
A alta comissária para os Direitos Humanos das Nações Unidas, Louise Arbour, cobrou hoje do presidente Lula que o Brasil ratifique as convenções da ONU contra tortura e aquelas que tratam dos direitos humanos, dos deficientes e das pessoas desaparecidas. O Brasil é signatário da Convenção da ONU contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanas e Degradantes, embora o Congresso precise ainda ratificar o acordo. De que adiantaria?
Casos recentes como o da menina L., de 15 anos, presa na mesma cela com 20 homens, onde foi estuprada inúmeras vezes, no Pará, e a imagem chocante do fotógrafo Hermínio Nunes (AG/RBS), publicada hoje, que flagra presos acorrentados por falta de espaço nas celas – que têm 17 homens em espaço para 4 – em uma delegacia de Palhoça, em Santa Catarina, mostram que o Brasil está muito longe de cumprir qualquer convenção internacional, embora tenha ratificado o tratado da ONU sobre tratamento de presos, de 1955.
O Brasil também é signatário da Convenção da ONU contra a Corrupção – precisa dizer mais? Se a ONU não criar mecanismos para garantir o cumprimento de tais tratados multilaterais, estes continuarão sendo para países como o Brasil só mais um instrumento de propaganda internacional. Internamente, não cumprem a lição de casa.
ARQUIVO MORTO
A ONU possui, hoje, mais de 500 tratados multilaterais de maior relevância, sobre Direitos Humanos, Desarmamento, Refugiados, Meio Ambiente, entre outros. Desde 1946, os tratados da ONU somam 158 mil, documentados em 2.200 volumes aos quais se pode ter acesso na biblioteca da sede da organização em Nova York. Traçam os progressos feitos no entendimento comum entre as nações sobre aquilo que é de direito de todos e necessário para a nossa evolução, mas sem o seu cumprimento pelos países, não passam de uma papelada sem fim.
Os jornais noticiam hoje a entrada do Brasil para o grupo de países desenvolvidos no ranking organizado pelas Nações Unidas com base no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), indicador que reúne dados de renda, educação e saúde. Não quero ser uma estraga prazeres, mas algumas considerações precisam ser feitas.
A posição brasileira em relação aos demais países foi alavancada, principalmente, pela renda, medida pelo PIB per capita – ou seja, o total de dinheiro dividido pelo número de brasileiros. Como se dá essa distribuição de renda, no entanto, o índice não revela. E, portanto, oculta o pior problema do País: a desigualdade.
Os benefícios do Bolsa Família, lembrado por Lula e pelo próprio Kevin Watkins, coordenador do estudo, poderiam ser captados no índice por seus efeitos, digamos, colaterais – com mais dinheiro, acredita-se, a população pobre tem mais acesso a educação e saúde. Mas nestes o Brasil não avançou. Na saúde, a aparente melhora é explicada por uma atualização na expectativa de vida de 62 países sob impacto da Aids. Esta revisão beneficiou o Brasil, cuja melhora efetiva foi de apenas dois meses na expectativa de vida. Na educação, o País ficou na mesma – o indicador inclui taxa de matrícula e de alfabetização de adultos.
Em termos relativos, o Brasil caiu uma posição no ranking de 177 países e territórios: de 69º, em 2006, para 70º este ano – foi ultrapassado por Albânia e Arábia Saudita que subiram, respectivamente, cinco e 15 posições. No conjunto de países latino-americanos – Argentina, Chile, Uruguai, Costa Rica, Cuba e México – o Brasil possui indicadores de desenvolvimento humano inferiores em quase todas as dimensões.
CAPITAL HUMANO
O IDH é o índice que mais se aproxima de mensurar o capital humano, a riqueza adquirida do conhecimento e da saúde, que pode até ser beneficiada por melhor renda, mas não necessariamente. Um tipo de riqueza da qual o Brasil ainda é muito carente.
Mulheres com os pés pintados de vermelho, representando sangue, marcharam pela cidade de Sevilha, na Espanha, no Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher. Foto: Eduardo Abad/AP.
