Aos caros leitores que me acompanharam durante todo este ano…

Não bastasse a guerra, o Afeganistão enfreta a maior seca dos últimos 30 anos. O rio Cabul, que atravessa a capital homônima, não tem mais água. As crianças sobem e descem as ruas áridas com regadores e baldes abastecidos com água para as famílias em poços artesianos colocados por agências humanitárias como o Crescente Vermelho.
Somente 23% dos afegãos têm acesso à água tratada.
As crianças escavam a terra dura em busca de poços.
O suíço Markus Cott é daquelas pessoas que a gente sente orgulho de conhecer. Está entre um grupo seleto de pessoas que trabalham com ajuda humanitária porque se preocupam, de coração, com o outro. Ele chegou muito perto de se tornar padre, mas logo percebeu que rezar pelo mundo era pouco para ele e que só “em campo” poderia fazer alguma diferença. Há pouco mais de um ano, Markus trabalha para uma organização humanitária no Irã, mas ele conhece bem o Afeganistão, onde viveu e trabalhou por quatro anos em pleno governo Taliban.
Durante a minha passagem por Cabul, ele fez uma visita à cidade, para uma reunião. Nosso encontro foi breve e não tivemos a chance de conversar sobre a situação local. Por isso, na volta, mandei um e-mail para ele, curiosa sobre quais tinham sido as suas impressões ao retornar para o país. Foi esta a sua resposta:
“Para ser honesto, eu entrei em choque – conhecendo o Afeganistão de antes, embora aqueles também fossem tempos difíceis e muito longe de ideais para qualquer ser humano, eu me vi de volta a um país vivendo em constante estado de medo. A situação passou de ruim para pior. E eu me senti tão mal – sendo impedido de me movimentar, tendo de obedecer regras de segurança nunca tão restritas quanto agora.
Foram dias até que eu me recuperasse. Ao mesmo tempo, é verdade quando você diz que não podemos desistir de trabalhar por esse lugar e de tentar fazer alguma diferença nesse ambiente, onde as pessoas estão se adaptando a uma vida atrás de muros e grades, outra mudança que, como eu puder ver, muitos afegãos estão adotando.
É estranho e eu não tenho como expressar como fiquei infeliz com essa situação. Ao voltar para o Irã, tirei alguns dias de folga e viajei para as cidades lindas da Pérsia – Isfahan, Yazd, Kerman e Shiraz -, lugares que me fazem lembrar da beleza e história dessas terras e da bondade desse povo, o que me permitiu reconciliar com esse mundo novamente.”
(Markus Cott)
Jornalistas e agentes humanitários estão proibidos de circular pelo Afeganistão via estrada. Tratando-se de um estrangeiro, o seqüestro é quase tido como certo. Os Taliban têm ‘olheiros’ nas principais rodovias – e, as demais, sem asfalto, são impossíveis de trafegar por longas distâncias. Eles avisam sobre a presença de estrangeiros pelo rádio ao comando, que aprova ou não a ação.
Além de uma estratégia para criar um clima de insegurança e de falta de controle do governo no país (o que, a essa altura, não parece apenas propaganda, mas a pura realidade), eles descobriram a fonte lucrativa dos seqüestros. Nesse exato momento, dezenas de estrangeiros e afegãos estão sendo mantidos pelos Taliban. Fala-se em U$ 7 milhões pela cabeça de um jornalista americano desaparecido há um mês.
ÉTICA TALIBAN
