ir para o conteúdo
 • 

Adriana Carranca

No twitter @AdrianaCarranca

Adriana Carranca – O Estado de S.Paulo
ENVIADA ESPECIAL
ISLAMABAD

No primeiro pronunciamento oficial sobre a morte do líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, dia 2, em Abbottabad, o premiê do Paquistão, Yousuf Raza Gilani, negou que o seu governo tivesse conhecimento da presença do terrorista mais procurado do mundo em solo paquistanês.

Em discurso no Parlamento, Gilani ordenou uma investigação conjunta da Justiça e das Forças Armadas sobre o episódio que deflagrou uma crise política no país. O atual premiê também negou envolvimento na operação conduzida pelos EUA. Embora tenha feito questão de reafirmar “confiança” do governo nas Forças Armadas e no serviço de inteligência (ISI), Gilani disse que a investigação deverá apontar “falhas” na segurança que permitiram a Bin Laden esconder-se, possivelmente durante anos, em uma cidade militar, a pouco mais de 100 km da capital, Islamabad, e aos EUA invadir o espaço aéreo paquistanês, na operação que resultou na morte do terrorista.

Sob forte pressão doméstica e externa, Gilani fez um discurso dúbio e sem surpresas. Ao mesmo tempo em que admitiu falhas na segurança, o premiê rejeitou acusações de cumplicidade e incompetência das autoridades no caso Bin Laden. “Tais alegações são absurdas”, disse.

À comunidade internacional, Gilani disse que o Paquistão está “determinado a investigar a fundo como, quando e por que Osama Bin Laden estava em Abbottabad”. “O Paquistão está unido no compromisso de eliminar o terrorismo e determinado a não permitir que seu solo seja usado para militância”, declarou, reafirmando “interesse mútuo” com os EUA na parceria contra o terrorismo. “Nossa relação com os EUA é muito importante… Temos uma parceria estratégica que acreditamos ser de interesse mútuo entre as nações.”

Em resposta a críticas internas de que tem sido alvo, Gilani alinhou seu discurso ao dos militares. Embora tenha, antes, classificado a operação americana como uma “grande vitória”, desta vez o premiê preferiu reforçar a soberania nacional. “Ações unilaterais como a da Marinha americana (Seals) no esconderijo de Osama têm risco de sérias consequências”, disse, ressaltando que o país tem “o direito de retaliar com força total”.

Gilani lembrou, ainda, que a Al-Qaeda não nasceu no Paquistão e, portanto, o país “não pode se responsabilizar sozinho pela criação da rede terrorista”. Ele culpou “todas as agências de inteligência do mundo” por falharem em não localizar Bin Laden. Em uma clara alusão à intervenção americana no Afeganistão para expulsar os comunistas da ex-União Soviética do país, nos anos 1980, Gilani disse que o Paquistão “não convidou Osama bin Laden” ao país ou mesmo ao vizinho Afeganistão.

Mas o primeiro-ministro não convenceu os críticos do governo. “Essa é a maior humilhação que o governo e as Forças Armadas do Paquistão já enfrentaram”, disse ao Estado o líder do partido da oposição Tehreek-e-Insaf (Movimento por Justiça) e ex-jogador de críquete, Imran Khan. Conhecido por sua retórica antiamericana, Khan viu sua popularidade aumentar após a operação de caça a Bin Laden.

Ele promete levar os jovens às ruas e parar Karachi, a maior cidade do Paquistão, nos dias 21 e 22 em protesto contra as ações americanas no país e pela renúncia do premiê e do presidente Asid Ali Zardari. Não é o único. Até mesmo o companheiro do Partido Popular do Paquistão e ex-ministro das Relações Exteriores, Shah Mehmood Qureshi, pediu publicamente a renúncia dos dois líderes e do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Ashfaq Parvez Kayani.

Em um encontro fechado com oficiais de Rawalpindi, Kharian e Sialkot, Kayani disse ontem que “informações incompletas” e a “falta de detalhes técnicos” têm dado margem a especulações. Para acalmar a oposição, Kayani e Gilani falarão conjuntamente ao Parlamento na sexta-feira. A sessão será transmitida ao vivo, segundo Gilani, e os parlamentares poderão fazer perguntas a ambos.