Na semana passada, tivemos dois episódios emblemáticos de violência contra a mulher. Na segunda-feira, o jovem Gilmar, de 23 anos, matou a namorada, Evellyn, de 18, após mantê-la como refém algemada a ele por 12 horas na farmácia onde ela trabalhava, em Praia Grande. Em seguida, se matou. Na quarta, veio à tona o caso de L., de 15 anos, presa em cela com 20 homens adultos em Abaetuba, no Pará. Duas tragédias.
A matéria que publiquei no Estado foi criticada, em carta, por uma socióloga, segundo a qual eu estaria “justificando” a morte de Evellyn, por fazer um relato do ponto de vista do assassino. Pelo contrário. Primeiro, entender a mente do criminoso ajuda a compreender o crime. Segundo, o perfil de Gilmar, como me fora relatado por vizinhos, amigos e familiares de ambos – um jovem comum, trabalhador, torcedor do São Paulo, que gostava de pescar e parecia tranqüilo – foi para mim uma surpresa e mostrá-lo, além de ser obrigação, coloca em cheque o mito de que o crime passional é cometido exclusivamente por homens com histórico de violência.
Além de não ser verdade neste caso e de, ainda que fosse, não justificar o injustificável, muitas vezes essa versão coloca sobre a vítima o peso de não ter se livrado antes do algoz. Isso sim, seria uma visão machista.
Às vezes penso que Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, se diverte com as provocações que faz ao arqui-rival americano George W. Bush. A última do líder iraniano, publicada hoje no The Guardian, foi declarar, em discurso, que se ofereceria como fiscal nas eleições americanas do ano que vem. Muitos acreditam que Ahmadinejad só faz isso para ganhar popularidade. Mas os iranianos já não estão achando graça.
Quando estive lá, em julho, clérigos haviam publicado no jornal governista Al Jamhuri Islami uma carta aberta ao presidente em que diziam reconhecer seus esforços pelo direito do Irã de desenvolver energia nuclear. Mas questionavam o estilo provocador do presidente. Segundo os críticos, suas palavras só fazem “aumentar a pressão internacional” sobre o país. E foram além: “A forma com que o debate nuclear tem sido apresentado pode dar a impressão de que o senhor está exagerando a importância do assunto com o objetivo de divergir a atenção do público das falhas de seu governo”, dizia a carta. Foi a crítica mais dura de religiosos linha-dura e pró-governo contra Ahmadinejad, que também não achou graça.
Depois da ascensão dos governos de esquerda na América Latina, muitos dos quais eleitos com base em discursos nacionalistas, pela independência da região e anti-imperialismo americano – a Venezuela de Hugo Chávez, a Bolívia de Evo Morales e o Equador de Rafael Correa são apenas alguns exemplos – ontem foi a vez dos australianos irem às urnas para votar contra Bush. O fracasso do presidente americano – com uma economia desacelerada, o beco sem saída em que se viu diante do aumento da pressão internacional por medidas contra o aquecimento global e o vexame da guerra no Iraque – vem ajudando (e muito!) justamente seus desafetos, agora até do outro lado do mundo e num país tradicionalmente aliado.
Kevin Rudd, do Partido Trabalhista, foi eleito – após 11 anos do governo conservador – com promessas de tirar os 500 soldados australianos do Iraque, ratificar o protocolo de Kyoto e tornar-se mais independente dos Estados Unidos, aproximando-se de outros mercados como a China. A derrota dos liberais, com tamanha vantagem, surpreendeu os conservadores. De acordo com a Comissão Eleitoral, o Partido Trabalhista australiano levará 83 dos 150 assentos no Parlamento – 23 a mais do que nas últimas eleições – enquanto aos liberais restará 48 assentos – 74 a menos. Até esse posting ser colocado no ar, sete assentos continuvam indefinidos, inclusive o do derrotado John Howard.
Nas urnas, Howard tinha em seu favor uma economia estável e boas taxas de emprego, mas perdeu a confiança dos eleitores graças a um ditado popular: “diga-me com quem andas e te direi quem és”.
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No mais, peço desculpas pela longa ausência. E vamos em frente!
