Os leitores votaram e chegamos a 15 finalistas para a categoria Humanitário da Década. Obrigada a todos os que contribuiram com essa lista, da qual muito me orgulho. Traz gente de diversas áreas, condições econômicas diferentes e contribuições distintas, mas todas elas muito importantes, para o desenvolvimento das cidades e nações e o aprimoramento dos seres humanos.
Leia abaixo o perfil dos finalistas (aqui, em ordem alfabética). Agora é com vocês! Votem aqui.
Amartya Sen – Vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 1998. Criou o Índice de Desenvolvimento Humano, que substituiu a renda per capita como um indicador de qualidade de vida por uma combinação de indicadores que inclui também expectativa de vida e educação. Fez considerações importantes sobre a análise da pobreza, levando em conta diferentes aspectos de cada sociedade, além de outras contribuições para o entendimento do desenvolvimento social, humano e econômico.
Antônio Augusto Cançado Trindade – Jurista brasileiro com larga contribuição na área de direito humanitário internacional e dos direitos humanos. Presidiu a Corte Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA), ao longo de dois mandatos (1999-2004), onde ficou conhecido por dar mais espaço aos cidadãos, relativizando o predomínio absoluto dos Estados. Ocupa desde 2008 uma das 15 vagas da Corte Internacional de Justiça, em Haia, na Holanda. Foi eleito com o maior número de votos nos 79 anos de história da instituição, onde defende uma mudança ética e moral à visão conservadora adotada desde a fundação, em 1920.
Bono Vox – Líder da banda de rock irlandesa U2. Usa a sua imagem e poder de influência para levantar fundos para causas sociais e divulgar campanhas, como a que liderou pelo perdão da dívida externa dos países pobres. Concorreu ao Prêmio Nobel da Paz em 2003 e em 2006.
Dagmar Garroux, a tia Dag – Educadora, fundou há 15 anos a organização Casa do Zezinho, no Capão Redondo, extremo sul de São Paulo, que oferece cursos de informática, arte, música, inglês, capoeira, dança, teatro, reciclagem de papel e capacitação para crianças e adolescentes. Esse ano, o projeto foi levado para o Morro da Grota, uma das doze favelas do Complexo do Alemão, no Rio.
Dorothy Stang – Missionária americana assassinada no Pará, aos 73 anos, em fevereiro de 2005. Dorothy lutava pela melhoria da qualidade de vida e o direito de camponeses à terra na região de Anapu, apesar das constantes ameaças de fazendeiros e madeireiros.
Flordelis – Professora da rede pública e ativista social da favela do Jacarezinho, no Rio. Começou abrigando, em sua própria casa, crianças e adolescentes que ela convencia a deixar o tráfico de drogas. Em 1994, acolheu os 37 meninos de rua que escaparam de uma chacina na Central do Brasil. Sua vida é contada no filme “Flordelis – basta uma palavra para mudar”, de Marco Antonio Ferraz e Anderson Correa, lançado em outubro.
Pd.Jaime Crowe – Atua há mais de duas décadas na região pobre do Jardim Ângela, zona sul de São Paulo, com mais de 350 mil habitantes. À frente da Sociedade Santos Mártires, organização sem fins lucrativos, fundou o Fórum em Defesa da Vida, que reúne 250 movimentos sociais. Entre outras ações, organiza desde 1995 os Tribunais Populares, em que a Prefeitura é colocada no banco dos réus e julgada pela população local, com intermediação de representantes do Ministério Público, o que já rendeu ações civis públicas contra as secretarias municipais por negligência, pela falta de equipamentos públicos no bairro. O Fórum já conseguiu levar ao bairro o Hospital M’Boi Mirim, um Batalhão da Polícia Militar e bases comunitárias, o que fez reduzir os índices de violência.
Jeffrey Sachs – Economista americano, autor de O Fim da Pobreza. É diretor do Earth Institute, da Universidade Columbia, em Nova York, e consultor especial da ONU para políticas de combate à pobreza. Em 2006, foi considerado pela revista Time uma das cem pessoas mais influentes do mundo.