O líder da oposição, Chaudhry Nisar, disse que a iniciativaé importante, pois a nação “não ficou satisfeita” com as explicações doPrimeiro Ministro, ontem. Há dois meses fora do país para tratamento médico, o líderda Liga Muçulmana e ex-premiê Nawaz Sharif também tenta capitalizar dividendosda crise política no Paquistão. Ele voltou ao país e tem dado declaraçõesclassificando a operação americana como “um ataque à soberania”. Ele lembrououtro incidente diplomático, quando o agente da CIA Raymond Davis, acusado dematar dois paquistaneses dentro do país, foi solto a pedido dos EUA.

Colocando ainda mais pressão sobre o Paquistão, o embaixadordos Estados Unidos em Islamabad, Cameron Munter, disse em entrevista à emissorade TV local GEO News, que após a morte de bin Laden “é obrigação de ambos o Paquistãoe os EUA caçar o número 2, 3, 4 da Al-Qaeda”. Tudo indica que a crise políticano Paquistão está apenas no início.

Texto publicado, parcialmente, no Estadão.

*

Comentários anti-semitas, islamofóbicos e anti-árabes, racistas, discriminatórios ou que coloquem um povo, raça ou religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os comentários devem ter relação com algum dos temas do post. O blog está aberto a discussões educadas, relevantes e com pontos de vista diferentes.

Comentários (9)| Comente!

No twitter @AdrianaCarranca

Adriana Carranca – O Estado de S.Paulo
ENVIADA ESPECIAL
ISLAMABAD

O Paquistão ainda mantém segredo sobre o destino das três viúvas e cerca de dez crianças que viviam com Osama bin Laden, em Abbottabad. Investigadores paquistaneses estariam interrogando as mulheres do líder da Al-Qaeda. Os EUA, porém, não estão tendo acesso às supostas revelações das viúvas.

A família do líder da Al-Qaeda foi deixada para trás pelos soldados de elite dos EUA, que invadiram o complexo no dia 2, e então levada sob custódia dos militares paquistaneses.

Segundo informações vazadas à imprensa, uma das viúvas de Bin Laden detida é Amal Ahmed Abdulfatá, nascida na Província de Ibb, no Iêmen. Ela teria informado aos investigadores paquistaneses que vivia na casa de Abbottabad desde 2006.

Sem confirmar a veracidade da informação, a porta-voz da chancelaria de Islamabad, Tahmina Janjua, disse ontem que o Paquistão ainda mantém parentes do audita sob custódia para investigação, mas pretende extraditá-los a seus respectivos países de origem.

As identidades das outras duas viúvas e das crianças não foram reveladas. O segredo sobre os moradores do complexo de Abbottabad é apenas mais um mistério entre vários que ainda pairam sobre o episódio da morte de Bin Laden, no Paquistão.

O fato de o terrorista mais procurado do mundo estar vivendo há cerca de cinco anos em uma casa perto da Academia Militar de Kakul, do hospital militar e outras instalações oficiais abalou a credibilidade do governo paquistanês aos olhos de Washington. O conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, Tom Donilon, pediu ao Paquistão acesso a informações obtidas nos interrogatórios das viúvas do terrorista saudita.

“Se essas pessoas eram tão importantes para as investigações, por que os EUA as deixaram para trás na operação? Não é obrigação dos militares do Paquistão investigar as redes terroristas, mas de todas as agências de inteligência”, disse ao Estado Rahim Dad Khan, ex-presidente do Partido Popular do Paquistão e atual subgovernador da Província Khyber Pashtunlhwa, área dominada pelos pashtun, etnia dominante entre os taleban. “Por que os EUA falharam em localizar Bin Laden? Por que deixariam evidências importantes para trás?”

As autoridades, a imprensa e a população paquistanesas ainda continuam desconfiadas tanto do próprio governo quanto dos EUA. “Se bin Laden vivia naquela casa com três mulheres e dez filhos, como ninguém desconfiou? Eles não comiam? Não iam ao mercado? Nunca precisaram de um medico? Não frequentavam a escola? Queremosrespostas do nosso governo”, diz o corretor de imóveis Asif Aqbal, deAbbottabad. “E que os EUA saiam do Paquistão e não nos causem mais problemas”.

Texto publicado no Estadão.

