Nessa quarta e quinta-feira, quando acontecem a semi-final e a final do boxe feminino, a última barreira olímpica para as mulheres será quebrada. Londres será a primeira Olimpíada com atletas mulheres em todos os esportes, um marco histórico. Os homens dominaram os Jogos desde o início em 1896. Por muito tempo, a única forma das mulheres competirem era inscrever seus cavalos para as provas equestres.
A primeira Olimpíada a ter mulheres foi a de Paris, em 1900, mas apenas no tênis e golfe. Em 1912 elas foram aceitas na natação, mas nenhuma atleta americana participou, porque a América, curiosamente, não permitia que competissem de pernas de fora. Era a Arábia Saudita de hoje, que quase deixou de fora duas atletas por proibir que disputassem as provas com os cabelos descobertos – o Comitê Olímpico Internacional acabou cedendo e a judoca da equipe lutou com uma espécie de touca no lugar do hejab (véu islâmico). Em 1928, elas ingressaram no atletismo. Porém, como muitas não conseguiram terminar a prova dos 800 metros, o esporte foi considerado inadequado para a capacidade física feminina, e a modalidade só voltou a ter mulheres nos anos 1960. No tiro, só em 1984, e foram banidas da prova de levantamento de peso até os anos 2000.
O boxe feminino era a última barreira para elas, vencida este ano. Também pela vez, em Londres, todas as 205 delegações têm representantes mulheres. Depois de forte pressão da comunidade internacional, o Qatar, Brunei e a já citada Arábia Saudita permitiram sua participação. Na semana passada, quando a saudita Wojdan Ali Seraj Abdulrahim Shahrkhani estreou no tatame publiquei matéria dando os números: em 2012, dos 10,5 mil atletas, elas são 4.862 ou quase a metade. Também pela primeira vez na história, os dois líderes no ranking de medalhas olímpicas, EUA e China, têm mais mulheres do que homens em seus quadros, assim como em outras 29 delegações, segundo levantamento feito pelo Estado. Há menos de duas décadas, na Olimpíada de Atlanta, pelo menos 26 países não tinham mulheres em suas equipes. Em Londres, entre os países com maioria feminina, pelo menos três são predominantemente muçulmanos.
Leia mais: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,muculmanas-ganham-voz,910303,0.htm
A Olimpíada pode mudar uma cidade? Há um ano, Londres enfrentava o início de uma onda de violência que deixou 5 mortos e dezenas de feridos; lojas foram saqueadas, casas e carros queimados estamparam as capas dos principais jornais do mundo. Começou com um protesto pacífico contra a morte de um morador negro de Tottenham, bairro pobre no norte da cidade, mas explodiu e se espalhou até os muros do Parque Olímpico em Hackney, no leste. A face dos protestos era de jovens - dos 3 mil presos, pelo menos a metade tinha menos de 21 anos. Tão jovens quanto muitos dos 70 mil voluntários que agora recebem gentilmente os visitantes e ajudam a fazer acontecer os Jogos. Há um ano, a polícia reagiu duramente para controlar os manifestantes. A mesma polícia que agora circula calmamente pelas sedes olímpicas e arredores, sorri aos que passam e deixa até que brinquem com seus cães farejadores. Há um ano, o país temia estar diante de uma sociedade fraturada. Agora se une no patriotismo reavivado com as medalhas dos ateltas britânicos.
Vivendo seu momento de glória, o prefeito de Londres disse hoje que “a Olimpíada está dando uma lição aos manifestantes: a de que esforço e conquista estão conectados”. Muitos dos jovens que foram presos nos protestos do ano passado tinham passagem pela polícia, a maioria estava desempregada, realidade de um em cada quatro londrinos entre 18 e 24 anos. Em um giro por Hackney, os moradores me diziam que as ruas estão mais tranquilas, mas eles acreditam que isso se deve apenas à presença ostensiva da polícia e do Exército durante a Olimpíada – há, aliás, mais forças de segurança britânicas em Londres para os Jogos do que no Afeganistão. ”Sob a superfície brilhosa da Olimpíada, muitos temem que as causas da onda de violência permanecem”, escreveu uma moradora de Hackney em carta ao Financial Times. Apesar da renovação da área para receber o Parque Olímpico, ela lembra que o bairro segue sendo o sexto mais pobre do país e tem o segundo maior número de pessoas pedindo seguro-desemprego, atrás apenas do vizinho Newham.