José Junior e Evandro João da Silva (em memória) – José Junior fundou há 16 anos o Grupo Cultural AfroReggae, que promove ações socioculturais e tem 72 projetos em andamento, entre os quais 13 SubGrupos culturais de música, circo e teatro. Atua em áreas de risco, na mediação de conflitos e no resgate da cidadania de jovens envolvidos com o narcotráfico. Evandro era o coordenador da equipe técnica social do AfroReggae. Ele foi assassinado em um assalto, em 18 de outubro, aos 42 anos.
D. Luiz Flávio Cappio – Bispo da diocese da Barra (BA), fez greves de fome contra a transposição do Rio São Francisco, que irá levar suas águas para as bacias hidrográficas do Ceará, do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do agreste de Pernambuco. A última delas, em 2007, durou 24 dias. Ele não conseguiu evitar as obras, iniciadas esse ano, mas sua luta é considerada vitoriosa por ter obrigado o governo federal a incluir no projeto obras de revitalização do rio, a construção de cisternas e o tratamento de esgoto dos municípios ribeirinhos.
Muhammad Yunus – Economista nascido em Bangladesh, onde criou o Grameen Bank, considerado o maior banco de microcrédito do mundo, com 7,5 milhões de clientes, 28 mil empregados e mais de US$ 1 bilhão concedidos em empréstimos por ano. Apelidado de “banqueiro dos pobres”, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 2006.
Noam Chomsky – Filósofo, pensador e professor de linguística americano, defensor da Justiça e liberdade e crítico feroz de toda forma de opressão e poder – do comunismo soviético ao liberalismo norte-americano. É autor de dezenas de livros, entre os quais Human Rights and Foreign Policy, lançado em 1978, O Lucro ou as Pessoas? – Neoliberalismo e Ordem Global, e 11 de Setembro.
Sergio Vieira de Mello – Representante da Organização das Nações Unidas (ONU) no Iraque, onde foi morto, aos 55 anos, em um atentado à bomba contra a sede da instituição, em Bagdá, em agosto de 2003. Desde 1969 na ONU, Vieira de Mello teve papel essencial nas negociações diplomáticas em conflitos como Líbano, Bósnia e Ruanda, e por cinco meses governou o Timor Leste, após a independência.
Sting – Roqueiro inglês, fundou a organização internacional Rainforest Foundation, em 1989, que atua pela proteção das florestas e dos povos nativos. No Brasil, o cantor tem histórico de militância em defesa dos índios da Amazônia.
Zilda Arns Neumann – Médica pediatra e sanitarista, de 75 anos, fundadora da Pastoral Da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa. Presente em todos os estados do Brasil e em mais 20 países, a Pastoral da Criança tem mais de 240 mil voluntários capacitados atuando em 40.853 mil comunidades em 4.016 municípios. Acompanha quase 95 mil gestantes e mais de 1, 6 milhão de crianças pobres menores de seis anos.
Caro leitor, abrimos uma votação para que você indicar o nome de quem, na sua opinião, mas contibuiu para a melhoria da condição humana na última década. Vote aqui no Humanitário da Década!
Por definição, humanitário é aquele que se interessa pela melhoria da condição humana. Desses, quero crer, há milhares entre nós. Na prática, para ter tal título, não basta ter interesse, mas trabalhar por isso. O que implica, muitas vezes, em abrir mão dos próprios interesses e de questões individuais em favor de um objetivo comum, do coletivo, de algo que beneficie a todos. É aí que a lista se encolhe.
Vivemos a era do individualismo, do carro frequentemente ocupado somente pelo motorista, dos prédios com cinco garagens para guardar o automóvel blindado de cada integrante da família, que já não se reúne; de vizinhos desconhecidos, de filhos criados por babás, de vovós esticadas e ‘botocudas’ graças a promessas de juventude express (gente, eu tenho saudade do cabelo branco e das rugas de uma vida bem vivida das antigas vovós!).
Vivemos a desconfiança mútua, de tudo e de todos. São tempos de vidro fechado, de porta trancada, de muros altos, de cerca elétrica, de criança que não brinca mais na rua, de jardins e canteiros protegidos por grades para o bem dos motoristas e moradores que olham de longe o verde passar pela janela e acham lindo, da beleza artificial acima do bem viver.
