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A Educação no Século 21

Nesta terceira parte deste prático e útil artigo de James Byers e Adam Frey (fundadores do Wikispaces), eles explicam o que não é ter sucesso com uma startup de educação e quais são as características mínimas necessárias para alcançar este sucesso. Novamente, deixo o link para o artigo original ao final do texto.

Foto: Liz West

Foto: Liz West

PARTE 3

Como vencer no setor de Tecnologia aplicada à Educação
(How to Succeed in Ed-Tech, por James Frey e Adam Byers, Nov 2012)

Ter sucesso não é…

Nossa definição exclui, intencionalmente, alguns itens que são por vezes confundidos com sucesso:

• Captação de recursos. Não confunda levantar dinheiro com sucesso. É um meio para um fim. Às vezes ele ajuda o seu negócio, muitas vezes isso não acontece. O capital de risco (Venture Capital, em inglês) em particular pode consumir um tempo valioso que poderia estar sendo usado para construir seu negócio. Além disso, costuma exigir taxas extraordinárias de crescimento de receita e de número de usuários, e pode transferir o controle da empresa para fora das mãos de seus fundadores.

Considere cuidadosamente se estes compromissos se encaixam em seu estilo, sua empresa e seu mercado. E independentemente da escolha que você fizer, não confunda captação de recursos com o objetivo que você se propôs a alcançar.

• Retornos financeiros extraordinários. Buscar riqueza, particularmente através de uma aquisição de sua startup, pode trazer um grande resultado pessoal. Mas a menos que o seu produto e seus benefícios para alunos, professores e instituições sobrevivam no longo prazo, acreditamos que existem indústrias melhores para você tentar construir uma grande riqueza desta forma.

• Fama. Depois de receber alguns abraços não solicitados de professores que você nunca encontrou antes, você terá toda a fama que necessita.

• Inovação tecnológica se esquecendo do benefício ao cliente. Construir novos produtos e propostas baseados em novas tecnologias é muito gratificante – principalmente para engenheiros – no curto prazo. No longo prazo, acreditamos que os produtos mais inovadores irão equilibrar novidade e simplicidade, e sempre estarão baseados num profundo entendimento do cliente.

Características

Tendo definido o que significa sucesso para nós, quais são portanto as qualidades necessárias para alcançar este sucesso?

Paixão

Você deve possuir uma paixão ardente em atender o mercado educacional e a determinação de dedicar uma década ou mais de sua vida a sua startup.

Paixão e determinação são pré-requisitos para a construção de qualquer empresa a partir do zero. Mas o mercado de educação, educação primária em especial, tem um conjunto de desafios únicos que o tornam um ambiente difícil para o crescimento de uma empresa de sucesso. Eles incluem:

• Ciclos orçamentais longos e incertos
• Burocracia nos departamentos de compras
• Fontes de financiamento externas limitadas
• Pressões políticas micros e macros
• Falta de conhecedores atualizados em tecnologia
• Falta de recursos para implantações de tecnologia em grande escala
• Resistência à mudança, especialmente quando experimentaram promessas similares anteriormente
• Um nível sem precedentes de competição por atenção no espaço tecnologia para a educação

Estas pressões significam que pode levar anos para obter um crescimento espetacular do tipo que acontece, às vezes, na Internet para consumidores. Por outro lado, uma vez que você construa um relacionamento forte com seus clientes neste mercado, nossa experiência é que seu entusiasmo e sua lealdade podem resultar em um crescimento verdadeiramente extraordinário.

Se você acordar todas as manhãs com uma paixão em servir alunos e professores, você está diante de um grande começo. Melhor ainda se você sabe que, no fundo de seu coração, você ainda terá esta paixão nos próximos anos. Realmente, não existem viradas rápidas (adoções rápidas de tecnologia) na indústria de tecnologias para a educação. Se sua paixão é passageira, você nunca chegará ao ponto de inflexão onde você percebe que sua pequena empresa poderá ter um grande impacto no mercado.

Modelo de Negócio

Comece a cobrar seus clientes no primeiro dia.

