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Adriana Carranca

Leia a íntegra da entrevista com Ashraf Haidari, encarregado de negócios para o Brasil e consultor político da Embaixada do Afeganistão em Washington.


Foto: Ashraf Haidari/ Embaixada do Afeganistão em Washington

Adriana Carranca*
Na quinta-feira, a Otan e os Estados Unidos admitiram, pela primeira vez, terem iniciado conversas de paz com o Taleban. O anúnicio foi feito após o comando do grupo radical islâmico clamar publicamente o controle de 75% do território afegão e de todas estradas do país. Para o encarregado de negócios da Embaixada do Afeganistão em Washington, Ashraf Haidari, nem um lado nem o outro da guerra, mas “o Brasil tem a chave para estabilizar o Afeganistão”. E ela está na agricultura e na mineração.

A pedido do governo afegão, o Brasil entrará no mercado trilionário de exploração das reservas minerais, ainda intocadas, descobertas no país em junho. A reserva de lítio, metal usado em bateriais, laptops e celular, podem chegar a U$ 3 trilhões, a maior do mundo. O Afeganistão também quer a presença do Brasil no agronegócio.

Quase 80% da população afegã vive em áreas rurais. E é nesses vilarejos que o Taleban recruta seus soldados. “Se não garantirmos aos camponeses um ganho de vida legítimo, a desilusão e o descrédito no governo ganharão mais peso e, por falta de opção, também o suporte deles ao Taleban”, diz Haidari.
A seguir, trechos da entrevista, por telefone:

Por que o Brasil?
O Brasil está numa posição única para ajudar o Afeganistão. Ao contrário de outras nações em território afegão, é também um país em desenvolvimento, tem impressionado a comunidade internacional com um explosivo crescimento e é hoje uma nação reconhecida por sua liderança global.

O acordo bilateral inclui o comércio entre os países?
Essa é a proposta! Não queremos apenas que o Brasil ajude o Afeganistão. Buscamos também investimentos do setor privado, ou parcerias público-privadas com o governo afegão e com o empresariado. Muitos empresários afegãos importam produtos brasileiros através dos países do Golfo e nós esperamos que eles possam expandir os negócios. Recebemos a delegação brasileira (coordenada pelo diretor da Agência Brasileira de Cooperação, do Itamaraty, ministro Marco Farani) em Cabul para mostrar ao Brasil as oportunidades existentes no Afeganistão.

Em que áreas o sr. enxerga oportunidades?
O Brasil não apenas tem experiência, mas expertise, em agronegócios e mineração. Do lado afegão, nós queremos parcerias com o Brasil para acessar a nossa riqueza natural, então há oportunidades na extração e exportação das reservas minerais. Na agricultura, a chave está na qualidade da pesquisa do Brasil. Inovações da Embrapa tornaram cultiváveis terras secas, antes improdutivas, com sementes melhoradas, métodos de irrigação, auxílio financeiro e técnico aos camponeses. Avanços permitiram reduzir custos, aumentar a produção por hectare, proteger recursos naturais e, com isso, melhorar a auto-suficiência do Brasil. O Cerrado brasileiro se tornou tão produtivo quanto o meio oeste americano. Nós temos problemas similares, com chuvas imprevisíveis (o Afeganistão vive a maior seca dos últimos 30 anos), e apenas 15% do solo arável.

O sr. falou em agronegócios…
No Afeganistão, 50% do PIB e 80% das exportações vinham da agricultura, mas desde 1978 (quando se deu a invasão soviética), a produção caiu, em média, 3,5% ao ano. Com a saída do Taleban, em 2001, algum progresso foi conquistado. Mas nós hoje produzimos apenas a metade, por acre, do que países vizinhos. Falta infraestrutura, os 24 centros de pesquisa do Ministério da Agricultura permanecem fechados e 40% do sistema de irrigação está fora de operação. É difícil para os agricultores afegãos ter acesso a crédito e ao mercado. Por isso, não temos agronegócios. O Brasil, ao contrário disso, desenvolveu um impressionante setor de agronegócios e é um dos maiores produtores do mundo hoje.

Seria suficiente para substituir o cultivo de papoula?
A maioria cultiva o necessário para sobreviver. E aqueles que conseguiram chegar ao mercado externo foi através da papoula, matéria-prima para ópio e heroína. Precisamos mudar essa lógica. E a maneira de conseguir isso é com a ajuda da tecnologia que o Brasil detém para aumentar as terras produtivas, a capacidade de cultivo por acre e a qualidade dos produtos afegãos – romã, maçã, uva e amêndoa. Esses itens já começam a encontrar espaço para exportação nos estados do Golfo, na Índia e até Europa, mas precisamos aumentar drasticamente a produção. E adicionar valor aos produtos agrícolas afegãos. O Brasil pode ajudar nisso, já que é o 5º maior produtor de alimentos processados do mundo. A Embrapa também tem experiência no trabalho coordenado com o Departamento de Agricultura dos EUA e organizações como a FAO na África, e essas mesmas agências estão no Afeganistão.