Vejam vocês que dia desses eu estive em uma nutróloga, porque ando me alimentando muito mal, e ocorreu à doutora, esticadinha que só, me dar uma dica de método natural contra o envelhecimento: não sorrir, nem chorar, nem emburrar ou tampouco se emocionar, mantendo sempre o mesmo semblante. Socorro! Se rir dá rugas, eu quero morrer parecendo uma casca de maracujá!
Enfim, o leitor deve estar se perguntando o que é que tudo isso tem a ver com o humanitário da década. A resposta é: tem tudo. Porque ser humanitário começa em participar da vida coletiva em família, no condomínio, nas reunião da associação do bairro, nas gentilezas praticadas no caminho de casa para o trabalho, no olhar para o lado e enxergar o outro, na confiança e importância do seu voto, em gastar uns minutinhos para verificar, afinal, o que anda aprontando o seu vereador, em se interessar pela vizinhança, em contribuir com uma cidade, um estado, um país melhor e daí virá um mundo melhor.
Assim, os nomes votados aqui devem servir não para criar heróis, mas para que sejam uma inspiração para o meu e o seu dia a dia. Porque a melhoria da condição humana começa com a gente!
Abraços,
Adriana
As palestras e discussões da 9ª edição do Colóquio sobre Direitos Humanos, organizado pela Conectas, que acontece até sábado, pode ser acompanhado, ao vivo, pela Internet. Os debates contam com a participação de 33 especialistas de vinte países. É só clicar.
Auma Obama é uma mulher cativante. Tive a chance de conversar com ela, para uma entrevista publicada pelo Estado, durante evento esportivo em São Paulo e saí de lá convencida sobre o poder para a transformação social. Acadêmica, formada em letras na Alemanha, com PhD em linguística, fluente em inglês, alemão, swahili e luo, idioma da tribo onde nasceu, e ativista social, a irmã do presidente americano Barack Obama trabalha para incluir crianças e jovens dos países mais miseráveis da África, entre os quais a Ruanda e o Congo, usando atividades esportivas como ferramenta.
Vaidosa com seu cabelo rastafári, essa queniana que esconde a idade veio ao Brasil mostrar o trabalho que faz como consultora da ONG Care e diretora da Rede Esportes para Mudança Social.
Filha de Barack Hussein Obama Sr. com a primeira mulher, Auma conheceu o caçula quando ele lhe escreveu após a morte do pai, em 1982. Os dois se encontraram em Chicago e, mais tarde, ela o acompanhou à Kogelo, o vilarejo natal dos Obama, no Quênia, como conta Barack em seu livro Dreams from My Father (A Origem dos meus Sonhos, no Brasil). Auma participou intensamente da campanha do irmão e ouviu dele agradecimento especial no discurso da vitória. Auma mesmo evita falar no irmão.
Veja aqui a íntegra da entrevista:
O que você achou do Rio vencer Chicago para sediar as Olimpíadas 2016, apesar do lobby do presidente Barack Obama?
(Risos) É uma competição, então, só nos resta parabenizar o vencedor.
Alguns avaliam que o Rio e o Brasil não mereciam sediar a Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas por causa da violência e corrupção…
Aos críticos eu diria que, uma vez escolhido o Rio para sediar a Copa e os Jogos, eles devem agora canalizar sua energia para garantir que os dois eventos tragam benefícios de longo prazo para o Brasil. Sobre corrupção… Veja, as regras já existem e estão aí, só não são cumpridas, por isso se chama corrupção. Então, condicionar os investimentos a mais leis e regras não vai prevenir a corrupção e acho que tira o foco daquilo que importa, que é o esporte. O que o governo brasileiro tem de fazer agora é concentrar os esforços para provar ao mundo que está preparado para sediar um evento desse porte e aproveitar os investimentos para trazer benefícios de longo prazo ao País.
Como?
O Brasil é uma nação de amantes do esporte. Nos vemos o que acontece nos jogos de futebol, quando todos se juntam nos estádios e as desigualdades desaparecem. Quando se trata de esporte, o Brasil se torna uma só nação. E um evento internacional desse porte aumenta a auto-estima das pessoas, motiva crianças, jovens, adultos, comunidades inteiras. Agora, o que não podemos é criar uma grande expectativa e depois do evento tudo voltar ao normal. Se o governo for esperto, irá canalizar esses investimentos para reduzir as desigualdades. O esporte é isso: participação e inclusão. Entidades de base que trabalham diariamente com esportes e as crianças e jovens das comunidades carentes devem ser envolvidos na organização. Primeiro, porque eles vivem na pele a carência dos investimentos em esporte e sabem o valor que isso tem. Depois, podem encontrar soluções para que os milhões a serem investidos nos Jogos sejam destinados a infra-estrutura, que mais tarde poderá ser colocada à disposição das comunidades.
