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Adriana Carranca

Sem ajuda paquistanesa, dificilmente o Afeganistão se tornará um país estável após a retirada das tropas estrangeiras

ADRIANA CARRANCA – O Estado de S.Paulo

A Conferência de Bonn, na Alemanha, que reuniu na semana passada representantes de mais de cem países para decidir sobre o futuro do Afeganistão após a saída das tropas estrangeiras, foi apenas mais um episódio fracassado em uma década de tentativas e erros da comunidade internacional para restabelecer a paz no país, sem que tenha conseguido engajar o principal ator para a solução dos conflitos: o Paquistão.

“O boicote à Conferência de Bonn é um claro sinal da falta de vontade de Islamabad em cooperar com a comunidade internacional”, disse ao Estado o vice-conselheiro de Segurança Nacional do Afeganistão, Ashraf Haidari.

Um dos homens mais próximos do presidente afegão Hamid Karzai, ex-consultor político e vice-embaixador em Washington, ele garante que o Paquistão controla efetivamente o Taleban em seu próprio território. Como reflexo do aumento das tensões entre Cabul e Islamabad, Haidari acusa o vizinho de sabotar as tentativas de um acordo de paz com os insurgentes e diz que os militares e o serviço secreto paquistanês (ISI) são omissos.

Ele falou duas vezes ao Estado, de Bonn e já de volta à capital afegã, após os atentados suicidas simultâneos contra xiitas em Cabul e Mazar-e Sharif que mataram pelo menos 60 pessoas, na terça-feira, e fizeram Karzai cancelar sua agenda no exterior. Um grupo paquistanês ligado à Al-Qaeda assumiu a autoria dos ataques.

A reunião fracassou por causada crise entre Washington e Islamabad (o Paquistão boicotou o encontro em protesto contra a morte de militares no ataque de um drone americano)?

O Paquistão reluta em cooperar com o Afeganistão e a Otan para romper (com o Taleban) e desmantelar completamente os santuários (terroristas) em seu território, de onde (os radicais) continuam lançando ataques ao Afeganistão, matando indiscriminadamente civis inocentes. O boicote à Conferência de Bonn é um claro sinal da falta de vontade de Islamabad em cooperar com a comunidade internacional no Afeganistão. Acreditamos que as Forças Armadas e a inteligência paquistanesas tenham capacidade de derrotar o inimigo, mas eles têm de querer fazê-lo.

O Taleban está pronto para um acordo de paz?

A paz deve ser uma solução permanente. Só quando o Taleban já não mais desfrutar dos santuários e de suporte operacional do Paquistão ele aceitará um acordo de paz. Cumprir com esse compromisso, no longo prazo, servirá a seus próprios interesses em segurança nacional (contra grupos que atuam dentro do Paquistão, como o que atacou xiitas, na terça-feira). Mas o Paquistão, que efetivamente controla o Taleban em seu próprio solo, reluta em cooperar pelo fim da insurgência. No passado, sabotou negociações de paz com insurgentes que desejam renunciar à violência, romper laços com terroristas internacionais e aceitar os termos da Constituição, como o direito de igualdade.

Há um sentimento de incerteza e frustração entre afegãos, perplexos com os resultados precários de uma década de investimentos. Como garantir que será diferente na próxima década?

Nessa segunda Conferência de Bonn, fizemos um apelo para que a assistência continue nas áreas de segurança, governança e desenvolvimento para garantir uma transição tranquila no fim de 2014, quando a maioria das tropas estrangeiras deixará o país. E propusemos que, depois disso, o compromisso militar e civil continue até que o Afeganistão possa desenvolver uma base sustentável e defender sua soberania contra as ameaças regionais. Mas os doadores internacionais devem aprender a lição dos últimos dez anos: a liderança afegã e o controle sobre a segurança e a reconstrução do Afeganistão devem substituir o mecanismo disfuncional e contraproducente de dar ajuda ao país por meio de uma multiplicidade de estruturas paralelas que se sobrepõem. Essas entidades devem ajudar a construir, em vez de substituir, a capacidade institucional do governo afegão. Esperamos que a capacitação dos afegãos para tomar as rédeas do país ocorra. Mais do mesmo não é aceitável para o nosso governo e o povo.

O que o Afeganistão espera da comunidade internacional?

