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Afra Balazina

02.janeiro.2012 21:45:30

Despedida

Queridos amigos e leitores,

Hoje é meu último dia no Estadão e gostaria de agradecer a todos vocês pela maravilhosa companhia.

O blog sobre mudanças climáticas surgiu na Conferência do Clima da ONU em Copenhague (COP-15), quando tive a companhia do excelente jornalista Andrei Netto na cobertura e nos posts. Depois, foi retomado na COP-16, realizada em Cancún no fim de 2010. Desde então tenho tentado compartilhar com vocês as novidades do clima e do meio ambiente e com certeza sentirei falta disso daqui para a frente.

Continuarei atuando na área ambiental, que é minha paixão, porém não como repórter.

Desejo a todos um 2012 incrível! E com ótimas notícias para o planeta!

Alguns momentos bacanas que vivenciei:

Acompanhei o grande protesto em Copenhague, durante a COP-15, que reuniu 100 mil pessoas de acordo com os manifestantes

Durante a COP-15, acompanhei o protesto que reuniu cerca de 100 mil pessoas, segundo os manifestantes; 900 pessoas foram detidas pela polícia.

 

Em Cancún, durante a COP-16, eu e os outros fellows da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC). Aprendi muito com os colegas de diversos países, como a Laura Garcia, da Argentina, com o treinador Robert Hart e com John Hay, da UNFCCC.

Na COP-17, em Durban, em frente ao centro de conferência ICC.

O embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado conversa com a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, no último dia da COP-17.

Ministros e diplomatas dos EUA, Japão, Brasil, Austrália e da União Europeia numa das últimas reuniões a portas fechadas de Durban. Depois que fiz essa foto os jornalistas tiveram de deixar a sala…

Foram várias noites em claro para acompanhar as negociações climáticas em diversas partes do mundo – ao todo estive em quatro COPs (Poznan/Polônia, Copenhague/Dinamarca, Cancún/México e Durban/África do Sul), além de reuniões intermediárias (Bonn/Alemanha, Bangcoc/Tailândia).

Aprendi muito e sou super grata ao Estadão e a meus colegas e editores no Vida.

Simone Iwasso, Bia Reis, eu, Fernanda Bassette e Mariana Mandelli, minhas amigas e companheiras de editoria.

Um GRANDE ABRAÇO! :)

 

 

 

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George Papakonstantinou, ministro grego de Meio Ambiente, Energia e Mudança Climática  fez um discurso muito bacana na COP-17 em Durban, comparando a crise econômica mundial e a crise climática.

Segundo ele, os países emprestaram mais dinheiro do que deveriam, assim como emitem mais gases-estufa do que deveriam e mais do que o ambiente pode suportar.

Papakonstantinou também diz que foram tomadas medidas insuficientes pelos países para evitar a crise financeira, assim como agora as nações se comprometeram com metas de corte de emissão de gases-estufa que não serão suficientes para limitar o aumento da temperatuda da Terra a 2ºC.

Para o ministro, assim como sobrecarregamos as nossas crianças com dívidas, também emprestamos o espaço atmosférico das futuras gerações.

“Desperdiçamos recursos de forma improdutiva. Assim como gastamos dinheiro para fazer essas COPs com pouco progresso para mostrar ao mundo”, afirmou.

Ele chegou até a sugerir que as próximas conferências tenham duração menor (uma semana em vez de duas) e que sejam realizadas em locais com estruturas da ONU já existentes, como Genebra ou Bonn.

“Nossos problemas aparentavam ser locais e pareciam requerer ações locais. Mas se provaram sistêmicas e generalizadas, afetam outros também, necessitando por fim de ações multilaterais. O mesmo ocorre com as mudanças climáticas, que afetam a todos, afetarão ainda mais no futuro e requerem um envolvimento e contribuição de todos”, disse ele.