Fiquei longe do blog por alguns dias, em grande parte por falta de tempo, mas também graças a um inevitável período de introspecção que me acomete após cada viagem. Resultado de um choque de cultura que, acredito, todo mundo tem, em menor ou maior escala (no meu caso, muito maior), ao ser submetido a um turbilhão de informações e experiências novas. Fui ao Irã conhecendo muito pouco sobre o país e voltei com a sensação de saber menos ainda.
Por isso, nas últimas semanas, mergulhei em livros na tentativa de encontrar respostas aos tantos questionamentos que trouxe sobre uma sociedade tão complexa. Assim como uma grávida lê tudo o que chega às suas mãos sobre bebês e assuntos relacionados, eu já havia, nos meses de gestação dessa viagem, lido muito sobre Irã. Mas, assim como dizem sobre ter filhos, ‘nunca se está preparado para uma experiência como essa’. Nunca se está preparado para um país como o Irã.
Na volta, tive uma espécie de depressão pós-parto, com o nascimento à minha frente de um outro mundo, que eu antes desconhecia. “Não existe ‘outro mundo’. Só conheço aquele que experienciei”, escreveu Jalal Al-Din Rumi, o poeta persa. Por isso, viajar para ‘novos’ mundos, seja fisicamente ou através dos livros, é tão importante para que se possa expandir o ‘seu’ próprio mundo. Passada a fase da introspecção, volto a este blog mais feliz por ‘meu’ mundo agora incluir uma certa Pérsia, antes inexistente para mim.
PARA SABER MAIS
Iran Awakening (sem tradução para o português), da iraniana Nobel da Paz 2003, Shirin Ebadi, um dos mais completos e impressionantes relatos sobre a história recente no Irã, mesclando a própria vida de Shirin com os acontecimentos no país.
Iran, The essencial guide to a country on the brick (sem tradução para o português), da Enciclopédia Britânica
Lendo Lolita em Teerã, da iraniana Azar Nafisi, professora de literatura que criou um círculo literário em sua casa, após ser expulsa da universidade e em uma época em que os livros estrangeiros, principalmente, americanos e ingleses foram banidos das salas de aulas, livrarias e bibliotecas. Além de comparações impensáveis entre personagens dos livros e da sociedade iraniana pós-Revolução Islâmica, Azar faz uma declaração de amor à leitura.
Iran, da Lonely Planet, um guia de viagem que, além de ser o mais completo que encontrei, traz muito sobre a história e a cultura iraniana
Persépolis, livro de história em quadrinhos, de Marjane Satrapi
Livros indicados por leitores:
Criação, de Gore Vidal. Ciro, o protagonista, é neto do profeta Zoroastro (fundador do zoroastrismo, religião monoteísta da antiga Pérsia que alguns historiadores acreditam ter influenciado o judaísmo, o cristianismo e o islã) e sai em busca de respostas sobre a origem do mundo.
Livro Verde dos Princípios Políticos, do líder da Revolução Islâmica, aiatolá Khomeini
Descobrindo o Irã, de Ivonete Pinto
A Conferência dos Pássaros, de Fariddudine Attar, com duas traduções em lígnua portuguesa, uma editada pela Cultrix/Pensamento e outra pelas Edições Dervish.
Poesia
Jalal Al-Din Rumi (poesia) – existem diversas coletâneas de poesias de Rumi, traduzidas para o inglês e algumas para o português. O site britânico www.rumi.org.uk é um bom começo.
Jami e Hafez (ou Hafiz) são outros dois poetas persas indispensáveis, mas não encontrei livros deles por aqui. Na Internet, existem diversos sites com suas obras.
Notícias na Internet*:
Tehran Times, publicado por um órgão do governo
Iran Daily, publicado pela agência oficial de notícias Irna
Jamejan Online, diário governista
Iran News Daily
Iran Focus
Mehr News
Islamic Republic News Agency
Iranian Students News Agency
Farsi News, ligada ao judiciário
Press TV, rede de televisão e Internet financiada pelo governo
* Muitos jornais reformistas foram fechados ou não têm site em inglês
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Revendo fotos e anotações, separei mais algumas outras informações que gostaria de compartilhar, terminando assim (finalmente, tenho certeza que muitos irão pensar) a série de postings sobre a viagem.
