
Russell Dowding nos enviou as duas fotos deste post. São de seu avô Townley Walter Dowding e foram tiradas na Índia em 1911. Russell conta que está recuperando as fotos não só do avô como de seu pai, Peter Dowding, que foi piloto da Royal Air Force e participou da Segunda Guerra Mundial. E já tem um painel lindo em seu escritório, com 115 fotos.

Se você também quiser ver suas fotos publicadas no blog, basta enviá-las para o e-mail blogalbumderetratos at gmail.com. Importante: o envio das fotos autoriza automaticamente sua publicação neste blog, sem qualquer ônus às partes.

Os lambe-lambes não eram coisa só do Brasil. Em alguns países da América Latina, eles eram chamados de “minuteiros”. Mas aqui foram fundamentais para documentar como brasileiros e imigrantes das primeiras décadas do século 20 viveram, passearam, divertiram-se. Mestres em eternizar momentos importantes, geralmente alegres, eles construíram parte de nossa memória visual, popularizando flagrantes de personagens anônimos, espaços públicos, instantes de religiosidade, lazer, comportamento, vestuário e costumes, não só em pontos chave da São Paulo da época, como o Jardim da Luz, o Museu do Ipiranga e o Parque Dom Pedro II, como em várias outras cidades muito procuradas por turistas, como Santos, Guarujá, Aparecida, Poços de Caldas e outras estâncias hidrominerais.

Pelos retratos dos lambe-lambes, geralmente impressos em pedaços de papel fotográfico, de 9 por 14 centímetros, podemos observar hoje poses de família no começo do século, casais apaixonados em dias especiais, grupos de amigos se divertindo no carnaval, fiéis em cidades religiosas com a igreja ao fundo, crianças brincando, gente em férias pelo litoral, orgulhosos proprietários – ou aspirantes a proprietários – de automóveis.

Para driblar a concorrência, muitos lambe-lambes expunham suas fotografias em galhos de árvores, cordas amarradas a estacas improvisadas, no chão e até nos botões das próprias roupas. As laterais da câmera também serviam de mostruário. E muitos não abriam mão de um espelhinho, para que os interessados se penteassem.

Por muito tempo, os lambe-lambes foram a certeza de um dia bonito. Por um motivo simples: só com a luz do sol eles conseguiam pôr para funcionar em jardins, praças e outras áreas públicas sua caixa de fazer retratos. Posicionada sobre um tripé, ela servia ao mesmo tempo como câmera e laboratório. Feita geralmente de madeira, tinha apenas uma objetiva, sem filtros nem fotômetros, e guardava duas bandejas com líquidos que serviam para dar “banhos” na foto – um revelador, outro fixador. Ao lado da câmera, esses profissionais de rua deixavam ainda um balde com água limpa, para um terceiro e último banho. Em seguida, penduravam as fotos para secar.
Os lambe-lambes também deixavam pendurado na câmera-caixote um camisão preto com três aberturas, onde enfiavam a cabeça e os braços na hora de bater e revelar as fotografias. A função da camisa era proteger as fotografias de qualquer tipo de claridade e evitar que velassem. Era, em resumo, um equipamento que para os padrões digitais de hoje parece pré-histórico, mas na época impressionava os clientes e dava prestígio aos fotógrafos.
A origem dessa máquina-caixote, segundo o pesquisador Boris Kossoy, está ligada à vinda do italiano Francisco Bernardi ao Brasil em meados dos anos 1910. Natural de Bolonha, ele trabalhava como fabricante de acessórios fotográficos. Em São Paulo, passou a atuar também como fotógrafo e, cansado de ter de carregar pesados equipamentos de um local a outro, começou a pesquisar um jeito de ter os materiais de revelação na própria máquina. Surgia a câmera de jardim, depois simplificada e aperfeiçoada. Nas mãos dos lambe-lambes, montadas e remontadas várias vezes, elas ganhavam revestimentos de madeira, couro, metal e outros toques artesanais.
O que os estudiosos não têm certeza é sobre quem batizou esses fotógrafos de jardim como lambe-lambes. A maioria diz que o nome surgiu porque, para saber de qual lado da placa de vidro estava o material sensível, eles usavam a própria saliva, seja lambendo a placa, seja pressionando um dos cantos com o indicador e o polegar molhados antes nos lábios. Como contém cloreto de sódio, a saliva gerava uma reação química que marcava o lado da emulsão. Todo o processo tinha de ser feito no escuro e a língua era importante para que a placa fosse colocada na posição correta. Sendo de vidro, no caso de trincar, a marca ficava impressa na fotografia, como se pode ver na foto abaixo de um casal de idosos. Ele de barba branca sentado numa cadeira, ela de pé ao lado.