Christiana Figueres, chefe de clima da ONU, e Ban Ki-moon, secretário-geral da ONU, falam na COP-17 (Afra Balazina/AE)

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Os Estados Unidos levaram ontem um prêmio ao contrário, o Fóssil do Dia, por não querer negociar na COP-17 um acordo global com força de lei e tentar postergar as discussões para a próxima década. “Mais nove anos de conversas? Isso é completamente irresponsável, já que só faz com que outros grandes emissores sentem e não façam nada”, disse a Climate Action Network (CAN), que entrega o prêmio em nome de diversas ONGs.

Enquanto isso, o presidente americano, Barack Obama, “apareceu” em Durban – não pessoalmente, mas por meio de um vídeo, num evento sobre a Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal (Redd).

Ele elogiou a prêmio Nobel da Paz Wangari Maathai, queniana que lutou pela conservação das florestas e iniciou um movimento que plantou mais de 30 milhões de árvores. Ela morreu em setembro deste ano.

“O trabalho de Wangari e o movimento do Cinturão Verde permanece como um testemunho do poder que uma idéia de uma única pessoa de que o simples ato de plantar uma árvore pode ser uma profunda declaração de dignidade e esperança primeiro em uma aldeia, em seguida, em uma nação, e agora, em toda a África. Aqui em Durban, nós podemos continuar o seu trabalho de preservar nossas florestas, melhorar a forma como usamos nossos recursos naturais e como cultivamos alimentos para crescer nossas economias de uma forma sustentável e que trate das mudanças climáticas … Nisso vocês podem contar com a parceria dos EUA”, disse ele no vídeo.

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Folder em inglês distribuído ontem pelo Brasil para mostrar as estratégias de redução do desmatamento no País (Afra Balazina/AE)


O Brasil tentou explorar ao máximo nesta terça-feira 17ª Conferência do Clima da ONU (COP-17), em Durban, o fato de ter conseguido reduzir o desmatamento da Amazônia em 11% em um ano e ter obtido a menor taxa dos últimos 24 anos.

O embaixador Luiz Alberto Figueiredo Machado, chefe da delegação brasileira em Durban, afirmou sem ser perguntado, numa entrevista dada em conjunto com representantes do Basic (grupo que reúne Brasil, China, Índia e Brasil) no início da tarde, que os quatro países emergentes estavam fazendo a sua parte e que esperavam que os outros fizessem o mesmo na luta contra as mudanças climáticas.

“Estou feliz em compartilhar com vocês o fato de que ontem nossos últimos números de desmatamento foram anunciados pelo nosso instituto de pesquisa espacial e (o desmatamento) foi 11% menor (…). Esses números são públicos, estão disponíveis na internet. A transparência é absoluta. Estamos felizes que estamos fazendo o que prometemos em Copenhague e reafirmamos em Cancún. Estamos fazendo nossa parte”, disse.

Em seguida, ele cobrou recursos dos países desenvolvidos. “A delegação brasileira, junto com os países do Basic e do G77+China, quer deixar Durban com um Fundo Verde Climático totalmente funcional, e que não seja uma casca vazia. Tem de estar claro o financiamento para o fundo e haver clareza do cronograma para o futuro, no espírito do compromisso dos países desenvolvidos em Copenhague e em Cancún”, afirmou.

Os países desenvolvidos se comprometeram no ano passado a colocar 100 bilhões até 2020 no Fundo Verde Climático para custear ações de corte de emissões e de adaptação às mudanças climáticas pelos países em desenvolvimento. Mas houve pouco avanço no fundo ao longo deste ano.

O embaixador voltou a falar os dados de desmatamento no fim da tarde, em entrevista coletiva do País para jornalistas estrangeiros e brasileiros. Novamente sem ser perguntado sobre o assunto.

Segundo o secretário nacional de Mudanças Climáticas, Eduardo Assad, o Brasil conseguiu mostrar ao mundo que está fazendo o dever de casa, o que é positivo para as negociações.