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QUEM TEM MEDO DE SHIRIN EBADI?

Em minha passagem pelo irã, entrevistei a Prêmio Nobel da Paz 2003 Shirin Ebadi, que dedicou a vida à defesa dos direitos das mulheres e de perseguidos políticos. Seus clientes mais recentes incluem Haleh Esfandiari, iraniana de 67 anos que vive nos Estados Unidos e visitava a mãe em Teerã quando teve seus documentos roubados e, posteriormente, foi presa e mantida em uma solitária por 110 dias até ser solta em 21 de agosto. Esfandiari dirige o departamento de Oriente Médio do Woodrow Wilson International Center, em Washington, e foi acusada de espionagem.
Ebadi também defendeu a família da jornalista canadense de origem iraniana Zahra Kazemi, morta quando estava sob custódia da polícia do Irã, em 2003. O caso continua em andamneto. Jurista islâmica, Ebadi utiliza a mesma arma dos aiatolás para basear suas defesas: o Alcorão. Ela argumenta que existem interpretações mais justas e menos discriminatórias do livro sagrado do que aquelas utilizadas como base da jurisprudência iraniana. “O islã, assim como qualquer outra religião, está sujeito a diferentes interpretações”, diz.
Com base nisso, ela encabeçou uma campanha para recolher 1 milhão de assinaturas pedindo mudanças na legislação do país em favor das mulheres. Leia aqui a entrevista que fiz com Shirin Ebadi.
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BIG BROTHER
Não foi a minha primeira viagem a um país islâmico, mas, sim, a primeira a um estado teocrático, em que as leis de Deus comandam, de fato, cada aspecto do cotidiano. Principalmente para as mulheres, o controle dos basidjsi, a polícia da moral, é intimidadora. Cheguei a ver uma garota ser presa, diga-se, por uma policial mulher, por estar com roupas extravagantes para os padrões locais, véu muito colorido, maquiagem carregada e unhas longas e pintadas. Como eu também não me encaixava aos padrões, apesar do esforço de não ofender os ditames locais, a polícia muitas vezes se aproximava de mim e da tradutora, mas, ao perceber que falávamos outro idioma, nos deixavam em paz.
A certeza de estar sob constante vigilância, de fato, afeta os iranianos. Muitos dos que entrevistei tinham mais de um número de celular que, ao menor sinal de falha em uma ligação, acreditavam estar grampeados. Em público, não raro um entrevistado parava de falar e me levava para outro canto, sob a suspeita de que alguém nos observava com o intuito de ouvir a conversa, ainda que não estivesse falando nada comprometedor.
Por outro lado, os iranianos resolvem a questão com uma agitada vida social particular, em casa de amigos e parentes. São um povo tão hospitaleiro e carinhoso quanto os brasileiros. Basta ser apresentado por um conhecido, e te convidam para jantar ou para as animadas festas caseiras. Qualquer lugar que se vai, te oferecem um delicioso chá, preferência nacional!
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BIG BROTHER 2
Nesses dias de pausa do blog, recebi o seguinte e-mail de um amigo suiço, recentemente transferido para trabalhar em uma organização internacional em Teerã: “A cada dia, mais e mais, me dou conta de como é difícil viver aqui, especialmente se você quer ou tem de – não é exatamente uma escolha – ter amigos. É uma loucura a forma com que interferem em sua vida privada – a atmosfera de suspeita realmente afeta as pessoas. Portanto, não estou muito feliz esses dias.”
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MULHERES PARA CÁ, HOMENS PARA LÁ
Muitos me perguntaram sobre como é a convivência entre homens e mulheres em locais públicos. Bem… as iranianas freqüentam academias, tomam sol nas piscinas públicas de Teerã e banho de mar nas lindas praias do Golfo Pérsico, mas, jamais com um amigo do sexo oposto. Todos esses locais são segregados. E, ao viajar com um amigo, nem pense em dividir um quarto. As autoridades exigem a certidão de casamento até mesmo dos estrangeiros.
