12:18


15 de Abril de 2010

 

Patrocinado por




Síndrome de abstinência

José Paulo Kupfer

Síndrome de abstinência

Mais devagar

Celso Ming

Mais devagar

Condenando o euro

Paul Krugman

Condenando o euro

A crise na terra dos reis
Filtro
Tamanho de texto: A A A A

A crise na terra dos reis

BUSCA NO BLOG >>

Choque de gestão no sistema bancário espanhol para tentar recuperar a confiança dos investidores

11 de maio de 2012 | 16h06

Karla Mendes

A debilidade do sistema bancário da Espanha ficou bastante evidente esta semana. Um dia depois de nacionalizar o Bankia – quarta instituição financeira do país – o governo espanhol anunciou nesta sexta-feira que pedirá a duas consultorias independentes uma auditoria de toda a carteira imobiliária dos bancos. As exigências para a concessão de crédito para a compra a imóveis também endureceram consideravelmente.

As provisões, que eram de 7%, em média, saltaram para 30%, o que representa um esforço adicional do setor de cerca de 40 bilhões de euros (o que corresponde a cerca de R$ 100 bilhões). Esses valores terão que ser lançados nos balanços financeiros dos bancos.

Para as instituições que ficarem com capital negativo depois do ajuste, o Estado poderá intervir, mediante a emissão dos chamados bônus convergentese conversíveis (CoCos), remunerados a 10% ao ano, adquirindo participação acionária nos bancos deficitários. As instituições financeiras têm até julho para apresentar ao Banco da Espanha um plano para o cumprimento das novas exigências.

Na imprensa espanhola o que se diz é que o governo, na verdade, se adiantou a uma medida que seria pedida pelo Eurogrupo para tirar as dúvidas sobre a situação real do sistema financeiro espanhol, sobretudo à problemática do crédito imobiliário, que enfrenta uma situação muito parecida à bolha que explodiu nos Estados Unidos em 2008.

Aqui, assim como nos EUA, os preços dos imóveis se valorizaram de maneira artificial, processo desencadeado pelos financiamentos desenfreados. Uma colega de trabalho me disse que, há uns quatro anos, ao procurar um banco para comprar uma hipoteca, a instituição oferecia dinheiro para reformar a casa, mobiliá-la e até mesmo para comprar um carro.

Com o agravamento da crise, o cenário mudou. O crédito secou e as regras para emprestar dinheiro estão muito mais rigorosas. Consequência: há muitos imóveis encalhados e os preços despencaram. Essa colega, que paga a hipoteca de um imóvel adquirido há pouco tempo, não quer nem pensar nessa situação para não se desesperar.

As medidas anunciadas pelo governo são uma tentativa de resgate da confiança dos investidores, que estão deixando o país, provocando a disparada da curva de risco da Espanha e a queda do Ibex, a bolsa de valores daqui.

O governo do atual presidente Mariano Rajoy culpa o governo anterior de esconder a real situação da economia do país e do sistema financeiro. A intervenção no Bankia ocorreu depois que a consultoria Deloitte apontou fortes “desajustes” na contabilização de ativos da instituição que teve “a bênção” do governo anterior para se juntar à Caja Madrid, Bancaja e outras cinco instituições, criando uma espécie de “gigante de barro”, conforme definiu ontem o editoral publicado no jornal Expansión.

Pelos erros que apareceram hoje, a crítica é que, na verdade, essas fusões foram muito mais políticas que qualquer outra coisa. E sem rigor algum de controle por parte do Banco da Espanha. E como tudo que não tem uma base sustentável, um dia desmorona.

Dilema entre austeridade e estado de bem-estar social em tempos de crise

7 de maio de 2012 | 14h58

Karla Mendes

     

 

O que fazer com Estado de bem-estar social que pesa tanto nas economias europeias em tempos de crise? Os franceses deram ontem a sua resposta, ao eleger o socialista François Hollande, com 51,67% dos votos: querem a continuidade dos investimentos pesados do estado para garantir educação de qualidade e condições de trabalho à população, apesar da crise.

