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Adriana Carranca

O paulistano Maurício Lima está entre os melhores fotojornalistas do mundo. Tem emplacado algumas das imagens mais brilhantes na capa do The New York Times, da guerra no Afeganistão aos protestos no Brasil – mais um exemplo de que o bom repórter nunca deixa de olhar para a sua esquina (falei sobre isso em um post anterior).

Antes de fotografar para o NYT, ele trabalhou por mais de dez anos para a Agence France Presse (AFP).  Cobriu guerras na Líbia, Iraque, Faixa de Gaza, além do Afeganistão, onde o conheci em 2011.

Maurício registrou algumas das imagens mais impactantes dos confrontos entre rebeldes líbios e as forças leais ao ditador Muamar Kadafi, mas sabe olhar como poucos para a simplicidade do cotidiano, que muitas vezes revela mais do que qualquer cena extraordinária. A imagem acima é uma das minhas favoritas. Foi publicada no Lens, o blog de fotografia do NYT.

Maurício Lima está entre os fotógrafos da 5.ª Mostra SP de Fotografia, o maior evento de fotografia da cidade, com 35 exposições distribuídas por 11 ruas da Vila Madalena. A abertura é hoje (sábado, dia 25),  às 11 horas, na DOC Galeria (Rua Aspicuelta, 662).

Confira a programação aqui.

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Às sextas, o blog dedica seu espaço à fotografia de guerra, sejam os confrontos armados ou as batalhas cotidianas pela vida.

 

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A sensação é de um amargo déjà vu. A informação começa a aparecer, em pedaços, nas redes sociais. Procuro as páginas de colegas que podem estar no local dos acontecimentos. Será? Outro? De novo? Recebo sms, emails, mensagens de chat. “Você viu?” Há chamadas perdidas no meu celular. Minha mãe telefona: “Você conhecia esse restaurante?” Sim, eu conhecia. Abro os sites de notícias. Procuro entre as palavras os nomes de amigos e conhecidos, como  em um ritual macabro. Mas os mortos ainda estão sendo contados.

Foi assim com o lugar onde me hospedei na primeira viagem a Cabul, o Safi Landmark, explodido por oito suicidas meses após minha estadia, em 2008; o supermercado Finest, onde eu passava todas as manhãs para comprar algo para comer durante o dia de trabalho, alvo de um atentado que matou oito pessoas em janeiro de 2011, seis delas da mesma família; o Hotel Intercontinental, talvez o último resquício dos anos 1950 e 1960 em Cabul, anos de paz, quando turistas tomavam sol na piscina da cobertura com vista para a Hindu Kush e movimentavam o comércio de prataria e tapetes magníficos da Chicken Street. Eu gostava de terminar os dias de trabalho no salão de chá decadente, mas com boa Internet para uma jornalista, e não ia embora sem antes olhar a vista do topo: a silhueta das montanhas nevadas tocando o céu mais estrelado que eu já vi; Cabul aos seus pés, iluminada pelos candeeiros das casas. Nove homens-bomba invadiram o hotel em junho de 2011, matando 12 afegãos. Foi assim também com o hotel e restaurante nas margens do Lago Qargha, onde afegãos se reuniam com suas famílias nos fins de tarde e sábados de descanso, um lugar de rara tranquilidade a poucos minutos do centro caótico de Cabul. Em junho de 2012, terroristas invadiram o lugar e mantiveram reféns durante onze horas de confrontos com soldados afegãos, ao fim do que explodiram tudo. Eu tinha estado lá um mês antes.

Mas o último atentado, ao restaurante libanês La Taverna Du Liban, na semana passada, teve algo de mais trágico e melancólico. O La Taverna era um espaço de rara convivência entre estrangeiros e afegãos, em um lugar claramente segregado. Em meio a toda a miséria, os escombros, a violência, em meio a toda tragédia do Afeganistão, uma das coisas que mais me chocara em minha primeira visita, e nas seguintes, era a segregação de afegãos e estrangeiros no país.