Aprendemos que as necessidades para reconstruir e garantir a segurança do Afeganistão são imensas, que as nossas conquistas são ainda um trabalho em progresso. A comunidade internacional não deve cometer o mesmo erro duas vezes, abandonando prematuramente o Afeganistão antes de estarmos firmes sobre nossas próprias pernas. Esse erro ocorreu após a retirada das forças soviéticas do país, em 1989, quando a reconstrução do país pós-guerra foi negligenciada pelo Ocidente – apesar de os afegãos terem lutado, em nome do Ocidente, a mais sangrenta ‘guerra proxy’ (um conflito no qual as partes se utilizam de terceiros) da Guerra Fria.

* Entrevista publicada no Estadão

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Membro da Frente pela Libertação da Palestina defende governo de união com Fatah e Hamas

ADRIANA CARRANCA – O Estado de S.Paulo

Leila Khaled desce as escadas em um vestido justo de listras, senta-se à mesa e acende um cigarro. Antes da entrevista, pede à amiga brasileira que traga do supermercado cerveja e duas garrafas de vinho, branco e tinto. “Seco, por favor”, pede, ao lado do segurança particular, essa palestina de 64 anos, cuja foto com uma AK-47 em punho rodou o mundo em 1969 após ser presa por sequestrar um Boeing 707 para chamar a atenção do mundo à sua causa.

 Leila em 1970…

Crédito: AFP

“Não é religiosa?” Ela mexe a cabeça negativamente. “Quem quer um Estado religioso é Israel”, diz Leila, membro da Frente Popular para a Libertação da Palestina (FPLP) no Conselho Nacional Palestino (Parlamento). Ela está no Brasil para a criação de um comitê em solidariedade aos palestinos e amanhã fala em evento do Icárabe, no Instituto Cervantes, ao lado de três conterrâneos de linhas diferentes.

O FPLP de Leila diverge do moderado Fatah, no comando da Cisjordânia, e é acusado de promover atentados contra Israel, o que ela não nega. Defende o fim da disputa entre palestinos e um governo de união do Hamas e do Fatah, que se reconciliaram recentemente. Os grupos se reunião no dia 18, no Cairo, para decidir sobre novas eleições palestinas (mais informações na página A16).

 … e hoje.

Crédito: Aline Baker/ Icárabe

Leila diz que aceitará a decisão de maioria, mas não rejeita a luta armada. “Vinte anos de conversa não nos levaram a nada. A Carta da ONU prevê como direito de um povo resistir à ocupação, que é em si um ato terrorista”, defende. “Os palestinos lutam contra sua expulsão, prisões arbitrárias, o bloqueio de Gaza, ofensivas que mataram milhares sem que Israel fosse punido e pelo direito de ir e vir, cerceado por soldados que decidem quando abrir os portões”, ela fala, sem respirar. “Por que acha que o povo palestino deveria suportar tudo isso sem reagir?”

Família palestina diante de sua casa demolida - Abed Al-Hashlamoun/Efe
Abed Al-Hashlamoun/Efe
Família palestina diante de sua casa demolida

Em seu tom de voz há toda a carga dos violentos conflitos que assolam a região desde 1948, quando meio milhão de palestinos fugiram da Guerra Árabe-Israelense, entre eles, seus pais. Ela tinha 4 anos. “Israel sufocou o povo palestino. E o que você faz quando está sufocando? Você usa até as unhas!” Ao sequestrar o avião que ia de Roma a Atenas e desviá-lo para Damasco, na Síria, ela exigiu que o piloto sobrevoasse Haifa, sua terra natal. Não houve feridos. “Sequestramos, sim, e o mundo passou a nos ouvir”. Ela fez seis cirurgias plásticas e no ano seguinte participou de novo sequestro. Foi presa em Londres e libertada numa troca de prisioneiros.

Leila vive na Jordânia e defende o direito de retorno – um dos principais impasses à paz. “Israel convoca judeus de todo o mundo a retornar às suas terras, por que não os palestinos?” Ela sabe que isso inviabilizaria o Estado de Israel, que teria maioria árabe. “Defendo um Estado laico em que judeus e muçulmanos possam conviver.”

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Foi muito gostoso poder falar sobre os personagens do livro “O Afeganistão depois do Talibã” (Ed. Civilização Brasileira/ Record, 286 páginas) no Programa do Jô e ajudar a minimizar um pouquinho que seja do preconceito que se tem sobre o povo afegão. Atendendo a pedidos, aqui está o vídeo! Abraços.