Por que trabalhar com esportes?
Porque nós precisamos atrair as crianças e garantir que eles continuem voltando e o esporte é uma excelente ferramenta para isso. O atrativo é a garantia de poder jogar e brincar, o que é um luxo para muitas crianças pobres, sem espaço nas comunidades. Com isso, conseguimos que passem os dias com a gente. A partir daí criamos um vínculo e eles próprios começam a se transformar. Passam a cuidar da própria saúde, por exemplo. Meninos de rua que atendemos largaram as drogas porque queriam melhorar sua performance no esporte. As famílias passam a vir aos jogos, então, é uma forma de engajar toda a comunidade e acabamos unindo esses eventos esportivos a palestras e campanhas sobre assuntos como HIV. Devagarinho vamos mudando a vida deles e não há nada com maior potencial de transformação economicamente tão eficaz quanto o esporte. Para música, você precisa de instrumentos. Para teaatro, de um espaço adequado e audiência. No esporte, principalmente o futebol, tudo o que você precisa é uma bola de plástico.
A parcela do orçamento público destinada aos esportes deve ser obrigatória, como são saúde e educação no Brasil?
Seria uma legislação difícil de seguir. Mas, acho que os governos devem acordar para o fato de que o esporte é uma ferramenta de educação e saúde.
Como é ser uma Obama hoje?
A minha vida mudou completamente. Vamos ser honestos, você não estaria aqui me entrevistando se eu não fosse uma Obama… Então, tento canalizar essa atenção toda e a visibilidade que passei a ter para o meu trabalho. Por outro lado, é uma responsabilidade muito grande porque onde quer que eu vá, as pessoas querem ouvir a minha opinião e eu acabo fazendo papel de porta-voz das organizações que represento. E isso é complicado, então, eu tento controlar o número de entrevistas.
Como foi para você ver Barack Obama chegar à presidência dos EUA?
Eu não gostaria de responder perguntas nessa linha. O que isso tem a ver com meu trabalho?
É o primeiro afro-descendente a assumir a presidência da nação mais poderosa do mundo. Isso tem a ver com direito de igualdade, oportunidade, desenvolvimento…
É, nesse sentido, eu concordo com você. O meu irmão é um exemplo de que, se você trabalhar duro e se preparar, pode ser o que quiser, até presidente dos EUA. Essa mensagem é muito poderosa, um estímulo grande para as crianças e jovens pobres do mundo inteiro.
Como é a sua relação com o presidente Obama?
Como a de quaisquer irmãos. Ele está lá, trabalhando, enquanto eu estou dando essa entrevista. Às vezes nos telefonamos. Outras nos visitamos. Somos irmãos.
Ele apoia o seu trabalho?
Claro. Muito. Assim como eu, Barack sabe que as crianças são o futuro de uma nação, coisa que muitos adultos se esquecem.
De onde vem essa inspiração dos Obama para mudar o mundo?
Meu pai era um homem de muitos princípios, que trabalhou para o governo no Quênia e viu muitas coisas erradas. Então, eu cresci acompanhando as frustrações dele, mas, ao mesmo, tempo vendo-o manter firmemente suas convicções e nos encourajando a fazer o mesmo. Era um homem de grande caráter, que tratava a todos de forma igual, fosse um governante ou morador de rua. Ele dizia: Não se deve avaliar um livro pela capa.
Leia aqui a íntegra da entrevista publicada pelo Estado essa semana com Sandra Carvalho, diretora da organização Justiça Global, com sede no Rio, vencedora do Prêmio Anual da Human Rights First.
Como você viu a repercussão internacional da violência no Rio?