*

Comentários anti-semitas, islamofóbicos e anti-árabes, racistas, discriminatórios ou que coloquem um povo, raça ou religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os comentários devem ter relação com algum dos temas do post. O blog está aberto a discussões educadas, relevantes e com pontos de vista diferentes.

Comentários (2)| Comente!

No twitter @AdrianaCarranca

Leiam entrevista que fiz com o jornalista paquistanês Rahimullah Yusufzai, um dos poucos do mundo a entrevistar Osama bin Laden pessoalmente. Encontro com Yusufzai em uma tenda no deserto de Helmand, em 1998, foi a última etrevista do saudita.

Adriana Carranca
ENVIADA ESPECIAL
PESHAWAR, PAQUISTÃO

O jornalista Rahimullah Yusufzai, editor do The News, diário em inglês publicado no Paquistão, é uma voz dissonante na capital do país, Islamabad, no olhar sobre a operação que matou Osama bin Laden. Yusufzai foi um dos poucos jornalistas do mundo a ter se encontrado cara a cara com o terrorista saudita, cuja trajetória ele acompanha desde a invasão soviética no Afeganistão. Em entrevista ao Estado, em seu escritório em Peshawar, Yusufzai lembrou os dois encontros com Bin Laden, em 1998, e disse que “a Al-Qaeda está perto do fim”.

Como foram seus encontros com Bin Laden?

O primeiro encontro aconteceu em maio de 1998 no campo de treinamento da Al-Qaeda em Al-Badr, na Província de Khost, na zona tribal do Norte do Waziristão. O tradutor era outro conhecido da Al-Qaeda, o egípcio que deve suceder Bin Laden, Ayman al-Zawahiri. Naquele dia, Bin Laden anunciou a Frente Islâmica Internacional pela Jihad contra Israel e EUA. A segunda entrevista foi em dezembro do mesmo ano. Um dos filhos de Bin Laden estava presente, além de 20 de seus homens e Zawahiri. Quem deu autorização foi o mulá Omar, pois na época o Taleban controlava o acesso aos líderes da Al-Qaeda por questões de segurança. Nós nos encontramos em Kandahar e fui levado num comboio para uma tenda no meio do deserto, na província de Helmand.

Como era Bin Laden?

Era um homem tímido e reservado, mas com algum senso de humor e uma AK47 sempre a tiracolo.

Você parece admirá-lo…

Você não teria admiração por um milionário que poderia estar vivendo num palácio, mas larga tudo para se esconder e lutar nas montanhas do Afeganistão? Bin Laden não precisava disso. Não ganhou dinheiro dos EUA para lutar contra os russos. Ele o fez porque acreditava. Colocou dinheiro próprio para financiar a jihad. E eu admiro as pessoas que têm um compromisso com uma causa e vão até o fim. Acontece que Bin Laden foi longe demais. Suas ações, como o 11 de Setembro, se tornaram indefensáveis.

Qual o futuro da Al-Qaeda?

A Al-Qaeda já estava fragilizada e não podia ter sofrido um golpe tão grande quanto a morte de Bin Laden por forças americanas. Agora, o financiamento da rede tornou-se muito difícil porque as pessoas têm medo. A Al-Qaeda tornou-se muito violenta e perdeu o apelo entre muçulmanos. A rede perdeu capacidade militar nos últimos anos. O Paquistão está sob grande pressão e pode entregar outros líderes para satisfazer os EUA. Acho que a Al-Qaeda está perto do fim.

Qual a sua visão sobre a operação que matou Bin Laden?

Ainda não temos provas da morte. Não existe um corpo e as evidências apresentadas até agora são fracas. Mas Bin Laden vivia naquela casa há algum tempo, isso é certo, e foi morto nessa operação. Não acredito que o governo ou os militares paquistaneses soubesses de sua presença.

Mas por que Abbottabad?

Por que é um esconderijo perfeito, numa área urbana, ao lado de uma base militar – um local sem a presença da Al-Qaeda ou do Taleban. Ninguém poderia desconfiar. E não é a primeira vez que terroristas são capturado em cidades (do Paquistão), já houve outros em Karachi, em Quetta. O acesso a facilidades da vida moderna os atrai.

Você acredita que o Paquistão não sabia da ação americana?