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Adriana Carranca – O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – Uma década após o início dos bombardeios pelas forças de coalização lideradas pelos EUA, em 7 de outubro de 2001, em resposta aos atentados de 11 de Setembro, os esforços militares e diplomáticos da guerra afegã se transferiram para o vizinho Paquistão. A insurgência é atribuída à rede Haqqani, que os militares americanos acusam de estar diretamente ligada ao serviço secreto paquistanês, ISI. Seu inimigo não são os afegãos ou o Ocidente, mas a Índia.

“A rede Haqqani e sua associação com a agência de inteligência paquistanesa não são uma surpresa para os EUA, as forças de coalizão ou o governo afegão”, disse ao Estado a coronel americana Kathryn Burba, que serviu a Otan no Afeganistão até o ano passado e contribui com o centro de estudos Council of Foreign Relations. “Os esforços dos EUA sempre foram de engajar o Paquistão. Mas o tempo acabou. A data de saída está definida para 2014 e, frustrados, os EUA aumentaram a pressão sobre o país.”

Segundo a ABCNews.com e The Wall Street Journal, funcionários da Casa Branca reuniram-se secretamente com líderes da Haqqani no fim de agosto, na tentativa de iniciar negociações de paz com os insurgentes. O Taleban não foi sequer mencionado.

A Haqqani é acusada de organizar e financiar os mais espetaculares ataques no Afeganistão neste ano – entre eles, a emboscada ao ex-presidente Burhanuddin Rabbani, assassinado em casa por um mensageiro usando turbante-bomba, no dia 20, e o ataque contra a sede da Otan e a Embaixada dos EUA em Cabul, uma semana antes.

Sem avanço nas negociações, os assessores do presidente dos EUA, Barack Obama, para segurança, Thomas Donilon, e para o Paquistão, Douglas Lute, reuniram-se nos Emirados Árabes Unidos com o chefe das Forças Armadas do Paquistão, general Ashfaq Parvez Kayani. A mensagem: controle a rede Haqqani.

Diplomacia

Os esforços diplomáticos são um sinal do reconhecimento da Casa Branca de que, uma década mais tarde – a um custo de US$ 443 bilhões, 2,8 mil militares e, pelo menos, 11,7 mil civis mortos -, a ofensiva militar não foi e não será suficiente para pôr fim à guerra. Ainda que os taleban aceitassem um acordo para compor o governo do presidente Hamid Karzai, sem a Índia e o Paquistão na mesa de negociações, é improvável que os conflitos terminem.

Veja os dados do conflito em infográfico aqui.

Os Haqqani mantêm relações com o Taleban, mas atuam de forma independente. Assim como Osama bin Laden, seus líderes foram, no passado, aliados da CIA contra os soviéticos no Afeganistão. A rede está hoje alinhada com um Paquistão que enxerga o Afeganistão como um território que pode ser usado pela Índia para encurralar o país, geograficamente espremido entre ambos.

Numa clara retaliação contra o Paquistão, após os atentados atribuídos à rede Haqqani, Karzai anunciou, na terça-feira, um parceria com a Índia nas áreas de comércio, educação e segurança – nos últimos dez anos, o país financiou estradas, escolas e hospitais no Afeganistão, investimentos que os paquistaneses sempre viram com desconfiança.

O Paquistão reagiu, dizendo ao líder afegão que pare com a “queda de braço”, o que especialistas acreditam que poderá motivar suporte ainda maior a insurgentes contra seu governo. “Não é hora de tentar marcar pontos, fazer politicagem ou usar de arrogância”, disse ontem a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Paquistão, Tehmina Janjua. “Nossa expectativa é a de que todos, especialmente aqueles em posição de autoridade no Afeganistão, terão a maturidade e a responsabilidade necessárias.”

Paquistão e Índia se envolveram em três guerras desde que deixaram de ser colônia britânica, em 1947. Do ponto de vista dos militares paquistaneses, grupos como a rede Haqqani seriam aliados importantes contra a presença da Índia no Afeganistão. De outro lado, a influência de inimigos mais poderosos e articulados do que os semianalfabetos taleban no Afeganistão lança dúvidas sobre a capacidade dos afegãos de assumir a segurança no país após a saída das tropas.

Publicado hoje no Estadão

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LEIA MAIS sobre os dez anos da guerra no Afeganistão.

