A Educação no Século 21

Peço perdão aos leitores pelo atraso na publicação deste post. Quem segue o blog sabe que normalmente escrevo às quintas.

Atrasei-me um pouco porque estou em Orlando, nos Estados Unidos, aonde vim terminar a segunda parte presencial do curso em Educação Online que fiz, já comentado por aqui (consultar post sobre a primeira parte do curso). O final do curso coincidiu com a 18ª conferência anual da Sloan Consortium que é uma das principais associações de educação a distância dos EUA.

Pois bem, depois de participar de várias palestras e debates, trago algumas novidades do que vi por aqui:

1) Em muitas cidades dos Estados Unidos, a educação presencial formal a tempo completo está caindo entre 5% e 15% ao ano;

2) Quando há crescimento, mais de 50% deste se dá através da educação a distância;

3) Estudos mostram que, para muitas profissões, a educação já tornou-se uma atividade “para o resto da vida” (“a life long task”), diluindo o valor de diplomas específicos ou antigos;

4) Identificar, contratar, treinar e administrar professores que saibam dar aulas a distância já está se tornando um diferencial para muitas universidades norte-americanas;

5) A realização de exames presenciais (em centros físicos de aplicação de exames) ou exames a distancia para cursos online (com tecnologias sofisticadas de identificação pessoal) já são uma realidade ao menos em 50 universidades norte-americanas;

6) As 3 principais forças que hoje agem a favor dos cursos abertos online (MOOCs, consultar post aqui) são: a popularização do acesso à internet, a redução dos custos de tecnologias e a recessão econômica norte-americana;

7) Os MOOCs (cursos abertos online) estão recebendo investimentos maciços em centenas de universidades, mas ainda não se mostraram eficientes: apenas 20% dos alunos participam ativamente das aulas e menos de 3% terminam os cursos oferecidos. Iniciou-se uma interessante curva de aprendizagem.

8 ) Os MOOCs (cursos abertos online) mais consolidados no mercado norte-americano até o momento são oferecidos pelas seguintes organizações: Khan Academy, Edx, Cousera, Minerva, Peer 2 Peer University, Saylor, TED-Ed, Udacity e Udemy.

Entre uma palestra e outra tive a honra de conversar por 5 minutos com o Prof. Sebastian Thrun, Prof. de Inteligência Artificial em Stanford, Diretor no Google e fundador do Udacity.

Sou um grande fã dele. Afinal, ele foi o primeiro professor da história a dar aula a uma turma de mais de 160 mil alunos. Tudo começou há menos de 2 anos: ele se inspirou numa palestra do Salman Khan da Khan Academy para abrir sua aula de Inteligência Artificial para o mundo. A experiência foi tão impactante que o fez criar a Udacity.

Sebastian Thrun - Outubro 2012

Acima: com Sebastian Thrun (em Orlando, Outubro 2012)

Ninguém sabe ainda como ganhar dinheiro com os MOOCs. O Udacity deve apostar por um modelo vinculado à identificação de talentos (headhunting). Ou seja, as empresas que contratem os melhores alunos da Udacity lhes pagará uma taxa por este serviço de procura e identificação de talentos.

Perguntei-lhe sobre o que achava da possibilidade de se criar um MOOC misturando alunos pagantes com alunos gratuitos, com diferentes graus de acesso ao serviço educativo. O Sebastian acha que este formato é possível, mas não aposta por este modelo.

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O World Economic Forum se reuniu há poucas semanas em Nova Iorque (ler notícia, em inglês) para debater sobre o futuro da educação online nas universidades.

Chegaram a conclusões relativamente conhecidas para quem está lendo sobre isso constantemente, mas um pouco catastróficas para que for pego de surpresa. Eles acreditam que há um “Tsunami” de mudanças vindo neste exato momento em direção à educação universitária tradicional e que esta será duramente afetada pelas tecnologias de informação e comunicação.

Algo mais ou menos parecido com o efeito dessas tecnologias sobre toda a indústria da mídia ao longo dos últimos 10 anos (cinema, música, televisão, jornal, revista, etc), que cada vez mais tem seu poder de impacto social limitado e consequentemente suas fontes de receitas de publicidade e distribuição diminuídas.

Foto de Joel Sartore (National Geographic)

Foto de Joel Sartore (National Geographic)

Eu não acredito nessas catástrofes repentinas, então acho que tudo vai migrar pouco a pouco para um novo patamar de padrões educativos ao longo dos próximos 10 a 15 anos. Obviamente, os países mais conectados e com sociedades menos burocratizadas e hierarquizadas chegarão a estes novos padrões mais rapidamente (principalmente América do Norte e norte da Europa, para “variar”).

Para quem acompanha este blog, este post pode até parecer repetitivo, mas acho que valida o que vínhamos discutindo nas últimas semanas.

Bem, vamos às conclusões desse pessoal do WEF. Peguei o post original deles e fiz minha própria leitura sobre o assunto:

1) O processo já está em andamento: Essa mudança de padrão já foi iniciada e os jovens já estão naturalmente exigindo formas diferentes de aprender. A educação online já deixou de ser uma promessa e agora não é apenas aceita, mas também cada vez mais exigida pela sociedade.

