Não gosto de retrospectivas. Vou apenas enumerar aqui o que mais me marcou na área ambiental neste ano de 2010:
- Marina Silva (PV), ex-ministra do Meio Ambiente, foi candidata à presidência e conseguiu votação expressiva!
- Depois do fiasco da Conferência do Clima de Copenhague e do desânimo nas negociações entre países sobre mudanças climáticas, muitos países começaram a agir por conta própria, sem esperar um acordo com forma de lei. Ainda é pouco. Mas quem imaginaria a China investindo em energias renováveis, como a eólica, anos atrás? Também parecia improvável que o Brasil colocasse sua meta de cortar emissões de gases-estufa em lei, o que acabou acontecendo neste ano.
- Os EUA, apesar de ainda não terem uma lei de mudanças climáticas, começaram através da EPA (agência ambiental americana) a colocar regras mais duras para evitar poluição e emissão de gases de efeito estufa. É a saída agora que os Democratas perderam as eleições legislativas (e os Republicanos são contra a lei, pois acham que a economia do país vai piorar).
*** Já ouvi muitos negociadores nas reuniões sobre clima falarem que, se não tivessem esperança nem fossem otimistas, não trabalhariam nesta área. Acho que isso vale para mim como jornalista. Pode até ser um pouco ingênuo, mas tento sempre acreditar que vamos sair desse jogo de empurra e tomar as atitudes necessárias para combater as mudanças climáticas.
Aliás, lembrei de uma coisa. Costumamos falar hoje em dia mudanças climáticas, e não apenas aquecimento global. Isso porque os estudos mostram que nem todas as áreas do Planeta estão ficando mais quentes. Algumas estão mais frias – neste ano, por exemplo, parte dos EUA tiveram temperaturas mais geladas do que a média.
A questão é complexa, mas o ponto básico é que esse desequilíbrio, as alterações para cima ou para baixo na temperatura, têm consequências graves. E cabe a todos nós tentar minimizar o problema.
Um feliz 2011 a todos os leitores e obrigada pela companhia durante este ano!
Eu não conheço Bruno Covas, o novo secretário estadual do Meio Ambiente e deputado estadual mais votado de São Paulo. Mas nunca me chamou a atenção algum projeto dele relacionado à área ambiental. Sua formação é de advogado pela Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP) e de economista pela PUC-SP.
A própria página do deputado na internet (http://mandatobrunocovas.com.br/) não destaca propostas ligadas ao meio ambiente. Entre os projetos que aparecem estão o de obrigar receitas médicas a serem datilografadas; o de instituir a avaliação da educação física; o de tornar obrigatória a realização da virada cultural em todas as regiões de governo; outro que garante a criação de grêmios etc.
A gestão do Xico Graziano, sempre muito prático e direto, foi uma boa surpresa para mim. Ele trabalhou bastante pelo Estado e ajudou a fazer com que São Paulo adotasse a meta de cortar 20% das emissões de gases-estufa até 2020. Espero que o Bruno Covas aprenda rápido sobre o assunto e dê continuidade a esse trabalho.
A atual ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, continuará no cargo no governo de Dilma Rousseff. Ela ficou no posto depois que Carlos Minc voltou ao Rio de Janeiro para se candidatar a deputado estadual, em março deste ano.
Bióloga, Izabella nasceu em Brasília e, desde 1984, é funcionária de carreira do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). No período em que Minc era ministro, ela atuou como secretária-executiva do órgão.
É difícil saber o que esperar de Izabella. Ela chefiou a delegação brasileira em duas importantes reuniões na área ambiental: a COP-10 de biodiversidade, em Nagoya (Japão), e a COP-16, em Cancún (México). Nas duas, o País teve papel relevante.
No Japão, ela afirmou que o Brasil não aceitaria um acordo parcial sobre biodiversidade. Para o Brasil, era importante que fosse feita a adoção de um protocolo de regras para o acesso e a repartição de benefícios (ABS, na sigla em inglês) oriundos da exploração comercial de recursos genéticos.