Cabul vive um sistema de apartheid. Diplomatas, funcionários das organizações humanitárias e expatriados em geral moram em condomínios protegidos por muros altíssimos, arame farpado, blocos de cimento e seguranças armados atrás de barricadas de sacos de areia, quarteirões aos quais afegãos não têm acesso. Eles têm de desviar desse aparato caminhando pelo meio dos carros. Nas festas de estrangeiros, raramente há afegãos. Eles não frequentam a casa um de outro, raramente têm alguma relação fora do horário do expediente. Não se visitam nos casamentos, aniversários, nascimentos ou funerais, salvo raríssimas exceções. Vivem romances tão improváveis quanto fugazes, mas não assumem compromisso nem se casam. Sequer dividem a mesa dos restaurantes.

Fiquei chocada ao aprender que para entrar nos poucos restaurantes da cidade frequentados por estrangeiros era preciso provar ser um deles mostrando o passaporte, como um posto de imigração informal. E afegãos não eram bem-vindos no próprio país.

Certa vez fiz questão de levar comigo o jornalista afegão que havia me ajudado em um dia longo e desgastante de trabalho. Foi preciso pedir autorização para a sua entrada e ele foi sabatinado por homens armados na porta, numa das cenas mais humilhantes que vi. A mesma cena se repetiu quando convidei Wahida, uma afegã pobre e analfabeta, vítima de um atentado terrorista, que eu tinha entrevistado anos antes e pretendia rever, para um chá no jardim da pousada onde eu estava hospedada. Tive de ir à porta autorizar sua entrada e flagrei um guarda tentando expulsá-la com o cano de uma AK-47.

Os restaurantes de estrangeiros alegavam que o motivo para não receber afegãos era a proibição sobre a venda de álcool para muçulmanos. Fosse isso, que não vendessem álcool a ninguém. Mas aquela era uma desculpa esfarrapada. Quando convidados a visitar o escritório ou a casa de afegãos, estrangeiros não poderiam ser melhor recebidos. Eles fazem tudo para agradar os convidados. Até mesmo oferecer um copo de cerveja ou uma taça de vinho, comprados com dificuldade inimaginável para qualquer expatriado e mesmo quando eles mesmos não bebiam. Os afegãos estavam sempre prontos para se mostrar abertos e receptivos.

 

Um território neutro na guerra

A primeira vez que estive no Taverna du Liban sentei à mesa com um jornalista afegão, uma austríaca e dois indianos. Foi mais ou menos assim todas as vezes que voltei ao restaurante. Percebia-se logo que ali havia um clima diferente. Talvez por ser libanês, Kamal Hamade parecia conseguir fazer a ponte entre estrangeiros e afegãos, muçulmanos e cristãos. Seu restaurante era como um território neutro na guerra.

Havia portas de metal pesado e seguranças armados no hall de entrada, mas estava sempre aberto a todos. Foi no mínimo estranha a sensação de ver fotos de mesas e cadeiras reviradas, sangue e estilhaços no chão. Me lembrei o astral bom que tinha a casa, em grande parte pela mistura de gente, mas também pela hospitalidade de Kamal, sempre presente e sorrindo. Teimava em levar à mesa porções extra de falafel e o famoso bolo de chocolate, pequenos mimos que faziam com que os clientes continuassem voltando sempre. Servia vinho em pequenos copos de chá e cerveja em canecas de cappuccino, com espuma extra para ajudar no disfarce – que não enganava ninguém. Estrangeiros se sentiam acolhidos, afegãos achavam graça. Era um lugar de rara coexistência.

Na ultima sexta-feira, homens-bomba explodiram a entrada do La Taverna dando passagem a atiradores que foram matando um a um os que restavam vivos após a explosão. Kamal morreu ao tentar proteger os clientes, colocando-se na frente deles como um escudo humano.

No total, 21 pessoas foram mortas, entre elas 13 estrangeiros. Explosões raramente provocam reações no Afeganistão, como se fossem parte de um cotidiano inevitável. Matam majoritariamente afegãos. Ao longo dos anos de guerra, eles foram se resignando cada vez mais ao próprio destino, encarado como fatalidade, quando não é. Foi diferente com o La Taverna. No dia seguinte ao atentado, jovens afegãos tomaram a rua do restaurante, em protesto. Traziam cartazes com mensagens como: “nós estamos contra o terrorismo”, “paz é o que queremos” ou “nós venceremos, o terrorismo perderá”. Eram como gritos de socorro. Este ano de 2014 marca o fim da guerra para os EUA. Não se sabe se o será também para os afegãos. Naquele dia, eles deixaram flores em homenagem aos conterrâneos e amigos estrangeiros mortos no ataque. Queriam mais uma vez dizer que os estrangeiros são bem-vindos, mostrar desesperadamente que não corroboravam com aquela insanidade. Não havia expatriados no protesto. As organizações internacionais tinham imposto um toque de recolher e eles voltaram à proteção dos muros altos dos condomínios.