Não há nada mais tentador no setor de educação do que tentar entregar um produto que pode ser consumido por todos gratuitamente. “Grátis” é sem dúvida uma ferramenta de marketing maravilhosa para ter seu produto nas mãos de tantos alunos e professores quanto possível. No entanto, para uma empresa para sobreviver, alguém tem que arcar com as contas. Das muitas opções criativas disponíveis, acreditamos que a melhor fonte de receitas para uma empresa de educação é cobrar seus clientes diretamente pelos serviços que serão utilizados. Estabeleça preços justos e transparentes e alinhe claramente seus interesses empresariais com os interesses de seus clientes como educadores. A melhor prova de seu valor ocorre quando seus clientes lhe contatam para perguntar aonde devem depositar seu pagamento.

Serviços de grande escala para Internet custam muito dinheiro para operar, tanto para pagar servidores e banda larga, como também para pagar desenvolvedores visionários, designers e engenheiros de sistemas que devem manter os serviços evoluindo com o ritmo constante da mudança de tecnologia. Muitos destes serviços são gratuitos para o usuário final, mas geram dinheiro, em alguns casos muito dinheiro, de maneiras não tão óbvias.

Empresas de educação devem ser transparentes sobre os seus interesses e que estes interesses sejam fortemente alinhados com os dos alunos, dos professores e das instituições. Em termos simples, isto significa que você, como uma startup, deve saber quem são seus clientes, e seus clientes devem saber pelo que estão pagando. Acreditamos em um modelo onde os seus clientes pagam pela experiência de um ótimo produto, pela construção e manutenção dos serviços, pelo pessoal de apoio para atender ao telefone quando eles chamam, pelos servidores e banda larga e pela estabilidade de uma empresa que irá atendê-los agora e no futuro. E se você servir uma parte de seus clientes de forma gratuita, eles precisam saber que não fazem parte de um plano enganoso para torná-los pagantes com o tempo, mas que seu uso gratuito acaba por contribuir para o sucesso de sua empresa.

Um contra-argumento que temos ouvido muito ultimamente é o seguinte: ofereça o seu serviço totalmente gratuito, faça-o em escala massiva (digamos, cem milhões de usuários) e só então descubra como ganhar dinheiro. Este é um cenário para empresas como Facebook e Twitter. Para estas duas empresas e muitas como elas, a solução mais comum para o “descubra mais tarde como ganhar dinheiro” é a publicidade. Este fluxo de receitas funciona numa escala massiva na Internet para o consumidor, mas por razões muito numerosas para listar aqui, é totalmente inapropriado para a educação.

Outra maneira de fazer dinheiro é agregar milhões de estudantes, professores, funcionários e pais e vender acesso a eles – ou dados sobre eles – para provedores de conteúdo, desenvolvedores de aplicativos, “marketeiros” especializados em educação, e terceiros. Somos cautelosos com relação a este caminho. Como estamos vendo hoje no ecossistema do Twitter, os interesses de sua empresa, os interesses de seus clientes, e os interesses de terceiros em seu ecossistema podem entrar em conflito. Quando você precisa para aumentar receita nestas circunstâncias, a tentação é a de oferecer mais e mais dados sobre o seu público para as pessoas que vão pagar por isso, ao invés de focar em atender seus usuários. Nós acreditamos que essa tensão – e qualquer tensão que te afaste de um vínculo direto com as necessidades dos alunos e professores – coloca tudo em risco.

Seja direto: cobre de seus clientes. Precifique seus produtos de forma transparente e justa. Mostre aos seus clientes que você serve exclusivamente aos interesses deles, proporcionando-lhes o melhor produto que você possa realizar, apoiado por pessoas reais.

Link para o artigo original completo (em inglês): https://www.edsurge.com/n/how-to-succeed-in-ed-tech

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Escolas na nuvem?

Hoje vamos começar com uma pequena pesquisa (favor clicar no link abaixo e responder na página que se abre):
Você acha útil ter acesso à informação sem saber para o que ela serve?

Frequentemente, me vejo debatendo com meus alunos, amigos e leitores deste blog sobre a diferença entre informação e conhecimento. Vivendo cada vez mais numa “sociedade da informação”, acho que este debate deveria ser muito mais abordado do que tem sido pela sociedade em geral.

Desde os anos 1990, o Prof. Sugata Mitra vem nos apresentando o resultado de pesquisas que ele tem realizado na Índia sobre o aprendizado infantil através do uso de tecnologias. Seu controvertido lema é: “um professor que possa ser substituído por uma máquina, deve sê-lo.” (a teacher that can be replaced by a machine, should be.).

