Leia a íntegra da entrevista com Ashraf Haidari, encarregado de negócios para o Brasil e consultor político da Embaixada do Afeganistão em Washington.

Foto: Ashraf Haidari/ Embaixada do Afeganistão em Washington
Adriana Carranca*
Na quinta-feira, a Otan e os Estados Unidos admitiram, pela primeira vez, terem iniciado conversas de paz com o Taleban. O anúnicio foi feito após o comando do grupo radical islâmico clamar publicamente o controle de 75% do território afegão e de todas estradas do país. Para o encarregado de negócios da Embaixada do Afeganistão em Washington, Ashraf Haidari, nem um lado nem o outro da guerra, mas “o Brasil tem a chave para estabilizar o Afeganistão”. E ela está na agricultura e na mineração.
A pedido do governo afegão, o Brasil entrará no mercado trilionário de exploração das reservas minerais, ainda intocadas, descobertas no país em junho. A reserva de lítio, metal usado em bateriais, laptops e celular, podem chegar a U$ 3 trilhões, a maior do mundo. O Afeganistão também quer a presença do Brasil no agronegócio.
Quase 80% da população afegã vive em áreas rurais. E é nesses vilarejos que o Taleban recruta seus soldados. “Se não garantirmos aos camponeses um ganho de vida legítimo, a desilusão e o descrédito no governo ganharão mais peso e, por falta de opção, também o suporte deles ao Taleban”, diz Haidari.
A seguir, trechos da entrevista, por telefone:
Por que o Brasil?
O Brasil está numa posição única para ajudar o Afeganistão. Ao contrário de outras nações em território afegão, é também um país em desenvolvimento, tem impressionado a comunidade internacional com um explosivo crescimento e é hoje uma nação reconhecida por sua liderança global.
O acordo bilateral inclui o comércio entre os países?
Essa é a proposta! Não queremos apenas que o Brasil ajude o Afeganistão. Buscamos também investimentos do setor privado, ou parcerias público-privadas com o governo afegão e com o empresariado. Muitos empresários afegãos importam produtos brasileiros através dos países do Golfo e nós esperamos que eles possam expandir os negócios. Recebemos a delegação brasileira (coordenada pelo diretor da Agência Brasileira de Cooperação, do Itamaraty, ministro Marco Farani) em Cabul para mostrar ao Brasil as oportunidades existentes no Afeganistão.
Em que áreas o sr. enxerga oportunidades?
O Brasil não apenas tem experiência, mas expertise, em agronegócios e mineração. Do lado afegão, nós queremos parcerias com o Brasil para acessar a nossa riqueza natural, então há oportunidades na extração e exportação das reservas minerais. Na agricultura, a chave está na qualidade da pesquisa do Brasil. Inovações da Embrapa tornaram cultiváveis terras secas, antes improdutivas, com sementes melhoradas, métodos de irrigação, auxílio financeiro e técnico aos camponeses. Avanços permitiram reduzir custos, aumentar a produção por hectare, proteger recursos naturais e, com isso, melhorar a auto-suficiência do Brasil. O Cerrado brasileiro se tornou tão produtivo quanto o meio oeste americano. Nós temos problemas similares, com chuvas imprevisíveis (o Afeganistão vive a maior seca dos últimos 30 anos), e apenas 15% do solo arável.
O sr. falou em agronegócios…
No Afeganistão, 50% do PIB e 80% das exportações vinham da agricultura, mas desde 1978 (quando se deu a invasão soviética), a produção caiu, em média, 3,5% ao ano. Com a saída do Taleban, em 2001, algum progresso foi conquistado. Mas nós hoje produzimos apenas a metade, por acre, do que países vizinhos. Falta infraestrutura, os 24 centros de pesquisa do Ministério da Agricultura permanecem fechados e 40% do sistema de irrigação está fora de operação. É difícil para os agricultores afegãos ter acesso a crédito e ao mercado. Por isso, não temos agronegócios. O Brasil, ao contrário disso, desenvolveu um impressionante setor de agronegócios e é um dos maiores produtores do mundo hoje.
Seria suficiente para substituir o cultivo de papoula?
A maioria cultiva o necessário para sobreviver. E aqueles que conseguiram chegar ao mercado externo foi através da papoula, matéria-prima para ópio e heroína. Precisamos mudar essa lógica. E a maneira de conseguir isso é com a ajuda da tecnologia que o Brasil detém para aumentar as terras produtivas, a capacidade de cultivo por acre e a qualidade dos produtos afegãos – romã, maçã, uva e amêndoa. Esses itens já começam a encontrar espaço para exportação nos estados do Golfo, na Índia e até Europa, mas precisamos aumentar drasticamente a produção. E adicionar valor aos produtos agrícolas afegãos. O Brasil pode ajudar nisso, já que é o 5º maior produtor de alimentos processados do mundo. A Embrapa também tem experiência no trabalho coordenado com o Departamento de Agricultura dos EUA e organizações como a FAO na África, e essas mesmas agências estão no Afeganistão.