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Meus queridos, espero vocês para o lançamento do meu novo livro, O Afeganistão depois do Talibã, quarta-feira, dia 5 de outubro, a partir das 19 horas, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (atenção: não na megastore, mas na antiga Livraria Cultura, menor e mais aconchegante).

Sobre o livro:

O Afeganistão depois do Talibã traz onze histórias afegãs, onze perfis – um talibã, um senhor da guerra, a primeira mulher candidata à presidência, um médico da Cruz Vermelha, uma lutadora de boxe feminino, um brasileiro em Cabul etc. – que retratam a década desde o 11 de Setembro até a morte do saudita Osama bin Laden, no Paquistão. É resultado de duas viagens que fiz à região. A primeira, em 2008, quando conheci os personagens, e a segunda, em 2011, quando voltei ao país para revê-los.

Espero que gostem!

RSVP aqui!

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Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, apresentará hoje o pedido de inclusão de um Estado palestino como membro pleno da ONU. Entenda quais são os principais pontos de disputa com Israel e os argumentos dos EUA para vetar as aspirações palestinas.
JERUSALÉM
Israel
O governo israelense não aceita a divisão de Jerusalém, que escolheu como centro político e religioso do povo judeu. Baseia-se na lei básica – prévia da Constituição israelense, ainda não escrita – aprovada pelo Knesset, em 1980, que define Jerusalém “completa e unificada” como a capital de Israel. Desde então tem ocorrido discussões; em 2000 e 2007, o governo então propôs abrir mão de alguns bairros periféricos anexados.
Palestinos
Os palestinos querem o leste de Jerusalém, controlado pela Jordânia antes de ser ocupada por Israel na guerra de 1967, como a capital do Estado da Palestina. Na cidade velha está o terceiro local sagrado dos muçulmanos, a Mesquita de Al-Aqsa, e o Domo da Rocha, de onde Maomé teria ascendido ao céu em seu cavalo alado Burak.
EUA
Os EUA não reconhece a anexação por Israel do leste de Jerusalém e mantém sua embaixada em Tel-Aviv. O presidente Barack Obama se opõe à construção de casas para israelenses no leste de Jerusalém embora tenha dito, antes de se tornar presidente, que dividir a cidade seria “muito difícil de executar”.
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FRONTEIRAS
Israel
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, aceita a criação do Estado palestino e, para isso, admite que israelenses terão de ser retirados de áreas da Cisjordânia (capturada por Israel em 1967). Israel retirou-se unilateralmente de Gaza, mas defende que sua fronteira inclua toda Jerusalém de os maiores assentamentos israelenses que proliferaram na Cisjordânia.
Palestinos
Os palestinos partem do princípio de que todas as terras ocupadas por Israel em 1967 pertencem ao futuro Estado palestino. A partir disso, todas as terras deixadas para Israel devem ser recompensadas com outras dadas aos palestinos.
EUA 
Os EUA reconhecem as fronteiras de 1967 como base para negociações.
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ASSENTAMENTOS
Israel
O governo de Israel insiste em manter como seu território os grandes assentamentos no leste de Jerusalém e na Cisjordânia. Essa questão divide o Knesset. Uma moratória unilateral congelou a construção de novos assentamentos por dez meses. A moratória expirou em 26 de setembro e não foi renovada, o que levou a Autoridade Palestina a paralisar o processo de paz que havia sido reiniciado poucas semanas antes.
Palestinos
Os palestinos gostariam que todos os assentamentos fossem esvaziados, como em Gaza. Eles defendem a permanência de um número mínimo de colonos e o recebimento de outras terras em troca das que ficarem sob domínio israelense.
EUA
Assim como ocorre com a anexação do leste de Jerusalém, os EUA não consideram legítimos os assentamentos israelenses na Cisjordânia. Mas aceita a realidade de sua existência e defende um acordo para por fim ao problema.
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REFUGIADOS
Israel
Israel rejeita a ideia de que os refugiados palestinos que deixaram as terras fugindo dos conflitos tenham permissão de voltar para casa. Eles argumentam que isso seria um dispositivo para a destruição do Estado de Israel e, demograficamente, seria como restabelecer um Estado palestino único.
Palestinos
Formalmente, os palestinos mantêm o “direito de retorno”, argumentando que negar esse direito seria uma injustiça. Porém, tem havido debates entre os palestinos de que pode ser negociada compensação para que eles abram mão de tal direito. Eles se recusam a aceitar o conceito de Israel como um estado judaico, argumentando que isso é desnecessário e ignora os direitos dos cidadãos árabe-israelenses.
EUA
Os EUA entendem a recusa de Israel em aceitar de volta os refugiados e espera que isso possa se resolver pela compensação, como defende parte dos palestinos, e pela ajuda às famílias que não puderem retornar.
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SEGURANÇA
Israel
O governo israelense teme que o Estado palestino caia nas mãos de radicais como o Hamas e seja usado como trampolim para transformar Israel em Palestina. Por isso, insiste em manter sob seu domínio o controle da segurança, incluindo na fronteira com o Vale do Jordão, e defende um Estado palestino desmilitarizado.
Palestinos
Argumentam que a segurança de Israel virá de uma solução estável de dois estados. Eles demandam todos os atributos de um estado normal. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, teme que, sem isso, o Estado palestino seja insustentável e vulnerável ao domínio de opositores ao próprio governo como o Hamas.
EUA
Os EUA aceitam a necessidade de Israel por segurança, mas também a demanda palestina por um Estado pleno. Reconciliar ambos tem sido o objetivo diplomático dos americanos na região. Sobre o reconhecimento da Palestina como membro pleno da ONU, os EUA argumentam que a Palestina só pode ser criada a partir de um acordo com Israel e não por imposição.
FONTE: Paul Reynolds, da BBC