“Se quisermos falar sério sobre biodiversidade, temos de falar do pacote todo”, disse ela ao repórter do Estado Herton Escobar, durante a conferência. E esse pacote acabou saindo, com a aprovação do ABS e também de 20 metas para 2020, como a proteção mínima de 17% dos ecossistemas terrestres e 18% dos ecossistemas marinhos. Era menos do que o governo e os ambientalistas queriam, mas era muito melhor do que nada!
E no México, o País ficou encarregado pela presidência da COP de ajudar a destravar as negociações sobre o Protocolo de Kyoto, um dos assuntos mais espinhosos em debate. Japão, Canadá e Rússia não queriam aceitar um segundo período do tratado – como o primeiro termina em 2012, há pouco tempo para definir novas metas antes que haja uma interrupção (ou um gap, como os negociadores falam). No fim, Brasil e Grã-Bretanha, os facilitadores da negociação nessa área, conseguiram fazer com que Kyoto não fosse assassinado. Mas ainda não foi definido se haverá um segundo período.
Muitos países preferem que seja criado outro acordo, em que participem nações como os Estados Unidos (que não ratificaram o Protocolo de Kyoto) e a China (que, como país em desenvolvimento, não tinha meta obrigatória de cortar as emissões nesse tratado).
Independentemente do que ocorrer no âmbito internacional, o Brasil tem suas metas de redução das emissões de gases-estufa e precisa cumpri-las. O teto definido para emitir em 2020 é de 2 bilhões de toneladas de gases-estufa – 9% de diminuição em relação a 2005.
As metas de biodiversidade também deverão ser perseguidas por Izabella. Estamos muito atrasados, por exemplo, na proteção de áreas marinhas (menos de 1% está protegido como parques ou reservas). E precisamos ganhar mais áreas protegidas fora da Amazônia (que foi o foco no governo Lula). Biomas como o cerrado e a caatinga precisam de mais atenção.
Eu espero também que Izabella se dedique aos problemas ambientais das cidades. Poluição do ar e inspeção veicular deveriam ser temas prioritários, em minha opinião. E o ministério tem de se unir a outras áreas de governo para tentar melhorar a questão do transporte público de qualidade (o que poderia reduzir o uso dos carros particulares e a poluição), do saneamento básico (que ainda não chegou a muitos lugares) e da coleta seletiva de lixo.
Boa sorte, ministra!
As mulheres tiveram um papel fundamental nesta COP.
Para começar, a presidente foi a ministra das Relações Exteriores do México, Patricia Espinosa. Durona, mas paciente, ela não alterava o tom de voz nem demonstrava muita emoção. Primou pela transparência em todo o processo, ouvia a todos e, dessa forma, conseguiu agradar aos países. Foi extremamente aplaudida na última noite, numa delas as palmas duraram quase cinco minutos e todos ficaram de pé. Quase todos rasgaram elogios a ela, e Jairam Ramesh, ministro do Meio Ambiente indiano, comparou-a a uma deusa…
Outra mulher relevante na COP foi Margareth Mukahanana-Sangarwe, presidente do LCA – trilho que discutia as ações de longo prazo e envolve os países que estão fora de Kyoto, como as nações em desenvolvimento e os Estados Unidos. Ela conseguiu montar um documento que, apesar de ser considerado fraco, foi visto como fundamental para avançar na questão e tentar no futuro chegar a um acordo legalmente vinculante (com valor jurídico). Entre as decisões, está a de criar o Fundo Verde, que até 2020 terá US$ 100 bilhões ao ano para o combate ao aquecimento e para a adaptação dos países às mudanças inevitáveis que virão com o aumento da temperatura.