Como começaram as conversas entre Brasil e Afeganistão?
Muitos não sabem disso, mas durante o reinado de Mohammad Nader Shah, do Afeganistão, quando o Brasil tinha Getúlio Vargas como presidente, representantes de ambos países assinaram um tratado de amizade, em 1933, na Turquia. Após o colapso do regime soviético não tivemos relações até 2006. Foi quando o Brasil participou, pela primeira vez, da Conferência Internacional sobre Afeganistão, em Londres, e o chanceler Celso Amorim mostrou interesse em cooperar com a comunidade internacional no Afeganistão. Isso levou ao acordo de cooperação técnica (em vigor a partir de 2009) entre os dois países. A primeira delegação brasileira acaba de voltar de Cabul e os ministros afegãos de Minas e da Agricultura programam visita oficial ao Brasil em 2011.

O Brasil pode ajudar no processo de paz?
Nossa relação com o Brasil não será à custa da relação com a Otan. Mas o Brasil pode ter a chave para estabilizar o Afeganistão, por sua posição no cenário mundial, por sua experiência no desenvolvimento e na redução da pobreza, por sua política externa e o papel na ajuda a outros países sub-desenvolvidos, especialmente na África. O Brasil não é somente um líder regional, mas global. E nós apoiamos que o país ocupe uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

A aproximação do Brasil com países islâmicos, como o Irã, tem alguma influência?
De forma alguma. Nossa opção pelo Brasil é totalmente independente. Mas acreditamos que o Brasil tem um esforço positivo e construtivo nas relações internacionais, por seu comprometimento na cooperação Sul-Sul e com os países menos desenvolvidos. O presidente Hamid Karzai, em um de seus discursos, certa vez mencionou inspirar-se no exemplo do presidente Lula e em como um homem que veio da pobreza se tornou uma personalidade reconhecida mundialmente.

* Entrevista publicada, em parte, na edição impressa do Estado em 20/10/2010

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O governo brasileiro entrará no mercado trilionário de exploração de recursos minerais no Afeganistão. Uma delegação do Itamaraty retornou de Cabul na semana passada com um pedido oficial do governo afegão de ajudá-los a desenvolver o marco regulatório e o ambiente de negócios para abrir à iniciativa privada reservas intocadas, no valor de US$ 1 trilhão, descobertas pelos EUA no país, em junho.

Em busca de maior independência da Casa Branca, o presidente Hamid Karzai não pretende entregar o tesouro nas mãos dos tradicionais parceiros e seus aliados da Europa, e aposta em alternativas como o Brasil para ajudá-lo a desenvolver a mineração no país e intermediar a corrida ao tesouro afegão.

As reservas de ferro, cobre, cobalto, ouro e, principalmente, lítio – metal raro, usado pela indústria química e farmacêutica e na produção de baterias, laptops e celular – são tão extensas que podem transformar o Afeganistão num polo minerador. Nova reserva de lítio, ainda não confirmada pelo governo afegão, chegaria a US$ 3 trilhões, a maior do mundo, segundo informação do Ministério de Minas afegão ao Itamaraty.

A delegação brasileira, comandada pelo diretor da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), ministro Marco Farani, foi recebida em Cabul pelo ministro das Minas, Wahidullah Shahrani. Entre outros acordos, os oficiais discutiram a possibilidade de desenvolver tecnologia brasileira-afegã para produção de bateria de lítio, hoje detida apenas pela China, EUA e Coreia do Sul.

“Karzai busca aumentar seu próprio espaço e poder político e tem tentado aproximar-se de outras economias para reduzir a influência de Washington e da Grã-Bretanha no governo afegão”, diz Jorrit Kamminga, diretor do Icos, think-tank internacional com presença no Afeganistão. EUA e Grã-Bretanha são os maiores financiadores do governo de Karzai, mas as relações têm se deteriorado na medida da intensificação dos conflitos no país.

Kamminga avalia como positiva a aproximação do Brasil com o governo afegão, que inclui uma Embaixada do Brasil em Cabul – o decreto foi assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em setembro. “A presença estrangeira no Afeganistão é motivada pelos conflitos e por interesses geopolíticos, no caso dos vizinhos Irã e Paquistão”, diz. “Sendo uma nação sem questões étnicas ou passado de interferência no país, o que o Brasil mostra aos afegãos é um interesse genuíno de cooperar”.

