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Comércio de Madri aberto pela crise

28 de maio de 2012 | 15h11

Karla Mendes

Ao pegar um ônibus ontem para ir ao centro de Madri, saltou aos meus olhos a imagem de um sapato gigante na calçada do bairro Salamanca, na rua que é considerada a Oscar Freire daqui. E depois outro, e outro. Cada um de uma cor e com desenhos diferentes. Fiquei encucada para saber o que significava. De imediato, me lembrei da nossa “Cow Parade”.

 
Hoje quando abri os jornais, tudo se aclarou. Era o lançamento do “Madrid Sunday Shopping”, uma iniciativa do “ayuntamento” de Madri – que corresponde à prefeitura daqui – para dinamizar o turismo na capital espanhola aos domingos. Serão cinco domingos consecutivos de abertura. Uma boa iniciativa, principalmente em tempos de crise.

 
Uma matéria publicada no jornal ABC de hoje mostra que os comerciantes de Salamanca já intitularam o dia de “mina de ouro”. O projeto faz parte de uma série de iniciativas da administração do presidente Mariano Rajoy, que eliminou várias barreiras para a abertura de novas lojas e deu a largada ao processo de liberalização dos horários de abertura do comércio madrilenho.

 
A mais ampla delas, publicada no jornal Expansión de hoje, mostra que o governo propôs às comunidades autônomas – que equivalem aos estados aqui – duplicar o número de domingos e feriados em que o comércio pode funcionar. A ideia é que as lojas estejam de portas abertas no primeiro domingo de cada mês, três domingos ou feriados entre 25 de dezembro e 6 e janeiro, e um para as famosas “rebajas”, que são as liquidações de fim de estação daqui. A medida beneficiará, principalmente, às grandes lojas, já que o comércio com menos de 300 metros quadrados já tem liberdade total para abrir qualquer domingo e feriado, ainda que muitos optam por não trabalhar nesses dias.

 

No Centro, verdadeiro pólo turístico de Madrid, a maioria das lojas abrem aos domingos, mas nas regiões residenciais tudo fica fechado. No bairro onde moro, por exemplo, nem supermercado abre aos domingos, o que me causou muito estranhamento, já que no Brasil não é assim.

Aliado a isso, aproveito para falar de uma questão bastante polêmica. Sei que é uma coisa super tradicional da cultura espanhola a tradicional “siesta”, ou seja, parar tudo em meio a um longo horário sem trabalho e tirar uma soneca. Na verdade, aqui em Madri pouca gente faz isso. Aqui no jornal onde estou trabalhando as pessoas fazem um longo horário de almoço sim, mas ninguém vai para casa dormir, até porque para se deslocar de um bairro a outro se gasta no mínimo meia hora.

A redação onde estou fica em uma região longe (quase uma hora em transporte público do centro), mas aqui todas as lojas fecham na hora do almoço (foto abaixo). Ou seja, impossível aproveitar esse intervalo para fazer compras e resolver coisa simples, como colocar crédito no celular, por exemplo. Eu senti isso na pele.

Com a crise que tem deixado o país em uma situação difícil a cada dia, acho que muitos comerciantes deveriam repensar esse costume, em troca de obter mais rendimentos. Mas sei que isso pode demorar muito tempo.

Só o simples incremento do número de domingos em que as grandes lojas teriam “permissão” para funcionar aumentaria o faturamento do comércio varejista em 2,8% ao ano, o equivalente a 2,2 bilhões de euros e criaria 20 mil postos de trabalho. O levantamento foi feito pelo Instituto Empresas em Madrid. Imaginem, então, se ocorresse uma revolução geral de desburocratização do comércio e de mudança de costumes.

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