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Produtor de suíno cria ração alternativa para reduzir custo

Tânia Rabello

quarta-feira 02/11/11

Cardápio variado: na ração dos suínos adicionam-se até 5% de resíduos da indústria alimentícia, como batatinhas chips, salgadinhos, casquinha de sorvete, açúcar e leite em pó. FOTO DE EPITÁCIO PESSOA/AE

REPORTAGEM DE JOSÉ MARIA TOMAZELA
Os suínos em fase de terminação na Granja Ianni, em Itu, a 98 quilômetros de São Paulo, comem ração à base de milho, farelo de soja e batata chip ou casquinha de sorvete. O uso de alimentos industrializados para o consumo humano na alimentação desses animais é uma das alternativas adotadas por produtores paulistas para substituir o milho e reduzir o custo da produção. Além da comida de gente descartada pela indústria, os suinocultores aprenderam a tirar vantagem da sazonalidade de outros grãos, como o trigo e o sorgo, para fazer frente ao impacto que o preço da soja e do milho está causando no valor da alimentação.

O balanceamento correto dos produtos exige que o criador tenha estrutura para fazer a própria ração. O suinocultor Antônio Ianni está ampliando a fábrica para abastecer a granja que produz 4 mil suínos por mês.

A capacidade é de 10 toneladas por hora – atualmente a produção chega a 2.100 toneladas ao mês. Ele usa 15 formulações diferentes com o aproveitamento de tudo o que faz bem ao suíno, inclusive os subprodutos da indústria alimentícia. “O suíno compete com o ser humano em alimentação, podendo comer praticamente tudo o que nós consumimos”, diz. Aos tradicionais salgadinhos que a indústria descarta por estarem fora de padrão, com a coloração mais ou menos acentuada ou com excesso de quebra, se juntam sobras de biscoitos e bolachas. Para a formulação, os componentes de cada produto são analisados e mensurados.

Restos de açúcar e leite em pó entram na composição da ração dos leitões – há até aromas para melhorar o sabor, conta a encarregada Francisca Daline Oliveira. Entre os produtos sazonais estão o sorgo e a quirera de arroz, além de grãos de trigo ou triticale que não atingem o padrão industrial. “Há dois meses recebi uma oferta de trigo por R$ 350 a tonelada porque tinha chovido na colheita e o grão foi recusado pelo moinho”, conta Ianni.

Ele lembra que as alternativas de origem industrial estão cada vez mais escassas porque, além de as fábricas terem reduzido os descartes, já há concorrência pela compra dos produtos. Mesmo assim, os produtos alternativos representam 5% da ração consumida na granja. “Há oito anos chegava a até 40%”, lembra.

A alimentação não é o único componente do custo, lembra o criador. “Nossa atividade ficou com margem muito estreita, por isso o criador precisa ter uma série de atitudes que, no fim, resultam em economia. “É o caso da automação: na creche de leitões da Granja Ianni, o encarregado Roberto Viana Rosa tem tempo até para cuidar da grama do jardim. A ração que chega de caminhão a granel é transportada por sucção para os silos e, dali, abastece os cochos automaticamente. A água é servida em chupetas pendulares acionadas pelo focinho do leitão. Ventiladores mantêm o ambiente arejado e os pequenos suínos ficam sobre o piso plástico e sob um forro de lona que, nos dias quentes, mantém a temperatura amena e, no frio, aquece.

De acordo com o gerente da Agroceres, Márcio Faleiros Ribeiro, os criadores estão automatizando as granjas para reduzir a dependência de mão de obra que, nos últimos anos, tornou-se cara e pouco disponível. Em São Paulo, as granjas perderam a mão de obra para indústrias e usinas de açúcar e álcool. Ele contou ter visitado recentemente granjas de suínos desde Santa Catarina até o Centro-Oeste e observou que as mais eficientes estão automatizadas. “Nas maternidades, as baias-gaiolas têm cocho automático para fornecer ração seca às matrizes.” Algumas granjas adotaram as baias de gestação coletiva, com menor consumo e menos mortalidade de leitões. As mães suínas só vão para as gaiolas individuais na hora do parto. Mesmo assim, enquanto nos Estados Unidos, um funcionário cuida de 300 matrizes, no Brasil, a relação é de 1 para no máximo 100 matrizes.

