janeiro, então capital do País, modelos europeus típicos das últimas décadas do século 19, ainda muito influenciados pela pintura. Era o caso do cabinet portrait. Geralmente com formato de 11 por 17 centímetros, ele costumava apresentar o(s) retratado(s) de corpo inteiro no cenário.

Já o carte-de-visite era uma pequena foto colada sobre um retângulo de papelão rígido do tamanho de um cartão de visita. Emoldurado por desenhos de flores e arabescos, fez na França a fortuna de seu inventor – André Adolphe Eugène Disdéri (1819-1889) – e se espalhou pelo mundo.


Além de baratearem muito o custo do retrato, esses formatos-padrão facilitavam a distribuição para amigos e parentes e logo fizeram com que suas fotos virassem objetos de colecionador. E valia não só montar acervos com imagens de personagens anônimos como também com personalidades, artistas e integrantes da família real.
2013
2012