Como começaram as conversas entre Brasil e Afeganistão?
Muitos não sabem disso, mas durante o reinado de Mohammad Nader Shah, do Afeganistão, quando o Brasil tinha Getúlio Vargas como presidente, representantes de ambos países assinaram um tratado de amizade, em 1933, na Turquia. Após o colapso do regime soviético não tivemos relações até 2006. Foi quando o Brasil participou, pela primeira vez, da Conferência Internacional sobre Afeganistão, em Londres, e o chanceler Celso Amorim mostrou interesse em cooperar com a comunidade internacional no Afeganistão. Isso levou ao acordo de cooperação técnica (em vigor a partir de 2009) entre os dois países. A primeira delegação brasileira acaba de voltar de Cabul e os ministros afegãos de Minas e da Agricultura programam visita oficial ao Brasil em 2011.
O Brasil pode ajudar no processo de paz?
Nossa relação com o Brasil não será à custa da relação com a Otan. Mas o Brasil pode ter a chave para estabilizar o Afeganistão, por sua posição no cenário mundial, por sua experiência no desenvolvimento e na redução da pobreza, por sua política externa e o papel na ajuda a outros países sub-desenvolvidos, especialmente na África. O Brasil não é somente um líder regional, mas global. E nós apoiamos que o país ocupe uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.
A aproximação do Brasil com países islâmicos, como o Irã, tem alguma influência?
De forma alguma. Nossa opção pelo Brasil é totalmente independente. Mas acreditamos que o Brasil tem um esforço positivo e construtivo nas relações internacionais, por seu comprometimento na cooperação Sul-Sul e com os países menos desenvolvidos. O presidente Hamid Karzai, em um de seus discursos, certa vez mencionou inspirar-se no exemplo do presidente Lula e em como um homem que veio da pobreza se tornou uma personalidade reconhecida mundialmente.
* Entrevista publicada, em parte, na edição impressa do Estado em 20/10/2010
O governo brasileiro entrará no mercado trilionário de exploração de recursos minerais no Afeganistão. Uma delegação do Itamaraty retornou de Cabul na semana passada com um pedido oficial do governo afegão de ajudá-los a desenvolver o marco regulatório e o ambiente de negócios para abrir à iniciativa privada reservas intocadas, no valor de US$ 1 trilhão, descobertas pelos EUA no país, em junho.
Em busca de maior independência da Casa Branca, o presidente Hamid Karzai não pretende entregar o tesouro nas mãos dos tradicionais parceiros e seus aliados da Europa, e aposta em alternativas como o Brasil para ajudá-lo a desenvolver a mineração no país e intermediar a corrida ao tesouro afegão.
As reservas de ferro, cobre, cobalto, ouro e, principalmente, lítio – metal raro, usado pela indústria química e farmacêutica e na produção de baterias, laptops e celular – são tão extensas que podem transformar o Afeganistão num polo minerador. Nova reserva de lítio, ainda não confirmada pelo governo afegão, chegaria a US$ 3 trilhões, a maior do mundo, segundo informação do Ministério de Minas afegão ao Itamaraty.
A delegação brasileira, comandada pelo diretor da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), ministro Marco Farani, foi recebida em Cabul pelo ministro das Minas, Wahidullah Shahrani. Entre outros acordos, os oficiais discutiram a possibilidade de desenvolver tecnologia brasileira-afegã para produção de bateria de lítio, hoje detida apenas pela China, EUA e Coreia do Sul.
“Karzai busca aumentar seu próprio espaço e poder político e tem tentado aproximar-se de outras economias para reduzir a influência de Washington e da Grã-Bretanha no governo afegão”, diz Jorrit Kamminga, diretor do Icos, think-tank internacional com presença no Afeganistão. EUA e Grã-Bretanha são os maiores financiadores do governo de Karzai, mas as relações têm se deteriorado na medida da intensificação dos conflitos no país.
Kamminga avalia como positiva a aproximação do Brasil com o governo afegão, que inclui uma Embaixada do Brasil em Cabul – o decreto foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em setembro. “A presença estrangeira no Afeganistão é motivada pelos conflitos e por interesses geopolíticos, no caso dos vizinhos Irã e Paquistão”, diz. “Sendo uma nação sem questões étnicas ou passado de interferência no país, o que o Brasil mostra aos afegãos é um interesse genuíno de cooperar”.