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A imagem é do fotógrafo brasileiro Maurício Lima, do New York Times, que procura sempre estar entre os afegãos.

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Muitos estudantes de jornalismo me falam sobre o sonho de se tornar correspondentes de guerra. Pedem sugestões de como driblar os perigos do Afeganistão dos talebans, entrar na Síria assolada pela guerra, circular pelos atalhos de terra apinhados de rebeldes no leste da República Democrática do Congo, viabilizar uma viagem ao Irã dos aiatolás. Torturam-se com a falta de oportunidades e preveem as dificuldades da carreira dado o orçamento apertado das redações. A todos eles eu digo a mesma coisa: comece com a esquina da sua casa.

Humberto Trezzi, gaúcho, 50 anos, mais de 40 prêmios de jornalismo, cobriu conflitos em Angola, Colômbia, Haiti, Líbia, Timor Leste. Nunca deixou de olhar para a esquina de sua casa. “É provável que a maioria dos brasileiros desconheça essa faceta de Porto Alegre, mas a capital dos gaúchos convive com uma epidemia de homicídios que há quase uma década cresce um pouco a cada ano”, ele escreve no livro Em Terreno Minado (editora Geração), em que nos revela sua descoberta sobre o sangrento fenômeno das gangues do tráfico em disputa pelo território da cidade – 171 grupos, Trezzi listou, com a ajuda da psiquiatra Montserrat Vasconcelas. “O Iraque é aqui e os americanos somos nós, os habitantes que não moram na periferia”, disse Montserrat ao repórter.

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Na sala da casa do bangalô, imagens de Nossa Senhora Aparecida dão um ar inocente à Firma — como os traficantes chamam a boca de fumo. Mas, nos quartos, uma festa pagã se desenrola. Mulheres com shorts cavados e bustiês se estiram ao lado de rapazes chapados, bebendo uísque no bico da garrafa. Alguns dos jovens portam pistolas e as giram em torno do dedo indicador, brincando com a morte. As paredes exibem demônios grafitados, enquanto o som solta “Deixa a vida me levar”, um dos maiores sucessos de Zeca Pagodinho. E eu ali, esperando uma brecha para entrevistar a quadrilha.

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Como um executivo de bem com a vida, Flávio acorda sem pressa, às 9 horas, em Porto Alegre. Toma um banho e prepara o café para a mulher. Bate um papo, beija as crianças e sai para o trabalho, às 11 horas. Em vez de uma pasta preta, uma pistola Taurus calibre .380 na parte de trás das calças, sob a camisa florida. Enche os bolsos com pentes carregados, quinze balas em cada um.

Flávio é gerente, mas não de uma empresa qualquer. É o encarregado de tocar a Firma, como os traficantes chamam a boca de fumo. Não gostam da palavra tráfico. Preferem “movimento”, como se fosse uma causa — e, também, pelo vaivém de viciados em busca de pó (cocaína).

Como membros de uma religião profana, os traficantes também descansam. A Firma fecha aos domingos — melhor dizendo, na madrugada de sábado. Depois do último viciado, os funcionários da boca descem o morro até um salão de pagode situado ao lado do estádio do Esporte Clube Internacional.

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Trezzi se viu em meio a intensos bombardeios na Líbia, mas foi nessa esquina do mundo que é o Brasil que quase morreu duas vezes. Fez mais de 15 coberturas sobre a violência no Rio. Conheceu “a cidade maravilhosa pelos fundos”, como faz um bom repórter. Foi buscar a notícia sobre a maior chacina ocorrida até então, em Vigário Geral, em 1993, com quem tinha sobrevivido a ela: os traficantes. Revelou detalhes do crime e nomes de policiais. O furo de reportagem repercutiu nos jornais cariocas e Trezzi foi promovido pelo então diretor de redação Augusto Nunes. Como prêmio, pediu para voltar ao Rio. Queria “conferir como está a favela no pós‑massacre”.