Acredito que os EUA tenham avisado as Forças Armadas do Paquistão, mas impediram sua interferência. E o Paquistão não tinha escolha.

QUEM É

O jornalista paquistanês Rahimullah Yusufzai foi um dos poucos repórteres do mundo a encontrar-se cara a cara com Osama bin Laden. Atualmente, ele edita o jornal “The News”, que publica notícias em inglês no Paquistão.

Texto publicado no Estadão.

*

Comentários anti-semitas, islamofóbicos e anti-árabes, racistas, discriminatórios ou que coloquem um povo, raça ou religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os comentários devem ter relação com algum dos temas do post. O blog está aberto a discussões educadas, relevantes e com pontos de vista diferentes.

Comentários (2)| Comente!

No twitter @AdrianaCarranca

Nas quase quatro horas de estrada precária até a pequena Abbottabad, o motorista Anjum, de 27 anos, tenta convencer a reportagem do Estado de que Osama bin Laden nunca esteve em sua terra natal, distante 100 km da capital do Paquistão, Islamabad. “Foi tudo uma invenção de Hollywood!” Sem resposta para a maior parte das perguntas sobre a operação militar americana que resultou na morte do terrorista saudita, os moradores de Abbottabad reúnem-se nas esquinas para discutir versões fabulosas sobre o episódio.

A casa no número 3 da rua 8-A, um pequeno atalho saído da estrada de Garga, onde fica a Academia Militar de Kakul, onde Bin Laden teria passado os últimos anos de sua vida e transformada em ponto turístico para os locais, agora está cercada de militares armados.

Sem a presença dos estrangeiros, que receberam um ultimado do chefe do Estado-Maior das Forças Armadas paquistanesas, general Ashfaq Parvez Kayani, para deixar a cidade até a noite de sexta-feira, Abbottabad entrou em uma rotina de boatos.

Ontem à noite, já não havia os holofotes das emissoras de TV para ajudar a iluminar o bairro de Thanda Chowa. Na vizinhança pobre do entorno da Colônia Hashmi, como é chamada a área onde ficam as mansões de militares de alto escalão, via-se pequenos grupos de moradores reunidos em volta da lâmpada dos vizinhos suficientemente bem de vida para ter um gerador. O assunto entre eles era o mesmo: Bin Laden.

“O corpo que tiraram daquela casa não tinha barba”, tenta convencer a reportagem um morador sentado de cócoras na frente da barreira de isolamento colocada pelos soldados na rua 8-A. “Não seja louco. O corpo já não tinha barba porque estava apodrecendo ali uns bons dias. Bin Laden estava muito doente e fraco. Ele morreu rodeado pela família. Quando os americanos souberam, armaram aquela cena toda”, diz Abdul Rashid, dono de um mercadinho, o único local iluminado do bairro na noite de ontem.

Segundo lhe contaram, havia dez crianças na casa onde Bin Laden vivia, “e todas falavam árabe”. “Bin Laden morreu doente! Pode confiar. Quem me passou essa informação mora ao lado e foi o primeiro a entrar na casa depois da operação”, revela, sob olhares curiosos dos demais.

Anjum, o motorista, discorda do antigo vizinho. “Se é assim, cadê o corpo? Quando os americanos pegaram Saddam Hussein no Iraque, chamaram toda a imprensa para ver a presa. E Bin Laden eles iam jogar no mar? Fala sério!”, esbraveja. O engenheiro Waafas Mantool concorda e lembra que a energia em Abbottabad foi cortada pouco antes da operação americana. “Os militares sabiam.”

Mas por que as Forças Armadas do Paquistão teriam permitido a entrada de helicópteros americanos em seu espaço aéreo para realizar uma operação que, segundo os moradores, não passou de uma farsa? “Dinheiro… Muito dinheiro!”, diz Anjum.

Sua teoria é a de que a operação americana foi “uma invenção para aumentar a popularidade do presidente Barak Obama”. Seu cunhado, Anur, um jovem mulá, funcionário da fábrica de explosivos das Forças Armadas em Abbottabad que diz admirar o Taleban, também desconfia da veracidade da operação que teria matado Bin Laden, mas os motivos dos EUA seriam outros: “Eles querem colocar seus soldados no Paquistão e destruir nossas instalações nucleares”.