Outro papel feminino importante foi da secretária executiva da Convenção do Clima da ONU, Christiana Figueres. Ela optou por se manter na sombra de Espinosa, falando pouco com a imprensa e sendo discreta. Foi uma estratégia que deu certo e uma grande mudança em relação ao secretário anterior, Yvo de Boer, que era mais carismático e mais parecia um pop star, de tanto que falava com jornalistas. Ele sempre parecia ter mais poder que os presidentes das COPs…
Aliás, Yvo estava em Cancún, mas passou incógnito a maior parte do tempo – o que ouvi é que ele se procurou se comportar como diplomata que é, e não como um político, para não atrapalhar o processo, não trazer confusão nem ofuscar Christiana. A única vez que o encontrei foi no restaurante Barracudas, no Moon Palace, numa noite em que também estava o poderoso Todd Stern, chefe da delegação americana. Ele parecia bem mais saudável do que no primeiro semestre deste ano, quando deixou o cargo para ser consultor da KPMG.
O mar turquesa é lindo e há muita mordomia nos resorts. Só a parte de Cancún que lembra Miami e Las Vegas me deixou com um pouco de preguiça, para falar a verdade.
Entretanto, uma das melhores partes da COP, sem dúvida, foi a comida! No almoço ou no jantar sempre havia fajitas, burritos, quesadillas, chimichangas… Também não podia faltar milho, algumas vezes com um caldo meio adocicado. Em geral, havia ainda mole – aquele molho à base de chocolate com pimenta, que eu só provei uma vez no frango e aprovei.
Numa noite, o governo mexicano chegou a oferecer um jantar à imprensa para comemorar que a comida do país tinha se tornado patrimônio da humanidade. Muito justa a inclusão!
Uma das melhores refeições foi a que tive na comunidade maia em Tabi, a cerca de três horas de Cancún. As mulheres do local prepararam um frango bem apimentado com caldo, para comer com tortillas de milho, acompanhadas de cebola e pimenta jalapeño. Tudo muito simples e saboroso!
Depois de ter tido uma grave intoxicação alimentar e passado muito mal numa reunião preparatória para a COP-15 na Tailândia e de ter sobrevivido à base de croissant na COP-16, essa foi a minha redenção. Mas uma colega da África do Sul não teve a mesma sorte: ficou doente durante as duas semanas da conferência e passou a maior parte do tempo sem comer nada ou comendo só arroz.
Já é tradição não dormir na última noite das COPs. A reunião nunca termina no horário combinado e geralmente invade a madrugada. Dessa vez, não foi diferente. Foi tão cansativo que até a presidente da conferência, Patricia Espinosa, deixou o final da plenária (já na parte mais burocrática) com o vice-presidente e foi dormir. Não chegou sequer a falar com a imprensa, como é comum ao final das COPs.
Nem Christiana Figueres, a secretária executiva da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC), concedeu entrevista à imprensa após a conclusão. O presidente resolveu aparecer no meio da madrugada, às 3h30, e fez um discurso gigantesco para elogiar os delegados e países por terem chegado a um acordo.
Pudemos ouvir ainda, por exemplo, o chefe da delegação americana, Todd Stern, e a da União Europeia, Connie Hedeggard, por volta das 5 ou 6 horas da manhã. Quando terminei minha história, já era 7h30 da manhã. Aí, fui direto tomar café e voltei para o quarto caminhando pela praia, com o sol ainda sem esquentar.
Mas a adrenalina estava alta demais para eu conseguir dormir…
O chefe da delegação da Bolívia, Pablo Solón, foi uma das figuras mais marcantes da COP-16. Sempre do contra. Seus argumentos para não aceitar o acordo eram razoáveis – ele dizia, com razão, que as propostas eram pouco ambiciosas e que permitiriam um aumento de 4ºC da temperatura do planeta.
O problema é que, se não começarmos logo a fazer algo e esperarmos um acordo ideal indefinidamente, será muito difícil depois recuperar o tempo perdido no combate ao aquecimento global.
No início da última noite da COP, a Bolívia teve o apoio de Cuba em suas críticas, e a simpatia da Venezuela. Depois, porém, na última plenária, Solón ficou sozinho. Era o único a se manifestar desfavoravelmente ao documento.
No ano passado, vários países do Alba (grupo que reúne nações da América Latina e Caribe) foram contra o Acordo de Copenhague, e ele acabou virando apenas uma nota de rodapé dentro da Convenção do Clima da ONU. Dessa vez, porém, como só a Bolívia protestou, a presidente da COP-16, Patricia Espinosa, ministra de Relações Exteriores do México, bateu o martelo e aprovou o acordo. Ela disse somente que ia anotar a reclamação da Bolívia.