O Brasil pode ajudar Hamid Karzai a conquistar maior apoio político interno, dada a boa reputação da diplomacia brasileira no mundo islâmico. “O governo afegão busca aí, talvez, um modelo de parceria triangular, com Afeganistão numa ponta, as nações desenvolvidas com presença militar em outra e um terceiro neutro e pacifista. O Brasil tem credenciais para isso, porque é visto como um bom interlocutor junto aos países muçulmanos”, avalia o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Mattar Nasser.

O ministro Marco Farani diz que a intenção do Brasil é ajudar no processo de estabilização do país e promete uma parceria de longo prazo com o governo afegão. A cooperação se dará, principalmente, em duas áreas: agricultura e mineração. “O governo afegão não sabe como abrir as reservas à exploração e o Brasil tem expertise no setor e legislação das mais avançadas. E é reconhecido na agricultura e pesquisa agropecuária”, diz Farani.

Em dezembro, o Departamento Nacional de Produção Mineral, do Ministério das Minas e Energia, receberá delegação afegã para um workshop e visitas a mineradoras brasileiras. A comitiva terá ainda produtores que visitarão projetos no semiárido nordestino. O Brasil deve ajudar no zoneamento de terras e transferência de tecnologia para substituir o cultivo dominante de papoula, matéria-prima da heroína, no seco solo afegão. Shahrani, Ministro das Minas, e Mohammad Asif Rahimi, da Agricultura, programam visita oficial ao Brasil no 1.º semestre de 2011.

* Matéria publicada no Estadão em 17/10/2010

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07.outubro.2010 20:46:37

Era uma vez…

Que país é esse? 

 

Ok, talvez o fato de que as mulheres estejam com os cabelos cobertos – hijab – na última imagem tenha denunciado tratar-se de um país muçulmano. Mas não pude acreditar, quando li o artigo Era Uma Vez no Afeganistão, na revista Foreign Policy, de que se tratava realmente do Afeganistão. As fotos acima foram reunidas pelo afegão Mohammad Qayoumi, da California State University. Ele cresceu em Cabul até ir estudar nos Estados Unidos, em 1978, um ano antes da invasão soviética. 

As imagens não retratam, certamente, o mesmo Afeganistão de hoje, tampouco aquele que eu conheci, em 2008. O Afeganistão já foi uma nação moderna. Isso, antes da invasão russa e da insurgência patrocinada pela C.I.A., que armou os mujahedin, criou Osama Bin Laden e resultou em uma guerra civil tão sangrenta que levou os afegãos a acreditarem que até o Talebã seria melhor do que aquilo. E foi essa a série de eventos que transformou o Afeganistão acima neste:   

    

 O triste é que, com uma população extremamente jovem, graças à expectativa de vida dos afegãos ser de apenas 42 anos e à alta taxa de natalidade, a memória de um Afeganistão moderno, desenvolvido e com tamanho potencial vem se perdendo, ano a ano, nessas últimas três décadas de guerra. É como se todo o país tivesse voltado, num túnel do tempo, para uma era  medieval. A guerra destruiu até a rede elétrica, fez com que as famílias se escondessem em vilarejos remotos, sem contato com a civilização. Muitos dos jovens de até 30 anos nunca viu televisão, não conhecem outro mundo. Eles nasceram e cresceram num país em guerra e não sabem o que é viver em paz!

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Quem leu O Caçador de Pipas, do afegão Khaled Hosseini, compreenderá. Depois de tanto furar com meus queridos e fieis leitores e de tanto prometer voltar ao blog para, em seguida, sumir novamente, gostaria que vocês, mais uma vez (a thousand times over!) me perdoassem. O primeiro turno das eleições tirou as poucas energias que me restavam na sequência do lançamento do livro O Irã Sob o Chador (Ed. Globo).

Pela milésima vez, volto a esse espaço. Mas agora com a vontade renovada de recorrer a este fórum, se não apenas porque os assuntos de que tento tratar aqui são realmente aqueles que me sensibilizam e motivam a continuar trabalhando, também porque, como colocou hoje no Twitter o jornalista e amigo querido José Roberto de Toledo, “este segundo turno vai trazer à tona tudo o que o Brasil tem de pior”. E eu gostaria muito, muitíssimo, que a discussão nesse espaço se concentrasse naquilo que o Brasil, em particular, e o mundo têm e ainda podem ter de melhor!

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“For you, a thousand times over!” é a frase que Hassan diz ao irmão Amir, quando ele lhe pede perdão. Algo como: “Por você, mil vezes de novo!”, ou seja, sempre!