O tema dessa Olimpíada é: Inspire uma geração. Apesar da euforia dos últimos dias de ouro para o esporte britânico, talvez seja preciso mais do que medalhas. O próprio Johnson acredita no efeito inspirador dos medalhistas, mas admitiu: “Uma Olimpíada não resolve tudo”.
Com o veloz avanço da tecnologia, estabelecer os limites do que pode ou não ser considerado doping tecnológico é o grande desafio do esporte moderno. A Nike afirma que seu novo uniforme, trazido para a Olimpíada de Londres, pode reduzir o tempo da corrida de 100 metros em 0,023 segundos. Tivesse sido usado nos Jogos de Pequim, teria sido suficiente para dar ao americano Walter Dix a medalha de prata, em vez do bronze que ganhou.
Dix terminou a prova exatos 0,020 segundos atrás do segundo lugar, Richard Thompson, de Trinidad e Tobago. O uniforme, chamado Turbospeed, tem o design inspirado em uma bola de golfe. “Nós sempre achamos que as superfícies lisas significavam maior velocidade, mas se você olhar para uma bola de golfe perceberá que é cheia de cavidades”, disse ao Estado o designer Martin Lotti, diretor global de criatividade da Nike.
Cavidades similares foram aplicadas no tecido que cobre os braços e pernas dos atletas. “Quando recebemos os resultados de performance, não acreditamos, não podia ser verdade”, disse Lotti. E destaca: “A diferença pode significar chegar ou não ao pódio”.
O uniforme foi aprovado pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e está sendo usado nos Jogos de Londres pelas equipes de atletismo de 20 países.
A vantagem na performance dos atletas foi, no entanto, o que fez os maiôs da Speedo, usados pela natação em Pequim, serem vetados este ano. A Fina, federação mundial de natação, considerou que a tecnologia dos maiôs correspondia a um doping.
Para Londres, a Speedo criou um sistema hidrodinâmico que incluiu, além do maiô, os óculos de natação e a touca. Juntos, os três reduziriam em 16,6% a resistência que retarda o deslizamento do corpo do nadador na água e em 5,2% a resistência criada pelas ondas que o atleta forma quando nada. O sistema foi inspirado na aerodinâmica dos carros de Formula 1.
Esta é a Olimpíada delas. Pela primeira vez na história dos Jogos, todos os esportes têm modalidades femininas e todas as delegações dos 205 países participantes têm mulheres competindo em Londres. Dos 10,5 mil atletas, elas são 4.862 ou quase a metade. Também pela primeira vez na história, os dois líderes no ranking de medalhas olímpicas, EUA e China, têm mais mulheres do que homens em seus quadros.
Levantamento feito pelo Estado aponta que elas competem em maior número em 31 delegações – há menos de duas décadas, na Olimpíada de Atlanta, 26 países não tinham mulheres em suas equipes. Em Londres, entre os países com maioria feminina, pelo menos três são predominantemente muçulmanos. É pouco, mas ainda assim um avanço, principalmente diante da polêmica em torno do uso do véu islâmico, o hijab, que quase deixou duas atletas da Arábia Saudita fora da Olimpíada de 2012.
Com os cabelos cobertos, concessão do Comitê Olímpico Internacional, a judoca Wojdan Ali Seraj Abdulrahim Shahrkhani, estreia hoje no tatame (veja na página 4). Sua participação marca o derradeiro obstáculo para as mulheres em Olimpíadas, com a Arábia Saudita tornando-se o último país que faltava a aceitá-las, cedendo a uma forte pressão da comunidade internacional. Antes disso, Catar e Brunei já haviam anunciado que mandariam mulheres pela primeira vez.