 

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Christiana Figueres, a chefe de clima da ONU, tem uma personalidade parecida com a do Steve Jobs.

Eu explico. Na biografia autorizada do Steve Jobs vários amigos e pessoas que trabalharam com Steve Jobs contam que ele costumava mentir, ou distorcer a realidade, para conseguir o que queria. Isso significava, por exemplo, colocar um prazo muito curto para a execução de um projeto e convencer os engenheiros de que sim, eles eram capazes de entregar o trabalho dentro do prazo estipulado. Também fazia isso com o design dos produtos, enfim, fazia o impossível parecer totalmente possível, até que de fato o que esperava acontecia. Costumava dar certo. Motivava as pessoas e elas correspondiam.

Christiana Figueres tenta fazer a mesma coisa aqui em Durban. Disse que uma segunda fase do Protocolo de Kyoto não é mais uma questão de “se”, mas de “como”. Ela quer que todos acreditem que a negociação vai bem e que é possível ter um bom resultado ao fim da COP-17. Com isso, espera que algo positivo saia daqui.

Mas a realidade que vemos e que apuramos está longe de ser fácil como ele coloca. Os europeus estão bastante irritados com a forma como os chineses colocam suas condições para assinar um acordo com força de lei.

Para não falar dos EUA, que só aceita um acordo se a China concordar em ter as mesmas obrigações e se não tiver de dar dinheiro nem fazer transferência de tecnologia para os chineses reduzirem as emissões. Claro, os americanos não querem ajudar a China a se tornar uma concorrência melhor e mais limpa.

Por tudo isso, não sei em que realidade ela está, mas não parece ser a mesma que a minha… De qualquer maneira, espero que sua estratégia dê certo!

 (Divulgação)

 

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O secretário nacional de Mudanças Climáticas, Eduardo Assad, afirmou nesta segunda-feira em Durban que o projeto de lei para alterar o Código Florestal, que pode ser votado nesta semana no Senado, permitirá desmatamento no País.

“Tem um item na lei que fala o seguinte: aquelas situações em que você tem mais de 65% da área do Estado e do município com Unidades de Conservação (como parques) ou reserva legal, pode abaixar a reserva legal até 50%. Estamos levantando, mas são pouquíssimas regiões (em que isso acontece)”, disse.

A reserva legal é a área que deve ser conservada no interior de uma propriedade rural.Nela o produtor pode colher sementes, castanhas e frutos, pegar lenha para uso doméstico e cortar algumas árvores de forma alternada. Na Amazônia, a reserva legal deve ter 80% da propriedade. No Cerrado dentro dos Estados da Amazônia Legal, deve ser de 35% da propriedade. E nos demais locais deve ser de 20%.

Segundo o secretário, há outras três situações além dessa em que serão permitidos desmatamentos. “Quando houver interesse público, baixo impacto ambiental e interesse social.”

Assad também disse que, com o texto atual da lei, não será possível recuperar todo o passivo ambiental que restou de desmatamentos feitos ilegalmente no passado. Segundo ele, porém, “o mais importante é que saímos de uma situação de nenhuma revegetação”, no texto aprovado na Câmara, para um texto que coloca a possibilidade de reflorestar o desmatamento ilegal.

Entrentanto, para ele ainda não é o ideal. “É o Código que nós queremos? Não. Mas houve uma evolução.”

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O embaixador brasileiro André Corrêa do Lago usa gravata com declaração de amor ao Protocolo de Kyoto (Afra Balazina/AE)

 

 

A secretária-executiva da Convenção do Clima da ONU, Christiana Figueres, indica que deve se concretizar uma segunda fase do Protocolo de Kyoto na 17ª Conferência do Clima de Durban (COP-17). Ela afirmou que, a partir das informações que recebeu das negociações, a continuidade do tratado não é mais uma questão de “se”, mas de “como”.