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Alguns consideraram O Caçador de Pipas um livro piegas. Eu concordo. Mas ainda assim gosto. Acho que gosto do livro e gosto de piegas – ou, na definição do dicionário, “ridiculamente sensível”. Prefiro substituir a palavra por lirismo, talvez. Prefiro ver o lado bom das coisas. Acho que a gente segue regras demais nesse mundo, leva-se a sério demais; mas ri e se emociona de menos. Bobagem, gente, deixa disso! Se joga! Hoje, eu acordei piegas, sim, ridiculamente sensível. E daí? :-)

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27.agosto.2010 02:37:15

O Irã Sob o Chador

Na próxima segunda-feira (30/8), a partir das 19 horas, estarei com Marcia Camargos no CineSesc, para a noite de autógrafos do nosso livro O Irã Sob o Chador, duas brasileiras no país dos aiatolás (Editora Globo, 240 págs). Seria muito bom encontrar os leitores do blog por lá.

Estão todos convidados!

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SOBRE O LIVRO
Que país é esse?

Em O Irã Sob o Chador, Adriana Carranca e Marcia Camargos revelam o caldeirão de contradições de uma nação enigmática, onde a cordialidade do povo resiste como valor num cotidiano de escassas liberdades individuais.

Chador é um tipo de manto islâmico, usado no Irã para cobrir o corpo feminino. Só o rosto fica à mostra. O traje é obrigatório em mesquitas e outros lugares sagrados, e conta com a preferência das iranianas do segmento mais conservador da sociedade. Assim como as formas de suas mulheres, o Irã apresenta-se ao olhar ocidental de maneira enigmática, oculto sob o espesso chador do nosso preconceito e desinformação acerca do Oriente Médio em geral e de cada país da região, em específico.

Em viagens realizadas em momentos e circunstâncias diferentes, as jornalistas Adriana Carranca e Marcia Camargos tiveram a oportunidade de conhecer um país que não cabe na simplificação dos estereótipos.

O Irã Sob o Chador (Editora Globo) é o resultado da descoberta comum de uma realidade singular, num dos raros lugares do mundo ainda resistentes aos efeitos da globalização. Um cenário de conflitos permanentes entre arcaico e moderno, religioso e secular, opressivo e libertário.

Um país onde mulheres e homens ainda sentam em partes diferentes do ônibus, mas circulam apertados em táxis compartilhados por ambos os sexos. Exceto nos carros da cooperativa de taxistas femininas, que tem como clientela tanto as iranianas conservadoras (que não aceitam viajar com homens) como as liberais (que, em companhia feminina, se sentem à vontade para usar roupas um pouco mais ousadas). Um lugar onde, apesar das tentativas do governo de proibir acesso a sites como Twitter e Facebook, reúne 1,4 milhão de usuários e 800 mil contas ativas nessas redes sociais, respectivamente.

Desnudando as camadas do chador que envolve o Irã, Adriana e Marcia revelam uma sociedade pulsante que, à revelia do poder constituído, impulsiona o país. Um lugar que produz uma das mais instigantes cinematografias do mundo, mas que não hesita em usar a censura prévia (ou mesmo a prisão) para intimidar seus cineastas. Uma sociedade de machismo opressivo, no seio da qual emergiu a ativista Shirin Ebadi, Prêmio Nobel da Paz em 2003. Um caldeirão fervilhante, no qual nacionalismo, juventude e desejo de mudança se mesclam ao deslumbramento com o mundo que está do lado de fora do chador, e que ficou mais próximo com a internet.

Adriana Carranca é repórter de O Estado de S.Paulo. Como jornalista, esteve no Afeganistão, Irã, Inglaterra, EUA, Canadá, México, Haiti e outros. Fez o Master em Jornalismo para Editores, do Instituto Internacional de Ciências Sociais e Universidad de Navarra, e é mestre em Políticas Sociais pela London School of Economics (LSE). Em 2006, recebeu o Dag Hammarskjöld Scholarship e passou três meses como correspondente na ONU, em Nova York. É Jornalista Amiga da Criança, pela Andi, e participa da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Márcia Camargos é jornalista com pós-doutorado em história pela USP. Tem 19 livros publicados e vários prêmios literários. Antes de viajar a Teerã para o Festival Cine Verité em 2008, havia escrito A travessia do albatroz, sobre um iraniano refugiado no Brasil. Co-organizadora da Mostra de Cinema Imagens do Oriente, é sócia da Usina de Conteúdo Produtora Cultural, biógrafa de Monteiro Lobato e curadora das suas obras completas relançadas pela Editora Globo.

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Estive com a escritora iraniana Azar Nafisi em um debate sobre o Irã, na Bienal do Livro. Leiam abaixo a íntegra da entrevista que aproveitei para fazer com ela, publicada em parte no último domingo, no Estadão.