Como segunda economia da zona do euro, as eleições francesas tiveram destaque na imprensa mundial. Aqui na Espanha, não foi diferente. Estava na capa dos principais jornais, com chamadas que variam de “crise derruba Sarkozy” à incerteza que o governo socialista francês sinaliza para todo o continente, uma vez que Hollande já deixou bem clara a sua posição contrária à “austeridade a qualquer custo” imposta pela chancheler alemã, Angela Merkel.

“A austeridade não pode ser uma condenação”. Esse discurso de Hollande de crítica ao rigor fiscal sem crescimento foi o que seduziu os franceses e pôs fim à parceria conhecida como Merkozy, termo que a imprensa daqui caracteriza como a “falsa simbiose” entre Merkel e o ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy.

O novo presidente francês promete que negociará duramente com Berlim para afrouxar as metas de déficit da França de modo que possam ser realizados investimentos e criação de emprego. Hollande quer contratar 60 mil professores, reduzir à metade a reprovação escolar e construir 40 mil moradias novas para estudantes. Outra ambição é criar 150 mil postos de trabalho, denominado “contratos de geração”.

A ideia é estimular as empresas a contratar jovens com menos de 30 anos e mantenham no seu staff profissionais experientes, com mais de 55 anos para estancar o aumento do desemprego nas faixas da população que mais sofrem com a crise. Nessas condições, o veterano destinará um terço do seu tempo para formar o jovem. A empresa que fizer contratações nesses moldes terá cinco anos de isenções de encargos trabalhistas. O novo governo também ameaça aumentar os custos das demissões em massa das empresas lucrativas. Quanto às aposentadorias, Hollande afirma que a concessão do benefício voltará a ser aos 60 anos. Na gestão Sarkozy, a idade mínima havia sido aumentada para 62 anos.

Cumprir todas essas promessas, no entanto, não será tarefa fácil. Apesar dos recortes realizados na gestão Sarkozy, o peso do estado de bem-estar na França é 56% do seu Produto Interno Bruto (PIB). Ou seja, sem corte de gastos, fica complicado ter verba para fazer investimentos e estimular a economia do país.

Mas só arrochar o orçamento também não é a solução para tirar o país da crise. A Espanha que o diga. Apesar de todos os cortes que estão sendo realizados – inclusive em serviços essenciais, como saúde e educação – o país, que está oficialmente em recessão, enfrenta a desconfiança dos investidores internacionais: há dúvida se as medidas serão suficientes para a retomada do crescimento.

Difícil dizer quem está correto. É uma questão bastante complexa. O que posso contar para vocês sobre a minha experiência é que estive em Paris há um mês e confesso que me senti muito mais insegura lá que em Madri. Sim, é indiscutível que a economia francesa está muito melhor que a espanhola e que boa parte dessa “pujância” é consequência das medidas de austeridade da era Sarkozy. Mas não posso deixar de comentar que o fim de muitas ações do estado de bem-estar social de lá tem reflexos diretos no dia-a-dia.

O número de pessoas que nos abordam nas ruas pedindo dinheiro ou comida é muito maior que em Madri. A quantidade de pessoas sem casa, que dormem nas ruas, também é incrivelmente maior. Nos principais pontos turísticos da cidade, como a Torre Eifel e o Louvre, são inúmeros os avisos para que os turistas tenham cuidado com bolsas, celulares e objetos pessoais, devido à forte presença de “carteiristas”.

Vingança das colônias contra a metrópole

4 de maio de 2012 | 16h06

Karla Mendes

 

Foram apenas 15 dias. E a antiga metrópole espanhola foi achacada por duas de suas ex-colônias. E com repercussões mundiais. Primeiro, a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, surpreendeu o governo espanhol com o anúncio da expropriação da petroleira YPF, controlada pela Repsol. Um baque enorme para a economia do país, já bastante debilitada e oficialmente em recessão, e principalmente para a Repsol, já que as atividades da empresa no país de “los hermanos” representava nada menos que metade da produção de petróleo da companhia. E Cristina ostenta que Repsol não receberá nenhum centavo.

Duas semanas depois, o presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou a nacionalização da Transportadora de Eletricidade (TED), expropriando as ações que estavam em poder da espanhola Red Elétrica de Espanha (REE) desde 2002, em uma operação que custou US$ 88,3 bilhões. Nesse caso, Morales demonstrou sua intenção de indenizar a companhia espanhola pelos investimentos realizados no país.

