A COP 15 acabou. Já estou a caminho do Brasil e levo comigo uma sensação muito grande de frustração pelo resultado da conferência.
Apesar de todas as indicações contrárias, eu tinha esperanças de que era possível chegar a um acordo melhor. Ao chegar neste sábado ao aeroporto de Copenhague, comecei a ver novamente os inúmeros outdoors e placas em que o nome da cidade foi trocado por Hopenhagen. E imaginei quantas pessoas devem estar sentindo o mesmo que eu neste momento.
Os Estados Unidos podem não ser os únicos culpados pelo fracasso, mas posso dizer que me decepcionei muito com o presidente Barack Obama. Havia a expectativa (de vários delegados e não somente minha) de que ele aumentaria as metas do país para o corte dos gases que provocam o aquecimento global. Ou que ao menos compensaria a meta fraca americana colocando bastante dinheiro no fundo para adaptação – destinado principalmente aos países mais vulneráveis e pobres para que consigam se preparar para as mudanças inevitáveis que vão acontecer com o aumento da temperatura. Não aconteceu nem uma coisa nem outra.
E nem posso dizer que não havia sido avisada. Na quinta-feira, conversei com um dos principais negociadores dos Estados Unidos. Ele falou comigo com a condição de que eu manteria o anonimato. Perguntei a ele se Obama melhoraria suas propostas – integrantes de ONGs, como o WWWF, especulavam isso em seus briefings para a imprensa.
Mas ele me garantiu que os Estados Unidos não aumentariam suas metas (não falou sobre os recursos financeiros, porém). Eu custei a acreditar. Mas agora a ficha caiu…
É como o meu colega urso polar me falou no sábado passado, enquanto estávamos na grande marcha pelo clima (está num post aqui no blog): O discurso de Obama pode ser diferente do de Bush, afinal ele não nega o aquecimento global. Mas, nas ações, os dois não têm sido muito diferentes.
A organização dinamarquesa da COP 15 foi muito criticada. Comida ruim, serviços que fecham cedo (lanchonetes e chapelaria), dificuldades e bagunça para obter credenciamento, inúmeras filas para entrar no prédio.
Neste último dia de conferência as coisas ficam piores – menos para entrar, pois como os integrantes de ONGs tiveram restrição, não houve fila. Não há papel no banheiro nem copos para tomar água. Como só há um “night bar” com uma espera gigantesca, temos de apelar para as máquinas de bebida e comida. Mas não há sequer um refrigerante na máquina dentro da sala de imprensa. E o sono só aumenta.
Não se deixe enganar pelas aparências se todos os discursos políticos dos 193 chefes de Estado e de governo ressaltarem os avanços da a 15a Conferência do Clima (COP-15) das Nações Unidas. As declarações visam a tornar menos evidente para a opinião pública mundial que a maior reunião diplomática da história, realizada durante os últimos 12 dias, em Copenhague, é também o maior fracasso da história das negociações contemporâneas sobre a questão climática.
Aliás, é mais do que isso: é um escândalo.
Pasme: o texto “aprovado” por Estados Unidos, China, Brasil e Índia ainda não existe. Negociadores estão neste momento, 0h34min em Copenhague – 21h34min em Brasília – tentando encontrar mínimos consensos para justificar em um documento o que “líderes” acordaram sem ler.
A própria sobrevivência do Protocolo de Kyoto – o único mecanismo minimamente eficaz de política climática já elaborado – e de seu irmão natimorto, o documento que vinha sendo produzido há dois anos no grupo de trabalho LCA, está ameaçada nesta noite assustadora, em Copenhague.
A COP-15, cujos procedimentos formais prosseguem no Bella Center, terá como resultado um texto sem força de lei, com metas enfraquecidas de redução das emissões de CO2, sem instrumentos de financiamento, sem meios de verificação das ações ambientais nos países emergentes. A lista de falhas poderia se estender por várias páginas, e cada um de seus parágrafos deixaria claro que são vãos os esforços que presidentes como Barack Obama, dos Estados Unidos, e Nicolas Sarkozy, da França, estão fazendo para explicar o inexplicável.
A conferência de Copenhague, desenhada há dois anos, na COP-13, em Bali, na Indonésia, deveria marcar o apogeu da maturidade dos líderes políticos mundiais, convencidos pela gravidade da ameaça do aquecimento global – cada dia mais comprovada pela comunidade científica. O resultado, entretanto, é o inverso: prova que a economia, a geopolítica, as rivalidades nacionais ou a simples desconfiança mútua – originada na Guerra Fria, no caso da clara oposição entre Estados Unidos e China –, ainda são preponderantes.
Não bastasse, a dimensão do impasse nas negociações da COP-15 e o discurso de Obama a jornalistas norte-americanos – aliás, por que o presidente dos Estados Unidos não pode atender à imprensa estrangeira? – revelam mais: um dos pilares da Convenção do Clima, assinada no Rio de Janeiro, em 1992, está em xeque. O princípio da responsabilidade comum, mas diferenciada, pelo qual países industrializados admitiam sua culpa histórica pela poluição que jogaram na atmosfera, não será mais a regra básica do jogo em uma próxima COP.
Se houver uma próxima COP.
As últimas duas horas foram bem complicadas para os jornalistas que acompanham a Conferência do Clima da ONU em Copenhague.
Enquanto um rumor de uma entrevista do presidente americano Barack Obama levou todos os repórteres para a sala principal de imprensa, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou para ir embora sem que ninguém quase percebesse. O principal negociador brasileiro, Luiz Alberto Figueiredo, e a ministra Dilma Rousseff também já foram.
