Queridos leitores, estou muito feliz por estar entre os finalistas do Prêmio Jabuti na categoria Reportagem, ao lado de Marcia Camargos, com O Irã sob o Chador, lançado em 2010 pela Editora Globo. É uma grande honra! Entre os finalistas da categoria Contos e Crônicas está o amigo Antonio Prata – a quem admiro muitíssimo – com seu maravilhoso Meio Intelectual, Meio de Esquerda, da Editora 34.
No meu post de ontem falei sobre o Twitter de jornalistas afegãos que abasteceram a imprensa mundial com informações em tempo real sobre os ataques simultâneos contra a Embaixada dos EUA e a sede da Otan em Cabul, entre outros alvos na capital. Mas não somente eles. O Taleban agora também tem twitter, myspace e site – em minha última viagem a Cabul testemunhei muitos turbantes negros completamente à vontade em seus iPhones e Blackberries. É claro que é impossível atestar se os endereços em inglês atribuídos aos insurgentes na web são de fato escritos por milicianos ou comandantes do grupo – é bem provável que não, pois muitos dos Taleban, talvez a maioria, são tribais semi-analfabetos. Mais provável é que tenham o auxílio de gente gabaritada.
O fato é que, ontem, em meio ao ousado ataque dos insurgentes, os militares americanos acabaram legitimando pelo menos uma dessas páginas, no Twitter, ao protagonizar contra seu autor uma verdadeira batalha online.
Um dos post, às 11h41 de hoje, no Twitter da Força Internacional de Segurança (ISAF, na sigla em inglês), fazia uma provocação ao Taleban: “hey, @alemarahweb, o seu patrão fez isso?”, perguntava o militar em inglês, dando o link para um vídeo da ISAF em que mostrava a destruição causada pelo ataque dos insurgentes.
Al Emarah é o nome que o Taleban usa em um site do grupo, no Twitter, no myspace. É o Taleban na era digital. Os comunicados oficiais do grupo, que repercutem na imprensa mundial, costumam ser publicados nessas páginas.
Em outro post, ontem, o militar da ISAF questiona: “por quanto tempo mais os terroristas vão colocar os afegãos em perigo dessa forma?”. E no post seguinte, informa: “A atividade dos insurgentes mataram 11 afegãos, entre eles 3 crianças. Suas ações continuam a prejudicar afegãos civis inocentes”
Quem responde aos posts no Twitter da ISAF é Abdulqahar Balkhi, que se apresenta como uma espécie de porta-voz do Emirado Islâmico do Afeganistão, como é chamado o país sob regime Taleban. No post, em seu twitter, ele diz: “hey, @ISAFmedia, você tem colocado (os afegãos) em perigo nos últimos 10 anos. Destruído vilarejos inteiros e mercado e ainda tem a coragem de falar em prejuízo”.
O NYT e o Guardian acompanharam o que mais parecia um bate-boca entre vizinhos – mas foi protagonizado por militares dos EUA e terroristas do Taleban, dois lados de uma guerra que dura há uma década, desde o 11 de Setembro. É meio assustador, não é, não?
Citando várias fontes diferentes, jornalistas afegãos informavam em suas páginas na Internet, blogs e no Twitter sobre evidências de que a autoria dos ataques contra a Embaixada dos EUA e o quartel general da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), hoje, em Cabul, era de responsabilidade da rede Haqqani, grupo baseado no Paquistão e supostamente aliado do Taleban. Os terroristas teriam feito contato por telefone com o comando do grupo no Paquistão antes de iniciar os ataques. “Temos evidências suficientes em mãos para afirmar que a rede Haqqani está por trás dos ataques de hoje (em Cabul). E eles estão por trás do ataque com um caminhão bomba contra uma base americana em Wardak”, disse um agente de segurança afegão ao repórter Bilal Sarwary, da BBC.
O fato é que a insurgência no Afeganistão já não é coesa. E isso é um perigo. Há hoje muitos grupos envolvidos na insurgência afegã, como a rede Haqqani, o recente Taleban paquistanês (independente do grupo afegão) e o Hezb Islami, de Gulbudin Hekmatiar, um ex-comandante mujaheddin que lutou contra os soviéticos com armas e treinamento da CIA, recebidos via serviço secreto do Paquistão, o ISI, e protagonizou a mais sangrenta batalha, em Cabul, no subsequente conflito civil contra as forças do tajique Ahmad Shah Massoud.