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O ambiente, lógico, é muito diverso daquele da época da chacina. Nada de repórteres, policiais, ONGs de Direitos Humanos… Só moradores caminhando, na dura rotina diária. O sol se põe à tardinha, jovens jogam bola num campinho de chão batido, o visual é até poético. Numa esquina, uma menina de uns catorze anos fuma um beque de maconha, estraçalhando a poesia e nos transferindo sem escalas de volta à dura realidade da favela.

(…)

“Aqui” é o gatilho de uma submetralhadora Pistol Uzi, arma automática israelense do tamanho de uma pistola (daí o nome…). Só tinha visto em filmes. Agora estou ali, na mira do bandido. Num rasgo de lucidez, Ronaldo baixa a câmera e não faz a foto. Para quem conhece o colega, um baita sacrifício. Ronaldo é daqueles fotógrafos fanáticos, que leva câmera até no banheiro. Os criminosos caminham e nos cercam, sem pressa. Noto que levam pendurados fuzis AK‑47, Colt AR‑15, Remington e FAL.

Perguntam o que perdemos por ali. Nada, respondo. Explico que estamos atrás da “rapaziada do movimento”, para atualizar a situação na favela, ver o que aconteceu após a chacina, entregar umas fotos. Eles parecem nem ouvir o que falo, estão paranoicos. Um dos bandidos pergunta se conhecemos alguém ali. Menciono “Stallone” e saco da bolsa do Ronaldo uma foto ampliada do rapaz que nos guiara pela favela, um dia após a chacina. Resposta errada, deduzo, pelo silêncio. Percebo que algo vai mal.

— Esse aí já era. Vacilou — resumiu um criminoso.

Fico tenso. Um racha ocorrera na quadrilha, imagino. Para nosso azar. A situação piora quando um dos traficantes, um sarará de cabelo amarelo, repara no cabelo escovinha do Ronaldo, curtíssimo, e desconfia.

— Ih, rapaz, acho que tu é PM…

O fotógrafo diz que não é policial. O sarará insiste, apontando a Uzi para a cabeça dele e reafirmando: “PM, tu é PM…”. Para meu espanto, o Ronaldo — um dos sujeitos mais corajosos que conheço — desafia o traficante:

— Tira essa arma da minha cabeça, senão tu vai levar o maior pau da tua vida.

Rapaz… para o quê! Os bandidos apontam todas as armas para nós, agarram nossos braços e colocam para trás das costas. Discutem entre si.

Um deles, o sarará, grita:

— Leva pra vala, leva pra vala!

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Em Terreno Minado é uma aula de realidade. Aos estudantes de jornalismo: antes de sair à esquina, leiam o livro de Trezzi. Aos que não são jornalistas: antes de sair à esquina, leiam o livro de Trezzi.

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Às segundas, o blog dedica seu espaço para a literatura de guerra, sejam os confrontos armados ou as batalhas cotidianas pela vida.

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Um dos maiores e mais frequentes pecados do jornalismo é condenar ao esquecimento as tragédias do passado ou aquelas que se tornam crônicas e, por isso, passam a ser notícia velha. Quando um desastre acontece ou um novo conflito se inicia a imprensa mundial corre para o local dos fatos, relata o presente, aponta culpados, conta os mortos, e com a mesma velocidade migra para um novo desastre, o mais recente conflito. É da natureza do noticiário diário. Mas, assim, perde-se uma importante parte da história, a da continuidade da vida pelos sobreviventes, e muitas vezes deixa-se e cobrar as promessas feitas a eles no calor dos acontecimentos.

Isso torna ainda mais relevante o trabalho do fotógrafo chileno Tomás Munita, que costuma revisitar tragédias como a guerra no Afeganistão, os conflitos na Caxemira, a violência das gangues de Honduras e El Salvador. Dessa vez, ele voltou ao palco de uma das maiores tragédias da história agora enterrada no passado 2013: o distrito de Savar, em Bangladesh, onde aconteceu em abril o colapso do Rana Plaza, prédio que abrigava fabriquetas do setor de vestuário e trabalhadores quase escravizados. A tragédia deixou 1.129 mortos, comoveu o mundo, provocou indignação, evidenciou a omissão dos países importadores sobre as condições subumanas no setor para garantir preços mais baixos e competitividade no comércio internacional. Houve discursos inflamados e promessas. Oito meses depois, pouco ou quase nada mudou, como mostra o trabalho de Munita.