As meninas da foto acima estão cometendo uma transgressão. No papel pregado no colorido painel que divide a lanchonete da Universidade de Teerã, está escrito algo como “ala para homens”. Alunas adeptas do chador e, portanto, mais conservadoras e religiosas, ficam escondidas do lado de lá do painel, longe dos olhares masculinos.
Depois de levar broncas da tradutora, desisti do costume brasileiro de dar dois beijinhos nas bochechas daqueles a quem eu era apresentada, ao que eles reagiam com um passo para traz, olhos arregalados e o braço estendido a me oferecer apenas as pontas dos dedos (e olhe lá!) para um tímido aperto de mão, o que aliás, tem de ser iniciativa do homem ou também pode ser considerado ofensivo. É claro que nem todos os jovens seguem a regra, mas, ela existe e é de bom tom que seja seguida.
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PELOS CAMINHOS DA PÉRSIA
Viajar por terras iranianas é uma aventura à parte, a começar pelos divertidos ônibus operados pelas companhias rodoviárias.
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Têm ar condicionado, serviço de bordo e DVD. Entre Teerã e Isfahan, viajei assistindo a um filme sobre uma mulher que era enganada por dois impostores: o primeiro, dizendo-se apaixonado, conseguiu se casar com a moça para, após consumado o matrimônio, transformar-se em um homem violento, dando espaço para que ela o traísse com o segundo, que lhe oferecia um ombro amigo para chorar. Depois, os impostores usavam a traição para chantageá-la, já que o adultério pode ser punido com a pena de morte no Irã. Achei o filme até bem moderninho para os padrões locais, embora, traga embutida no roteiro, uma espécie de ‘lição moral’ à adúltera, que, apesar de ser a vítima da história, só se dá mal. Aliás, não tem final feliz para ninguém no filme.
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A modernidade que se vê em Teerã é apenas uma das facetas de um Irã complexo, como bem lembrou um leitor. Isso fica evidente ao se afastar alguns quilômetros da capital, Teerã, e ver a enorme profusão de iranianas cobertas com o negro chador dominar o cenário da religiosa Qon ou da turística Isfahan. Desavisada e sob um calor de quase 50 graus, fiz as malas para viajar como quem vai para praia: roupas leves e de cores claras. Não consegui dar dois passos, sem que me dirigissem um olhar reprovador.
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Mas, a viagem vale muito a pena. Isfahan é daquelas cidades tão espetacularmente lindas quanto inesquecíveis. Uma espécie de museu da arquitetura islâmica, a céu aberto.
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UM MUSEU A CÉU ABERTO
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Turistas, vindos de todo o País, refrescam-se pertinho das inúmeras fontes e espelhos d’água, fazem piquenique nos gramados e divertem-se em passeios de charrete.
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Longe do barulho, alguns se refugiam nos jardins internos das mesquitas.
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PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE
Isfahan tem, pelo menos, dois monumentos considerados pela Unesco como Patrimônio da Humanidade:
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Mesquita Jame
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UM PASSEIO PELOS MERCADOS PERSAS
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Isfahan é também o melhor lugar para se comprar objetos de arte persa e especiarias. A cidade tem um mercadão, onde os moradores fazem compras cotidianas, e um imenso bazar de objetos de arte, igualmente interessantes.
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Entre maravilhosos vasos, que reproduzem os mosaicos presentes na arquitetura, há ainda jogos de chá em vidros trabalhados, douradas luminárias e, é claro, os típicos tapetes iranianos.
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TAPETES VOADORES
Os mercadores fazem de tudo para vender. Na foto abaixo, se lê: “tapetes voadores”.
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SADDAM HUSSEIN NÃO MORREU?
Se eu não tivesse assistido ao horroroso vídeo do enforcamento do ditador iraquiano Saddan Hussein, poderia garantir que cruzei com ele passeando em um dos mercadões de Isfahan.

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A PONTE DO AMOR
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Isfahan também tem uma das mais antigas e preservadas pontes da Pérsia. É linda, formada por arcos, onde os casais sentam para ver a paisagem. Também é intenso o movimento de garotos e garotas, para lá e para cá, trocando olhares e sorrisos – e só. Isfahan é muito conservadora.