“Queremos respostas”, diz Anjum. A quebra da credibilidade nas Forças Armadas, uma instituição da qual os paquistaneses sentem imenso orgulho, pode mudar os rumos políticos do país.

Nas rodas de jovens de Abbottabad, o nome do ex-jogador de cricket, Imran Khan, surge como alternativa nas próximas eleições. Fundador do partido Tehreek-e-Insaf (Movimento por Justiça), em meados dos anos 90, Khan tem sido um dos mais vorazes opositores do governo do Paquistão. Ele foi eleito deputado pelo Distrito de Mianwali em novembro de 2002, mas pediu demissão do cargo, em 2007, em protesto contra a candidatura do ex-presidente Pervez Musharraf. Colocado em prisão domiciliar por Musharraf, Khan fugiu para, em seguida, ser preso de novo durante protestos de estudantes. Libertado com outros presos políticos, Khan voltou a ser detido em 2009 durante protestos contra o governo do atual presidente Asif Ali Zardari.

Khan tem conquistado seguidores no Paquistão por protestar contra a presença militar dos EUA na região. Com o episódio da morte de Bin Laden e a insatisfação dos paquistaneses quanto à relação do atual governo e das Forças Armadas com Washington, a tendência é a de que sua popularidade suba ainda mais. “Meu herói é Amir Khan. Ele quer os EUA fora daqui e nós também queremos!”, diz Anjum.

Texto publicado no Estadão.

*

Comentários anti-semitas, islamofóbicos e anti-árabes, racistas, discriminatórios ou que coloquem um povo, raça ou religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os comentários devem ter relação com algum dos temas do post. O blog está aberto a discussões educadas, relevantes e com pontos de vista diferentes.

Comente!

No twitter @AdrianaCarranca

A decisão sobre o futuro da guerra no Afeganistão, que completa uma década em setembro, não está em solo afegão nem depende de uma vitória militar sobre a insurgência do Taleban. A descoberta e morte do líder da Al-Qaeda, Osama bin Laden, em uma área militar da cidade paquistanesa de Abbottabad, foi a pá de cal sobre a já frágil confiança dos EUA no compromisso do Paquistão contra o terrorismo.

Sem um parceiro em quem confiar, o Afeganistão, vizinho ao arqui-inimigo Irã, dos países da ex-União Soviética e da China, passa a ser terreno crucial para a permanência de tropas americanas e a guerra, um pretexto para Washington garantir presença militar na região.

“Os EUA estão construindo grandes bases militares no Afeganistão e nada indica que deixarão esses postos, mesmo depois de 2014. Os afegãos sempre tiveram o receio de se tornar uma base americana permanente”, disse ao Estado um dos mais respeitados colunistas de política externa do Paquistão, Ayaz Amir, que escreve para o diário The News. “A relação com o Paquistão vem se agravando não é de hoje e se tornou um desafio após o episódio da morte de Bin Laden.”

O desembarque, ontem, do diretor do serviço secreto paquistanês, general Shuja Pasha, em Washington para dar explicações ao presidente Barak Obama sobre a presença do líder da Al-Qaeda no Paquistão mostra que o momento entre as duas nações é sensível. “A ida do chefe do ISI para Washington é uma tentativa de dar um ar de normalidade à essa relação, mas não é verdadeira”, diz Amir.

Será o progresso real dessa relação que definirá a o ritmo da retirada das tropas americanas do país vizinho, marcada para começar em junho e terminar até 2014. Os EUA exigem maior compromisso do Paquistão na luta contra o terror.

“Mas, por muitos motivos, não está claro se o Paquistão está pronto para assumir esse compromisso”, diz Amir. “Os militares paquistaneses estão como um animal ferido, humilhado. É incerto como agirão agora. Eles têm muitos motivos para não se comprometer por completo com os americanos. Primeiro, que tipo de Afeganistão as tropas deixarão para trás? Nós podemos assumir os custos de criar inimigos com o Taleban agora? Depois, eles sentem que os EUA historicamente fazem tudo à sua maneira, sem nenhuma consulta às Forças Armadas do Paquistão. Ambos precisam um do outro, mas desconfiam um do outro.”