Mas isso é só um detalhe. Quero deixar claro que sou contra qualquer decisão autoritária, a exemplo do que fizeram Cristina e Morales. Mas não posso deixar de dizer que esses atos “nacionalisas” expuseram, na verdade, a fragilidade da Espanha no momento em que enfrenta a mais grave crise econômica de sua história.

Isso ficou bem claro para mim ao ouvir um colega de trabalho, que é espanhol, dizer: “É, nós não somos nada”, logo depois da expropriação de Repsol. Com essa frase, ele expressou como mudou completamente o cenário político e econômico entre Europa e América Latina nos últimos anos, depois de séculos de subjugação, desde o descobrimento do continente sulamericano, até a tremenda crise que assola o país depois de anos e anos de bonança.

Essa tese ficou ainda mais evidente quando ouvi Juan José Laborda, ex-presidente do Senado e membro do Conselho de Estado de Madrid expressar, sem nenhum receio, em uma aula para um grupo de jornalistas latinoamericanos, que “nós não temos certeza de como será nosso futuro” e que “pela primeira vez, o futuro pode ser pior que o passado”. E destacou que essa crise, como a de 1929, “tem o epicentro nas velhas nações, que dominaram o mundo durante os últimos 200 anos”.
A charge publicada ontem pelo jornal El Economista, que publico neste post, ilustra bem o cenário atual. Nela, um senhor de terno e gravata, como se fosse um desses professores de cursos de marketing pessoal, dá o seguinte conselho a uma figura primitiva, que representa de forma muito pejorativa os governantes da América Latina: “Necessita melhorar sua imagem: não há em seu país alguma empresa espanhola para expropriá-la?”.

Times de futebol espanhóis que não quitarem suas dívidas com o governo serão expulsos da competição e poderão ser extintos

27 de abril de 2012 | 15h50

Karla Mendes

Nem o tão consagrado futebol espanhol escapou dos efeitos da recessão do país. As dívidas dos clubes com o Ministério da Fazenda, que se arrastam há anos e somam 673 milhões de euros, não ficarão incólumes aos ajustes do governo para tentar tirar o país da recessão. Eles terão que pagar suas dívidas até 2020. Caso contrário, serão expulsos da Liga de Futebol Profissional (LFP) e poderão se extintos. Vai sobrar até para o presidente da LFP, que pode ser destituído do cargo.

As medidas fazem parte de um protocolo assinado esta semana entre o Conselho Superior de Esportes (CSD), a LFP e o Ministério da Educação, Cultura e Esporte. Para garantir o cumprimento das obrigações tributárias, 35% da receita referente a direitos audiovisuais arrecadados pelos clubes terão que ser depositados como garantia na LPF a partir de 2014. Se os times descumprirem suas obrigações com a Fazenda, a partir dessa data, o valor retido será repassado para a Agência Tributária espanhola.

“As medidas são muito fortes. Mas é necessário e conveniente que os clubes ajustem seus gastos, para que não vire um buraco negro”, defende Félix Plaza, sócio da consultoria Garrigues Sports & Entertainment, especialista em direito fiscal e esportivo. Plaza reforça que as medidas são mais que necessárias neste momento crítico da economia espanhola, oficialmente em recessão.

De fato, seria no mínimo incoerente se os clubes de futebol ficassem imunes à dura política de cortes de gastos na Espanha, que não poupou nem serviços vitais para a sociedade, como saúde e educação.

Do total da dívida dos clubes, 489 milhões de euros referem-se aos times da primeira divisão. Dados publicados pela imprensa local mostram que a maior dívida é a do Atlético de Madrid: 115 milhões de euros. Na segunda posição, aparece o Barça, com 84 milhões. O Real Madrid não tem dívidas com o governo espanhol.

Tópicos relacionados

Espanha em recessão perdoa ao rei por caçar elefantes na África enquanto crise no país se agravava

24 de abril de 2012 | 15h00

Karla Mendes

    

Bastou o pedido de desculpas do rei Juan Carlos em um depoimento gravado para a TV espanhola. E os súditos espanhóis perdoaram sua majestade por estar caçando elefantes em Botsuana, na África, enquanto o país enfrentava a disparada da curva de risco do país devido à desconfiança dos investidores e o acirramento da crise diplomática com a Argentina, desencadeada pelo anúncio da expropriação da petroleira YPF Repsol exatamente no dia em que Juan Carlos foi manchete de todos os jornais da Espanha por seu afastamento “inoportuno”.