Além da judoca, Sarah Attar defenderá a bandeira da Arábia Saudita na corrida de 800 metros no atletismo. É um feito e tanto. Até os Jogos de Los Angeles em 1984, as mulheres não podiam participar da corrida de maratona.
Mas as sauditas não são as únicas a fazer história nessa Olimpíada. A dupla feminina Heather Stanning e Helen Glover levou o primeiro ouro da Grã-Bretanha nos Jogos. Foram as primeiras britânicas a levar ouro no remo. O fim do jejum de medalhas para o país-sede nos Jogos Olímpicos também veio com a ajuda de outra mulher, Elizabeth Armitstead, prata no ciclismo de estrada.
Na primeira Olimpíada sediada em Londres, em 1908, o feito seria improvável – havia apenas 37 mulheres nas delegações de todos os países competidores ou 1% do que há agora. Ao lado da sustentabilidade, a igualdade de gênero foi destacada pelo Comitê Olímpico Internacional como marca dos Jogos de 2012, o que o presidente da entidade, Jacques Rogge, fez questão de ressaltar em seu discurso na cerimônia de abertura.
Apesar disso, a ciclista britânica Elizabeth saiu em defesa de maiores avanços para as mulheres nos esportes logo após ganhar a medalha. “Sexismo ainda é um grande problema. As mulheres não têm os mesmos incentivos que os homens, as mesmas chances ou valores iguais de patrocínio”, disse. É essa a bandeira que pretende levantar com a visibilidade que ganhou juntamente com a medalha nos Jogos de Londres. Para elas, Londres é só o começo.
Por um momento, a impressão é de ter chegado a outra parte do mundo via Edgware Road, uma extensa avenida a oeste do centro de Londres. Placas em árabe, o idioma falado nas redondezas, anunciam restaurantes libaneses, lojas de narguilé, o café Halal, o Sid Marouf. Não há sinais óbvios de Olimpíada. Mas basta percorrer as mesas para perceber os Jogos na conversa das mulheres. Imigrantes de todo o Oriente Médio e norte da África, farão coro hoje na torcida pela judoca saudita Wojdan Ali Seraj Abdulrahim Shahrkhani, que estreia no tatame após longa batalha.
Apenas 15 dias antes do início dos Jogos, a Arábia Saudita deu o aval para a participação de duas atletas mulheres. Não permitiria, porém, que a judoca Wodjan lutasse sem o hijab, o véu islâmico, como exigia insistentemente o Comitê Olímpico Internacional (COI). Na terça-feira, o COI cedeu, alegando “sensibilidade cultural”.
Há 4 milhões de muçulmanos na Inglaterra, a metade deles em Londres. Somam um quarto da população da cidade, público que não podia ser ignorado nos Jogos. Para a ala feminina, a decisão representou mais do que uma vitória do esporte, mas a autoafirmação das mulheres muçulmanas, representadas por Wojdan hoje.
“A Arábia Saudita ainda é um dos países mais fechados do Oriente Médio, onde as mulheres têm muito a conquistar. A participação da judoca num evento de repercussão mundial como este representa uma quebra de paradigma”, diz a marroquina Zaina, sem véu, ao lado da amiga iraquiana Dina, com os cabelos cobertos com o hijab. Ambas têm 39 anos e são funcionárias de um banco da região.
Elas dizem não entender a polêmica. “As outras delegações não puderam escolher seus uniformes? Qual a diferença do véu para um outro acessório qualquer?”, questionam.
ESCOLHA PRÓPRIA
Para Zaina e Dina, tanto a Arábia Saudita quanto o COI estavam errados. “O que está em questão é a escolha. Nós fizemos a nossa. Eu uso o véu, ela não, e somos amigas”, ressalta Dina. “Quem deveria escolher o que usar e o risco a correr é a judoca.
Coberta de negro dos pés à cabeça, Nora Al-Akhab, de 38 anos, nascida nos Emirados Árabes Unidos, também defende que seja uma escolha, mas acredita que quanto mais mulheres participarem da sociedade sob o hijab, mais os países conservadores perceberão que a igualdade de gênero não é uma ameaça à religião.