Mas, sim, eles também têm a sua ética. Em setembro, o grupo seqüestrou quatro funcionários do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, a organização humanitária mais antiga no país, em uma estrada próxima à província de Wardak, a uma hora de Cabul. Três dias depois, o comandante dos Talitan em Wardak, Hamijullah, declarou que o seqüestro foi um “engano” e, além de soltar as vítimas, pediu desculpas formais à organização.
Entre os seqüestrados, estava o chefe da segurança do CICV, um simpático macedônio que eu tive o prazer de conhecer em Cabul. Ele garante que foi bem tratado, com “água e comida” em uma casa nas montanhas, e não sentiu medo. Ele conhece bem os Taliban.
Protegido pelas leis humanitárias internacionais, o CICV mantém uma posição neutra em áreas de conflito. O objetivo da organização é garantir que sejam respeitados por todos os lados, não importa quem sejam, as regras humanitárias mesmo no meio de uma guerra. É o CICV quem negocia com o governo americano para que mantenha condições humanas e padrões mínimos de justiça na prisão militar de Bagram, onde milhares de afegãos ainda são mantidos sem julgamento. Por outro lado, é também o CICV quem negocia com o Taliban pela liberdade e vida de seqüestrados. Em agosto, foi a organização que facilitou a liberdade de sul-coreanos mantidos por mais de um mês pelos Taliban – dois foram mortos, mas 21 saíram com vida.
Estou de volta. Teriam sido 48 horas diretas de viagem desde Cabul até pisar novamente em São Paulo, não fossem os vôos lotados para o verão no Brasil, que me prenderam por outros três dias em Londres e me obrigaram a acabar voando de Paris na última poltrona disponível no mês de dezembro – A48 – de um Boeing 777 com mais de 300 passageiros.
Confesso que foi um choque acordar de novo no primeiro mundo, como dizem aqueles que gostam de rótulos. Ruas asfaltadas, prédios inteiros, água quentinha, energia suficiente para iluminar as luzes do Natal londrino. Mas o que mais me causou estranheza foi poder de novo andar nas ruas livremente.
Como sou muito mais teimosa do que medrosa, fiz isso muitas vezes pelas ruas de Cabul, inclusive do centro antigo e miserável, pelos mercados de rua e campos de refugiados, para o desespero do motorista e do tradutor que me acompanhavam e teimavam em me alertar sobre o perigo dos seqüestros de estrangeiros. “Pelo menos, não fale em inglês”, pedia o tradutor. Nós combinávamos antes as perguntas que ele teria de fazer a cada uma das pessoas nas ruas e, depois, íamos para um canto qualquer onde ele traduzia as respostas. Uma a uma.
SEQÜESTROS
Fala-se em 70 pessoas seqüestradas. Muitos estrangeiros. Muitos jornalistas. Como no Brasil, a imprensa mantém-se em silêncio para não prejudicar as negociações ou colocar em risco a vida das vítimas. E há ainda os assassinatos recentes, como de uma agente humanitária inglesa e dois funcionários da empresa DHL, entre outros. O clima de insegurança minou a liberdade de ir e vir tanto de estrangeiros como de afegãos, principalmente os que trabalham para organizações internacionais. Muita gente só vê Cabul da janela de um carro. Infelizmente.
Passarei os próximos dias revendo as histórias que apurei e dividindo no blog as lembranças desse lugar castigado por consecutivos conflitos, mas que ainda consegue cativar visitantes como eu.