Como “nunca antes na história” da Espanha um rei havia se pronunciado sobre sua vida privada, muito menos para se desculpar, as manchetes seguintes ao pedido de desculpas exaltavam a “humildade” do rei, na última quinta-feira. Nesse mesmo dia, almocei com alguns colegas de trabalho aqui e tive uma verdadeira aula de monarquia, pois o centro da conversa não foi outro senão as desculpas do rei.

Naquela ocasião eu soube que, apesar de toda a repercussão negativa da viagem do rei sem aviso prévio enquanto o país desabava, a monarquia espanhola não estava ameaçada. Muito menos a autoridade do rei Juan Carlos, pelo qual muitos cidadãos daqui têm verdadeira devoção, taxados inclusive de “juan carlistas”.

Chamou muito a minha atenção o comentário de um dos colegas, que disse: “nós, espanhóis, somos muito apaixonados. Bastou o pedido de desculpas histórico e o assunto foi encerrado”. Na verdade, mais que um rei, Juan Carlos representa para a população daqui o símbolo vivo da democracia espanhola, que se instaurou depois de anos e anos de ditadura.

Ele tinha razão. No domingo, a manchete do El Mundo mostrava exatamente isso: 70% dos espanhóis perdoam o rei. Os dados foram encomendados ao instituto Sigma Dos pelo próprio jornal, que é de direita e apoia o governo. Entre os maiores de 65 anos, o índice de perdão foi ainda maior: 80,5%. Os jovens, contudo, têm uma visão mais crítica do episódio, mas ainda assim 57,9% concederam seu perdão ao monarca.

Apesar disso, porém, o incidente deixou sequelas na imagem do rei. Na sondagem, 52,8% opinaram que o pedido de desculpas não reparavam o dano causado à imagem da Coroa Real pela viagem, que só se tornou pública porque o rei teve uma fratura no quadril depois de um tombo no hotel e teve que voltar às pressas para Madri.

Recessão

Um dia depois do perdão generalizado ao rei, a Espanha recebeu a notícia de que está em sua segunda recessão desde 2009. O Banco da Espanha anunciou ontem que o Produto Interno Bruto (PIB) do país caiu 0,4% no primeiro trimestre de 2012 em comparação ao último trimestre de 2011, que já acumulava uma retração de 0,3% sobre o período anterior. Ou seja, dois trimestres seguidos de PIB negativo, o que oficializa que o país está tecnicamente em recessão.

Outros componentes que agravam a recessão espanhola é o índice de desemprego, que alcançou 24% (o mais alto da zona do euro), e a queda de 0,4% no consumo das famílias, que são os verdadeiros termômetros da economia de um país. Os investimentos em bens de capital, que mostram como está a indústria, também teve retração de 3,5%.

 

Tópicos relacionados

Juan Carlos: o rei na terra da crise

16 de abril de 2012 | 15h02

Karla Mendes

 

 

A semana passada foi bastante crítica para a Espanha, que está mergulhada em uma crise sem precedentes. A curva de risco disparou, devido à desconfiança dos investidores no país. A crise da petroleira espanhola Repsol com o governo argentino se acirrou (o que levou a presidente Cristina Kirchner a decretar hoje a intervenção na YPF Repsol e enviar projeto ao Congresso para retomar parte do capital da antiga estatal do petróleo). Foi anunciado o aumento das tarifas de metrô, ônibus e trens metropolitanos em Madri, o que provocou revolta da população. E onde estava o rei Juan Carlos? Em um safari em Botsuana, na África, caçando elefantes, desde a última segunda-feira.