Há algumas semanas, ele apresentou seu novo conceito de “escola na nuvem” (school in the cloud, em inglês) no ciclo de conferências TED, na Califórnia (veja o vídeo mais abaixo).

Ele ficou conhecido por uma série de experimentos que realiza há anos com crianças em favelas e zonas rurais da Índia. Ele deixa um computador, embutido numa parede, num idioma que elas mal conhecem e com um conteúdo bastante desconhecido por elas, para seu uso livre.

Experimento "Hole in the wall". Fotografia: www.lrnteach.com

Depois de 2 meses usando sozinhas o computador, a primeira coisa que as crianças disseram ao Prof. Mitra foi: “Precisamos de um processador mais rápido e de um mouse melhor.” Fotografia: www.lrnteach.com

Invariavelmente, as crianças sempre começam a ensinar umas às outras sobre o que aprendem, tornando-se usuários a nível intermediário naquela ferramenta e em seus conteúdos.

Entre os diversos achados do Prof. Mitra nesta área, ele descobriu que:
a) quanto mais longe uma escola está de um centro urbano, pior ela se sai nos exames nacionais comparativos;
b) quanto mais longe uma escola está de um centro urbano, mais os professores gostariam de estar lecionando em centros urbanos;
c) o uso da tecnologia nos grandes centros urbanos melhoram em cerca de 3% a 5% a qualidade do aprendizado do aluno. Nas zonas rurais ou em favelas esta melhora chega a mais de 30%;
d) não há qualquer correlação entre níveis de pobreza ou níveis de acesso à eletricidade e o ritmo de aprendizado das crianças;
e) a curva de aprendizado das crianças, operando o computador sozinhas, é similar à curva de aprendizado de um curso em sala de aula sobre o mesmo assunto;
g) mesmo que o idioma do computador não seja o idioma das crianças, elas aprendem cerca de 200 palavras deste novo idioma para poder a usar a máquina e os programas ou jogos educativos.

Depois de tantos anos estudando este fenômeno, o Prof. Mitra tem conluído que crianças de 6 a 13 anos podem aprender e ensinar umas às outras a usar relativamente bem aparelhos similares aos computadores, sem qualquer ajuda de um adulto.

Além disso, ele defende que o acesso à informação tem um maior impacto na educação em zonas mais remotas da sociedade que em áreas urbanas, proporcionando uma significativa melhora no desenvolvimento de todo tipo de conhecimento humano.

Video do Prof. Sugata Mitra, TED Fev 2013:

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Semana passada fui ao cinema assistir ao excelente filme Norte-Americano Desapego (Detachment). Fazia tempo que queria vê-lo. Trata-se da história de um professor de educação secundária, enviado a escolas públicas da periferia para repor aulas de inglês.

Quem trabalha no mundo da educação deve assisti-lo, pois como bem disse a crítica Juliana Fernandez, o filme equivale a um “tapa na cara”, que nos deixa pensando sobre o assunto por dias (ao final deste texto deixo disponível o link de sua resenha profissional sobre o filme). Além disso, a atuação do ator Adrien Brody é simplesmente espetacular.

Sem entrar no drama das histórias contadas, a primeira coisa que me chamou a atenção foi, mais uma vez, perceber que mesmo a escola pública mais “feia, pobre e sem infraestrutura” dos Estados Unidos, é incrivelmente bonita e bem cuidada para os padrões da maioria das economias subdesenvolvidas ou em desenvolvimento do mundo (Brasil incluído).

O filme nos deixa uma mensagem aparentemente básica, mas muito relevante: que a informação vem da escola (ou mesmo da internet, hoje em dia), mas educação vem de casa (e nunca da internet).

É a falta de exposição a valores humanos e a referências inspiradoras no lar que contaminam o ambiente educacional de muitas escolas pelo mundo na atualidade. E tampouco se trata de uma questão de pobreza ou riqueza: essa “falta de educação” moderna está presente também em muitas escolas de elite, seja nos Estados Unidos, na Espanha ou no Brasil. Falta educação em casa.

Fiquei pensando numa das características da educação do futuro: maior integração de atores ao sistema educacional. Por exemplo, a partir do ano que vem, num projeto pioneiro que lidero aqui em minha universidade, os programas de mestrado integrarão alunos e ex-alunos da escola num mesmo grupo, utilizando, simultaneamente a formação tradicional e a educação continuada. Utilizaremos o formato blended (semipresencial). O resultado? Acreditamos que isso resultará numa experiência muito mais enriquecedora para professores, alunos e ex-alunos, que poderão aprender todos uns dos outros.