ENTREVISTA: AZAR NAFISI
A violência institucional no Irã aumenta na mesma medida em que o regime instaurado desde a Revolução Islâmica, de 1979, se sente acuado. O caso da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento, é apenas o mais recente capítulo dessa história que dura há 30 anos, na visão da escritora iraniana Azar Nafisi. “O uso da violência aumentou, porque o regime enfrenta cisões internas. Está se desfazendo em pedaços”, acredita a ex-professora da Universidade de Teerã, exilada em Washington, nos Estados Unidos.

Nafisi cita como exemplo Mir-Hossein Mousavi, o líder do movimento verde e opositor do presidente Mahmoud Ahmadinejad nas eleições de junho de 2009. “Ele não é exatamente um liberal. Era o primeiro-ministro quando me proibiram de lecionar. Me chamava de ‘agente dos EUA’, porque eu ensinava literatura americana. Agora, o regime o acusa do mesmo”, diz. “Mas, é bom que isso esteja acontecendo. Embora não goste de falar em política, Nafisi não é do tipo que se cala diante de injustiças do regime, no qual ela um dia acreditou até ver cerceada a própria liberdade. Em São Paulo, para a Bienal Internacional do Livro, a autora de Lendo Lolita em Teerã e O Que Eu Não Contei, ambos pela editora Record, recebeu o Estado para a seguinte entrevista.

Sendo mulher e muçulmana, como a sra. vê a pena de lapidação aplicada no Irã?
Em primeiro lugar eu não gostaria de falar como muçulmana. Não é preciso ser muçulmana ou cristã para condenar um ato como esse. Essa é uma questão humanitária. Não digo humana porque, infelizmente, são humanos os que cometem atrocidades assim.

A sra. aprova a intervenção do Brasil?
Acho Que Lula falou de Sakineh para ter apoio dos brasileiros… Não pedimos que ele, ou nenhum outro, use a força contra o Irã. Não queremos uma guerra. Mas, o presidente de um país democrático, que escolheu abolir a pena de morte há mais de cem anos, como o Brasil, não pode se dizer amigo de um presidente que apedreja seus próprios cidadãos até a morte. Não falo apenas do Irã, mas do regime norte-coreano, ou de (Robert) Mugabe (presidente do Zimbábue). O critério para conferir a outro país o status de amigo deveria ser a forma como este trata sua gente.

A Revolução Islâmica teve apoio popular. O que deu errado?
O Brasil é uma democracia vibrante. E esse era o espírito dos iranianos no início da Revolução Islâmica. Estávamos esperançosos. Porém, dia a dia, as pessoas foram se frustrando e nos tornamos uma nação triste. Mas, temos de assumir a nossa parcela de responsabilidade. É mais fácil culpar Ahmadinejad e o regime, mas nós fomos cegos! Só nos importávamos em depor o xá (Reza Pahlevi) e retomar a liberdade. Ninguém se perguntou o que seria do Irã depois. Acreditávamos que aos nos livrarmos de um regime tirano, a democracia estava garantida – essa era a promessa deles. E nós subestimamos os aiatolás. Montazeri (aiatolá Hossein-Ali Montazeri, apontado como sucessor de Khomeini até desentender-se com o líder em 1989, por causa de violações de direitos humanos praticadas pelo regime, principalmente nas prisões) logo se deu conta disso: “Vocês estão destruindo o Islã, ao se tornarem governo”, ele dizia.

O que tem de mudar no Irã, as leis, a religião ou o regime?“Você conhece um país por suas leis”, me disse uma vez Shirin Ebadi (Nobel da Paz iraniana). Nossas leis não representam o povo iraniano e têm de mudar.

As coisas seriam diferentes se Mousavi tivesse vencido as eleições?
É difícil prever. Ele não é exatamente um liberal. Mousavi era o primeiro-ministro do Irã, quando fui proibida de lecionar na universidade. Me chamava de ‘agente dos EUA’ e agora o acusam do mesmo. Mas, é bom que isso esteja acontecendo, porque aponta uma cisão interna. Há muitas linhas políticas diferentes hoje no Irã. Eles estão desesperados”.

Como o Brasil pode ajudar?
Peço que conheçam o Irã pelos livros, poesia e música. Porque isso também é o Irã. Não acreditem que a visão de Ahmadinejad e do Líder Supremo é única, pois não reflete a verdade sobre os iranianos. Antes desse regime, o Irã teve ministras no governo. Não se deixem enganar pelos políticos atuais.