A segurança pública foi o tema central dos debates em Nova York, onde eu fui para receber o prêmio, no dia 22. O The New York Times deu destaque para o episódio da derrubada do helicóptero. No entendimento da Justiça Global, o que ocorreu no Rio não foi algo especial e, sim, a anormalidade de sempre que, dessa vez, ganhou relevância internacional pelo fato de que o Rio sediará as Olimpíadas em 2016. O que eu mais achei interessante, no entanto, foi que apesar de ter essa imagem da violência com relação ao Brasil, as pessoas ainda se espantam ao ouvir sobre as recorrentes violações de direitos humanos por parte do Estado. Os estrangeiros acham que o Brasil do governo Lula estaria muito melhor em termos de direitos econômicos, sociais e culturais.
E não está?
Não. Houve avanços na participação da sociedade civil. Mas, na prática a relação do Estado com a população pobre e moradores de favelas não mudou. O governo anunciou o PAC no Complexo do Alemão como uma grande coisa, mas meia dúzia de intervenções urbanas não vão mudar décadas de exclusão. É preciso criar outra relação entre o Estado e a população. Você sabe qual é a imagem que os moradores têm do PAC no Alemão? Eles dizem que o governo só está fazendo obras lá para facilitar a passagem do “caveirão” (blindados usados pelo Bope). Virou piada. A população não acredita mais no Estado.
Como você vê a política de segurança pública no Rio?
Não só no Rio, mas no Brasil, ainda se destaca o Estado repressor. É um tipo de política de segurança pública que já se mostrou ineficaz e sem impacto algum na redução da criminalidade. O governo do Rio tem trabalhado com as mega operações, com grande número de policiais e entre cinco a dez mortos, a cada uma delas. Isso cria uma grande hostilidade da população em relação à polícia, que, na visão deles, só sobe o morro para matar. A polícia do Rio é responsável por 20% dos homicídios na cidade, com três mortos por dia.
Mas, a culpa é da polícia?
Não adianta você responsabilizar o policial que dá o tiro porque ele segue uma política de segurança pública equivocada. Não houve nenhuma redução significativa nos índices de violência no Rio que justifiquem essa linha adotada pela Secretaria de Segurança Pública, o governo estadual e a Prefeitura para combater o crime.
O que você acha do Rio sediar os Jogos Olímpicos em 2016?
Acho temerário à luz do que vivemos nos Jogos Pan-Americanos. Houve uma onda de repressão muito grande contra moradores de favelas e camelôs para “limpar” as ruas, despejo de comunidades inteiras, a chacina no Morro do Alemão, que ocorreu nas semanas que antecederam o Pan. Agora, diante da Copa do Mundo em 2014 e das Olimpíadas, parte da população já está sendo ameaçada novamente, a discussão sobre a construção de muros altos para isolar as comunidades pobres foi retomada e a retirada de pessoas da rua já começou. Depois dos Jogos, tudo volta ao normal ou pior porque essas políticas não trazem soluções definitivas.
Como foi a sua conversa com a alta comissária da ONU para Direitos Humanos, na semana passada, em Boston?
Coloquei todas essas questões para ela e sugerimos que a ajuda financeira da ONU, que irá incluir o Rio no programa Cidades Mais Seguras, tenha como contrapartida do Estado a garantia dos direitos dessas populações e de medidas efetivas, e não paliativas e enganosas, contra a violência.
Qual é a sua receita de combate à violência no Rio?
Primeiro, precisamos enfrentar uma reforma na polícia, com medidas como a unificação das polícias civil e militar. Qualquer medida adotada com esse formato de polícia militarizada e repressora será paliativa. Depois, temos de mudar o foco de atuação. Dizer que a polícia do Rio está combatendo o tráfico é uma mentira porque a droga vendida nas favelas não é feita nessas comunidades, nem as armas usadas pelos traficantes, e não existe qualquer investimento da Secretaria de Segurança em inteligência nas outras pontas do narcotráfico. O morro é só o fim da linha do comércio da droga e nem é onde circula o grosso do dinheiro. O Estado tampouco tem combatido atividades ligadas ao tráfico e que ajudam a financiá-lo, como o controle do transporte alternativo por grupos criminosos, inclusive as milícias. Em terceiro lugar, temos de acabar com a corrupção, que no Rio atinge índices alarmantes e é muito mais grave na polícia porque é revestida de violência. É preciso haver controle externo e independente das polícias. Veja, na gestão anterior, a cúpula da Segurança Pública do Rio foi parar na cadeia por envolvimento com atividades ilícitas. O então deputado Alvaro Lins chegou a ser cassado e preso por irregularidades cometidas quando era o chefe da polícia do Rio. O Ministério Público e a Justiça têm de ser mais cobrados porque são responsáveis pelo controle externo e pouco fazem.