As fotos de Munita foram publicadas no New York Times.

 

A tragédia de Bangladesh também está retratada entre as dez fotos mais emblemáticas do ano, pela revista Time.

Que em 2014 o drama registrado em imagens como esta não sejam lembrados apenas nas retrospectivas.

Assim me despeço de 2013. Um ano melhor para todos em 2014!

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Às sextas, o blog dedica seu espaço para a fotografia de guerra, sejam os confrontos armados ou as batalhas cotidianas pela vida.

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“Meu filho morreu de Aids”, disse Nelson Mandela em uma coletiva de imprensa na tarde da morte de seu primogênito, fruto do primeiro casamento com Evelyn Mase. Era o último filho homem de Mandela ainda vivo – o caçula morreu em um acidente de carro quando o líder sul-africano ainda estava preso.

Makgatho Lewanika Mandela, advogado e pai de quatro filhos, perdeu a luta contra a Aids no dia 6 de janeiro de 2005, aos 54 anos. Naqueles tempos, 5,6 milhões de sul-africanos portadores do vírus HIV viviam seu próprio apartheid, segregados ou com medo de serem descobertos.

Durante seu governo, Mandela pouco fez pela Aids – havia outras prioridades que considerava mais urgentes, ele próprio teria confessado mais tarde. Além disso, a Aids era um tabu. Mas a doença do filho mudou a sua perspectiva e Mandela foi uma das primeiras figuras públicas da África do Sul a admitir a doença na família, o que representou uma guinada na forma como os sul-africanos lidavam com os infectados. O governo já não podia mais ignorar a epidemia à sua porta. Ele se tornou um dos principais ativistas pela universalização do tratamento e distribuição de antirretrovirais.

O mundo acordou para a epidemia do vírus HIV. Mas a Aids ainda é a principal causa de morte na África subsaariana. Mata mais do que a soma de todas as guerras ou a fome. Só compete em letalidade com outras epidemias, como a da malária e da diarreia – doenças facilmente evitáveis, mas que a miséria condena à morte.

Das 35,3 milhões de pessoas que vivem com o vírus HIV hoje, 25 milhões estão na África subsaariana. Isso significa que 71% de todos os infectados no mundo vivem na região, embora ela concentre apenas 12% da população mundial. O número de pessoas vivendo com o vírus HIV hoje na África subsaariana – 25 milhões – é o mesmo que a estimativa de africanos feitos escravos ao longo de quatro séculos – como a escravidão, a doença leva predominantemente pessoas em idade ativa, entre 15 e 49 anos. A África do Sul de Mandela ainda concentra o maior número de infectados no mundo (4,3 milhões de pessoas). Tem também o maior programa de distribuição de remédios. Mas há outros problemas que afetam diretamente a letalidade da doença nessa parte do mundo.

Na África subsaariana a falta de estradas dificulta a distribuição dos remédios – em muitos lugares, a impossibilita. Se os recebem, os moradores não têm como conservá-los porque não há energia elétrica na maior parte dos países da região. As longas distâncias e a falta de transporte tornam inviável o acesso diário aos postos de saúde, quando existem. E quando existem, são insuficientes, precários e concentrados nos centros urbanos. Muitos só procuram um médico quando os sintomas já lhes são insuportáveis e, então, é tarde demais. Na África subsaariana não se morre, portanto, disso ou daquilo, mas da falta de tudo – até mesmo de uma chance de ter acesso a um tratamento que está disponível, mas não chega a todos. Morre-se de miséria.

Foto: Eric Miller/MSF

 

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É com um adeus que recomeço este blog. O adeus a um homem que passou seus 95 anos – quase 30 deles preso em uma cela – no front de uma longa luta por justiça social, do primeiro menino da tribo Tembo a frequentar a escola no empobrecido vilarejo de Qunu ao primeiro presidente negro da África do Sul. Foi também em um adeus que o vi iluminar a Trafalgar Square em uma cinzenta manhã de Londres. Nelson Mandela anunciara poucos meses antes sua aposentadoria e se despedia oficialmente da vida pública. Antes disso, porém, o Nobel da Paz que unificou um país dilacerado pelo racismo pondo fim ao apartheid, tinha um último desejo.