O protocolo foi o primeiro acordo global para reduzir as emissões de gases-estufa no mundo. E é por meio dele que os países industrializados têm metas obrigatórias de cortar os lançamentos de CO2 para a atmosfera (menos os EUA, que nunca ratificaram Kyoto). Por isso, para países em desenvolvimento como o Brasil, garantir sua manutenção é o ponto principal na COP-17.

O chefe da delegação brasileira em Durban, Luiz Alberto Figueiredo Machado, também está otimista sobre a continuidade de Kyoto. “Há possibilidades reais de que isso ocorra. Mas não é simples, não é fácil”, disse.

De acordo com ele, os europeus estão dispostos a ir em frente com o segundo período de cumprimento desde que haja condições políticas para que isso ocorra. Uma dessas condições, diz o embaixador, seria ter um aceno muito claro dos países sobre um acordo futuro – já que a União Europeia não quer embarcar numa ação até 2020 sem ter a segurança de que depois desse ano todos vão estar ­ dentro do mesmo barco – principalmente os maiores emissores de CO2, os EUA e a China.

Futuro. Há um grande impasse se o acordo para o pós-2020 será legalmente vinculante (com força de lei) ou não. A China diz que aceita um tratado com valor jurídico, mas coloca diversas condições. O enviado especial para clima dos EUA, Todd Stern, também afirmou ontem que seu país não teria problema em aderir, mas somente se as maiores economias tivessem as mesmas obrigações, sem nenhuma condicionante. Ou seja, os países ricos não teriam de repassar recursos ou transferir tecnologia para as maiores economias fazerem a sua parte. E, em sua opinião, a China não está “disposta” a isso.

Para Stern, a divisão dos países como ocorreu na década de 1990 – com os países industrializados com metas obrigatórias e os países em desenvolvimento sem – não faz mais sentido. Ele diz que as negociações precisam refletir as mudanças econômicas e de emissões que ocorreram desde então.

E com o impasse sobre um acordo legalmente vinculante, o que pode sair de Durban em relação ao futuro? Segundo o negociador brasileiro, a ideia dos europeus “é que se delineie claramente um processo, uma espécie de linha de tempo que estabeleça os marcos de uma negociação futura”. “Eu acho possível se chegar a isso. O fato é que muita gente chegou a Durban pessimista, eu não cheguei. Acho que é uma questão de viabilizar isso e os próximos dias serão cruciais.”

 

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Jonathan Pershing, representante dos EUA nas negociações de clima (Afra Balazina/AE)

 

Os representantes de quase 200 países reunidos em Durban para a 17ª Conferência do Clima da ONU (COP-17) têm até o fim da semana para decidir como combaterão as mudanças climáticas nos próximos anos. Mas ainda há muitas incertezas sobre que acordos podem ser fechados na África do Sul para cortar as emissões de gases de efeito estufa no mundo.

Por alguns momentos, ao longo da semana passada, houve otimismo pelo fato de a China, que é hoje a maior emissora de gases-estufa do planeta, ter demonstrado que concordaria em entrar num futuro acordo com valor jurídico, ou legalmente vinculante. Entretanto, como as ONGs ligadas ao Climate Action Network (CAN) e alguns delegados ponderam, o país coloca inúmeras condições aceitar um tratado desse tipo.

As ONGs avaliam que o sinal da China é um avanço, mas não colocam todas as suas fichas nele. E, de qualquer maneira, os chineses não farão nada se os EUA não entrarem no jogo.

 

Valor jurídico. Há diplomatas que avaliam que existe a possibilidade de fechar um acordo para cortar as emissões globais de gases de efeito estufa para o pós-2020, desde que ele não seja legalmente vinculante.

