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Adriana Carranca

Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina, apresentará hoje o pedido de inclusão de um Estado palestino como membro pleno da ONU. Entenda quais são os principais pontos de disputa com Israel e os argumentos dos EUA para vetar as aspirações palestinas.
JERUSALÉM
Israel
O governo israelense não aceita a divisão de Jerusalém, que escolheu como centro político e religioso do povo judeu. Baseia-se na lei básica – prévia da Constituição israelense, ainda não escrita – aprovada pelo Knesset, em 1980, que define Jerusalém “completa e unificada” como a capital de Israel. Desde então tem ocorrido discussões; em 2000 e 2007, o governo então propôs abrir mão de alguns bairros periféricos anexados.
Palestinos
Os palestinos querem o leste de Jerusalém, controlado pela Jordânia antes de ser ocupada por Israel na guerra de 1967, como a capital do Estado da Palestina. Na cidade velha está o terceiro local sagrado dos muçulmanos, a Mesquita de Al-Aqsa, e o Domo da Rocha, de onde Maomé teria ascendido ao céu em seu cavalo alado Burak.
EUA
Os EUA não reconhece a anexação por Israel do leste de Jerusalém e mantém sua embaixada em Tel-Aviv. O presidente Barack Obama se opõe à construção de casas para israelenses no leste de Jerusalém embora tenha dito, antes de se tornar presidente, que dividir a cidade seria “muito difícil de executar”.
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FRONTEIRAS
Israel
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, aceita a criação do Estado palestino e, para isso, admite que israelenses terão de ser retirados de áreas da Cisjordânia (capturada por Israel em 1967). Israel retirou-se unilateralmente de Gaza, mas defende que sua fronteira inclua toda Jerusalém de os maiores assentamentos israelenses que proliferaram na Cisjordânia.
Palestinos
Os palestinos partem do princípio de que todas as terras ocupadas por Israel em 1967 pertencem ao futuro Estado palestino. A partir disso, todas as terras deixadas para Israel devem ser recompensadas com outras dadas aos palestinos.
EUA 
Os EUA reconhecem as fronteiras de 1967 como base para negociações.
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ASSENTAMENTOS
Israel
O governo de Israel insiste em manter como seu território os grandes assentamentos no leste de Jerusalém e na Cisjordânia. Essa questão divide o Knesset. Uma moratória unilateral congelou a construção de novos assentamentos por dez meses. A moratória expirou em 26 de setembro e não foi renovada, o que levou a Autoridade Palestina a paralisar o processo de paz que havia sido reiniciado poucas semanas antes.
Palestinos
Os palestinos gostariam que todos os assentamentos fossem esvaziados, como em Gaza. Eles defendem a permanência de um número mínimo de colonos e o recebimento de outras terras em troca das que ficarem sob domínio israelense.
EUA
Assim como ocorre com a anexação do leste de Jerusalém, os EUA não consideram legítimos os assentamentos israelenses na Cisjordânia. Mas aceita a realidade de sua existência e defende um acordo para por fim ao problema.
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REFUGIADOS
Israel
Israel rejeita a ideia de que os refugiados palestinos que deixaram as terras fugindo dos conflitos tenham permissão de voltar para casa. Eles argumentam que isso seria um dispositivo para a destruição do Estado de Israel e, demograficamente, seria como restabelecer um Estado palestino único.
Palestinos
Formalmente, os palestinos mantêm o “direito de retorno”, argumentando que negar esse direito seria uma injustiça. Porém, tem havido debates entre os palestinos de que pode ser negociada compensação para que eles abram mão de tal direito. Eles se recusam a aceitar o conceito de Israel como um estado judaico, argumentando que isso é desnecessário e ignora os direitos dos cidadãos árabe-israelenses.
EUA
Os EUA entendem a recusa de Israel em aceitar de volta os refugiados e espera que isso possa se resolver pela compensação, como defende parte dos palestinos, e pela ajuda às famílias que não puderem retornar.
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SEGURANÇA
Israel
O governo israelense teme que o Estado palestino caia nas mãos de radicais como o Hamas e seja usado como trampolim para transformar Israel em Palestina. Por isso, insiste em manter sob seu domínio o controle da segurança, incluindo na fronteira com o Vale do Jordão, e defende um Estado palestino desmilitarizado.
Palestinos
Argumentam que a segurança de Israel virá de uma solução estável de dois estados. Eles demandam todos os atributos de um estado normal. O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, teme que, sem isso, o Estado palestino seja insustentável e vulnerável ao domínio de opositores ao próprio governo como o Hamas.
EUA
Os EUA aceitam a necessidade de Israel por segurança, mas também a demanda palestina por um Estado pleno. Reconciliar ambos tem sido o objetivo diplomático dos americanos na região. Sobre o reconhecimento da Palestina como membro pleno da ONU, os EUA argumentam que a Palestina só pode ser criada a partir de um acordo com Israel e não por imposição.
FONTE: Paul Reynolds, da BBC