Em um discurso emocionado, Mandela convocou os líderes dos países ricos a fazer do fim da pobreza um movimento igual ao da luta pela abolição da escravidão e contra o apartheid. Lembrou também que, como a escravidão e o apartheid, a pobreza não é algo natural.Foi criada pelos homens e pode ser vencida e erradicada por ação dos homens. Suas palavras eram tão simples quanto revolucionárias, porque davam nova perspectiva à pobreza. Dizemos de um ou outro que nasceu pobre, como se isso fosse condição genética, quando só se pode nascer gente. A pobreza é fabricada, tal qual uma roupa de mau gosto – não se nasce com ela.

Nos últimos 30 anos, 700 milhões de pessoas no mundo despiram-se dela, mas 1,2 bilhão sobrevive aos trapos com menos de US$ 1,25 (R$ 2,50) por dia – o corte do Banco Mundial para definir a extrema pobreza. Não que o primeiro grupo tenha enriquecido.  A metade do mundo ainda vive com menos de US$ 2 diários ou US$ 60 (R$ 120) mensais, menos de um quinto do salário mínimo brasileiro.

“Neste novo século, milhões de pessoas nos países mais pobres do mundo permanecem aprisionadas, escravizadas, acorrentadas. Estão presas na armadilha da pobreza. É hora de libertá-las. Enquanto a pobreza persistir, não haverá liberdade verdadeira”, disse Mandela. A maioria está em sua África. O Banco Mundial coloca 35 países em sua lista dos chamados países de baixa renda. Destes, 25 são africanos. Nos países de renda média ou alta, a pobreza extrema caiu à metade desde 1981, resultado alavancado, sobretudo, pela China. Nos países de baixa renda, no entanto, 103 milhões de pessoas encorparam o bolo dos miseráveis. Estes países concentram um terço de todos os miseráveis do mundo, a segunda fatia está na Índia e a terceira espalhada por outros países.

Em abril, o Comitê de Desenvolvimento do Banco Mundial colocou como objetivo acabar com a pobreza extrema até 2030. A fórmula é conhecida, precisa vontade política. A economia precisa crescer para sustentar investimentos em infraestrutura e isso depende de investimentos privados, mas desde que o comércio internacional tenha regras justas. “O sentimento antimercado não é amigável à redução da pobreza. Tampouco o fundamentalismo do livre mercado”, escreveu Jeffrey Sachs, o consultor da ONU para os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio.

Talvez a maior contribuição de Mandela tenha sido ensinar o perdão. A África do Sul estava à beira de uma sangrenta guerra civil quando ele deixou a prisão, em 1990 – quase três décadas de sua vida lhe tinham sido roubadas. Mas Mandela escolheu o caminho da reconciliação. Em 1993, chegava ao fim o apartheid. No mesmo ano, ganhou o Nobel da Paz. No ano seguinte, venceu a primeira eleição multirracial da África do Sul e se tornou o primeiro presidente negro do país. Ele ensinou os sul-africanos a deixar o apartheid na história e a olhar para frente.

Embora os avanços sejam irrefutáveis no campo dos direitos civis e políticos, seus críticos o acusam de ter feito concessões demais em troca disso. A minoria branca no poder permitiu aos negros votar, mas manteve o controle dos bancos, das empresas, das minas e da agricultura. As terras roubadas pelos colonizadores nunca foram devolvidas aos sul-africanos. A África do Sul é o país do continente com maior número de bilionários – somente um deles é negro (Patrice Motsepe, o primeiro negro a ser contratado pelo maior escritório de advocacia sul-africano, o Bowman Gilfillan, em 1994, e hoje um magnata do ouro que doou no ano passado a metade de sua fortuna, estimada em US$ 20 bilhões, para a caridade).