A foto do post de hoje nem é tão antiga. Segundo Carlos Alkmin, que a enviou, deve ser de 1967 ou 1968. Mesmo assim, lembra, “é de um tempo em que a fotografia era bem menos massificada”. “Havia as câmeras compactas de filme. Nos Estados Unidos, já eram bem difundidas as do modelo Instamatic, da Kodak, que facilitavam muito o uso amador por terem foco fixo e usarem filmes do tipo cartucho. Por sinal, são a origem do nome Instagram. Tive algumas delas na infância, o que despertou minha paixão pela fotografia, minha atividade profissional atual”, conta Carlos.
Esta foto também é, para Carlos, uma prova de como as famílias ainda prezavam naquela época o trabalho dos estúdios fotográficos, de donos geralmente nikkeis. “Minha família morava na região da Vila Mariana/ Bosque da Saúde quando nasci. São bairros onde a colônia oriental é bastante presente. Não por acaso havia ali um dos famosos “estúdios do japonês”. No caso, o Foto Kodama, perto da Praça da Árvore. Ainda existe, só que mais voltado à óptica.”
Quando Carlos – ou Carlos Alberto, para sermos mais específicos – ainda era bem pequeno, sua mãe decidiu levá-lo com os dois irmãos ao estúdio para dar a foto acima de presente ao marido. Dona Dirce, atualmente com 81 anos, está à esquerda. Em seguida, vêm ele, quase bebê, e seus irmãos Carlos Antonio, o mais velho, e Carlos Eduardo, o do meio, que faleceram cedo, respectivamente aos 32 e 57 anos.
Segundo Carlos, uma provável obsessão de seu pai, Antonio Carlos, pelo segundo nome dele o levou a batizar os três filhos como “Carlos alguma coisa”. E, como no dia a dia certamente daria confusão todos se chamando pelo mesmo nome, os irmãos logo adaptaram apelidos. “O primeiro, como era mais alto, virou o “Grandão”, o segundo ficou sendo “Edu” e eu, “Beto”", conta. Mas só em família. Profissionalmente, hoje ele prefere usar apenas Carlos Alkmin.

Os noivos desta foto, Santa de Jesus Corrêa e Ernesto Corrêa de Abreu, completam hoje 50 anos de casados. A imagem, tirada em 26 de março de 1962, foi enviada para nosso blog pela neta deles Tatiana Leiser. O casamento foi na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, em Barão do Triunfo, no Rio Grande do Sul. Santa e Ernesto eram vizinhos e se conheceram quando ela tinha 6 anos e ele, 13. O casal teve 6 filhos e 14 netos.
Imprimir a assinatura na foto era uma característica comum entre fotógrafos do começo do século passado. Como vimos no post Frente e Verso, enquanto no século 19 era comum que os profissionais estampassem seu nome e endereço no verso dos papelões sobre os quais as imagens eram coladas, no século 20 a propaganda ficou mais simples e se transformou na maior parte dos casos apenas em um carimbo do estúdio ou, no caso dos fotógrafos de rua, em uma inscrição pré-formatada abaixo da imagem com o nome do profissional e o local onde foi tirada.