No futuro não muito distante, conseguiremos integrar também ex-alunos de outras universidades, professores de outras universidades, profissionais do mercado (guest speakers) e quem sabe até mesmo amigos, colegas de trabalho e parentes destes profissionais às mesmas plataformas de formação (desde que cumpram obviamente com os rigorosos processos de seleção).

Se isso for bem administrado, todos aprenderão de todos, numa riqueza de intercâmbios absolutamente inédita para um programa formal de mestrado (só receberiam diplomas oficiais os alunos matriculados, os demais participantes receberiam certificados não-oficiais).

Porque não podemos, da mesma forma e num futuro relativamente próximo, integrar nossos lares aos sistemas educacionais públicos e privados de nossos filhos, amigos e colegas de trabalho, com a ajuda da tecnologia? Assim poderíamos tentar fazer que todo um bairro se envolva, de forma presencial e a distância, no processo de ensino e aprendizagem coletivo.

Clique aqui para ler um comentário profissional sobre o filme “Desapego”, por Juliana Fernandez.

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Com mais de 4 milhões de acesso no Youtube, o filme argentino La Educación Prohibida (Twitter: @edprohibida) está se tornando uma grande referência para todas aqueles não satisfeitos com o sistema educacional atual.

Dirigido por Germán Doin Campos, um jovem de apenas 24 anos, o filme é inspirado em contradições que ele mesmo foi observando e registrando durante seu recente processo educativo.

Para nós brasileiros, o filme é muito pertinente, não apenas por serem as realidades culturais e socioeconômicas argentinas muito parecidas às do Brasil, mas porque seu foco recai sobre uma realidade ocidental e latina da educação vigente.

O filme é bem longo, dura 2 horas e meia. Tem um enredo um pouco repetitivo e às vezes intelectualmente infantil. Mesmo assim, é interessante por contestar algo tão básico como a educação padrão atual.

Para quem não tem tempo ou não gosta tanto assim do assunto para assistir a um filme por mais de 2 horas, me atrevi a fazer um pequeno resumo para os leitores deste blog. O resumo inclui algumas interpretações minhas (me segurei, mas não consegui apenas descrever o que assisti).

La Educación Prohibida

Segundo o filme, a sistema atual de educação gera uma série de problemas sociais e psicológicos nas pessoas. Isso se dá por conta de um dogma, estabelecido ao longo do tempo, que pressupõe que só podemos quantificar o quanto aprendemos sobre um assunto através de exames e notas.

Essa forma de medir o aprendizado gera enormes conflitos cognitivos nas crianças e nos adolescentes, por impor um exagerado grau de competição entre eles. Invariavelmente, SEMPRE se termina comparando o melhor com o pior, de forma que SEMPRE, alguém vai ter que se sentir diminuído frente aos demais. Deste modo, como regra, SEMPRE haverá ganhadores e perdedores. Como consequência disso, o rendimento escolar acaba determinando a qualidade de uma pessoa na sociedade e seu acesso a muitos cargos e funções (privadas ou públicas).

Assim, considera-se um fracassado aquele que não consegue entrar ou terminar uma boa faculdade ou que não consegue encontrar um bom emprego (um emprego que pague bem). Por outro lado, considera-se uma pessoa de sucesso aquela que consegue tirar boas notas, terminar muitos estudos e obter um bom emprego (que pague bem).

Na realidade, o sistema está simplesmente medindo o quão adaptável uma pessoa se torna ou não ao próprio sistema. Quem não se encaixa é praticamente descartado à força. Assim, o sistema educacional atual gera pessoas “de sucesso” que se autoenganam desde jovens, forçadas a estarem felizes com coisas que não as fazem realmente felizes. Terminamos por gerar classes dominantes formadas por pessoas frustradas.

Gostei muito do comentário do Professor Pablo Lipnizky, do colégio colombiano Mundo Motessori (no minuto 9 do filme): “Todo mundo fala de paz, mas ninguém educa para a paz. As pessoas educam apenas para a competição e a competição leva à guerra.”

