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15 de Abril de 2010

 

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A crise na terra dos reis
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Resgate deixa espanhóis com orgulho ferido

25 de junho de 2012 | 14h02

Karla Mendes

Levei um susto ao ouvir um colega de trabalho, que é sempre muito bem-humorado, dizer o seguinte, depois do anúncio oficial do resgate da Espanha: “Karla, daqui a um tempo você estará de volta ao Brasil e nós estaremos aqui fazendo matérias sobre o resgate do seu país”. Quase não acreditando no que ouvia, eu lhe respondi imediatamente: “Resgate do Brasil? É isso que você deseja para a gente?”. E o meu colega, em tom de desabafo: “Não queremos que só nós sejamos resgatados”.

Ainda desacreditando na barbaridade que tinha acabado de ouvir, preferi me calar e encerrar o assunto, pois essa cena deixou bem claro para mim como o humor dos espanhóis anda a flor da pele. Desde o anúncio do resgate de até 100 bilhões de euros para sanear o sistema financeiro espanhol, os cidadãos da Península Ibérica, que já estavam meio desolados com tantas notícias ruins decorrentes dos efeitos da crise que degrada a situação econômica do país. Mas o anúncio do resgate foi, de fato, um baque para eles.

Há duas semanas eu já tinha relatado em um post a declaração de um jornalista renomado daqui de que seria uma humilhação se a Espanha fosse resgatada nos mesmos moldes da Grécia. Por fim, o governo conseguiu uma saída para injetar dinheiro no sistema financeiro sem perder tanta autonomia como Grécia, Irlanda e Portugal. Mas não se sabe até quando esse “privilégio” concedido à Espanha vai perdurar, pois não para de emergir notícias cada dia piores.

Matéria publicada hoje pelo jornal econômico Expansión revela que a agência internacional de risco Moody’s anunciará hoje o rebaixamento da classificação de todos os bancos espanhóis. Segundo a matéria, os bancos normalmente têm um grau de investimento mais baixo que o dos títulos do governo. Como a classificação da Espanha já foi rebaixada este mês e está a um degrau do que chamam aqui de “bono basura”, ou seja, títulos que não valem nada, a matéria alerta que quase todo o setor financeiro espanhol receberá um rating de bono basura (lixo). Possivelmente só grandes intituições como Santander, BBVA ou CaixaBank consigam livrar-se.

E o desemprego continua sendo a maior preocupação dos espanhóis. Pesquisa divulgada este mês pelo instituto CIS mostra que isso é o que tira o sono de 81,7% das pessoas entrevistadas, seguida pelos problemas econômicos (51%). Além disso, 39,1% teme que a economia espanhola piore em 2013 (dois pontos porcentuais a mais que abril) e só 16,2% confia que haverá melhora (2,5 pontos porcentuais menos que no mês anterior).

Choque de gestão no sistema bancário espanhol para tentar recuperar a confiança dos investidores

11 de maio de 2012 | 16h06

Karla Mendes

A debilidade do sistema bancário da Espanha ficou bastante evidente esta semana. Um dia depois de nacionalizar o Bankia – quarta instituição financeira do país – o governo espanhol anunciou nesta sexta-feira que pedirá a duas consultorias independentes uma auditoria de toda a carteira imobiliária dos bancos. As exigências para a concessão de crédito para a compra a imóveis também endureceram consideravelmente.

As provisões, que eram de 7%, em média, saltaram para 30%, o que representa um esforço adicional do setor de cerca de 40 bilhões de euros (o que corresponde a cerca de R$ 100 bilhões). Esses valores terão que ser lançados nos balanços financeiros dos bancos.

Para as instituições que ficarem com capital negativo depois do ajuste, o Estado poderá intervir, mediante a emissão dos chamados bônus convergentese conversíveis (CoCos), remunerados a 10% ao ano, adquirindo participação acionária nos bancos deficitários. As instituições financeiras têm até julho para apresentar ao Banco da Espanha um plano para o cumprimento das novas exigências.

Na imprensa espanhola o que se diz é que o governo, na verdade, se adiantou a uma medida que seria pedida pelo Eurogrupo para tirar as dúvidas sobre a situação real do sistema financeiro espanhol, sobretudo à problemática do crédito imobiliário, que enfrenta uma situação muito parecida à bolha que explodiu nos Estados Unidos em 2008.

Aqui, assim como nos EUA, os preços dos imóveis se valorizaram de maneira artificial, processo desencadeado pelos financiamentos desenfreados. Uma colega de trabalho me disse que, há uns quatro anos, ao procurar um banco para comprar uma hipoteca, a instituição oferecia dinheiro para reformar a casa, mobiliá-la e até mesmo para comprar um carro.

Com o agravamento da crise, o cenário mudou. O crédito secou e as regras para emprestar dinheiro estão muito mais rigorosas. Consequência: há muitos imóveis encalhados e os preços despencaram. Essa colega, que paga a hipoteca de um imóvel adquirido há pouco tempo, não quer nem pensar nessa situação para não se desesperar.

As medidas anunciadas pelo governo são uma tentativa de resgate da confiança dos investidores, que estão deixando o país, provocando a disparada da curva de risco da Espanha e a queda do Ibex, a bolsa de valores daqui.

O governo do atual presidente Mariano Rajoy culpa o governo anterior de esconder a real situação da economia do país e do sistema financeiro. A intervenção no Bankia ocorreu depois que a consultoria Deloitte apontou fortes “desajustes” na contabilização de ativos da instituição que teve “a bênção” do governo anterior para se juntar à Caja Madrid, Bancaja e outras cinco instituições, criando uma espécie de “gigante de barro”, conforme definiu ontem o editoral publicado no jornal Expansión.

Pelos erros que apareceram hoje, a crítica é que, na verdade, essas fusões foram muito mais políticas que qualquer outra coisa. E sem rigor algum de controle por parte do Banco da Espanha. E como tudo que não tem uma base sustentável, um dia desmorona.

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