(Rapaz posa no estúdio de J. Fortunato,
na Rua da Mooca, 468, em São Paulo)

(Avó posa com os netos para o lambe-lambe Silva,
em Uberaba, Minas Gerais)
Vários internautas atenderam ao nosso pedido e enviaram fotos de família para também serem publicadas no blog. A partir de hoje, vocês poderão conhecer suas histórias e imagens. Para quem também quer ver suas fotos antigas publicadas, basta enviá-las para o e-mail blogalbumderetratos@gmail.com.
Importante: o envio das fotos autoriza automaticamente sua publicação neste blog, sem qualquer ônus às partes.
A primeira foto foi enviada por Cristina Sayuri Tsuha Prado. Mostra seu avô materno, que ficou órfão ainda criança e, com ajuda das fotos, tentou recriar sua história para ele e os filhos. Não por acaso acumulou centenas de imagens. A foto abaixo foi tirada logo após mudar com a família de Paraguaçu Paulista para São Caetano do Sul, a alguns quilômetros do Museu Paulista, ou Museu do Ipiranga, que aparece no fundo da foto. O ano, escrito em meio aos caracteres em japonês, é 1958. Na foto estão os avós, os tios e a mãe de Cristina, que hoje trabalha no Ipiranga, a alguns minutos do Museu.

A concorrência acirrada no mercado de retratos na virada do século 19 para o 20 estimulava os fotógrafos na busca por diferenciais. Vicente Pastore, por exemplo, ficou conhecido por oferecer em seu estúdio na Rua d’Assemblea, 12, em São Paulo, seu Retrato Mimoso, pequena foto com moldura especial de flores e arabescos.

O modelo do Retrato Mimoso também era adotado pelo fotógrafo H. Eckmann, que atendia seus clientes na Praça da República, 28, em Santos.

Outros profissionais batizaram produtos semelhantes com nomes parecidos. Bernardo Kohring vendia aos clientes no estúdio da Rua São Caetano, 95, também em São Paulo, seu Retrato Mignon.

Por muito tempo, retratos serviram para mandar breves recados, lembranças e sinais de apreço e amizade para parentes, padrinhos, amigos da família. As crianças maiorzinhas às vezes escreviam a dedicatória de próprio punho, mas também era comum que o pai ou a mãe redigisse a recordação. De praxe, além do nome da criança, constavam sua idade – incluindo ”annos e mezes”, no português da época -, e data e local do clique. Numa época em que o Brasil – e sobretudo São Paulo – recebia milhares de imigrantes, muitas das mensagens eram escritas em outros idiomas – italiano, armênio, japonês, árabe, francês -, dependendo da nacionalidade da família.

Por meio de uma dedicatória, é possível saber que a garotinha da foto acima se chamava Juanita e fez essa pose para o fotógrafo H. A. Volk, de Curitiba, em 24 de fevereiro de 1890.
Já no verso da imagem abaixo, o menino Fernando, de 2 anos, manda “beijinhos ao titio Nicolino”. A fotografia foi tirada em 21 de fevereiro de 1927 no estúdio Vilhegas Phot, como se percebe pelo carimbo seco da moldura.

Há séculos pesquisadores e curiosos estudavam como capturar imagens. Mas só em 1839 se apresentou oficialmente o daguerreótipo, aparelho que conseguia fixá-las em placas de cobre cobertas com sais de prata.
O descobridor foi o francês Louis-Jacques Mandé Daguerre (1787-1851), ex-companheiro de trabalho do também francês Joseph Nicéphore Niepce (1765-1833), responsável em 1826 pela primeira fixação de imagem.

Em 1840, a novidade chegava ao Brasil. Foi por meio do abade Louis Compte, passageiro da corveta belgo-francesa L’Orientale, que aportou de passagem no Rio vindo de Paris. Aqui, o religioso fez três demonstrações do funcionamento do processo – as primeiras na América Latina – e apresentou o daguerreótipo ao imperador dom Pedro II, que logo encomendou um aparelho e se tornou grande entusiasta da fotografia. Além de exercitar o ofício e posar várias vezes com a família real, o monarca também agraciou fotógrafos com títulos e honrarias.
Na mesma época, Antoine Hercule Romuald (1804-1879), mais conhecido como Hércules Florence, desenvolvia experimentos com nitratos de prata e câmara escura no Brasil.
De lá pra cá, um batalhão de gente trabalhou para simplificar o método e oferecer imagens de mais e mais qualidade com menos esforço e necessidade de conhecimento para o usuário.

2013
2012