Isso porque um acordo como esse, com valor jurídico, precisa ser ratificado pelos países. E todas as nações ficariam novamente nas mãos do Congresso americano, que barrou a entrada dos Estados Unidos no Protocolo de Kyoto anos atrás ao não ratificá-lo. O governo do presidente Bill Clinton trabalhou intensamente para a criação de Kyoto, mas depois os parlamentares americanos recusaram o tratado. O chefe da delegação americana na primeira semana, Jonathan Pershing, sempre diz que os EUA não querem repetir esse erro. Para os EUA assumir compromissos, as “maiores economias”, como chama Pershing, devem também ter metas obrigatórias – isso inclui principalmente a China, mas também o Brasil.

Num acordo vinculante, os países são obrigados a cumprir as metas – no Acordo de Cancún, por exemplo, que não é vinculante, as metas que os países apresentam são voluntárias.

Porém, mesmo quando as metas são obrigatórias, não há grandes punições para quem as descumpre – como o Canadá provavelmente vai fazer com sua meta no Protocolo de Kyoto.

 

Kyoto. Enquanto isso, os países em desenvolvimento esperam que em Durban se concretize a continuidade do Protocolo de Kyoto – sua primeira fase termina em dezembro de 2012 e é preciso definir agora se haverá um segundo período.

A União Europeia tem dito que só entrará numa nova fase de Kyoto se os demais países se comprometerem a dar início ao processo de um acordo legalmente vinculante. Um grupo de países tenta fazer os europeus mudarem de ideia e aceitarem um acordo sem valor jurídico, para conseguir trazer os EUA para o mesmo barco.

A delegação da Índia ­– país emergente com altas emissões, porém ainda com muitas pessoas vivendo na pobreza – falou no sábado pela primeira com a imprensa. “Estamos muito preocupados pois não houve quase nenhum progresso em atingir um objetivo-chave nas negociações, que é anunciar o segundo período de Kyoto e suas metas”, declarou a Índia. O país ressaltou que não quer que as negociações da COP-17 sirvam para lançar “um novo tratado climático”, mas sim melhorar a implementação de princípios e disposições do protocolo válido atualmente, que é Kyoto.

 

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(Divulgação)

A costa-riquenha Christiana Figueres, secretária-executiva da Convenção do Clima da ONU desde maio do ano passado, tem uma missão difícil na 17ª Conferência do Clima da ONU, a COP-17, em Durban: facilitar um acordo entre os países para combater as mudanças climáticas.

Os países em desenvolvimento, como o Brasil, buscam a continuidade do Protocolo de Kyoto – tratado em que os países industrializados têm metas obrigatórias de cortes de emissão de CO2, mas do qual os americanos e chineses não participam. E os europeus, que sempre se engajaram em Kyoto, defendem que para entrarem numa segunda fase do protocolo todos os países precisam se comprometer a negociar um acordo com valor jurídico para funcionar no máximo a partir de 2020.

Em sua opinião, apesar de toda a complexidade de atingir consenso com um grupo de quase 200 países reunidos, não adianta apenas os EUA e a China, os maiores emissores mundiais de gases-estufa, chegarem a uma solução.

“Esse é um problema global, tem de ter uma solução da qual participem todos os países”, afirmou ao Estado.

Ela diz que os países precisam se esforçar mais para reduzir as emissões e aumentar as ambições de suas metas e que espera a aprovação do Fundo Verde Climático, criado no ano passado na COP-16, mas que ainda não começou a funcionar.

Qual é o balanço que se pode fazer dos 20 anos da criação da Convenção do Clima da ONU? Quais são os obstáculos futuros?

Eu tenho 20 anos para explicar isso? (ri)

As conquistas da convenção, em primeiro lugar, são os dois instrumentos vinculantes para todos os países –  a convenção em si e o Protocolo de Kyoto – e ter estabelecido através de ambos a expectativa entre todos os países de que a ação contra as mudanças climáticas será feita conjuntamente, com a participação de todos os países. Se olharmos os números de mitigação (redução das emissões), claro que não sou a primeira a dizer que a mitigação ainda não é suficiente e que temos que aumentar nosso esforço, como dizem recentemente os estudos de Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), da Agência Internacional de Energia, do Painel do Clima da ONU (IPCC) e da Organização Mundial de Meteorologia.