O mais paradoxal disso tudo é que todas as iniciativas educacionais de governos e escolas se dizem educar para a igualdade, a cooperação, a liberdade, a paz, a solidariedade, etc. Mas na realidade, a estrutura básica do sistema educativo ocidental promove justamente o contrário: a competição, a desconfiança, o desrespeito, a violência emocional, o individualismo, etc.

Por quê isso? Bem, segundo o filme, talvez por causa da origem do sistema educacional atual. Nascido na Prússia do século 18, a educação infantil obrigatória foi criada propositalmente inspirada no modelo militar. O objetivo era gerar uma massa de pessoas obedientes e competitivas, dispostas a ir para à guerra a qualquer momento. E para facilitar sua administração, as escolas se desenvolveram à imagem e semelhança de uma fábrica ou até mesmo de um presídio, com sirenes, filas e castigos diversos por “mau comportamento”.

Ou seja, o sistema educacional vigente reflete antigas estruturas políticas ditatoriais no lugar de apontar para uma sociedade democrática de fato. Infelizmente, esse foi o modelo que se espalhou pela Europa e depois pelas Américas. E aqui estamos agora, com este problema enorme nas mãos.

Assim, fracassados somos todos os que compactuamos direta ou indiretamente com esta verdadeira máquina de subjugar crianças e adolescentes inocentes.

Parabéns a todos que produziram e colaboraram com o filme. Fica aqui meu grãozinho de areia ao divulgá-lo nas páginas do blog.

Para mais informação sobre o filme:
Portal Porvir: Filme independente inspira novos modelos de educação.
El país: Una película para derribar la escuela. (em espanhol)
El pátio trasero (Radio de las Madres): Entrevista com Germán Doin Campos (em espanhol).

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Tenho acompanhado pela imprensa paulista e pelos comentários de amigos no Facebook o crescente grau de influencia que as igrejas evangélicas estão tendo nas eleições da maior cidade do país. Suponho que a influência seja grande também em muitas das demais cidades brasileiras.

Essa reportagem recente do Paulo Gama da Folha de S. Paulo, por exemplo, ficou muito boa. O título é muito bom (“Senhor, dá a vitória a ele!”) e a foto melhor ainda. Dá quase para perceber o José Serra pensando: “Olha só o que tenho que fazer para conquistar votos…”

José Serra em Igreja

Acima: José Serra (ao centro) participa de culto da igreja evangélica Plenitude do Trono de Deus – Foto de Getúlio Camargo (Folha de S. Paulo)

Ora, é função quase inerente de quase todas as grandes congregações religiosas influenciar o ambiente social e político a seu favor. Vejo todas as igrejas e religiões como qualquer outra organização: definem um público alvo e procuram captar e manter seus “clientes” (fiéis) satisfeitos de diferentes formas. Em troca, prestam seus serviços de acolhimento psicológico ou espiritual. Um serviço que pode ser muito útil e até digno, em minha opinião.

Se estes serviços não fossem necessários, não teríamos tantos fiéis ressurgindo na Rússia e na China, mesmo depois de tantos anos de proibição das religiões (“ópio do povo” segundo os revolucionários).

Durante o tempo em que vivi na Índia, percebi o potentíssimo peso da religião hindu na região onde morava (Calcutá, na Bengala Ocidental). Os costumes e cultos religiosos eram praticamente a única escola disponível para a grande maioria miserável da população.

Para o bem e para o mal, toda sua forma de enxergar o mundo estava condicionada pelos preceitos básicos hinduístas, como por exemplo: não comer carne, acreditar em ter várias vidas, aceitar as divisões raciais e por castas, respeitar os demais seres vivos, cultivar o bom caráter (para voltar numa melhor casta na próxima vida), etc.

Desde qualquer ponto de vista, a religião estabelecia tamanha ordem na sociedade que nenhuma outra forma de entender o mundo poderia ser considerada sem essa influência.

Para mim, isso é extremamente limitante quando já possuímos alguns recursos mínimos para ensinar aos demais. É o momento onde a religião educadora passa a ser uma religião sem educação, cegando pessoas e fazendo com que elas tenham que aceitar visões de terceiros que muitas vezes beneficiarão apenas a estes terceiros.

Não deveria ser permitido que um país ou qualquer de suas instituições públicas (como escolas e universidades) pudessem sofrer pressão de grupos religiosos. Deveria haver uma série de leis que protegessem as eleições e as escolas das religiões. O problema é que apenas os grupos pró-religião colocam pressão no ente público. Não existem grupos pró-instituições-públicas-sem-pressão-das-religiões. Criamos um?