Por outro lado, é improvável que o Paquistão abrirá mão dos milhões de dólares que recebe dos EUA em nome da luta contra o terror. Também interessa ao Paquistão manter em bom status a parceria com uma potência contra a inimiga Índia. “Veremos muita barganha nos próximos dias. Os jihadistas são um trunfo nessa negociação e uma forma de compensar o poderio militar inferior”, diz o analista.

Texto publicado no Estadão.

Comentários anti-semitas, islamofóbicos e anti-árabes, racistas, discriminatórios ou que coloquem um povo, raça ou religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os comentários devem ter relação com algum dos temas do post. O blog está aberto a discussões educadas, relevantes e com pontos de vista diferentes.

Comentários (2)| Comente!

No twitter @AdrianaCarranca

Autoridades paquistanesas deram um ultimato aos estrangeirospara que saíssem da cidade de Abbottabad até 23h15 de ontem (horário local). Durante todo o dia, os militares tentavam impedir vizinhos da casa onde o terrorista saudita Osama bin Laden foi morto, no dia 2, de falar com a imprensa.

Cerca de 40 moradores foram levadospelas forças de segurança para prestar depoimento. As luzes da residência estavam apagadas e a rua, bloqueada por soldados do Exército paquistanês. À noite já não havia mais estrangeiros no local. A ordem de expulsá-los teria sido dada pelo chefe do Estado-Maior das Forças Armadas paquistanesas, general Ashfaq Parvez Kayani.

Com exceção feita aos muros altos da Academia Militar e outras instalações das Forças Armadas, como o hospital militar, Abbottabad é um vilarejo rural, com pequenos estabelecimentos e vendas que funcionam com geradores a diesel. Em um desses estabelecimentos, Zul Qurwin, de 22 anos, diz ainda esperar por uma prova de que Bin Laden um dia viveu na cidade.


Zul Qurwin

O policial Matik Aman, que ajudava na segurança da rua, também duvida que o homem mais procurado do mundo vivesse ali. “Você acredita mesmo que Bin Laden estava escondido nesse fim de mundo?”, pergunta, rindo de si mesmo. Virando-se discretamente de costas para os militares posicionados ao redor da casa, Aman diz que recebeu ordens para “se livrar dos estrangeiros e retomar a rotina da cidade”. As mansões vizinhas da casa onde Bin Laden se escondia são ocupadas por militares de alto escalão, disse o policial.

A rua de terra e pedregulhos da casa de Bin Laden começa e termina no mesmo ponto: a Academia Militar do Paquistão. A avenida principal de Abbottabad, que leva até a academia, é bloqueada. O final da mesma rua dá nos fundos da Escola do Exército. Ambos os acessos são monitorados por câmeras de segurança.

Reunidos no mercadinho da esquina, como o fazem os homens das cidades de interior no Brasil, moradores repetiam a teoria que, acreditam, explica o episódio da morte de Bin Laden: “Osama mais Obama é igual a drama”. Ou seja, tudo teria sido uma armação. Uma mentira dos Estados Unidos.


O mercadinho de Abbottabad, na esquina da casa de Bin Laden

Para Niaz Khan, de 30 anos, o saudita pode até ter vivido mesmo ali, mas já estava morto muito antes da operação. “Naquela casa nunca vimos movimento nenhum”, conta. Nascido no bairro, o agricultor aponta sua pequena horta na frente do mercadinho, a uma quadra da casa do líder da Al-Qaeda. “O que esse homem faria aqui?”


Islamabad-Abbottabad

Acesso protegido. Abbottabad fica em uma área montanhosa. Para chegar à cidade, é necessário acessar a rodovia principal de Islamabad, a capital do Paquistão. Depois, pega-se uma pequena estrada de mão dupla onde caminhões coloridos, ônibus velhos, carroças, riquixás, crianças carregando galões de água, burcas e homens barbudos de bicicleta disputam o asfalto sem acostamento nem sinalização.

A estrada atravessa as pequenas cidades de Hasan Abdel e Haripur, também áreas militares. Até Abbottabad, há três postos de comando do Exército, onde só passa um carro de cada vez.

“Não é possível alguém se esconder aqui, você entende?”, diz Asif, um corretor de imóveis de 33 anos cujo terreno onde fica a casa de Bin Laden tinha sido de seu avô. “Ou os EUA inventaram essa história para aumentar a popularidade do presidente Obama ou nosso governo e militares estão mentindo.”