Eu admito ter ficado feliz ao ver a atuação firme e calma da chanceler mexicana diante dos protestos de Solón. Não queria ver tudo degringolar de novo, ainda mais por culpa de somente um país.
Uma questão que fica é a do consenso dentro dos processos da ONU. Teoricamente, qualquer país pode bloquear uma decisão. Patricia argumentou que “consenso não é unanimidade”, mas a Bolívia com certeza vai entrar com recurso contra a adoção do texto.
Espero que os países trabalhem duro, agora, para que as decisões não fiquem somente no papel.
Confesso que estava bem desanimada com os poucos progressos observados ao longo das duas semanas em que acompanhei a Conferência do Clima de Cancún. Até o penúltimo dia, parecia que não haveria acordo nenhum, a não ser o de continuar negociando no próximo ano. Seria mais um grande balde de água fria, depois do enorme fracasso de Copenhague.
Felizmente, houve consenso em algumas decisões. O chamado Acordo de Cancún, na verdade um pacote de decisões para combater as mudanças climáticas, é fraco e poderia ser bem mais ambicioso. Está claro que nem de longe resolverá a questão.
Porém, foi um avanço importante. Muitos delegados, como a comissária para clima da União Europeia, Connie Hedegaard, temiam pelo impacto que mais uma derrota provocaria ao processo multilateral da ONU. Sem dúvida, seria um baque forte para a Convenção do Clima da ONU(UNFCCC), ainda mais num momento em que o Painel do Clima da ONU (IPCC) não passa por uma boa fase e enfrenta algum descrédito.
Foi um resultado que, embora não nos permita dar pulos de alegria, pode ajudar a conseguir avanços mais significativos no futuro.
Se isso vai ocorrer vai depender de como as decisões serão implementadas. Os países industrializados precisam entregar o dinheiro prometido. O comitê de adaptação às mudanças climáticas precisa ser criado e colocado em prática.
Algumas questões importantes foram postergadas. A principal é se o Protocolo de Kyoto terá uma segunda fase. Outra é definir como fazer o monitoramento e prestação de contas das ações dos países em desenvolvimento (chamada de Consulta e Análise Internacional (ou ICA, na sigla em inglês). Um ponto também em aberto é se as ações de captura e estocagem de carbono (conhecida como CCS) poderá entrar no mercado de carbono – a questão é polêmica porque as técnicas existentes hoje ainda não são totalmente confiáveis e há o receio de que o carbono estocado possa ser liberado para a atmosfera novamente.
Vejam o link para a reportagem sobre a conclusão da COP-16 publicada na versão impressão do Estadão:
http://www.estadao.com.br/noticias/vidae…
Nesta terça começou o segmento de alto nível da Conferência do Clima da ONU (COP-16) – quando oficialmente os ministros dos países passam a negociar. Muitos já chegaram no fim de semana, mas é nesta abertura oficial que cada um deles fala por 3 minutos o que é mais importante para seu país. Imaginem o tempo que isso leva, já que são quase 200 países!!!
O número de jornalistas também cresceu por aqui. Podem ver na foto abaixo que a sala de conferência à imprensa está bem cheia (eu estou na primeira fileira, quem consegue me achar?):
Uma das coisas mais fofas que vi até agora no Moon Palace foi um garoto alemão chamado Felix, de 13 anos, que veio chamar as pessoas para plantar 194 árvores (o mesmo número de partes que negociam na COP-16) nesta quarta-feira.
Ele vestia uma camiseta com os dizeres “Parem de falar. Comecem a plantar”. No livro do resort onde ocorre a conferência, ele escreveu o seguinte: “Para a maioria dos adultos o futuro singnifica 20, 30 ou 40 anos, mas para nós, crianças, significa 80 ou 90 anos. É por isso que as crianças lutam por seu futuro. Copenhague foi um desastre e não podemos permitir que o mesmo aconteça em Cancún”.
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