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Queridos leitores, estou muito feliz por estar entre os finalistas do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem, ao lado de Marcia Camargos, com O Irã sob o Chador, lançado em 2010 pela Editora Globo. É uma grande honra! Entre os finalistas da categoria Contos e Crônicas está o amigo Antonio Prata – a quem admiro muitíssimo – com seu maravilhoso Meio Intelectual, Meio de Esquerda, da Editora 34.

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No meu post de ontem falei sobre o Twitter de jornalistas afegãos que abasteceram a imprensa mundial com informações em tempo real sobre os ataques simultâneos contra a Embaixada dos EUA e a sede da Otan em Cabul, entre outros alvos na capital. Mas não somente eles. O  Taleban agora também tem twitter, myspace e site – em minha última viagem a Cabul testemunhei muitos turbantes negros completamente à vontade em seus iPhones e Blackberries. É claro que é impossível atestar se os endereços em inglês atribuídos aos insurgentes na web são de fato escritos por milicianos ou comandantes do grupo – é bem provável que não, pois muitos dos Taleban, talvez a maioria, são tribais semi-analfabetos. Mais provável é que tenham o auxílio de gente gabaritada.

O fato é que, ontem, em meio ao ousado ataque dos insurgentes, os militares americanos acabaram legitimando pelo menos uma dessas páginas, no Twitter, ao protagonizar contra seu autor uma verdadeira batalha online.

Um dos post, às 11h41 de hoje, no Twitter da Força Internacional de Segurança (ISAF, na sigla em inglês), fazia uma provocação ao Taleban: “hey, @alemarahweb, o seu patrão fez isso?”, perguntava o militar em inglês, dando o link para um vídeo da ISAF em que mostrava a destruição causada pelo ataque dos insurgentes.

Al Emarah é o nome que o Taleban usa em um site do grupo, no Twitter, no myspace. É o Taleban na era digital. Os comunicados oficiais do grupo, que repercutem na imprensa mundial, costumam ser publicados nessas páginas.

Em outro post, ontem, o militar da ISAF questiona: “por quanto tempo mais os terroristas vão colocar os afegãos em perigo dessa forma?”. E no post seguinte, informa: “A atividade dos insurgentes mataram 11 afegãos, entre eles 3 crianças. Suas ações continuam a prejudicar afegãos civis inocentes”

Quem responde aos posts no Twitter da ISAF é Abdulqahar Balkhi, que se apresenta como uma espécie de porta-voz do Emirado Islâmico do Afeganistão, como é chamado o país sob regime Taleban. No post, em seu twitter, ele diz: “hey, @ISAFmedia, você tem colocado (os afegãos) em perigo nos últimos 10 anos. Destruído vilarejos inteiros e mercado e ainda tem a coragem de falar em prejuízo”.

NYT e o Guardian acompanharam o que mais parecia um bate-boca entre vizinhos – mas foi protagonizado por militares dos EUA e terroristas do Taleban, dois lados de uma guerra que dura há uma década, desde o 11 de Setembro. É meio assustador, não é, não?

 

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Citando várias fontes diferentes, jornalistas afegãos informavam em suas páginas na Internet, blogs e no Twitter sobre evidências de que a autoria dos ataques contra a Embaixada dos EUA e o quartel general da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), hoje, em Cabul, era de responsabilidade da rede Haqqani, grupo baseado no Paquistão e supostamente aliado do Taleban. Os terroristas teriam feito contato por telefone com o comando do grupo no Paquistão antes de iniciar os ataques. “Temos evidências suficientes em mãos para afirmar que a rede Haqqani está por trás dos ataques de hoje (em Cabul). E eles estão por trás do ataque com um caminhão bomba contra uma base americana em Wardak”, disse um agente de segurança afegão ao repórter Bilal Sarwary, da BBC.

O fato é que a insurgência no Afeganistão já não é coesa. E isso é um perigo. Há hoje muitos grupos envolvidos na insurgência afegã, como a rede Haqqani, o recente Taleban paquistanês (independente do grupo afegão) e o Hezb Islami, de Gulbudin Hekmatiar, um ex-comandante mujaheddin que lutou contra os soviéticos com armas e treinamento da CIA, recebidos via serviço secreto do Paquistão, o ISI, e protagonizou a mais sangrenta batalha, em Cabul, no subsequente conflito civil contra as forças do tajique Ahmad Shah Massoud.

