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Dilema entre austeridade e estado de bem-estar social em tempos de crise

7 de maio de 2012 | 14h58

Karla Mendes

     

 

O que fazer com Estado de bem-estar social que pesa tanto nas economias europeias em tempos de crise? Os franceses deram ontem a sua resposta, ao eleger o socialista François Hollande, com 51,67% dos votos: querem a continuidade dos investimentos pesados do estado para garantir educação de qualidade e condições de trabalho à população, apesar da crise.

Como segunda economia da zona do euro, as eleições francesas tiveram destaque na imprensa mundial. Aqui na Espanha, não foi diferente. Estava na capa dos principais jornais, com chamadas que variam de “crise derruba Sarkozy” à incerteza que o governo socialista francês sinaliza para todo o continente, uma vez que Hollande já deixou bem clara a sua posição contrária à “austeridade a qualquer custo” imposta pela chancheler alemã, Angela Merkel.

“A austeridade não pode ser uma condenação”. Esse discurso de Hollande de crítica ao rigor fiscal sem crescimento foi o que seduziu os franceses e pôs fim à parceria conhecida como Merkozy, termo que a imprensa daqui caracteriza como a “falsa simbiose” entre Merkel e o ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy.

O novo presidente francês promete que negociará duramente com Berlim para afrouxar as metas de déficit da França de modo que possam ser realizados investimentos e criação de emprego. Hollande quer contratar 60 mil professores, reduzir à metade a reprovação escolar e construir 40 mil moradias novas para estudantes. Outra ambição é criar 150 mil postos de trabalho, denominado “contratos de geração”.

A ideia é estimular as empresas a contratar jovens com menos de 30 anos e mantenham no seu staff profissionais experientes, com mais de 55 anos para estancar o aumento do desemprego nas faixas da população que mais sofrem com a crise. Nessas condições, o veterano destinará um terço do seu tempo para formar o jovem. A empresa que fizer contratações nesses moldes terá cinco anos de isenções de encargos trabalhistas. O novo governo também ameaça aumentar os custos das demissões em massa das empresas lucrativas. Quanto às aposentadorias, Hollande afirma que a concessão do benefício voltará a ser aos 60 anos. Na gestão Sarkozy, a idade mínima havia sido aumentada para 62 anos.

Cumprir todas essas promessas, no entanto, não será tarefa fácil. Apesar dos recortes realizados na gestão Sarkozy, o peso do estado de bem-estar na França é 56% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, sem corte de gastos, fica complicado ter verba para fazer investimentos e estimular a economia do país.

Mas só arrochar o orçamento também não é a solução para tirar o país da crise. A Espanha que o diga. Apesar de todos os cortes que estão sendo realizados – inclusive em serviços essenciais, como saúde e educação – o país, que está oficialmente em recessão, enfrenta a desconfiança dos investidores internacionais: há dúvida se as medidas serão suficientes para a retomada do crescimento.

Difícil dizer quem está correto. É uma questão bastante complexa. O que posso contar para vocês sobre a minha experiência é que estive em Paris há um mês e confesso que me senti muito mais insegura lá que em Madri. Sim, é indiscutível que a economia francesa está muito melhor que a espanhola e que boa parte dessa “pujância” é consequência das medidas de austeridade da era Sarkozy. Mas não posso deixar de comentar que o fim de muitas ações do estado de bem-estar social de lá tem reflexos diretos no dia-a-dia.

O número de pessoas que nos abordam nas ruas pedindo dinheiro ou comida é muito maior que em Madri. A quantidade de pessoas sem casa, que dormem nas ruas, também é incrivelmente maior. Nos principais pontos turísticos da cidade, como a Torre Eifel e o Louvre, são inúmeros os avisos para que os turistas tenham cuidado com bolsas, celulares e objetos pessoais, devido à forte presença de “carteiristas”.

Rajoy paga nas urnas de Andaluzia e Astúrias o preço das reformas anticrise

27 de março de 2012 | 15h04

Karla Mendes

A crise vivida pela Espanha influenciou o resultados das eleições em Andaluzia e Astúrias realizadas no fim de semana. Pelo menos é o que me explicaram colegas de trabalho muito engajados politicamente. Aliás, quase todos os espanhóis que conheci até agora são super conectados com a política do seu país.

O que me disseram é que, principalmente em Andaluzia, a derrota do PP (partido do presidente Mariano Rajoy, caracterizado como de direita/extrema direita) foi uma espécie de “castigo” ao governo, uma reação às reformas feitas nos 100 primeiros dias da nova gestão: o aumento de impostos sobre a renda da pessoa física (que é o Imposto de Renda daqui) em dezembro e a reforma laboral anunciada no mês passado.

Em Andaluzia, especificamente, também há outro detalhe: historicamente sempre ganhou o PSOE, o partido socialista daqui. E desta vez não foi diferente, o que revela o desgaste eleitoral do PP em tão pouco tempo de governo.

Em Andaluzia o PP até ganhou as eleições, mas os 50 deputados eleitos, que correspondem a 40% dos votos deixou o partido longe da maioria absoluta pretendida. Por outro lado, o PSOE, com 47 deputados (39,5% dos votos) comemorou o resultado e deve chegar a um acordo com a Esquerda Unida, que elegeu 12 deputados, e conseguir a maioria para continuar no poder. Em Extremadura, os dois partidos já atuam unidos.

Em Astúrias aconteceu o contrário. O PSOE ganhou, o que é atribuído também às medidas adotadas por Rajoy, que não foram expostas à população com a devida clareza. Mas como o partido também não obteve maioria absoluta dos votos, a direita até poderia governar, mas o que se fala é que não há clima para um aliança com o PP depois do embate direto que o chefe do governo regional, Francisco Alvarez Cascos, abriu contra o governo Rajoy.

A situação econômica dessas comunidades autônomas é muito pior que a média do país, que tem uma taxa de desemprego de 22,8%. Em Andaluzia, que concentra 8,5 milhões dos 47 milhões de espanhóis, os desempregados já representam 30% da população. Outro agravante é que a região enfrenta o maior escândalo de corrupção no país: 1 bilhão de euros (R$ 2,4 bilhões) desviados dos fundos de auxílio aos desempregados, com envolvimento do presidente da região, José Antonio Griñán. Em Astúrias, que tem pouco mais de 1 milhão de habitantes, a taxa de desemprego é de quase 21%.

Apesar disso, Rajoy já anunciou que não congelará as reformas conômicas. O presidente anunciou que “A Espanha não pode ficar arada” e avisa que em abril haverá mais medidas de austeridade fiscal.

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