Na ultima década, seis dos 10 países com maior crescimento econômico estavam na África, beneficiada pelo aumento no preço mundial de commodities e investimentos estrangeiros, principalmente da China. Mas a África do Sul permanece um dos países mais desiguais do mundo, onde um branco ganha em média seis vezes mais do que um negro e um em cada três negros está desempregado enquanto para os brancos a taxa de desemprego é de um em vinte. Ricos estão ficando mais ricos e pobres tão ou mais pobres. O Banco de Desenvolvimento Africano diz que o crescimento econômico da África é um crescimento “sem emprego” e Soweto, onde os negros foram massacrados nos protestos de 1976, jovens voltaram a entrar em confrontos recentes com a polícia em manifestações por emprego e serviços públicos decentes. O legado de Mandela está sendo colocado em risco pela desigualdade, as tensões sociais, as fraturas no Congresso Nacional Africano, os escândalos nos governos que o sucederam.  O continente continua dominado por autocratas corruptos e sanguinários.

Mandela transformou um sistema de apartheid em uma democracia multirracial e se tornou um ícone da luta pela justiça e paz. Mas se despede sem ter seu último desejo atendido. “Enquanto a pobreza, a injustiça e a desigualdade bruta persistirem em nosso mundo, nenhum de nós pode realmente descansar.”

Fotos: Reuters

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04.dezembro.2012 14:35:12

Até!

O blog volta no fim de 2013.

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Nessa quarta e quinta-feira, quando acontecem a semi-final e a final do boxe feminino, a última barreira olímpica para as mulheres será quebrada. Londres será a primeira Olimpíada com atletas mulheres em todos os esportes, um marco histórico. Os homens dominaram os Jogos desde o início em 1896. Por muito tempo, a única forma das mulheres competirem era inscrever seus cavalos para as provas equestres.

A primeira Olimpíada a ter mulheres foi a de Paris, em 1900, mas apenas no tênis e golfe. Em 1912 elas foram aceitas na natação, mas nenhuma atleta americana participou, porque a América, curiosamente, não permitia que competissem de pernas de fora. Era a Arábia Saudita de hoje, que quase deixou de fora duas atletas por proibir que disputassem as provas com os cabelos descobertos – o Comitê Olímpico Internacional acabou cedendo e a judoca da equipe lutou com uma espécie de touca no lugar do hejab (véu islâmico). Em 1928, elas ingressaram no atletismo. Porém, como muitas não conseguiram terminar a prova dos 800 metros, o esporte foi considerado inadequado para a capacidade física feminina, e a modalidade só voltou a ter mulheres nos anos 1960. No tiro, só em 1984, e foram banidas da prova de levantamento de peso até os anos 2000.

O boxe feminino era a última barreira para elas, vencida este ano. Também pela vez, em Londres, todas as 205 delegações têm representantes mulheres. Depois de forte pressão da comunidade internacional, o Qatar, Brunei e a já citada Arábia Saudita permitiram sua participação. Na semana passada, quando a saudita Wojdan Ali Seraj Abdulrahim Shahrkhani estreou no tatame publiquei matéria dando os números: em 2012, dos 10,5 mil atletas, elas são 4.862 ou quase a metade. Também pela primeira vez na história, os dois líderes no ranking de medalhas olímpicas, EUA e China, têm mais mulheres do que homens em seus quadros, assim como em outras 29 delegações, segundo levantamento feito pelo Estado. Há menos de duas décadas, na Olimpíada de Atlanta, pelo menos 26 países não tinham mulheres em suas equipes. Em Londres, entre os países com maioria feminina, pelo menos três são predominantemente muçulmanos.

Leia mais: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,muculmanas-ganham-voz,910303,0.htm

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A Olimpíada pode mudar uma cidade? Há um ano, Londres enfrentava o início de uma onda de violência que deixou 5 mortos e dezenas de feridos; lojas foram saqueadas, casas e carros queimados estamparam as capas dos principais jornais do mundo. Começou com um protesto pacífico contra a morte de um morador negro de Tottenham, bairro pobre no norte da cidade, mas explodiu e se espalhou até os muros do Parque Olímpico em Hackney, no leste. A face dos protestos era de jovens - dos 3 mil presos, pelo menos a metade tinha menos de 21 anos. Tão jovens quanto muitos dos 70 mil voluntários que agora recebem gentilmente os visitantes e ajudam a fazer acontecer os Jogos. Há um ano, a polícia reagiu duramente para controlar os manifestantes. A mesma polícia que agora circula calmamente pelas sedes olímpicas e arredores, sorri aos que passam e deixa até que brinquem com seus cães farejadores. Há um ano, o país temia estar diante de uma sociedade fraturada. Agora se une no patriotismo reavivado com as medalhas dos ateltas britânicos.