Enquanto as forças de coalizão se ocupavam dos Taleban – para não dizer de Saddam Hussein no Iraque, para onde o dinheiro e os esforços militares dos EUA se voltaram em 2003 – esses grupos se fortaleceram no Paquistão na última década sem que nada – ou quase nada – fosse feito. Muitos deles surgiram ainda na época da luta contra os soviéticos sob a tutela do ISI, mas hoje estão se tornando muito mais independentes e realizando uma série de ataques contra o próprio Paquistão – hoje mesmo, o Taleban paquistanês atacou um ônibus escolar, matando quatro crianças e o motorista, em represália contra líderes tribais que se uniram para combater a presença dos militantes, em ascensão, nos arredores de Peshawar – estive lá em maio e o clima já era bem tenso.

Mas os EUA continuam negligenciando o país vizinho, que vive uma profunda crise interna depois da morte de Bin Laden em uma operação secreta americana na cidade paquistanesa de Abbottabad. O governo civil, tido pelos paquistaneses como ineficiente e corrupto, preferiu deixar tudo nas costas dos militares, que se achavam no controle, mas foram desmoralizados e humilhados pela operação americana que não conseguiram sequer prever. Ao mesmo tempo, têm tido dificuldades em lidar com os próprios militantes que criaram. A população já miserável, enquanto isso, empobrece mais e mais – a instabilidade política e a violência afugentam investidores estrangeiros para bem longe. Isso ajuda a fazer do Paquistão solo fértil para o terrorismo. E não se pode esquecer que se trata de uma potência nuclear.

O país recebeu na última década mais de U$ 20 bilhões dos cofres americanos para “ajudar” os EUA a combater o terrorismo. Cortar a assistência agora, com tantas redes terroristas se fortalecendo dentro do país, não é uma decisão fácil – significaria menos recursos para o combater esses insurgentes que têm um forte apelo antiamericano, e com quem os EUA terão fatalmente de lidar mais tarde.

Os EUA podem até usar a desculpa da morte de Bin Laden para deixar o Afeganistão. Mas a pergunta é: o que farão com o Paquistão?

 

 

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Leia aqui a primeira crítica do meu novo livro, O Afeganistão depois do Talibã, escrita pela repórter Márcia Abos, no Prosa & Verso, do jornal O Globo.


Na foto, que cliquei em 2008, cavaleiros de três times disputam a carcaça de uma cabra sem cabeça, em uma partida de Buzkashi, o esporte nacional oficial do Afeganistão.

 

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Foi ao ar no 11/9. Vejam lá:

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Os dez anos desde o 11 de setembro até a morte do saudita Osama Bin Laden, em uma operação secreta americana no Paquistão no dia 1o de maio, deixaram 11.700 mortos no Afeganistão – ou quatro vezes mais do que nas Torres Gêmeas – e mais de 100 mil mortos no Iraque – ou 35 vezes o número de vítimas do WTC. Os afegãos, no entanto, não sabem o que foi o 11/9. Mais de 85% do país não tem luz – nem acesso a TV nem Internet nem nada. Mais de 80% não sabe ler.

Viajei duas vezes ao Afeganistão, em 2008 e 2011, nesta última fiquei por quase dois meses. Quando eu perguntava aos afegãos que me diziam não saber nada sobre os atentados contra os Estados Unidos, por que eles achavam que as tropas americanas estavam no país, eles respondiam: “Eles vieram nos salvar dos Taleban”.

Quando as forças de coalizão invadiram o Afeganistão, três semanas depois do 11 de Setembro, os afegãos achavam que os EUA transformariam o país em uma Manhattan da Ásia Central. Cinco milhões de refugiados da invasão soviética e do subsequente regime taleban voltaram para casa, no Afeganistão, no rastro da ofensiva estrangeira pós 11 de Setembro. Desses, 3 milhões já voltaram para os campos de refugiados do Paquistão e outros destinos, agora fugidos dos intensos bombardeios americanos na fronteira e da violência do Taleban, que voltou a dominar quase 80% do país. O presidente Hamid Karzai passou a ser chamado pelos afegãos de “o prefeito de Cabul”.

Veja a galeria de fotos das viagens ao Afeganistão, publicada hoje no portal do Estadão.

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Chega até o fim de setembro nas livrarias o meu novo livro O Afeganistão Depois do Taleban, que traz onze histórias do 11 de setembro como vivenciado por eles. São vozes quase sempre negligenciadas, mas fundamentais no processo de compreensão dos atentados que mudaram o mundo para sempre.

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