Salgadinhos e batatinhas. Resíduos industriais descartados porque não passaram no controle de qualidade vão direto para a ração dos suínos. FOTO DE EPITÁCIO PESSOA/AE

Para o presidente da Associação Paulista de Criadores de Suínos (APCS), Valdomiro Ferreira Júnior, o suinocultor paulista precisa deixar de usar o milho como principal insumo da ração. “Com a saca a R$ 31 a conta não fecha”, disse. Ele considera como cenário ideal para o produtor que o preço da arroba (15 quilos) de suíno seja equivalente ao de 2,5 sacas de milho. “Teria de vender a arroba por R$ 75, mas estamos vendendo por R$ 53.” Ferreira criticou a decisão do governo de premiar a exportação de milho no ano passado, quando o preço do grão estava em R$ 17 a saca de 60 quilos. Com o incentivo, foram exportados 3,2 milhões de toneladas a preço baixo, levando à redução de estoques. “O produtor de suíno e frango está sendo punido”, disse. Ele acredita que, no futuro, os nutricionistas terão de encontrar alternativa de alimento para suínos e aves de forma a excluir o milho, commoditie de alto valor.

Criador tradicional, Alcides Pavan, da Granja Roseira, em Pereiras, acha difícil encontrar um substituto à altura do milho para compor a ração suína. “Até usamos o sorgo, mas o milho sempre foi e continua sendo o melhor grão”, diz. Ele não vê como solução forçar a queda no preço do milho para baratear o custo. “Não é o milho que está caro e sim a carne que está barata”, disse. Para ele, a cotação baixa desestimula a produção num Estado tomado por lavouras de cana-de-açúcar. De acordo com Pavan, o preço baixo do frango prejudica a cotação das outras carnes, como o boi e o suíno. “O consumidor vai comprar a que pesa menos no seu orçamento.” Como integrador de suínos e aves, ele já decidiu reduzir o alojamento de frangos. “Estamos colocando dois pintinhos a menos por metro quadrado. Com menos oferta, o preço pode melhorar.”

MAIS CARNE – A genética é outro caminho seguido pelos produtores para obter mais produção a um menor custo. No último dia 25, a Agroceres PIC reuniu uma centena de suinocultores paulistas em Atibaia (SP) para apresentar a Camborough, matriz resultante do cruzamento das linhas maternas Landrace e Large White. De acordo com a geneticista da empresa, Bruna Pena Sollero, a fêmea deve passar para a descendência características de alta produção de leitões, maior peso no desmame e melhor rendimento de carcaça sem consumir mais ração. “Para o criador brasileiro, isso deve significar mais dinheiro no bolso ao fim de cada ano”, diz. A empresa está selecionando parceiros para a formação de rebanho comercial.

Conforme o diretor superintendente da Agroceres, Alexandre Furtado da Rosa, o suinocultor brasileiro enfrenta o desafio de obter rentabilidade num cenário em que seu custo de produção já é 20% maior que o americano. “Nosso suíno consome milho, já o animal americano está sendo alimentado com o resíduo do milho processado na produção do etanol”, diz. Somente no ano passado, os Estados Unidos destinaram 130 milhões de toneladas – duas vezes a produção brasileira – para fabricar o combustível. A demanda levou a uma disparada no preço internacional do grão e afetou produtores de suínos tanto de lá quanto do resto do mundo. “A questão é que o americano, depois de muita pesquisa, acertou o aproveitamento do resíduo do milho na ração do suíno e, o que era um problema, para eles virou solução.”

Ele acredita que a genética é uma forma de encarar o desafio. A busca é por animais que possam ser abatidos, não só em menos tempo e com maior peso, mas que tenham consumido menos ração. Nas melhores granjas brasileiras, um suíno é abatido com 140 dias, pesando em torno de 100 quilos. A meta é obter, nesse prazo, um peso de 115 quilos. “Há cinco anos, a conversão do suíno era de 2,8 quilos de ração para 1 quilo de carne. Hoje, nossa meta é de um consumo de 2,1 quilos de ração para produzir um de carne. Estamos falando de um alimento que há alguns anos custava R$ 0,25 e hoje custa R$ 0,68 o quilo”, disse Rosa.
Outro caminho, segundo ele, é a automação, já que a mão de obra, historicamente na faixa 6%, hoje representa 10% do custo de produção. O executivo defende ainda maior eficiência da cadeia na abordagem do consumidor. “O frango ganhou espaço investindo em cortes diferenciados.” Segundo ele, há um grande potencial para a suinocultura crescer no mercado interno. “O brasileiro consome 15 quilos de carne suíno por ano, enquanto o habitante dos países escandinavos consome de 60 a 70. Podemos chegar a 30 quilos por habitante ao ano oferecendo carne fresca de qualidade, em bons cortes e a preços acessíveis.”
SAIBA MAIS: APCS (19) 3651.1233.