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Fracassados somos todos: A Educação Proibida

Newton Campos

04 outubro 2012 | 09:11

Com mais de 4 milhões de acesso no Youtube, o filme argentino La Educación Prohibida (Twitter: @edprohibida) está se tornando uma grande referência para todas aqueles não satisfeitos com o sistema educacional atual.

Dirigido por Germán Doin Campos, um jovem de apenas 24 anos, o filme é inspirado em contradições que ele mesmo foi observando e registrando durante seu recente processo educativo.

Para nós brasileiros, o filme é muito pertinente, não apenas por serem as realidades culturais e socioeconômicas argentinas muito parecidas às do Brasil, mas porque seu foco recai sobre uma realidade ocidental e latina da educação vigente.

O filme é bem longo, dura 2 horas e meia. Tem um enredo um pouco repetitivo e às vezes intelectualmente infantil. Mesmo assim, é interessante por contestar algo tão básico como a educação padrão atual.

Para quem não tem tempo ou não gosta tanto assim do assunto para assistir a um filme por mais de 2 horas, me atrevi a fazer um pequeno resumo para os leitores deste blog. O resumo inclui algumas interpretações minhas (me segurei, mas não consegui apenas descrever o que assisti).

La Educación Prohibida

Segundo o filme, a sistema atual de educação gera uma série de problemas sociais e psicológicos nas pessoas. Isso se dá por conta de um dogma, estabelecido ao longo do tempo, que pressupõe que só podemos quantificar o quanto aprendemos sobre um assunto através de exames e notas.

Essa forma de medir o aprendizado gera enormes conflitos cognitivos nas crianças e nos adolescentes, por impor um exagerado grau de competição entre eles. Invariavelmente, SEMPRE se termina comparando o melhor com o pior, de forma que SEMPRE, alguém vai ter que se sentir diminuído frente aos demais. Deste modo, como regra, SEMPRE haverá ganhadores e perdedores. Como consequência disso, o rendimento escolar acaba determinando a qualidade de uma pessoa na sociedade e seu acesso a muitos cargos e funções (privadas ou públicas).

Assim, considera-se um fracassado aquele que não consegue entrar ou terminar uma boa faculdade ou que não consegue encontrar um bom emprego (um emprego que pague bem). Por outro lado, considera-se uma pessoa de sucesso aquela que consegue tirar boas notas, terminar muitos estudos e obter um bom emprego (que pague bem).

Na realidade, o sistema está simplesmente medindo o quão adaptável uma pessoa se torna ou não ao próprio sistema. Quem não se encaixa é praticamente descartado à força. Assim, o sistema educacional atual gera pessoas “de sucesso” que se autoenganam desde jovens, forçadas a estarem felizes com coisas que não as fazem realmente felizes. Terminamos por gerar classes dominantes formadas por pessoas frustradas.

Gostei muito do comentário do Professor Pablo Lipnizky, do colégio colombiano Mundo Motessori (no minuto 9 do filme): “Todo mundo fala de paz, mas ninguém educa para a paz. As pessoas educam apenas para a competição e a competição leva à guerra.”

O mais paradoxal disso tudo é que todas as iniciativas educacionais de governos e escolas se dizem educar para a igualdade, a cooperação, a liberdade, a paz, a solidariedade, etc. Mas na realidade, a estrutura básica do sistema educativo ocidental promove justamente o contrário: a competição, a desconfiança, o desrespeito, a violência emocional, o individualismo, etc.

Por quê isso? Bem, segundo o filme, talvez por causa da origem do sistema educacional atual. Nascido na Prússia do século 18, a educação infantil obrigatória foi criada propositalmente inspirada no modelo militar. O objetivo era gerar uma massa de pessoas obedientes e competitivas, dispostas a ir para à guerra a qualquer momento. E para facilitar sua administração, as escolas se desenvolveram à imagem e semelhança de uma fábrica ou até mesmo de um presídio, com sirenes, filas e castigos diversos por “mau comportamento”.

Ou seja, o sistema educacional vigente reflete antigas estruturas políticas ditatoriais no lugar de apontar para uma sociedade democrática de fato. Infelizmente, esse foi o modelo que se espalhou pela Europa e depois pelas Américas. E aqui estamos agora, com este problema enorme nas mãos.

Assim, fracassados somos todos os que compactuamos direta ou indiretamente com esta verdadeira máquina de subjugar crianças e adolescentes inocentes.

Parabéns a todos que produziram e colaboraram com o filme. Fica aqui meu grãozinho de areia ao divulgá-lo nas páginas do blog.

Para mais informação sobre o filme:
Portal Porvir: Filme independente inspira novos modelos de educação.
El país: Una película para derribar la escuela. (em espanhol)
El pátio trasero (Radio de las Madres): Entrevista com Germán Doin Campos (em espanhol).

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Para mais info (em inglês):
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