Não eram exatamente estas fotos que eu gostaria de usar, mas não encontrei as originais. Estavam em um dos jornais que eu li nas últimas duas semanas, sob o título “O jogo dos Sete Erros”, só não me lembro qual foi (eu estava em férias, afinal). O fato é que existem outras semelhanças entre o Afeganistão e o Rio, que não somente o uniforme paramentado dos oficiais.
Uma delas está na estratégia de combate das polícias do Rio e dos soldados da Otan no Afeganistão, responsável na visão de muitos especialistas pelo fracasso das forças de segurança tanto lá quanto aqui. O presidente Barack Obama já percebeu o erro e conferiu a nova estratégia militar no Afeganistão ao general Stanley McChrystal. O militar moderado confia mais no trabalho de inteligência e na interação com os afegãos para o sucesso da empreitada americana no país do que nas ofensivas que matam milhares de civis inocentes, minam a credibilidade dos militares e jogam muitos para o lado dos Taleban.
O Rio ainda não enxergou isso, infelizmente, e segue investindo em mega-operações de mesmo efeito: resultam em um número alto de mortes, minam a credibilidade da polícia nas comunidades e jogam muitos jovens para o lado dos traficantes.
Outra semelhança está na ausência de um governo central forte, sem credibilidade junto à maioria. Sandra Carvalho, diretora da Justiça Global, me contava durante um café, sexta-feira, sobre como moradores do Complexo do Alemão vêem as obras do PAC: “Eles acham que o governo federal só está lá para abrir caminho para o ‘caveirão’ (como é chamado o camburão blindado usado pelo Bope)”, diz. Isso porque o Estado quase nunca se faz presente nas favelas, exceto na forma das tais megaoperações policiais e operações de despejo. Ou seja, para o povo, o Estado e a polícia são uma ameaça e não seus aliados.
Oficiais afundados em denúncias de corrupção e de envolvimento com o narcotráfico são outros aspectos de um Estado falido que aproxima realidades tão distintas quanto as do Afeganistão e do Rio.
Há muito tempo uma reportagem não me tocava tanto, a ponto de, ao terminar a leitura, eu querer sair correndo e fazer alguma coisa, qualquer coisa. Há muito tempo, eu não lia um texto do começo ao fim com olhos arregalados, não fechava as páginas do jornal com um arrepio na espinha. Foi assim ao ler Crônica de Uma Morte à Toa, do colega de casa Christian Carvalho Cruz.
Conta um dia na vida do jovem Adriano da Fonseca Pereira, de 20 anos. Seu último dia, aliás. O dia da sua morte, atropelado estupidamente ao atravessar uma rua de São Paulo às 4h20. Foi surpreendido pelo produtor de eventos Fabio Melgar, de 29 anos, ao volante de um BMW que atravessou o farol vermelho em alta velocidade, atingiu Adriano em cheio e se foi, sem prestar socorro. Fugiu, deixando o corpo do jovem para trás, inerte em uma poça de sangue.
Um taxista testemunhou a cena e seguiu o motorista. Fabio Melgar foi preso em flagrante. Pagou R$ 1.228,20 de fiança e saiu com rapidez maior do que o corpo de Adriano fora liberado do IML. Melgar responderá ao processo em liberdade.
O irmão do motorista, o advogado Douglas Pereira Melgar, disse ao repórter que “o fato só ganhou essa dimensão porque ele dirigia o BMW do sócio dele; se estivesse de Fusca não seria assim.” Que tipo de comentário é esse? A vida de um jovem inocente foi perdida, cara. Poupe-nos de sua sociologia barata, por favor!
Mas, para não ser injusta, vá lá, talvez Douglas Melgar tenha razão. Primeiro, de fato, um Fusca não poderia atingir a velocidade do BMW (“fácil, fácil a uns 150km/hr”, segundo o taxista e testemunha) e Adriano da Fonseca muito provavelmente ainda estaria vivo. Segundo, nesse país desigual, acredita-se que aquele com acesso a um carro de algumas centenas de milhares de reais tenha tido alcance à educação nas melhores escolas e à informação de qualidade, o suficiente para que tivesse se tornado um cidadão de bom caráter, portanto.