Dia calmo. Ontem, a primeira sexta-feira – dia sagrado para muçulmanos – depois do episódio, protestos contra a morte de Bin Laden eram esperados em Islamabad e em Abbottabad. Mas as ruas das duas cidades permaneceram tranquilas.

Osama Bin Laden não tem boa reputação entre os muçulmanos de Abbottabad, embora moradores compartilhem com o saudita o antiamericanismo exacerbado. Os paquistaneses, em geral, culpam os Estados Unidos por ter financiado, através do Serviço de Inteligênciado Paquistão (ISI), a resistência contra a invasão soviética no Afeganistão, atraindo terroristas para a fronteira dos dois países – entre eles, Osama BinLaden.


Abbottabad-Islamabad

Texto publicado no Estadão.

*

Comentários anti-semitas, islamofóbicos e anti-árabes, racistas, discriminatórios ou que coloquem um povo, raça ou religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os comentários devem ter relação com algum dos temas do post. O blog está aberto a discussões educadas, relevantes e com pontos de vista diferentes.

Comentários (6)| Comente!

No twitter @AdrianaCarranca

Peço desculpas aos leitores, mas passei os últimos dias praticamente na estrada, seguindo os últimos passos de Osama Bin Laden. Publicarei aqui a íntegra das matérias que escrevi para o Estadão e algumas curiosidades sobre essa verdadeira aventura pelas conturbadas rodovias paquistanesas. Até!


Tora Bora


Pakistani International Airlines – ou, como os paquistaneses chamam Pray Inshallah it Arrives (em tradução livre, “reze a Allah para que o avião chegue“)

*

Comentários anti-semitas, islamofóbicos e anti-árabes, racistas, discriminatórios ou que coloquem um povo, raça ou religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os comentários devem ter relação com algum dos temas do post. O blog está aberto a discussões educadas, relevantes e com pontos de vista diferentes.

Comentários (3)| Comente!

08.maio.2011 01:31:04

Khoda Hafez Cabul!

No twitter @AdrianaCarranca

Foi uma saga conseguir chegar em Abbottabad, no Paquistão. Por questõe de segurança, era impossível atravessar por terra. Na semana da morte de Osama Bin Laden os ataques contra insurgentes no sul e leste do Afeganistão se intensificaram e também os ataques do Taleban. Os vôos da ONU foram cancelados e houve caos no Aeroporto de Cabul. Meu visto levou dois dias de espera na Embaixada do Paquistão. Para piorar, no dia em que iria embarcar, o presidente afegão Hamid Karzai também decidiu viajar e os seguranças fecharam todos os acessos ao aeroporto. Vôos atrasados. Chuva de gelo em Cabul, vôos cancelados. Só consegui chegar no Paquistão no dia seguinta. E, nove horas mais tarde, em Abbottabad.

Em breve, mais notícias!


Tempestade no Aeroporto Internacional de Cabul


Imagens de Cabul, depois da chuva, no caminho de volta


Minha rua, em Cabul

Khoda Hafez Kabul!
Bye bye Kabul!
Até logo Cabul!

*

Comentários anti-semitas, islamofóbicos e anti-árabes, racistas, discriminatórios ou que coloquem um povo, raça ou religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os comentários devem ter relação com algum dos temas do post. O blog está aberto a discussões educadas, relevantes e com pontos de vista diferentes.

Comentários (8)| Comente!

No twitter @AdrianaCarranca

Leiam entrevista que fiz com ex-Embaixador do governo Taleban em Islamabad, Abdul Salam Zaeef, publicada hoje no Estado.

Sob custódia das forças armadas do Afeganistão, o ex-embaixador do governo Taleban em Islamabad, Abdul Salam Zaeef, disse ao Estado que a morte do líder da AlQaeda, Osama Bin Laden, em uma operação militar dos Estados Unidos na cidade paquistanesa de Abbottabad “não irá afetar a guerra no Afeganistão”. Zaeef vive em prisão domiciliar em uma mansão no bairro de Khosh Hal Khan, em Cabul, vizinho a outra figura importante no governo dos radicais islâmicos, o ex-Ministro de Relações Exteriores do Taleban, Wakil Ahmed Muttawakil.