Vivendo seu momento de glória, o prefeito de Londres disse hoje que “a Olimpíada está dando uma lição aos manifestantes: a de que esforço e conquista estão conectados”. Muitos dos jovens que foram presos nos protestos do ano passado tinham passagem pela polícia, a maioria estava desempregada, realidade de um em cada quatro londrinos entre 18 e 24 anos. Em um giro por Hackney, os moradores me diziam que as ruas estão mais tranquilas, mas eles acreditam que isso se deve apenas à presença ostensiva da polícia e do Exército durante a Olimpíada – há, aliás, mais forças de segurança britânicas em Londres para os Jogos do que no Afeganistão. ”Sob a superfície brilhosa da Olimpíada, muitos temem que as causas da onda de violência permanecem”, escreveu uma moradora de Hackney em carta ao Financial Times. Apesar da renovação da área para receber o Parque Olímpico, ela lembra que o bairro segue sendo o sexto mais pobre do país e tem o segundo maior número de pessoas pedindo seguro-desemprego, atrás apenas do vizinho Newham.

O tema dessa Olimpíada é: Inspire uma geração. Apesar da euforia dos últimos dias de ouro para o esporte britânico, talvez seja preciso mais do que medalhas. O próprio Johnson acredita no efeito inspirador dos medalhistas, mas admitiu: “Uma Olimpíada não resolve tudo”.

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Com o veloz avanço da tecnologia, estabelecer os limites do que pode ou não ser considerado doping tecnológico é o grande desafio do esporte moderno. A Nike afirma que seu novo uniforme, trazido para a Olimpíada de Londres, pode reduzir o tempo da corrida de 100 metros em 0,023 segundos. Tivesse sido usado nos Jogos de Pequim, teria sido suficiente para dar ao americano Walter Dix a medalha de prata, em vez do bronze que ganhou.

Dix terminou a prova exatos 0,020 segundos atrás do segundo lugar, Richard Thompson, de Trinidad e Tobago. O uniforme, chamado Turbospeed, tem o design inspirado em uma bola de golfe. “Nós sempre achamos que as superfícies lisas significavam maior velocidade, mas se você olhar para uma bola de golfe perceberá que é cheia de cavidades”, disse ao Estado o designer Martin Lotti, diretor global de criatividade da Nike.

Cavidades similares foram aplicadas no tecido que cobre os braços e pernas dos atletas. “Quando recebemos os resultados de performance, não acreditamos, não podia ser verdade”, disse Lotti. E destaca: “A diferença pode significar chegar ou não ao pódio”.

O uniforme foi aprovado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e está sendo usado nos Jogos de Londres pelas equipes de atletismo de 20 países.

A vantagem na performance dos atletas foi, no entanto, o que fez os maiôs da Speedo, usados pela natação em Pequim, serem vetados este ano. A Fina, federação mundial de natação, considerou que a tecnologia dos maiôs correspondia a um doping.

Para Londres, a Speedo criou um sistema hidrodinâmico que incluiu, além do maiô, os óculos de natação e a touca. Juntos, os três reduziriam em 16,6% a resistência que retarda o deslizamento do corpo do nadador na água e em 5,2% a resistência criada pelas ondas que o atleta forma quando nada. O sistema foi inspirado na aerodinâmica dos carros de Formula 1.

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    Adriana Carranca

    Adriana Carranca é repórter especial do Estadão. Escreve principalmente sobre conflitos, religião e direitos humanos, com olhar especial para a condição das mulheres. Fez coberturas no Afeganistão, Paquistão, Irã, Israel, territórios palestinos, Egito, Indonésia, República Democrática do Congo, Haiti, entre muitos outros. Seus artigos foram publicados em revistas internacionais como a americana Foreign Policy e a edição francesa da Slate. No Brasil, é autora de O Afeganistão depois do Talibã (ed. Civilização Brasileira) e O Irã sob o Chador (ed. Globo). Ganhou prêmios de reportagem, entre os quais o Grande Prêmio Líbero Badaró de Jornalismo, com uma coletânea sobre a guerra no Afeganistão, e cinco edições do Prêmio Estado de Jornalismo.

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