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Queridos leitores, estou muito feliz por estar entre os finalistas do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem, ao lado de Marcia Camargos, com O Irã sob o Chador, lançado em 2010 pela Editora Globo. É uma grande honra! Entre os finalistas da categoria Contos e Crônicas está o amigo Antonio Prata – a quem admiro muitíssimo – com seu maravilhoso Meio Intelectual, Meio de Esquerda, da Editora 34.

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No meu post de ontem falei sobre o Twitter de jornalistas afegãos que abasteceram a imprensa mundial com informações em tempo real sobre os ataques simultâneos contra a Embaixada dos EUA e a sede da Otan em Cabul, entre outros alvos na capital. Mas não somente eles. O  Taleban agora também tem twitter, myspace e site – em minha última viagem a Cabul testemunhei muitos turbantes negros completamente à vontade em seus iPhones e Blackberries. É claro que é impossível atestar se os endereços em inglês atribuídos aos insurgentes na web são de fato escritos por milicianos ou comandantes do grupo – é bem provável que não, pois muitos dos Taleban, talvez a maioria, são tribais semi-analfabetos. Mais provável é que tenham o auxílio de gente gabaritada.

O fato é que, ontem, em meio ao ousado ataque dos insurgentes, os militares americanos acabaram legitimando pelo menos uma dessas páginas, no Twitter, ao protagonizar contra seu autor uma verdadeira batalha online.

Um dos post, às 11h41 de hoje, no Twitter da Força Internacional de Segurança (ISAF, na sigla em inglês), fazia uma provocação ao Taleban: “hey, @alemarahweb, o seu patrão fez isso?”, perguntava o militar em inglês, dando o link para um vídeo da ISAF em que mostrava a destruição causada pelo ataque dos insurgentes.

Al Emarah é o nome que o Taleban usa em um site do grupo, no Twitter, no myspace. É o Taleban na era digital. Os comunicados oficiais do grupo, que repercutem na imprensa mundial, costumam ser publicados nessas páginas.

Em outro post, ontem, o militar da ISAF questiona: “por quanto tempo mais os terroristas vão colocar os afegãos em perigo dessa forma?”. E no post seguinte, informa: “A atividade dos insurgentes mataram 11 afegãos, entre eles 3 crianças. Suas ações continuam a prejudicar afegãos civis inocentes”

Quem responde aos posts no Twitter da ISAF é Abdulqahar Balkhi, que se apresenta como uma espécie de porta-voz do Emirado Islâmico do Afeganistão, como é chamado o país sob regime Taleban. No post, em seu twitter, ele diz: “hey, @ISAFmedia, você tem colocado (os afegãos) em perigo nos últimos 10 anos. Destruído vilarejos inteiros e mercado e ainda tem a coragem de falar em prejuízo”.

NYT e o Guardian acompanharam o que mais parecia um bate-boca entre vizinhos – mas foi protagonizado por militares dos EUA e terroristas do Taleban, dois lados de uma guerra que dura há uma década, desde o 11 de Setembro. É meio assustador, não é, não?