“Essa guerra é afegã e não mudará a estratégia ou os objetivos do Talebanno país”, disse. Zaeef, que prometeu processar o governo doPaquistão por tê-lo prendido e entregue às forças americanas, em 2001, disseque a morte de Bin Laden no Paquistão é “uma prova de que o saudita não estavaescondido em solo afegão e, portanto, a ocupação americana no país é injustificável”.Para muçulmanos envolvidos na jihad(resistência ou guerra santa) no Afeganistão, Zaeef acredita que Bin Laden setornará um ‘mártir”.

Preso em Islamabad por autoridades paquistanesas eentregue às forças americanas, em dezembro de 2001, pouco após a queda doregime Taleban, Zaeef ficou preso na base americana de Guantánamo, em Cuba, até 2005. Seu paradeiro é incerto nos anos seguintes, até reaparecer no cenário político do Afeganistão em 2007, quando foi convidado pelo rei saudita Abdullah para um encontro com oficiais afegãos, entre eles o presidente Hamid Karzai, que deu início às conversas de paz com entre o governo e o Taleban. Em janeiro do ano passado, Zaeef ficou conhecido internacionalmente pela publicação do livro Minha vida com o Taleban.

Ironicamente, Zaeef é uma das figuras-chave do Conselho de Paz Afegão, criado pelo governo, com apoio das forças internacionais, para tentar um acordo com o Taleban.

*

Comentários anti-semitas, islamofóbicos e anti-árabes, racistas, discriminatórios ou que coloquem um povo, raça ou religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os comentários devem ter relação com algum dos temas do post. O blog está aberto a discussões educadas, relevantes e com pontos de vista diferentes.

Comentários (25)| Comente!

No twitter @AdrianaCarranca

Quase 24 horas sem Internet. Não sei como redes terroristas podem operar nesse país sem energia elétrica, sem comunicação, sem estradas, sem nada. Ou, talvez, seja esse o ambiente ideal para que o fundamentalismo religioso floresça e seja possível recrutar mais e mais jovens miseráveis para ataques suicidas, sob a promessa de um lugar e sete esposas no paraíso.

O Taleban continua estranhamente em silêncio sobre a morte do líder da AlQaeda, Osama Bin Laden, numa operação militar dos Estados Unidos em Abbottabad, no Paquistão, anteontem.

Nas ruas de Cabul, ontem, foi um dia de ‘business as usual’, como dizem os americanos. Ou seja, tudo voltou à normalidade da difícil vida cotidiana. Os afegãos estão tão acostumados com os conflitos e mortes de herois, inimigos e anônimos, que pouco se falava em Osama Bin Laden. E muito menos nos 25 insurgentes mortos no leste do país em uma ofensiva das forças afegãs para evitar represálias pelo assinato do saudita.

Espera-se que haja manifestações de fieis radicais, especialmente no Paquistão, nessa sexta-feira, o dia sagrado dos muçulmanos, contra a morte do saudita. Menos por ser ele um terrorista, que afinal já estava havia anos afastado das operações da AlQaeda, mas por ele ser um muçulmano morto pelos americanos.

Para afegãos e paquistaneses comuns, e mais atentos, o que realmente importa disso tudo é o fato de que Bin Laden estava escondido dentro do Paquistão, um uma cidade militar a poucos quilômetros da capital Islamaba. Os afegãos se sentem vingados, já que sempre apontaram Bin Laden e o país vizinho pelo fomento do terrorismo e por ter levado a guerra e os ataques suicidas para seu país. Do lado do Paquistão, muitos ainda se perguntam como uma nação nuclear e altamente militarizada pode ter permitido a invasão de helicópteros americanos em seu espaço aéreo, sem que a ação fosse percebdia.

Já para a comunidade internacional, a principal dúvida é até que ponto o Paquistão sabia da presença de Bin Laden no país e ofereceu protecão ao saudita.

Espero conseguir, hoje, atualizar o blog com novidades. Inshallah!

*

Comentários anti-semitas, islamofóbicos e anti-árabes, racistas, discriminatórios ou que coloquem um povo, raça ou religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os comentários devem ter relação com algum dos temas do post. O blog está aberto a discussões educadas, relevantes e com pontos de vista diferentes.

Comentários (23)| Comente!

Arquivo

Blogs do Estadão