Nas ruas de Cabul, não há qualquer sinal visível da reconstrução prometida pelos americanos ao liderar a invasão do país, após os atentados de 11 de setembro.

A destruição dos prédios tem várias fases desse conflito de três décadas. Algumas áreas foram completamente destruídas durante a guerra civil e continuam assim intactas.

As ruas não têm asfalto, mesmo aquelas em que moram políticos e diplomatas. Só nas avenidas principais, ainda assim, esburacadas.

E a miséria está em toda parte. Nas mulheres de burca pedindo esmola.
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Nas crianças trabalhando nas ruas.
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Nas casas sem água ou energia elétrica.
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Cabul, a capital, tem energia elétrica apenas por quatro horas a cada 48 horas. O restante funciona com imensos geradores, que os pobres, maioria da população, não têm condições de comprar. No último inverno, muita gente morreu de frio. Nos hospitais, há gente que morre porque os aparelhos simplesmente param de funcionar.
Sete anos desde a invasão e a maioria dos afegãos não vê mudança. Isso destrui a esperança trazida com a presença das forças internacionais, comemorada por muitos em 2001, e a confiança no governo de Hamid Karzai. A guerra acontece em paralelo, enquanto as pessoas estão preocupadas em sobreviver, o que alimenta a violência e o terrorismo. Em muitas províncias, sabe-se que os Taliban oferecem salário aos camponeses para lutar do seu lado.
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As burcas, que se tornaram símbolo da opressão feminina na era Taliban, continuam sendo usadas pela maioria das mulheres afegãs, mesmo na capital Cabul. São, na realidade, uma tradição adotada há mais de um século no Afeganistão, Paquitão, Índia e Bangladesh. Chegou a ser símbolo de status, quando só as mulheres da alta sociedade usavam. Depois, passou a ser visto como algo retrógrado. O que fizeram os Taliban foi torná-las obrigatórias por lei, contrariando a tradição. Ainda hoje, os senhores de guerra que comandam muitas das províncias obrigam as mulheres a usá-las, embora a lei não exista mais. Em Cabul, o motivo do uso varia entre obediência ao marido e simples opção. Vi muitas mulheres usando a burca sobre a cabeça, mas com a parte da frente jogada para trás, mostrando o rosto. Ninguém parece ligar. Outras, usam apenas o véu. Nas escolas, o uniforme é composto de cança e blusa pretas largas e um véu branco sobre os cabelos.

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Os dias por aqui têm sido contados em explosões: ‘Que dia foi tal coisa? Ah, tal coisa foi um dia depois daquele último atentado, não?’. E mesmo numa cidade como Cabul, apesar dos 4 milhões de habitantes, você sempre pode dizer que estava relativamente perto de um ataque suicida, principalmente, quando eles acontecem com essa freqüência.
Mas, Hassim, o motorista que me acompanha, não parava de falar nisso o dia inteiro. Exatamente às 14h40 de ontem nós passávamos pelo ponto onde, hoje, um homem-bomba detonou seus explosivos no mesmo horário, próximo à Embaixada da Alemanha, matando dois afegãos e ferindo três. A razão porque o motorista lembrou-se disso foi eu ter pedido a ele que parasse o carro para tirar a foto de uma escola, a Habib High School, cuja placa me veio rapidamente à mente, junto com um arrepio na espinha, quando ele me lembrou da cena.
Ele respondeu que não, porque estávamos atrasados: ‘temos de estar na próxima entrevista em 20 minutos’. A entrevista seria às 15h, por isso, sabemos o exato horário em que passamos no local. Eu abri a janela e tirei uma foto da mesquita do meu lado da avenida, com o carro em andamento. Foi entre a mesquita e a escola que a explosão ocorreu hoje.