E os espanhóis só ficaram sabendo dessa “agenda particular” do rei na madrugada de sexta para sábado, quando Juan Carlos sofreu um acidente ao tropeçar em um degrau no quarto do hotel e teve que vir em um avião particular para Madri, onde foi operado. Resultado: teve que ser colocada uma prótese no quadril e ele terá que fazer repouso de 45 dias. E isso depois de o rei ter declarado recentemente que o índice de emprego entre os jovens, que atingiu o recorde histórico de 51% “lhe tirava o sono”. Sem falar que há uma semana seu neto Felipe Juan Froilán, de 13 anos, sofreu um acidente em que levou um tiro no pé com uma espingarda da família.

Os nervos dos espanhóis, porém, estão à flor da pele. E não é para menos. Como reagir diante da notícia de que o rei estava caçando elefantes enquanto o país passa por situações tão delicadas? No caso da crise diplomática com a Argentina, por exemplo, o mínimo que se esperava era que o rei, que na verdade é um “embaixador de luxo” interviesse diretamente nas negociações envolvendo uma das principais empresas do país.

A oposição, claro, teceu duras críticas. Representantes dos partidos socialistas afirmaram, em uníssono, que a postura do rei é o contrário do que deveria ter um representante da monarquia espanhola. E que chegou o momento de o rei Juan Carlos decidir entre as obrigações e deveres do cargo ou abdicá-las para desfrutar de uma “vida diferente”.

Outra pergunta que não se cala para essas “extravagâncias” do rei é quem está pagando a conta, que não é nada barata. Estima-se que só esse safari tenha custado cerca de 35 mil euros, ou mais de R$ 100 mil. Esse dinheiro saiu de onde? Dos cofres públicos? Há rumores por aqui que a conta foi paga por empresários que são frequentadores assíduos da Casa Real, que foram junto com sua majestade para o safari, em um avião privado. A Casa Real disse que não informou sobre a viagem por considerá-la privada. Durante o afastamento, o rei será representado por seu filho, o príncipe de Astúrias, Don Felipe.

Em outubro passado, os cidadãos espanhóis reprovaram, pela primeira vez, o regime da monarquia, ao avaliá-la com a nota de 4,89 em uma escala de 10, segundo o barômetro do Centro de Estudos de Investigações Sociológicas (CIS). Se a pesquisa fosse repetida hoje, a avaliação seria certamente pior, pois desses seis meses para cá, além de a situação econômica do país ter se esfacelado, vieram à tona escândalos de corrupção envolvendo o genro do rei, Iñaki Ungarin, casado com a princesa Cristina, em desvio de verba da instituição sem fins lucrativos Nóos, que ficou conhecido como “caso Nóos”.

Tópicos relacionados

Crise de confiança dentro e fora da Espanha

12 de abril de 2012 | 15h21

Karla Mendes

A situação da Espanha não está nada boa. De um lado, a desconfiança dos investidores em relação ao país aumentou de maneira significativa nos útlimos dias e a curva de risco disparou, atingindo 433 pontos, número que só fica atrás do recorde histórico de 468 pontos registrados em novembro do ano passado, quando o Partido Popular (PP) ganhou as eleições, depois de nove anos do governo do Partido Socialista Espanhol (PSOE).
Ontem, o Ibex, que é o índice da Bolsa de Valores da Espanha, caiu quase 3%, reflexo da falta de confiança dos investidores nas contas das comunidades autônomas – que correspondem aos estados daqui e representam mais de 50% dos gastos públicos – e de que o presidente Mariano Rajoy conseguirá controlá-las com as inúmeras reformas que o governo quer emplacar a qualquer custo nas mais diversas áreas da administração pública.
De outro, a população se revolta contra o anúncio do aumento de 11% em média do transporte público (ônibus, metrô e trens metropolitanos) a partir de maio. É o maior reajuste desde que Esperanza Aguirre assumiu a presidência da Comunidade de Madri há quase uma década e apenas dois meses e meio depois de a própria Aguirre assegurar que as tarifas de transporte não subiriam este ano.

Curiosamente, Aguirre repetiu a afirmação ontem mesmo, e pouco depois veio o anúncio do reajuste das tarifas de transporte, que pesam muito no custo de vida do cidadão, como em qualquer país. Mas aqui, nesse momento difícil de crise, com mais de 5 milhões de desempregados e com os salários congelados ou em queda, a situação fica ainda mais complicada.