Para mais info sobre meus pensamentos sobre este assunto (em inglês):
Do you believe in god? Part I: Christian Atheism
Do you believe in god? Part II: The unexplained does not justify blind faith
Do you believe in god? Part III: Reasons to believe

Nota adicionada em 15/Setembro/2012: Estive estudando o último relatório da OECD (Organização de Desenvolvimento e Co-operação Econômica) sobre educação para outro post que estou escrevendo para a semana que vem. Inspirado pelo comentário do leitor Fey neste mesmo post, encontrei esta curiosa tabela de correlação entre nível de educação da população e participação em eleições. Nos Estados Unidos, Alemanha e em vários países onde o voto não é obrigatório podemos perceber que quanto mais estudadas são as pessoas, mais elas participam das eleições. Obviamente o Brasil fica no fim da lista pois o voto é obrigatório (estudados e não-estudados votam igualmente, para azar da nossa “democracia”).”

Correlação entre educação e participação nas eleições.

Correlação entre educação e participação nas eleições.

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Por aqui os espanhóis têm se perguntado muito sobre o que está errado em sua economia. Tudo estava indo tão bem, o país saltou de vigésima economia do mundo à oitava em apenas 20 anos. O que está acontecendo de errado?

Alguns analistas acham que uma das possíveis respostas está na falta de educação empreendedora às crianças e aos adolescentes espanhóis. Cerca de 40% dos jovens ainda sonham ser funcionários públicos por aqui. Um sonho do passado, já que até mesmo os governos já estão demitindo milhares de pessoas (ou baixando seus salários).

Revista Capital: Aquí hay que empezar a emprender

Revista Capital (Julho 2012): Aquí hay que empezar (começar) a emprender

Hoje não vou falar de tecnologia, vou falar de dinheiro. Em minha opinião, este ainda é um ponto cego na educação mundial. Vivemos em uma sociedade capitalista, crescentemente capitalista. Não estou a favor nem contra o capitalismo. Não gosto do sistema atual, mas acho que ainda não inventaram nenhum sistema melhor para a defesa da liberdade individual. Todas as tentativas de se desenvolver algo melhor terminaram em ditadura e falta de liberdade. É uma pena que só sintamos falta da liberdade quando já não a possuimos, como os cidadãos da China, da Venezuela ou do Irã atuais.

Mas enfim, voltando ao assunto da educação financeira, embora estejamos mais de 90% do mundo jogando o jogo capitalista, ninguém nos ensina sobre o mundo do capital. Ninguém nos explica em nenhum momento de onde vem o conceito do dinheiro, o que ele simboliza, porque o dinheiro tem valor no tempo, como faço para administrar meu dinheiro ou como faço para me endividar de uma maneira saudável, comprando ativos (bens que geram dinheiro) ao invés de passivos (bens que consomem dinheiro), por exemplo.

A contabilidade – também conhecida como a “linguagem do dinheiro” – pode parecer um assunto chato, mas poderia estar mais presente nos colégios e universidades de hoje em dia. Ainda são muito poucos os colégios que se atrevem a ensinar contabilidade para crianças e adolescentes, embora isso esteja mudando com diversas iniciativas pelo mundo como as do americano Robert Kiyosaki (Rich Kid Smart Kid), famoso autor do livro Pai rico, Pai pobre. No países de língua portuguesa ainda somos muitos os que achamos que estamos cometendo uma espécie de pecado ao ensinar sobre dinheiro aos nossos alunos ou aos nossos filhos.

A contabilidade moderna foi inventada no século XV pelo monge italiano Luca Pacioli, nada mais nada menos que professor de matemática de Leonardo da Vinci, um dos maiores gênios de todos os tempos. A contabilidade é a ciência que estuda o patrimônio. Desde então, esse conhecimento se desenvolveu pela Europa nos séculos seguintes, até ser profissionalizado na Revolução Industrial inglesa.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra o contador é uma pessoa muito importante socialmente. Não contabilizar corretamente os patrimônios das pessoas ou das empresas é um crime muito grave. No Brasil, em geral, o contador é o “mané da esquina”, que preenche os formulários burocráticos para que paguemos nossos impostos.