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Casais ‘oficiais’ preferem namorar longe do olhar público, em pedalinhos que podem ser alugados.

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SAUDADES DE TEERÃ
Confesso ter ficado com saudades da ‘liberal’ Teerã, sensação compartilhada com a tradutora, uma alegre jovem de classe média, em seu tênis cor-de-rosa que quebrava a sisudez dos trajes negros conservadores. “É bom voltar para ‘casa’”.
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No caminho de volta, a paisagem desértica, pontuada por uma ou outra mesquita. Postos de gasolina e lanchonetes à beira da estrada também oferecem uma sala para a reza.
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KHODA HAFEZ!
As minhas últimas horas em Teerã foram em algum ponto das imponentes montanhas de Darban, onde iranianos se reúnem para assistir ao pôr-do-sol, fazer piquenique, saborear comidas típicas nas inúmeras barraquinhas ao longo do íngreme e estreito caminho…

…tomar um chá e fumar os tradicionais cachimbos d’água nos vários bares e restaurantes decorados com tapetes persas sobre os quais famílias e jovens se reúnem sentados em círculos. Do alto das montanhas, tem-se a melhor vista de Teerã e são essas as últimas cenas que guardo da cidade.
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Khoda Hafez (Adeus), Irã!
Achei interessante como o idioma farsi, ou persa, falado no Irã, diz (literalmente!) muito sobre a localização geográfica do País. Escrito, parece com o árabe, do qual utiliza uma versão do alfabeto, mas soa como uma mistura de hindu e chinês. Quem tiver curiosidade de ouvir um pouquinho do idioma, pode entrar na página de notícias em persa da BBC. Tashakkor (obrigada)!
O farsi é o 28º idioma mais falado do mundo, mas está entre os dez mais utilizados na blogsfera, que já tem 70 mil blogs iranianos.
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Fim de semana no Irã é quinta e sexta-feira. Ao cair da tarde, o movimento de carros é intenso na Rua Jordan – a versão iraniana da paulistana Rua Augusta – e seus arredores, em Valiasr, o bairro mais chique de Teerã. Jovens sobem e descem as ladeiras, bem devagarinho, trocando rapidamente números de celular para paquerar por mensagens, longe do olhar da polícia. Alguns estacionam e trocam recadinhos a poucos metros de distância.

Ao som de música iraniana, garantido pelo sanfoneiro Saeid, e ao sabor de romã, a fruta nacional vendida em barraquinhas, símbolo de paixão e fecundidade – algo como a nossa maçã do amor – o clima de romance paira no ar.

De longe, eu tentava adivinhar quem estava paquerando quem. Mas, como as investidas não terminam em namoro – pelo menos, não em público, já que a troca de carinho à vista é recriminada – fiquei sem saber se a minha intuição de cupido estava certa ou não. No Irã, não existe “ficar”. É casar ou largar!
Leia aqui o Dossiê Irã

No Shopping Safavieh, no bairro de Valiasr, onde vive a classe média alta sofisticada da capital iraniana, passo por vitrines que exibem as mais famosas marcas internacionais, como Gucci, Versace e Dolce & Gabbana, até chegar à loja de Amir, o vendedor de véus, numa galeria vizinha chamada Ghaem. Ele diz que as vendas caíram 30% no primeiro semestre e que, com o aumento do cerco da política contra as jovens mais modernas e ousadas, está difícil vender os modelos mais coloridos, alguns bordados à mão, que ele retira da prateleira para me mostrar. Levo um deles, na cor azul. Ao chegar em casa, por curiosidade, leio a etiqueta de pano presa ao tecido: “Made in Índia”.
Com o aumento dos gastos públicos e o crescimento da inflação, oficialmente, em 12% ao mês, embora especialistas acreditem ser muito mais, o Irã enfrenta problemas econômicos, apesar dos ganhos com petróleo. Ao mesmo tempo, as sanções aplicadas por países do Ocidente, em reação ao programa nuclear iraniano, fizeram com que o País intensificasse acordos comerciais com os asiáticos China, Índia e Paquistão. Ficam ali pertinho, o que diminui os custos da importação. Daí a dificuldade de encontrar produtos iranianos.
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