O Brasil pode ajudar Hamid Karzai a conquistar maior apoio político interno, dada a boa reputação da diplomacia brasileira no mundo islâmico. “O governo afegão busca aí, talvez, um modelo de parceria triangular, com Afeganistão numa ponta, as nações desenvolvidas com presença militar em outra e um terceiro neutro e pacifista. O Brasil tem credenciais para isso, porque é visto como um bom interlocutor junto aos países muçulmanos”, avalia o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Mattar Nasser.
O ministro Marco Farani diz que a intenção do Brasil é ajudar no processo de estabilização do país e promete uma parceria de longo prazo com o governo afegão. A cooperação se dará, principalmente, em duas áreas: agricultura e mineração. “O governo afegão não sabe como abrir as reservas à exploração e o Brasil tem expertise no setor e legislação das mais avançadas. E é reconhecido na agricultura e pesquisa agropecuária”, diz Farani.
Em dezembro, o Departamento Nacional de Produção Mineral, do Ministério das Minas e Energia, receberá delegação afegã para um workshop e visitas a mineradoras brasileiras. A comitiva terá ainda produtores que visitarão projetos no semiárido nordestino. O Brasil deve ajudar no zoneamento de terras e transferência de tecnologia para substituir o cultivo dominante de papoula, matéria-prima da heroína, no seco solo afegão. Shahrani, Ministro das Minas, e Mohammad Asif Rahimi, da Agricultura, programam visita oficial ao Brasil no 1.º semestre de 2011.
* Matéria publicada no Estadão em 17/10/2010
Que país é esse?
Ok, talvez o fato de que as mulheres estejam com os cabelos cobertos – hijab – na última imagem tenha denunciado tratar-se de um país muçulmano. Mas não pude acreditar, quando li o artigo Era Uma Vez no Afeganistão, na revista Foreign Policy, de que se tratava realmente do Afeganistão. As fotos acima foram reunidas pelo afegão Mohammad Qayoumi, da California State University. Ele cresceu em Cabul até ir estudar nos Estados Unidos, em 1978, um ano antes da invasão soviética.
As imagens não retratam, certamente, o mesmo Afeganistão de hoje, tampouco aquele que eu conheci, em 2008. O Afeganistão já foi uma nação moderna. Isso, antes da invasão russa e da insurgência patrocinada pela C.I.A., que armou os mujahedin, criou Osama Bin Laden e resultou em uma guerra civil tão sangrenta que levou os afegãos a acreditarem que até o Talebã seria melhor do que aquilo. E foi essa a série de eventos que transformou o Afeganistão acima neste:
O triste é que, com uma população extremamente jovem, graças à expectativa de vida dos afegãos ser de apenas 42 anos e à alta taxa de natalidade, a memória de um Afeganistão moderno, desenvolvido e com tamanho potencial vem se perdendo, ano a ano, nessas últimas três décadas de guerra. É como se todo o país tivesse voltado, num túnel do tempo, para uma era medieval. A guerra destruiu até a rede elétrica, fez com que as famílias se escondessem em vilarejos remotos, sem contato com a civilização. Muitos dos jovens de até 30 anos nunca viu televisão, não conhecem outro mundo. Eles nasceram e cresceram num país em guerra e não sabem o que é viver em paz!
Quem leu O Caçador de Pipas, do afegão Khaled Hosseini, compreenderá. Depois de tanto furar com meus queridos e fieis leitores e de tanto prometer voltar ao blog para, em seguida, sumir novamente, gostaria que vocês, mais uma vez (a thousand times over!) me perdoassem. O primeiro turno das eleições tirou as poucas energias que me restavam na sequência do lançamento do livro O Irã Sob o Chador (Ed. Globo).
Pela milésima vez, volto a esse espaço. Mas agora com a vontade renovada de recorrer a este fórum, se não apenas porque os assuntos de que tento tratar aqui são realmente aqueles que me sensibilizam e motivam a continuar trabalhando, também porque, como colocou hoje no Twitter o jornalista e amigo querido José Roberto de Toledo, “este segundo turno vai trazer à tona tudo o que o Brasil tem de pior”. E eu gostaria muito, muitíssimo, que a discussão nesse espaço se concentrasse naquilo que o Brasil, em particular, e o mundo têm e ainda podem ter de melhor!
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“For you, a thousand times over!” é a frase que Hassan diz ao irmão Amir, quando ele lhe pede perdão. Algo como: “Por você, mil vezes de novo!”, ou seja, sempre!
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Alguns consideraram O Caçador de Pipas um livro piegas. Eu concordo. Mas ainda assim gosto. Acho que gosto do livro e gosto de piegas – ou, na definição do dicionário, “ridiculamente sensível”. Prefiro substituir a palavra por lirismo, talvez. Prefiro ver o lado bom das coisas. Acho que a gente segue regras demais nesse mundo, leva-se a sério demais; mas ri e se emociona de menos. Bobagem, gente, deixa disso! Se joga! Hoje, eu acordei piegas, sim, ridiculamente sensível. E daí?
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