Nesse recém-iniciado século XXI vamos precisar de mais pessoas repensando o sistema. E teremos que fazer isso pacificamente, pois as guerras já não dão mais os lucros nem geram os empregos que geravam antes. Nossas vidas não poderão continuar baseadas num sistema que requer o crescimento eterno para se manter.

Mas se os nossos jovens não conhecerem os sistemas financeiros e suas falhas, não poderão propor melhoras. Deixemos de lado a culpa de ter que estudar sobre o capital e comecemos a derrubar esse tabu. Os jovens devem aprender a lidar com o dinheiro desde cedo, sob a pena de ficarem marginalizados no desenho do futuro do mundo.

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Por estas inexplicáveis coincidências da vida, semana passada, enquanto eu estava em Montevidéu dando uma conferencia para ex-alunos e futuros alunos Uruguaios do IE, conheci uma ex-aluna do Executive MBA que trabalhava num dos maiores projetos educacionais do país: o Plan Ceibal.

No dia seguinte, fui conhecer a sede do projeto e o diretor geral, Gonzalo Pérez Piaggio, com quem tive o prazer de me reunir e fazer umas perguntinhas.

Criado em 2007 diretamente pela presidência da república do Uruguai (ou seja, não depende de nenhum ministério ou ente público estabelecido), o projeto nasceu diretamente da ideia “One Laptop Per Child” concebida pelo famoso e polêmico Nicholas Negroponte do MIT (versão Wikipedia).

O projeto está comemorando 5 anos este ano, com alguns números bem impressionantes (apesar de algumas críticas, em minha opinião, menores): 100% das crianças possuem um laptop no Uruguai, o País se tornou o mais conectado da América Latina (91% da população) e praticamente eliminou o analfabetismo digital do país (todos os jovens com menos de 16 anos sabem operar um computador e têm noções de programação!). Mais de 500 mil pessoas já receberam os pequenos computadores. Tirei uma foto para vocês verem as máquinas:

One Laptop Per Child - Uruguay

One Laptop Per Child – Uruguay

Aproveitei para fazer algumas perguntinhas para o Gonzalo:

1) Como funciona a distribuição dos computadores?
Durante os 9 anos da educação primária uruguaia os alunos recebem 2 computadores, que têm a vida útil de aproximadamente 5 anos. De 6 a 11 anos de idade, eles recebem o computador verde (mais simples), e dos 11 aos 16 o computador azul (mais potente). Os professores recebem uma versão ainda mais completa chamada Magalhães.

2) Quais foram os principais obstáculos na época?
Convencer a população de que estas máquinas não competiriam com os laptops comerciais vendidos por empresas tipo Dell, Lenovo, HP, etc, distorcendo o mercado de informática no país. Instalar ADSL e wifi em mais de 2.500 escolas em todo o país foi outro grande desafio (principalmente no campo).

3) E agora, qual o principal desafio?
Iniciar o processo de personalização da educação pública uruguaia, “desestruturando” a tradicional educação (industrializada e mecanizada) do País, que ensina as mesmas coisas, e num mesmo ritmo a todos os alunos do sistema, independentemente de suas habilidades ou afinidades com as matérias (a inspiração está claramente e abertamente baseada em Sir Ken Robinson, em outro post voltaremos a ele).

Tudo bem que o Uruguai seja um País pequeno (os críticos sempre dizem isso), mas não há dúvida de que estão educando seus jovens na direção correta. Outro ponto, talvez o mais importante, é que, sendo um dos países menos corruptos das Américas, o Uruguai consegue fazer com que os 50 milhões de dólares anuais do projeto sejam usados totalmente para o mesmo.

No Brasil, não tenho nenhuma dúvida que grande parte do dinheiro de projetos bacanas deste tipo vão parar na Suiça, na conta de membros bandidos dos nossos principais partidos políticos.

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  • Quem Faz

    Quem Faz

    Newton Campos

    Com 20 anos de experiência nas áreas de tecnologia e educação superior, participou de numerosos projetos em distintos países. Atualmente leciona e trabalha na IE Business School da Espanha, com profissionais que criaram alguns dos melhores programas de pós-graduação em formato blended do mundo. Doutor em Criação e Gestão de Negócios pela FGV-SP, passou por organizações como PricewaterhouseCoopers, Telefónica e IIM Indian Institute of Management, além de ter participado na criação de diversas empresas no Brasil entre 1997 e 2010.

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