A forma como o Islã é retratado a incomoda?
Não se pode generalizar. Admiro a sua imprensa e os brasileiros, pois se mostram solidários a Sakineh e os jornais falam sobre o caso todo tempo. É incrível ver um país tão distante preocupado com os iranianos. O que me preocupa é a mídia generalizar e simplificar algo tão complexo e buscar somente o sensacionalismo. Milhões de muçulmanos comuns, que trabalham duro e tocam suas vidas, não têm voz. Ahmadinejad, não importa o que diga, ganha a mídia mundial. Ainda que diga mentiras, como negar o Holocausto ou a presença de gays no Irã. Como presidente, ele deve ser ouvido, mas não detém a verdade. Há muçulmanos violentos e bons, como cristãos. Há o Islã de Ahmadinejad e o Islã de Sakineh. Ela tem um nome muçulmano, vem de uma família tradicional e religiosa, veste o chador…

Por que tanta polêmica em torno do véu?
É uma boa pergunta. A minha avó nunca tirou o véu e odiava violência. Para ela, o hijab era uma demonstração de fé. Veja, a questão não é usar ou não. O que queremos é ter o direito de escolher. Ainda que seja para escolher usar o véu, como muitas farão. Queremos o direito e votar, trabalhar. Essas não são questões de muçulmanos ou cristãos, mas da humanidade.

Porque a sra. decidiu escrever?

Nos regimes fechados, escritores e poetas são símbolos de uma vida, que fica escondida pela opressão. Os livros, portanto, trazem um retrato mais fiel da sociedade. Simin Behbahani, poetisa iraniana de 83 anos, teve a coragem de receber um prêmio em nome no movimento verde. Confiscaram seu passaporte e cercaram sua casa para evitar que viajasse e falasse ao mundo. O que ela fez? Falou na cerimônia via teleconferência, de sua casa, pela Internet. Aos 83 anos! Uma mulher corajosa, que mostra uma face do Irã tão ou mais verdadeira do que a que Ahmadinejad quer pintar. Comemoramos 1000 anos desde que o poeta Ferdowsi concluiu o épico Shâhnâmeh (Livro dos Reis) e você sabe como ele retratava as mulheres? Liberais, que faziam amor sem se preocupar com casamento. Se ele foi capaz de imaginá-las assim há mil anos, você pode ter uma ideia da sociedade da época… Os livros não só refletem a realidade, mas mudam a realidade. Porque levam a questionar o mundo, o outro e a si mesmo. São subversivos por natureza. Conectam as pessoas, no que chamo de República da Imaginação (título do novo livro de Nafisi, com lançamento previsto para 2011), em que seu passaporte é a paixão pelo conhecimento.

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Vejam abaixo o que diz o site webislam, indicado pelo leitor Jakob Ibrahim, sobre o caso Sakineh. Muito interessante. Obrigada pela colaboração, sr. Ibrahim!

“Lapidação é uma prática que não aparece no Alcorão ou justifica-se pelo exemplo do Profeta, já que ele mostrou sua desaprovação. Apesar disso, foi incluída nos códigos de jurisprudência medievais. A lógica que norteou os juristas daquele tempo é de equiparar o pecado com o crime. Ainda assim, a sentença de apedrejamento estava sujeita a restrições que a tornava quase impossível de implementar.

No Islã, não se pode tomar a lei nas suas próprias mãos. (…) O Alcorão nos impele a aceitar o arrependimento: “Se arrependam e se corrijam, deixai-os” (Alcorão 04:15 -16). (…) O sentimento da maioria dos muçulmanos é de que “Deus tem misericórdia como direito prescrito” (Alcorão 6: 12).

Isso faz com que uma condenação como esta, cruel por si só, seja algo incompreensível. Infelizmente, nada disto corresponde ao modelo autoritário imposto pelos clérigos iranianos, que usa o Islã como programa político de controle social. Esse modelo da religião repressora mal disfarçada serve aos interesses econômicos da classe dominante, que se esconde atrás do Islã para preservar seus privilégios.

No Irã, não estão aplicando a sharia, até mesmo nenhum dos tratados importantes da jurisprudência islâmica na história. Pelo contrário, o Islã está sendo desviado para justificar a tirania dos clérigos reacionários, que se dão o direito de discernir entre o certo e o errado, considerando a massa de muçulmanos como os menores, incapazes de decidir livremente seu futuro.

Dito isso, pedimos aos responsáveis da República Islâmica do Irã, para retirar a sentença de apedrejamento imposta a Sakineh Mohammadi Ashtiani, e revogar essa lei, que só pode ser considerada como uma anomalia e uma traição aos valores mais básicos do Islã.”

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A condenação por apedrejamento da iraniana Sakineh Ashtiani, acusada de adultério e assassinato, ganhou espaço nos jornais e revistas e gerou extenso debate na Internet. Como jornalista, observei a tudo de longe – embora tenha, no âmbito pessoal, unido a minha voz àqueles que pedem para que sua vida seja preservada. Nem uma pessoa de bom senso deixaria de repudiar uma condenação absurda e brutal, como essa. O uso político de uma questão tão importante causa, talvez, ainda maior repúdio. E é, acima de tudo, um perigo para a própria vítima.