E quais são os resultados positivos desde a Eco-92?

Temos que reconhecer que este tema, ao longo de 20 anos, estáem ascensão. Temos33 países ao redor do mundo hoje que têm legislação doméstica para reduzir suas emissões, temos todos os países industrializados com compromissos de mitigação no Acordo de Copenhague e reiterados no Acordo de Cancún. Temos 40 países em desenvolvimento que se deram conta de que podem contribuir com suas respectivas capacidades para a solução, e que está em seu próprio interesse ter tecnologias mais limpas, reduzindo suas emissões e incrementando sua capacidade de adaptação. Temos uma grande quantidade de Estados e municípios que criaram suas metas de redução.

E, no setor privado, também é possível notar o progresso. Já temos as 500 maiores empresas do mundo fazendo relatórios de suas emissões, e só no ano passado houve um aumento de investimento em energia renovável de 30%.

A convenção tem vários efeitos positivos que refletem em diversos setores da sociedade.

Os EUA e a China são hoje os maiores emissores de CO2. O que eles oferecem e buscam em termos de acordo?

Se é verdade que eles são os maiores emissores hoje, também é certo que um país ou dois países individualmente não podem chegar a uma solução. Esse é um problema global, tem de ter uma solução da qual participem todos os países, claro que liderados pelos países industrializados, incluindo os EUA. O que fica evidente aqui é que as conversas sobre os diferentes passos que vamos tomar para solucionar a questão têm de ser acordados por todos os países.

E qual é a alternativa que os países propõem diante da possibilidade de não haver uma segunda fase do Protocolo de Kyoto?

O protocolo não acaba. O que se encerra é o primeiro período do

Compromisso de Kyoto, em dezembro de 2012. Portanto, há alguns anos os países negociam como continuar a política e o marco regulatório internacional que rege o controle das emissões de CO2. E no ano passado, em Cancún, isso não foi alcançado. Apesar de termos tido muitos outros resultados, não se chegou a um acordo sobre isso. Essa tem sido a tarefa dos países durante todo este ano. Uma das opções exploradas atualmente foi oferecida pela União Europeia, que é de considerar um segundo período de compromisso desde que certas condições sejam atendidas. Agora, o que se vê em Durban é a discussão sobre quais são as condições (a União Europeia quer que todos os países, principalmente EUA e China, entrem num acordo com valor jurídico a partir de 2020).

E também se discute a duração do segundo período (se vai de 2013 a 2017 ou até 2020).

Qual é o impasse a respeito do Fundo Verde Climático, que foi criado no ano passado e teve poucos avanços?

Houve um acordo teórico em Cancún sobre o Fundo Verde Climático, e durante todo esse ano tivemos 40 governos trabalhando muito seriamente sobre o desenho do fundo. Eles acordaram em levar o texto que resultou desse processo para a atenção da COP para sua aprovação. O texto foi introduzido pela primeira vez ontem (anteontem) e uma rodada de comentários sobre esse texto.

E em sua grande maioria dos países foram a favor de aprovar o texto aqui em Durban porque sabem que o fundo é um dos instrumentos críticos para o apoio aos paísesem desenvolvimento. Masainda é muito cedo para saber exatamente que mudanças deverão ser feitas no documento, me parece que o texto deverá incorporar algumas mudanças, mas temos confiança de que será aprovado.

A América Latina não costuma atuar como bloco nas negociações. Mas qual é o papel da região na luta contra as mudanças climáticas?

A América Latina é uma das regiões vulneráveis do globo, seja pela escassez de água para a agricultura, pelo derretimento de glaciares ou por localização geográfica, como as ilhas do Caribe. Por isso, um dos temas mais importantes para essa região é a adaptação às mudanças climáticas. E conseguir que se aumente o apoio para reduzir as emissões em nível internacional e nacional.