A estudante Lamah, do Iraque, concorda. “O véu nos identifica facilmente. E é bom que o mundo, e os países que ainda usam a religião erroneamente para manter as mulheres longe da escola, do mercado de trabalho, dos esportes, vejam que o Islã não é impedimento para nada disso.” Para ela, Wojdan estará carregando a bandeira da igualdade das mulheres muçulmanas com o véu. “É o que nos une como identidade. E espero vê-la no pódio, orgulhosa sob o hijab. Inshallah.”
Para quem não entendeu o que eu estava fazendo em Cabul, quando aconteceram os ataques coordenados em Cabul e outras três províncias, a maior ofensiva da insurgêncua desde o início da guerra, explico: durante o Spring break (férias de Primavera) da Universidade de Oxford, onde estou em um período sabático, decidi voltar ao Afeganistão. Em parte, porque o tema da minha pesquisa para o Reuters Institute for the Study of Journalism tem como tema a cobertura da guerra pela imprensa afegã, que praticamente não existia durante o regime Talibã e os períodos anteriores de conflitos, e floresceu nos últimos dez anos. Em parte, para pesquisar para um novo livro, sobre o qual não posso revelar muito pois é ainda embrionário. Em parte, porque sempre que vou embora do Afeganistão, a sensação é de ter deixado para trás muitas histórias, muita gente que merecia ser ouvida, muitas coisas a entender. Assim, em minha terceira viagem ao país, passei 25 dias morando com uma família no bairro de Carte-Char, subúrbio de Cabul, entre curtas viagens como a travessia do lendário Salang Pass, única rota que liga o sul ao norte do país por terra.
Nesse sabático, estou fazendo mais coisas do que nunca, graças à pesquisa e aos muitos seminários e eventos que temos na Universidade de Oxford. Não dá para não aproveitar o privilégio de ter por perto Tariq Ramadan, um dos maiores acadêmicos do Islã, neto do fundador da Irmandade Muçulmana, Hassan al Banna; ou Richard Caplan, um especialista em gerenciamento de conflitos e na construção de Estados no pós-guerra; ou ainda Robert Service, historiador sobre a Rússia e biógrafo de Lenin, Stalin e Trotsky. Só para citar alguns.
Mas prometo voltar ao blog com relatos da viagem assim que possível.
Por enquanto, divido com vocês as matérias que fiz nessa pausa da universidade, meu “Spring break” em Cabul.
Até!
Em entrevista ao ‘Estado’, Sayed Mohamed Akbar Agha diz que figura de Bin Laden ainda inspira militantes
ADRIANA CARRANCA , ENVIADA ESPECIAL / CABUL – O Estado de S.Paulo

No caminho de um sargento em fúria, a família de Wazir
Foto rende prêmio e sofrimento ao autor
Afegão ganhador da principal premiação do jornalismo mundial relata drama ao ‘Estado’
ADRIANA CARRANCA , ENVIADA ESPECIAL / CABUL – O Estado de S.Paulo
Massoud Hossaini mostra as cicatrizes que o atentado deixou em sua mão esquerda. Ele ainda não recuperou totalmente os movimentos, dobra os dedos com dificuldade. Até hoje se pergunta por que sobreviveu quando 70 pessoas morreram a poucos metros dele.
Ferido, clicou com a mão direita a imagem do terror estampado no rosto de uma menina segundos após a explosão durante uma celebração xiita em Cabul, capital afegã; o contraste do sangue no vestido verde, a expressão de choque e desespero em seus olhos, o grito nos lábios, as mãos estendidas para uma pilha de mortos, entre eles sete pessoas da sua família. A fotografia levou o Prêmio Pulitzer, anunciado há uma semana, convertendo Hossaini no primeiro afegão a vencer o mais prestigiado prêmio de jornalismo do mundo.
“Foi o momento mais assustador de minha vida”, disse ao Estado durante um encontro no Wakhan Café, em Cabul, pouco depois de saber da premiação.