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Aos fatos:

O presidente Lula aproveitou o palanque eleitoral para pedir ao estado violador dos direitos que liberasse a condenada para exílio no Brasil, sem nenhuma base legal. Mas, Lula procura aumentar sua projeção internacional. E, nessa busca, tropeça no próprio ego.

A organização Conectas Direitos Humanos, no mesmo documento de repúdio à morte de Sakineh, ressaltou: “No entanto, quando o presidente Lula afirma que ‘se essa mulher está causando incômodo nós a receberíamos no Brasil de bom grado’, ele subverte a posição da vítima e fecha os olhos para as violações sistemáticas aos direitos humanos perpetradas pelo regime iraniano. Infelizmente, a situação de Ashtiani não é um caso isolado. Em 2005, a ONU apontou a existência de 200 mulheres condenadas à morte por crimes contra a moralidade, como o adultério, no Irã.”

E conclui: “Qualquer posição do governo brasileiro deveria pressupor a condenação explícita das violações aos direitos humanos cometidas por esse regime. Constitucionalmente esses direitos devem reger as relações internacionais do Brasil. Lamentamos que o governo brasileiro tenha desperdiçado a oportunidade de utilizar seu prestígio internacional e capacidade de diálogo para defender incondicionalmente os direitos humanos.”

Assino embaixo.

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A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, por sua vez, já incomodada com o envolvimento do Brasil no imbróglio sobre o programa nuclear iraniano, disse hoje que os EUA estão “preocupados” com as execuções no Irã. Não citou, pelo menos não recentemente, no entanto, qualquer apreensão sobre as mais de 1 mil execuções sumárias feitas pela China, sem julgamento público, em 2009, com quem tanto EUA quanto Brasil têm estreita relação – o número de mortes pelo governo chinês é maior do que a some de todos os outros países.

Tampouco ficou clara a indignação sobre os 120 mortos pelo governo do Iraque, empossado pelos americanos após a invasão e queda de Saddam Hussein – mais de 900 pessoas correm o risco de serem executadas no Iraque. Não parece causar repúdio à secretária de Estado nem mesmo os 69 presos, a maioria estrangeiros, decapitados (repito, decapitados) em público por “crimes” como “bruxaria” na Arábia Saudita, que tem como principal parceiro comercial os EUA. Sem contar as 52 execuções efetivadas em solo americano no mesmo período – e muito já foi discutido sobre a predominância de negros e pobres nas prisões dos EUA.

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Do outro lado do mundo, o perigoso regime iraniano, que em 2002 havia suspendido a pena de morte por apedrejamento, voltou à aterrorizar a população com tal ameaça. E isso não tem nada a ver com religião, adultério ou coisa qualquer. As execuções no Irã aumentam na mesma medida da pressão política. Nos dois meses de protestos por supostas fraudes nas eleições presidenciais que levaram Ahmadinejad ao segundo mandato, em 12 de junho, e a sua posse, 112 iranianos foram executados. Mais do que em todos os meses anteriores.

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As execuções por apedrejamento são uma realidade nas áreas rurais dos mais miseráveis países islâmicos, como Somália, Sudão e Afeganistão, onde as leis são regidas por tradições tribais. Sua aplicação pelo Supremo Tribunal de um país educado e desenvolvido como o Irã, com uma cultura milenar formada sob os alicerces de um das mais importantes civilizações, o Império Persa, é vergonhoso e inaceitável.

Mas, quanto mais determinados governos tentarem intervir no Irã publicamente, com uma clara intenção de uso político de um caso tão grave e delicado, maior o risco de Sakineh ser executada – assim como as centenas de outros que esperam no corredor da morte.

Mas, no complicado xadrez da geopolítica mundial, nenhum deles parece estar realmente preocupado com isso.

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A Anistia Internacional se opõe à pena de morte “em todos os casos sem exceção e independentemente da natureza do crime, as características do ofensor, ou o método usado pelo estado para matar o prisioneiro”.

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No dia 1º de setembro, entra em vigor a resolução 277, do Conselho Nacional de Trânsito (Cotran), que tornou obrigatório o uso da cadeirinha para transportar crianças de até 7 anos e meio de idade dentro de carros. Os pais têm ainda, portanto, quase um mês de carência para providenciar o acessório, embora muitos já tenham feito isso. E ninguém mais discorda da importância da Resolução e das punições que ela prevê.

Uma coisa, porém, me intriga. Enquanto os holofotes – e a preocupação do poder público – estão voltados para o interior dos carros particulares, os atropelamentos são responsáveis por quase o dobro das mortes de crianças no Brasil. Dados preliminares do Ministério da Saúde mostram que 513 meninos e meninas, de até 9 anos, morreram atropelados, em 2008. No mesmo período, os acidentes de trânsito causaram 290 mortes entre crianças no banco de passageiros. Na capital, que tem disponíveis os números de 2009, os atropelamentos mataram quase cinco vezes mais: 18 crianças foram mortas ao atravessar a rua contra 4 dentro dos carros.