*
Como repórter, queria eu mesma ter escrito aquele texto. Não é inveja, Christian. É admiração mesmo. Como cidadã, fico agradecida porque acho que é isso mesmo o que cabe a uma reportagem. Indignar, mexer com o leitor a ponto de ele se sentir motivado a fazer algo. Tive essa sensação boa, na semana passada, ao escrever sobre a falta de leitos psiquiátricos em São Paulo. Dias depois, recebi uma linda carta de agradecimento da mãe de um jovem com transtornos mentais, personagem da reportagem, por ter tido uma vaga oferecida ao filho na clínica particular de uma psicóloga que, ao contrário dos Melgar, se comovera com a tragédia do outro. Melhor seria se o governador e o prefeito tivessem também se comovido e o acesso à saúde mental fosse estendido a todos os que precisam.
Melhorar a educação como forma de prevenir a violência é a medida mais defendida pelos que enviaram propostas à I CONSEG (Conferência Nacional de Segurança Pública). O projeto que inclui a criação de mais creches, escolas de período integral e a melhoria do policiamento nas escolas foi tema de proposta de 70% dos eventos regionais que antecederam a discussão na capital. Com outras propostas, a ideia será votada na conferência, que começa nesta segunda-feira em Brasília.
A I CONSEG reúne membros do governo, de ONGs e policiais para debater a criação de um Plano Nacional de Segurança Pública. Desde o início do ano, foram promovidas conferências menores: municipais, estaduais e as chamadas conferências livres, que podiam ser realizadas em comunidades, por qualquer grupo de pessoas. Ao todo, 1.359 desses eventos foram realizados e enviaram propostas para serem debatidas em Brasília. As sugestões estão reunidas no Caderno de Propostas da CONSEG .
As mudanças na educação foram propostas em 956 desses encontros regionais. Dentro dessas mudanças foram reunidas sugestões como a integração da polícia em ações educativas, a criação de mais espaços para cultura e lazer, a abertura das escolas públicas aos finais de semana e a ampliação do acesso a bibliotecas e laboratórios de informática. As idéias educacionais foram incluídas no quinto eixo temático da conferência, que trata de “prevenção social do crime e das violências e construção da cultura de paz”.
A segunda proposta mais presente trata da remuneração dos policiais. A ideia, descrita como “criar um piso salarial, digno, justo e igualitário para os profissionais de Segurança Pública” esteve em 611 (44,5%) dos encontros. A terceira ideia mais lembrada, presente em 409 (30,1%) das reuniões é a de aprimorar a rede de informações de segurança pública, com melhorias no sistema de gerenciamento de armas.
Ao todo, as propostas foram reunidas em sete eixos temáticos, que incluem ainda propostas sobre conselhos comunitários de segurança, financiamento de ações na área, condições de trabalho dos policiais, repressão ao crime, melhorias em presídios e prevenção de acidentes.
O fato de uma proposta ter sido defendida por muitos nas etapas anteriores não significa que ela tenha mais chances de ser aprovada, pois todas as propostas chegam à etapa nacional com o mesmo peso. Apesar disso, é possível que os representantes que estão em Brasília reflitam a preferência expressa em eventos regionais. Lá, as medidas serão votadas por mais de 2.000 representantes: 40% são da sociedade civil; 30% são do poder público federal, estadual e municipal e 30% são trabalhadores de segurança.
Outra das propostas mais votadas nas etapas anteriores também envolve educação e prevê a criação de cursos sobre prevenção ao crime em escolas e dentro de movimentos sociais, além de maior apoio a policiais comunitários. Além disso, a humanização do tratamento aos detentos em presídios também se destacou.
Fonte: PrimaPagina/PNUD
Não quero ser monotemática, mas, como as eleições afegãs seguem indefinidas, acho que o assunto continua pertinente. Divido com vocês entrevista que dei ao blog JE Informa. Aliás, um bom blog. Vale conferir!
Leia a entrevista aqui ou clique na imagem.
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