 

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Citando várias fontes diferentes, jornalistas afegãos informavam em suas páginas na Internet, blogs e no Twitter sobre evidências de que a autoria dos ataques contra a Embaixada dos EUA e o quartel general da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), hoje, em Cabul, era de responsabilidade da rede Haqqani, grupo baseado no Paquistão e supostamente aliado do Taleban. Os terroristas teriam feito contato por telefone com o comando do grupo no Paquistão antes de iniciar os ataques. “Temos evidências suficientes em mãos para afirmar que a rede Haqqani está por trás dos ataques de hoje (em Cabul). E eles estão por trás do ataque com um caminhão bomba contra uma base americana em Wardak”, disse um agente de segurança afegão ao repórter Bilal Sarwary, da BBC.

O fato é que a insurgência no Afeganistão já não é coesa. E isso é um perigo. Há hoje muitos grupos envolvidos na insurgência afegã, como a rede Haqqani, o recente Taleban paquistanês (independente do grupo afegão) e o Hezb Islami, de Gulbudin Hekmatiar, um ex-comandante mujaheddin que lutou contra os soviéticos com armas e treinamento da CIA, recebidos via serviço secreto do Paquistão, o ISI, e protagonizou a mais sangrenta batalha, em Cabul, no subsequente conflito civil contra as forças do tajique Ahmad Shah Massoud.

Enquanto as forças de coalizão se ocupavam dos Taleban – para não dizer de Saddam Hussein no Iraque, para onde o dinheiro e os esforços militares dos EUA se voltaram em 2003 – esses grupos se fortaleceram no Paquistão na última década sem que nada – ou quase nada – fosse feito. Muitos deles surgiram ainda na época da luta contra os soviéticos sob a tutela do ISI, mas hoje estão se tornando muito mais independentes e realizando uma série de ataques contra o próprio Paquistão – hoje mesmo, o Taleban paquistanês atacou um ônibus escolar, matando quatro crianças e o motorista, em represália contra líderes tribais que se uniram para combater a presença dos militantes, em ascensão, nos arredores de Peshawar – estive lá em maio e o clima já era bem tenso.

Mas os EUA continuam negligenciando o país vizinho, que vive uma profunda crise interna depois da morte de Bin Laden em uma operação secreta americana na cidade paquistanesa de Abbottabad. O governo civil, tido pelos paquistaneses como ineficiente e corrupto, preferiu deixar tudo nas costas dos militares, que se achavam no controle, mas foram desmoralizados e humilhados pela operação americana que não conseguiram sequer prever. Ao mesmo tempo, têm tido dificuldades em lidar com os próprios militantes que criaram. A população já miserável, enquanto isso, empobrece mais e mais – a instabilidade política e a violência afugentam investidores estrangeiros para bem longe. Isso ajuda a fazer do Paquistão solo fértil para o terrorismo. E não se pode esquecer que se trata de uma potência nuclear.

O país recebeu na última década mais de U$ 20 bilhões dos cofres americanos para “ajudar” os EUA a combater o terrorismo. Cortar a assistência agora, com tantas redes terroristas se fortalecendo dentro do país, não é uma decisão fácil – significaria menos recursos para o combater esses insurgentes que têm um forte apelo antiamericano, e com quem os EUA terão fatalmente de lidar mais tarde.

Os EUA podem até usar a desculpa da morte de Bin Laden para deixar o Afeganistão. Mas a pergunta é: o que farão com o Paquistão?

 

 

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Adriana Carranca

    Adriana Carranca é repórter especial do jornal O Estado de S.Paulo. Cobriu extensamente a guerra no Afeganistão e acontecimentos importantes no Paquistão, Irã, Egito, Israel, territórios palestinos, Haiti, México, Estados Unidos e Grã-Bretanha, entre outros países. Passou uma temporada como correspondente em Nova York, em 2006, como bolsista do Dag Hammarskjöld Scholarship, da Associação de Correspondentes da ONU, com sede na cidade americana. Em 2012, foi pesquisadora-bolsista do Reuters Institute for the Study of Journalism, na Universidade de Oxford. Formada em jornalismo, tem mestrado em Políticas Sociais e Desenvolvimento pela London School of Economics (LSE), de Londres. É coautora de "O Irã sob o chador", publicado em 2010 pela Editora Globo e finalista do Prêmio Jabuti na categoria livro-reportagem, e autora de "O Afeganistão depois do Talibã", lançado em outubro pela Editora Civilização Brasileira/Record.

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