Quatro é muito – nenhuma morte de criança é aceitável, especialmente se por um motivo banal e evitável como acidentes de trânsito. O problema é que, enquanto o País avançou ao tornar as cadeirinhas obrigatórias, pouco foi feito para se evitar os atropelamentos – embora 2/3 da população brasileira ande a pé e não de carro.

Os dados consolidados pelo Ministério da Saúde, de 2007, mostram que 617 crianças pedestres morreram atropeladas e 329 em acidentes, como passageiras, naquele ano. No levantamento, feito pelo Estado, especialmente para o blog, foram consideradas as mortes de ocupantes de carros e caminhonetes em acidentes de trânsito.

As ações do governo, criticam os especialistas, concentram-se no transporte privado, enquanto problemas de maior risco ficam negligenciados. “A adoção da cadeirinha e de outras medidas para garantir a segurança das crianças no trânsito é fundamental. E, é claro, a morte de nenhuma criança é aceitável, especialmente por uma causa tão possível de ser evitada. Mas, os atropelamentos são uma questão muito grave e pouco contempladas nos esforços do poder público”, diz Alessandra François, coordenadora nacional da organização Criança Segura. Na visão dela, as políticas para reduzir a morte “cotidiana” de crianças ao atravessar as ruas, a caminho da escola ou de casa, deve ser priorizada pelo governo federal.

“Crianças atropeladas são tantas e é tão comum que ninguém mais olha para esse problema. Mas, ele existe. A criança pedestre, até os 10 anos, não tem condições de julgar o trânsito. Ela precisa de um adulto para acompanhá-las, mas no Brasil o que acontece é que o garoto de 6 anos leva o irmão de 4 anos para a escola”, diz Alessandra. Ela defende que a obrigatoriedade da educação para o trânsito nas escolas seja reforçada. “O Código Nacional de Trânsito é vago no que diz respeito à responsabilidade do Ministério da Educação, atribuindo o ensino aos órgãos de trânsito.”

A melhoria da infraestrutura viária é outra questão que precisa ser priorizada. “A forma de prevenção de atropelamentos é mais complexa do que se pensa porque, em muitos lugares do País, nós precisamos de coisas básicas como calçadas!

Para o especialista Celso Alves Mariano, do Portal do Trânsito, essa ‘super atenção’ que foi dada, em termos de políticas públicas, para o que acontece dentro do carro é errada. “O governo está mais preocupado com os 45 milhões de condutores, entre os 200 milhões de brasileiros, quando basta o pedestre não olhar para os lados que um acidente fatal pode acontecer”, diz. “A grande ameaça às crianças está nas ruas. É claro que todos os problemas que temos com o trânsito são todos muito importantes e ainda negligenciados, mas se fossemos estabelecer prioridades, a atenção maior deve estar nos pedestres, na faixa de trânsito, na porta das escolas, nos motoristas em relação a quem está a pé. Isso sem contar o transporte escolar, os ônibus… Porque até agora estamos falando somente da cadeirinha nos carros particulares.”

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O 5o Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, oganizado pela Abraji, foi uma infeção de ânimo para os colegas de profissão. Ao mesmo tempo em que se discutiu os enormes desafios de hoje para os jornalistas – como, simplesmente, manter-se empregado – também trouxe iniciativas incríveis que estão conseguindo sobreviver do mais puro jornalismo independente, colocado a serviço público.

O acesso à informação é um direito humano. E é assim que o tratam iniciativas como o Bureau of Investigative Journalism. O site de notícias online faz reportagens investigativas de longo prazo, com foco em corrupção e direitos humanos. O projeto, que fuciona dentro da City University, em Londres, foi criado por iniciativa de jornalistas como Gavin MacFadyen, que esteve no Congresso. Gavin é também fundador do Centro de Jornalismo Investigativo, que treina estudantes e profissionais para a tarefa, participou informalmente da concepção do ProPublica, a versão americana nos mesmos moldes, que levou o Pulitzer desse ano, e é um entusiasta do WikiLeaks, uma plataforma na Internet que permite a quem tem acesso a documentos oficiais colocá-los disponíveis publicamente de forma segura. Foi no Wikileaks que aparceram os documentos que mostra a ação de militares na morte de civis no Afeganistão e Iraque.

Leia o perfil do jornalista Julian Assange, criados do Wikileaks, na New Yorker.

Leia o resumo de uma das palestras de que participei no Congresso da Abraji, sobre a cobertura de desastres naturais/Haiti e sobre os demais assuntos discutidos no congresso, todos interessantíssimos e com a participação de feras do jornalismo, no blog do congresso.

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