2) A reputação está em franco crescimento: A reputação da educação online também está mudando, junto com as universidades que começam a oferecer experiências educativas de qualidade, algumas inclusive melhores do que as experiências puramente tradicionais.

Há um medo, porém: de que os conteúdos mais bacanas – jogos ou vídeos, por exemplo – se tornem mainstream (super adotados) rápido demais, fazendo com que a pluralidade de opiniões e formas de mostrar um assunto se torne limitada pela complexidade dos novos formatos (Imagine, por exemplo, quando quando as empresas de videogames começarem a entrar mais forte no mundo da educação? Quem vai poder competir com eles?)

E há uma grande oportunidade também: de que a educação online facilite o passo para a educação personalizada, onde cada aluno pode ter seus problemas individuais trabalhados, independentemente de sua idade ou aptidões.

O pensador de Rodin

O pensador de Rodin

Mas afinal, o que vai acontecer com as universidades? Sofrerão muita pressão nos preços, claramente, segundo eles. As pessoas não vão mais pagar simplesmente pela informação ou pelo diploma (como já discutimos). Pagarão por outros motivos que ainda não estão totalmente claros: Rede de contatos? Acesso direto ao mercado de trabalho (através de estágios)? Qualidade dos laboratórios, viagens e exercícios práticos?

Aquelas universidades caras e de elite continuarão existindo, pois sua reputação e recursos “intermináveis” permitirão que elas se adaptem ao novo ambiente educativo de uma maneira ou de outra.

O maior problema acontecerá com aquelas universidades menores, com poucos recursos ou pouca capacidade de adaptação. Elas acabarão perdendo seus alunos para aquelas universidades grandes que façam os cursos ficarem mais baratos ou para aquelas menores que façam um bom trabalho na educação semipresencial.

Para mim este futuro está bastante claro. E para você, ainda não?

Nota adicionada em 17/Julho/2012: Ontem recebi um video-debate incrível justamente sobre este assunto (está em inglês). Salman Khan (do Khan Academy) and John Hennessy (presidente da Universidade de Stanford) debatem sobre o futuro da Educação Online. No debate, a palavra Tsunami é coincidentemente usada para descrever esse momento mágico de redefinição da educação mundial.

http://allthingsd.com/20120628/sal-kahn-and-john-hennessy-on-online-education-the-full-d10-interview-video/

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Já na primeira vez em que ouvi falar do Khan Academy, há uns 3 anos, achei a iniciativa muito interessante: aulas rápidas, de 5 a 15 minutos, em linguagem informal, combinando basicamente uma voz e um quadro negro. Nada mais.

Tanto me impressionou que procurei pelo seu fundador, Salman Khan, no LinkedIn, e descobri que ele estava a apenas 2 níveis de separação de mim: minha irmã estudou com um amigo dele em HBS. Enviei uma mensagem de parabéns pela iniciativa, me disponibilizando a ajudar de alguma forma, mas nunca obtive resposta. Logo logo encontrei o motivo: Khan se tornou uma celebridade no mundo da educação. Quem não o conhece tem que conhecer, o site já virou um clássico da educação a distância.

Salman Khan em casa

Salman Khan em casa

Embora este tipo de “educação” possa sim ser interpretada como totalmente passiva (e portanto pode ser percebida como “chata” ou nada interativa), a modularização dos conteúdos em pílulas de 10 minutos a torna muito útil para revisão de conceitos ou informações pouco perecíveis tais como fórmulas, acontecimentos históricos, etc.

Nesse vídeo, de sua apresentação para o TED em 2011, o próprio Salman explica o site e como surgiu a ideia. Para os que tenham paciência, no minuto 16 do vídeo aparece em cena nada menos do que Bill Gates para prestigiar a iniciativa. Suas ONGs são patrocinadoras do projeto.

Se você quer ajudar e se tornar um voluntário do Khan Academy traduzindo as aulas para o português clique aqui: Khan Academy – Contribute.

Graças ao trabalho voluntário de brasileiros e portugueses, o português já é o quarto idioma mais traduzido do site, depois do estoniano, do polonês e do español.

Uma das principais perguntas que surgem é se este modelo de geração de conteúdo educativo é sustentável: Quem paga pelo seu desenvolvimento e manutenção? O que acontecerá quando Bill Gates deixar de colocar dinheiro? É possível criar um modelo que gere renda para a organização e para os voluntários envolvidos?

Bem, ninguém tem ainda “a resposta”, mas acho que isso virá naturalmente, com o tempo, pois no capitalismo a “destruição criadora” é implacável. Vocês podem ter certeza de que há milhares de pessoas no mundo pensando em como ganhar dinheiro com sites desse tipo neste exato momento. E muitas o farão.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Newton Campos

    Com 20 anos de experiência nas áreas de tecnologia e educação superior, participou de numerosos projetos em distintos países. Atualmente leciona e trabalha na IE Business School da Espanha, com profissionais que criaram alguns dos melhores programas de pós-graduação em formato blended do mundo. Doutor em Criação e Gestão de Negócios pela FGV-SP, passou por organizações como PricewaterhouseCoopers, Telefónica e IIM Indian Institute of Management, além de ter participado na criação de diversas empresas no Brasil entre 1997 e 2010.

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