Enquanto as forças de coalizão se ocupavam dos Taleban – para não dizer de Saddam Hussein no Iraque, para onde o dinheiro e os esforços militares dos EUA se voltaram em 2003 – esses grupos se fortaleceram no Paquistão na última década sem que nada – ou quase nada – fosse feito. Muitos deles surgiram ainda na época da luta contra os soviéticos sob a tutela do ISI, mas hoje estão se tornando muito mais independentes e realizando uma série de ataques contra o próprio Paquistão – hoje mesmo, o Taleban paquistanês atacou um ônibus escolar, matando quatro crianças e o motorista, em represália contra líderes tribais que se uniram para combater a presença dos militantes, em ascensão, nos arredores de Peshawar – estive lá em maio e o clima já era bem tenso.
Mas os EUA continuam negligenciando o país vizinho, que vive uma profunda crise interna depois da morte de Bin Laden em uma operação secreta americana na cidade paquistanesa de Abbottabad. O governo civil, tido pelos paquistaneses como ineficiente e corrupto, preferiu deixar tudo nas costas dos militares, que se achavam no controle, mas foram desmoralizados e humilhados pela operação americana que não conseguiram sequer prever. Ao mesmo tempo, têm tido dificuldades em lidar com os próprios militantes que criaram. A população já miserável, enquanto isso, empobrece mais e mais – a instabilidade política e a violência afugentam investidores estrangeiros para bem longe. Isso ajuda a fazer do Paquistão solo fértil para o terrorismo. E não se pode esquecer que se trata de uma potência nuclear.
O país recebeu na última década mais de U$ 20 bilhões dos cofres americanos para “ajudar” os EUA a combater o terrorismo. Cortar a assistência agora, com tantas redes terroristas se fortalecendo dentro do país, não é uma decisão fácil – significaria menos recursos para o combater esses insurgentes que têm um forte apelo antiamericano, e com quem os EUA terão fatalmente de lidar mais tarde.
Os EUA podem até usar a desculpa da morte de Bin Laden para deixar o Afeganistão. Mas a pergunta é: o que farão com o Paquistão?
Leia aqui a primeira crítica do meu novo livro, O Afeganistão depois do Talibã, escrita pela repórter Márcia Abos, no Prosa & Verso, do jornal O Globo.
Na foto, que cliquei em 2008, cavaleiros de três times disputam a carcaça de uma cabra sem cabeça, em uma partida de Buzkashi, o esporte nacional oficial do Afeganistão.
Os dez anos desde o 11 de setembro até a morte do saudita Osama Bin Laden, em uma operação secreta americana no Paquistão no dia 1o de maio, deixaram 11.700 mortos no Afeganistão – ou quatro vezes mais do que nas Torres Gêmeas – e mais de 100 mil mortos no Iraque – ou 35 vezes o número de vítimas do WTC. Os afegãos, no entanto, não sabem o que foi o 11/9. Mais de 85% do país não tem luz – nem acesso a TV nem Internet nem nada. Mais de 80% não sabe ler.
Viajei duas vezes ao Afeganistão, em 2008 e 2011, nesta última fiquei por quase dois meses. Quando eu perguntava aos afegãos que me diziam não saber nada sobre os atentados contra os Estados Unidos, por que eles achavam que as tropas americanas estavam no país, eles respondiam: “Eles vieram nos salvar dos Taleban”.
Quando as forças de coalizão invadiram o Afeganistão, três semanas depois do 11 de Setembro, os afegãos achavam que os EUA transformariam o país em uma Manhattan da Ásia Central. Cinco milhões de refugiados da invasão soviética e do subsequente regime taleban voltaram para casa, no Afeganistão, no rastro da ofensiva estrangeira pós 11 de Setembro. Desses, 3 milhões já voltaram para os campos de refugiados do Paquistão e outros destinos, agora fugidos dos intensos bombardeios americanos na fronteira e da violência do Taleban, que voltou a dominar quase 80% do país. O presidente Hamid Karzai passou a ser chamado pelos afegãos de “o prefeito de Cabul”.
Veja a galeria de fotos das viagens ao Afeganistão, publicada hoje no portal do Estadão.
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Chega até o fim de setembro nas livrarias o meu novo livro O Afeganistão Depois do Taleban, que traz onze histórias do 11 de setembro como vivenciado por eles. São vozes quase sempre negligenciadas, mas fundamentais no processo de compreensão dos atentados que mudaram o mundo para sempre.
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