Praticamente todas as entrevistas coletivas à imprensa foram canceladas nesta sexta-feira, e quase não havia negociador que quisesse falar sobre o que acontecia nos bastidores (bom, muitos realment não sabiam o que se passava). Quando iniciávamos os textos para mandar para o primeiro fechamento do jornal, foi anunciada uma entrevista com a União Europeia numa sala onde normalmente ocorrem os briefings das ONGs. Ou seja, ficamos apertados, muita gente permaneceu em pé e o ambiente estava super abafado. Esperamos bastante, uns 45 minutos, para depois nos avisarem que a entrevista fora postergada – perdemos um tempo precioso lá dentro.
Enquanto isso, o presidente Obama falou em Copenhague apenas com jornalistas americanos. Muito frustrante. Vimos pela internet e pelas televisões na sala de imprensa. Ele disse ao fim da conversa: “Vejo alguns de vocês no avião”. Ou seja, ele trouxe um grupo de repórteres com ele.
O presidente Lula, porém, praticamente saiu fugido daqui, sem falar conosco. O que é uma pena. Ficamos sem entender. Afinal, ele fez um nítido esforço por um acordo e teve o melhor e mais emocionante discurso dentre os chefes de Estado nesta sexta. Estava muito bravo com o resultado para falar ou intimidado?
Espero que ele nos dê essa resposta em breve.
Em meio ao vazio de informações de esperanças em que se tornou a COP-15, a União Europeia teve o mérito de despertar a esperança nos corações mais crentes. Após um encontro realizado no espaço europeu do Bella Center, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, e o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, decidiram não aceitar um acordo medíocre.
A informação é oficial, publicada pelo twitter do Palácio do Eliseu, em Paris. Pode ser, claro, cortina de fumaça para valorizar um eventual texto que resulte em uma “saída honrosa” para a crise. Mas pode não ser.
Na saída do evento, há cerca de uma hora, Barroso afirmou ao Estado, sem esconder a expressão fechada: “O processo está muito complicado e está difícil um acerto”. Sarkozy e Merkel deixaram a reunião com a mesma cara de carranca. E ainda não falaram com a imprensa.
Escrevemos hoje cedo sobre o quão injustificável havia sido a postura dos Estados Unidos nas discussões da 15a Conferência do Clima (COP-15) até aqui, e sobre como um eventual anúncio de novas propostas não poderiam anular sua falta de pró-atividade durante o processo de negociações.
Como se sabe, Obama disse ter vindo a Copenhague para agir, não para falar, mas acabou falando um pouco – e de forma arrogante, segundo a análise de muitos no Bella Center –, e não agindo. Espera-se, ao menos, que aceite o apelo do secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, e que não deixe a capital dinamarquesa antes do fim das negociações.
Espera-se.
Alguns líderes saíram da reunião de chefes de Estado em Copenhague e foram vistos num dos corredores do Bella Center: passaram Angela Merkel, Nicolas Sarkozy e José Durão Barroso.
O único que falou com o Estado foi Barroso: “O processo está muito complicado, está muito difícil obter um acerto”.
Ele se negou, entretanto, a comentar os textos (rascunhos de um possível acordo) elaborados nesta madrugada e nesta manhã.
Agora há pouco, o secretário geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu aos chefes de Estado que permanecem mais esta noite em Copenhague, para tentar fechar um acordo político.
(Andrei Netto e Afra Balazina)
Enfim um pronunciamento crítico aos rumos da COP-15. Com ar cansado, Lula se diz “um pouco frustrado”.
Um pequeno recorte no tempo: são 12h em Copenhague – 9h em Brasília. A sala de imprensa da COP-15 está tomada de jornalistas, e o mundo tem os olhos voltados para o que os mais de 115 chefes de Estado e de governo se propõem a fazer por um acordo climático na COP-15.
Vejamos algumas abordagens dos colegas:
BBC (Londres): “Uncertainty over Copenhagen deal”
The Guardian (Londres): “Crunch time in Copenhagen”
The Times (Londres): “Live:Crunch day at Copenhagen climate summit”
Le Monde (Paris): “Climat : vers une simple déclaration politique ?”
Le Figaro (Paris): “Sarkozy, Lula et Brown prennent la barre de Copenhague”
El Pais (Espanha): “Todos pendientes de Obama”
Uma pergunta em todas as cabeças de negociadores brasileiros em Copenhague ao longo da semana era se Luiz Alberto Figueiredo estaria na delegação do Brasil que vai à sessão plenária dos chefes de Estado e de governo, nesta sexta-feira.
Figueiredo é diretor do Departamento de Meio Ambiente do Itamaraty e vice-presidente do LCA, o grupo que discute a criação de um novo protocolo climático.
Ocorre que o Brasil trouxe a Copenhague, além de Lula, quatro ministros de Estado: Dilma Rousseff, ministra-chefe da Casa Civil, coordenadora das negociações e – melhor não esquecer nessas horas – pré-candidata à presidência da República; Carlos Minc, ministro do Meio Ambiente; Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores; e Sérgio Rezende, ministro da Ciência e Tecnologia.
Para a plenária, cada delegação conta com quatro crachás. Salvo novidades provocadas pelo velho “jeitinho”, dos seis nomes – Lula, Dilma, Minc, Amorim, Rezende e Figueiredo –, dois precisam ficar de fora. Vamos descobrir a resposta nos próximos minutos.
Preste atenção se o nome de Figueiredo consta da lista.
Se a resposta for sim, tenha certeza de que o Brasil estará representado por um diplomata com alto trânsito político e domínio técnico incontestável das negociações da COP-15.
Se for não, saiba que estaremos em apuros.
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