A América Latina não é uma das regiões mais emissoras do mundo, mas tem um grupo importante de economias médias e emergentes que têm grande possibilidade de contribuir para a solução. E vemos que o Brasil, México, Colômbia e Chile, por exemplo, estão dispostos a não só fazer sua adaptação – com apoio, claro – mas também mitigar suas emissões, algumas com recursos nacionais (como é o caso do Brasil) e outras com apoio internacional.

E qual é o papel da iniciativa privada no combate às mudanças climáticas?

Ela tem um papel muito importante. Se os governos são o leme, o setor privado é o motor na luta contra as mudanças climáticas porque é quem tem as tecnologias, pode fazer os maiores investimentos. Está se buscando na questão da adaptação por exemplo uma cooperação entre o setor público e o setor privado, em que em princípio o setor público marque a direção, estabeleça as regras e regulamentações, e o setor privado coloque o capital para seguir adiante.

 

Para entender – O que é o Fundo Verde Climático?

O Fundo Verde Climático foi criado em dezembro de 2010 durante a 16ª Conferência do Clima da ONU em Cancún (COP-16), para permitir que países em desenvolvimento recebam recursos de nações industrializadas para reduzir emissões de gases-estufa.

No México ficou acordado entre os países que participam das negociações que haveria um financiamento de curto prazo, no qual os países desenvolvidos deverão desembolsar US$ 30 bilhões até 2012. Também ficou definido o financiamento de longo prazo – os países ricos deveriam mobilizar US$ 100 bilhões por ano até 2020 para atender as necessidades dos países em desenvolvimento. Mas em Durban, os Estados Unidos, a Arábia Saudita e a Venezuela, entre outros, têm dificultado a aprovação.

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O Brasil chamou a atenção negativamente nesta quinta-feira em Durban ao ganhar o prêmio Fóssil do Dia, concedido a países que têm atitudes pouco sustentáveis ou que dificultam as negociações de um acordo nas Conferências do Clima.

O País foi premiado por causa da possibilidade de alteração do Código Florestal. Segundo as ONGs que entregam o Fóssil, o País que sediou a Eco-92 e vai receber a Rio+20 no ano que vem pode aprovar uma lei que será um “desastre para as florestas brasileiras, para o clima” e “para a preservação da biodiversidade”.

“Aparentemente, a ministra do Meio Ambiente (Izabella Teixeira) atrasou sua viagem a Durban por causa das negociações da legislação florestal no Congresso. Nós sinceramente convidamos a ministra a vir a Durban, receber esse prêmio e explicar ao mundo como cortar árvores reduzirá as emissões de gases-estufa”, afirmam as ONGs.

O embaixador André Corrêa do Lago, negociador-chefe do Brasil na COP-17, tem dito que a lei não impedirá o País de cumprir suas metas de reduzir entre 36% e 39% as emissões até 2020, comparado ao nível de emissões se nada fosse feito. Ele disse durante a semana que “será impossível que o Código Florestal agrade a todos”, mas que acredita que ele “vai permitir que o Brasil continue cumprindo seu esforço de redução das emissões do desmatamento”.

Nesta primeira semana da COP-17, o Canadá foi o país que mais vezes recebeu o prêmio ao contrário. O Climate Action Network (CAN) ressaltou que o país fez muitas promessas vazias nos anos recentes e que continua a não ter um plano para atingir suas fracas metas no Protocolo de Kyoto. Além de não cumprir o objetivo no primeiro período desse tratado, já disse que não vai participar de uma segunda fase de Kyoto.

As ONGs criticam o fato de o Canadá ter concordado que é preciso agir rápido para evitar que a temperatura média do planeta aumente mais de 2ºC. Mas que o país mesmo não faz nada para contribuir.

Em outras COPs, o Canadá também recebeu vários prêmios Fóssil do Dia (Divulgação)

 

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