Disparos varam a madrugada em Cabul
Após dia da maior ofensiva do Taleban desde 2001, Afeganistão conta 52 mortos
Adriana Carranca, Enviada Especial – O Estado de S.Paulo
CABUL – Cabul viveu ontem a madrugada mais violenta desde o início da guerra, em 2001. Após o domingo de combates, a capital afegã transformou-se em campo de batalha. Explosões e disparos de artilharia pesada foram ouvidos durante a noite em duas áreas: Wazir Akba Khan, bairro mais rico e vigiado da cidade, que abriga embaixadas, prédios do governo e o palácio presidencial, e as imediações da Avenida Darul Aman, onde está o Parlamento.
Jovens brasileiros escapam de ataque em Cabul
Escola internacional é sitiada durante ofensiva do Taleban e adolescentes ficam quase três horas isolados na capital afegã
ADRIANA CARRANCA, ENVIADA ESPECIAL / CABUL – O Estado de S.Paulo
“Mãe, minha escola está sitiada”, dizia o recado que Isac enviou à mãe, por mensagem de celular, pouco depois do início da ofensiva do Taleban. Ontem. Isac e o irmão, Natan Portes, estavam na escola quando ouviram o barulho da primeira explosão, um som mais familiar do que eles gostariam que fosse, após sete anos no Afeganistão.
O foguete atingira as proximidades do Parlamento, a apenas três quadras da International School of Kabul (ISK), onde eles estudam, e havia atiradores e homens-bomba nas imediações.
‘Uma explosão, um tremor e o alerta: a base está sob ataque’
Depoimento: Adriana Carranca
A reportagem do Estado fazia entrevistas no Centro de Treinamento Militar de Cabul (CTMC) quando o primeiro foguete foi lançado nas imediações do prédio – o foguete atingira a base da Força de Assistência de Segurança Internacional (Isaf, na sigla em inglês), na frente de onde estávamos, separados pela Avenida Jalalabad.
Era possível ver a tensão nos olhos dos cinco militares presentes na sala, mas ainda não se sabia o que estava acontecendo quando o major que nos acompanhava recebeu um telefonema: insurgentes haviam invadido prédios no centro da cidade e nas proximidades do palácio presidencial e do Parlamento. Cabul estava sob ataque. Todos saíram para o pátio.
Segundos depois, uma nova explosão, muito mais próxima, atingiu o muro do CTMC e pudemos ver a fumaça preta tomar o céu. O alvo era uma área residencial para famílias de militares afegãos, colada à academia. A sirene soou em toda a base confirmando o alerta: “Base sob ataque”.
Taleban lança a mais ousada série de ataques desde a invasão do Afeganistão
Adriana Carranca – enviada especial / Cabul
Uma série de ataques simultâneos atingiu ontem a capital do Afeganistão, Cabul, e pelo menos quatro províncias do país, na mais ousada ação do Taleban contra o governo afegão e as forças estrangeiras desde o início da guerra há mais de dez anos. Segundo o Ministério do Interior, 11 policiais e 26 insurgentes morreram e 36 pessoas ficaram feridas – a maioria civis.
Segundo o Taleban, os principais alvos da ofensiva terrorista eram as embaixadas da Alemanha, da Grã-Bretanha, dos EUA e a sede do comando da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O prédio do Parlamento foi sitiado por atiradores, que também teriam atacado o palácio presidencial. Houve troca de tiros entre os militantes e forças de segurança por mais de sete horas após o primeiro ataque.
Bombardeio é maior ofensiva do Taliban em Cabul desde o início da guerra
Direto de Cabul, a correspondente do Estadão, Adriana Carranca, narra o clima de tensão na Capital afegã.

SEGUNDA-FEIRA
2:47 – Os helicópteros deixaram a área e o confronto parecia ter findado. Houve um intervalo de silêncio até os insurgentes retomarem os ataques. Acabo de ouvir três explosões na área, e mais tiros; os helicópteros das forças afegãs estão de volta.
2:16 – Talibã declara: “nossos soldados vão lutar até morrer”. Nos prédios invadidos e depois retomados, as forças afegãs dizem ter encontrado quilos de castanhas e energéticos deixados para trás pelos insurgentes.