Quando o carro para no caótico trânsito de Cabul, o coração aperta, a garganta seca, os músculos se contraem. É uma sensação que cansa e quem vive aqui já está, literalmente, cansado dessa guerra. Não é sempre assim, mas hoje as ruas ficaram vazias mais cedo. A cidade entrou em alerta e as pessoas pareciam tristes.
Muitos têm me perguntado como é o dia-a-dia em Cabul. Além da imensa beleza das montanhas que cercam essa cidade castigada por 30 anos e guerras, a coisa que mais me impressionou sobre Cabul é que consegue manter uma vida cotidiana com certa normalidade. Exceto pelas embaixadas e agências humanitárias, não se vê uma segurança tão ostensiva nos lugares públicos, mesmo os hotéis. Não se sente a opressão de um país em guerra.
Cabul dá uma – falsa – sensação de segurança. Os afegãos estão nas ruas e tudo funciona normalmente: shoppings, supermercados, padarias, farmácias, lojas de construção e decoração, butiques, restaurantes, fast-food, pizzarias. Descobri um delivery chamado Pizza Brasil, comandado por um casal de brasileiros que eu ainda não entrevistei, mas o farei.
Na primeira noite em Cabul, fui levada a um restaurante turco, com mesas cheias de gente alegre jogando conversa fora. Na segunda noite, fui apresentada a um restaurante afegão aberto após a era Taliban em um casarão antigo, com um belo jardim, onde há mesas e cadeiras ao ar livre e também tapetes e almofadas para sentar no chão. Dá uma sensação estranha lembrar que você está no meio de uma guerra mas, ao mesmo tempo, uma certa paz de espírito de saber que ainda pode existir vida num lugar mergulhado em conflitos.
Após 21h já não há mais ninguém nas ruas escuras de Cabul, apenas seguranças privados e policiais. Termino cedo o meu jantar surpreendida com a boa comida afegã e o agradável ambiente com música típica e à luz de velas, o que evita os constantes blecautes na capital. É o jeitinho afegão de lidar com a tragédia. A vida segue, como é possível.
Eu estava num carro da Cruz Vermelha, a caminho de um dos hospitais mantidos pela organização, quando ouvi pelo rádio sobre o atentado suicida em pleno centro de Cabul, a 100 metros da Embaixada dos Estados Unidos, no feriado mais importante para os americanos, o ThanksGiven. Os Taliban, que mais tarde assumiram a responsabilidade pelo atentado, têm coordenado ataques como este para mostrar a sua força. É a ‘Taliban propaganda’, como definiu para mim o porta-voz da ISAF, a força de segurança internacional, Richard Blanchette.
Ligo para um amigo e peço para que me leve ao local do atentado. As autoridades locais são rápidas em ‘limpar’ a cena e, quando eu chego, os carros atingidos e as vítimas já tinham sido retirados. Pouco mais de uma hora depois e a vida já seguia normal para os afegãos. As pessoas estavam de volta aos pontos de ônibus, às compras, ao trabalho.
O carro explodiu em uma grande avenida e, dos dois lados, comerciantes limpavam o sangue na calçada e tentavam improvisar portas e janelas com pedaços de lençol e cobertores. Eu não podia acreditar no que via. Em um raio de 100 metros em torno do local onde o carro explodiu, e onde agora há uma pequena cratera, apartamentos residenciais e pontos de comércio tiveram portas arrancadas e vidros quebrados. As crianças ‘brincavam’ de achar pedaços dos carros e de corpos – não, eu não tive estômago para ver isso – sobre as árvores.
Abdul Wodood, de 36 anos, dono de uma mercearia em frente ao local do atentado, mostra as mãos machucadas por cacos de vidro e me conta que já é a segunda vez que ele está muito próximo de uma explosão. Pergunto se não tem medo e se alguma vez pensou em fechar seu pequeno negócio, que fica perto da embaixada americana. “Não, essa não é uma opção para mim. Eu dependo do meu negócio. E não importa onde você está nesse país, está correndo risco. Uma bomba pode explodir em qualquer lugar. O que eu posso fazer? É só mais um dia comum para os afegãos.” Ele assistiu ao atentado de sua janela. Mas não vou descrever aqui a cena que me contou, porque é simplesmente horrível.
Mohammed Kader, de 37 anos, estava em sua pequena barraca de sucos quando ouviu a explosão e, então, viu uma ‘montanha de fogo’ na sua frente e um carro ser lançado três metros adiante. Kader diz que correu para ajudar um homem que fora atingido pela explosão quando passava com sua bicicleta. Ao chegar mais perto, viu que o homem já estava morto.
Ele conta que o suicida dirigia um Corolla que colidiu com outros dois carros e daí houve a explosão – o que me faz pensar que o suicida realmente tinha como objetivo chegar mais perto da embaixada americana, mas se envolveu em um acidente de transito antes disso. Não é difícil imaginar a adrenalina de quem está perto de se explodir… E esses caras são apenas miseráveis convencidos de que encontrarão o paraíso, onde terão comida farta e sete esposas.
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