1:52 – O confronto entre os insurgentes e as forças afegãs invade a noite. Não consigo dormir com o som de tiros; duas bombas explodiram há pouco. Helicópters sobrevoam a área da casa de família onde estou hospedada em Karte Char. Fica perto do Parlamento, na Avenida Darul Aman, e ainda há insurgentes na região. Recebo mensagens via celular de amigos que vivem do outro lado de Demazang, no centro, em um bairro chamado Wazir Akba Khan, onde estão muitos estreangeiros, escritórios das organizações internacionais e embaixadas. Os confrontos seguem por lá também e houve pelo menos uma explosão na área. Os insurgentes estão armados com granadas e foguetes RPG, disseram oficiais afegãos a um colega da BBC.
DOMINGO
16h28 – O major recebeu a mensagem de que a área estava sob controle e podíamos deixar a base. Fomos escoltados por quatro soldados e um veículo militar para fora da área ainda cercada por tanques e soldados, até a área residencial de Karte-Seh. Centenas de militares, armados até os dentes, estavam espalhados pelas ruas e faziam buscas em cada carro, cara cidadão que passava na rua. No caminho, recebemos novo alerta: espiões da inteligência afegã ainda fazem busca de homens-bomba que estariam infiltrados em diferentes pontos da cidade. Não deixem seus postos. Era tarde.
14:48 – Uma quarta explosão fez o prédio estremecer mais uma vez e fomos retirados de perto das janelas. Ouvimos mais tiros e a sirene das ambulâncias e carros de resgate que deixavam a base. Os conflitos seguiram por três horas ininterruptas e pelo menos sete foguetes atingiram as imediações – testemunhamos três deles caírem na base da Isaf. Na sala onde estávamos, os mlitares recebiam informações: atiradores e homens bomba invadiram prédios em contrução nas imediações do Palácio da Presidência, do Parlamento e da embaixada americana, e etavam atacando os alvos com foguetes; também teriam invadido o hotel Kabul Star.
14:00 - A sirene soou em toda a base confirmando o alerta: “Base sob ataque. Base sob ataque”, repetia o alerta. “Protejam-se em uma área fechada e coberta. Não é permitido permanecer nas áreas livres. Foguetes podem atingir as instalações. Base sob ataque”. Soldados tomaram o telhado, os terraços e as janelas. Fomos levados para uma sala no primeiro andar, onde estava o comando da base. Protegida por cinco militares que guardavam o terraço ao lado da sala onde fomos colocados, era possível avistar o esqueleto de um prédio de três andares, ainda em construção, onde os atiradores lançavam os foguetes. Outra explosão atingiu uma área aberta a 50 metros de onde estávamos, fazendo o prédio estremecer. Soldados turcos da Otan tomaram a Avenida Jalalabad com tanques e cercaram o prédio; pelo menos cinco helicópteros da Otan sobrevoavam o local. Os soldados disparavam do tanque e dos helicópteros contra o prédio, de longe víamos a fumaça, os tiros não cessavam; os insurgentes respondiam com mais foguetes em nossa direção.
1:35 - Eu estava no Centro de Treinamento Militar de Cabul (CTMC) quando o primeiro foguete foi lançado nas imediações do prédio. atingindo a base da Isaf, na frente de onde estávamos, do outro lado da Avenida Jalalabad. Na sala onde eu fazia uma entrevista, ouvimos o som da explosão. Era possível ver a tensão nos olhos dos cinco militares presentes, mas ainda não se sabia o que estava acontecendo, quando o major que nos acompanhava recebeu um telefonema: insurgentes haviam invadido prédios no centro da cidade e nas proximidades do Palácio Presidencial e do Parlamento. Cabul estava sob ataque. Todos saíram para o pátio. Segundos depois, uma nova explosão, muito mais próxima, atingiu o muro do CTMC e pudemos ver a fumaça preta tomar o céu. O alvo era uma área residencial para famílias de militares afegãos, colada à academia.
A blogueira tirou um período sabático e está na Universidade de Oxford como pesquisadora convidada do Reuters Institute for the Study of Journalism, ligado ao departamento de Política e Relações Internacionais.
Até breve!
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