O maior impacto ocorrerá no bilhete para o aeroporto de Barajas, que dobrará dos atuais 2,50 euros para 5 euros. O bilhete de 10 viagens subirá de 9,30 euros para 12 euros, ou seja, 29% a mais. Na modalidade chamada de abono mensal, que permite ao cidadão fazer viagens ilimitadas de metrô e ônibus em Madri, o preço passará de 47,60 euros para 51,30 euros (cerca de 8% a mais).

A Metro Madrid, empresa pública que administra a rede de transportes de Madrid, sempre fez muita publicidade do preço do metrô da capital espanhola, que é o mais barato quando comparado com outras cidades, como Paris ou Berlim. Ao conversar com um amigo espanhol, porém, ele diz que essa comparação não é correta, pois em países como França ou Alemanha o transporte é mais caro, mas os salários também são mais altos. Assim, como a média salarial aqui é bem mais baixa, o custo do transporte acaba sendo bem mais alto para os espanhóis.

Esse meu amigo, por exemplo, disse que é muito difícil conseguir ganhar 1.200 euros (cerca de R$ 3 mil) por mês. E posso testemunhar que, pelo menos na área de jornalismo, os salários que se pagam aqui são mais baixos que os que se pagam em Brasília, por exemplo. Mas por outro lado, aqui se consegue viver com mais qualidade de vida com menos dinheiro.

Tópicos relacionados

Arrocho no orçamento da Espanha será feito “custe a que custar”, garante ministro

3 de abril de 2012 | 15h17

Karla Mendes

 

O ministro da Fazenda do governo espanhol, Cristóbal Montoro, alardeou hoje em alto e bom tom que os cortes de 27,3 bilhões de euros no orçamento do país serão feitos a qualquer custo, doa a quem doer. Foi um recado direto às comunidades autônomas (que correspondem aos estados daqui), que terão de cumprir o arrocho fixado pelo governo do presidente Mariano Rajoy.

“O orçamento é complicado para todas as comunidades autônomas. Todos estamos no mesmo barco. Não vamos aceitar nenhuma desculpa ou pretexto em nenhum território da Espanha. Ou o Estado atuará”, avisou. Montoro se referiu à lei aprovada recentemente, que permite ao governo intervir nas comunidades autônomas que não cumprirem as determinações do governo central, poder com que não contavam os governos anteriores.

Alvo de gastos desmedidos e de inúmeras denúncias de corrupção, as comunidades autônomas sempre foram algo “intocável” em terras espanholas, mas o governo atual resolveu por fim a essa caixa preta, dentro do conjunto de reformas para tentar tirar o país da crise. “A meta de déficit é obrigatória, independentemente dos acordos políticos”, reforçou Montoro, fazendo menção às eleições realizadas recentemente em Astúrias e Andaluzia.

Os cortes no orçamento, defendeu o ministro, são a única maneira de tirar a Espanha da crise. “Estamos no limite. O maior problema da Espanha, que produz e agrava a recessão, é o financiamento da economia pelo alto endividamento”, ressaltou. “O desafio desse orçamento é recuperar a confiança dos investidores na Espanha. E confiança não se recupera com déficit público e aumento da carga tributária”, explicou.

Montoro enfatizou que a Espanha precisa fechar essa brecha aberta no governo anterior, na gestão do socialista José Luis Rodríguez Zapatero, que fechou os olhos para a crise financeira dos Estados Unidos, ao dizer que ela não interferiria na Espanha, e continuou com a torneira de gastos aberta. “A Espanha tem que fechar essa brecha. Devemos reduzir essa dependência financeira. A forma mais certa e mais rápida de sair da crise é com a redução do déficit público”, concluiu.

As declarações do ministro foram feitas durante a apresentação do chamado “livro amarelo”, que é o projeto do orçamento do governo para 2012 ao Congresso dos Deputados (a Câmara dos Deputados daqui). Aqui, depois de fechar a proposta, o governo tem que apresentar o projeto de lei primeiro ao Congresso dos Deputados.

Assim como no Brasil, o sistema legislativo espanhol também é bicameral, ou seja, tem que passar pelo crivo de deputados e senadores, mas meu colega de trabalho, o asturiano Yago González, me explicou que a votação importante é mesmo a do Congresso dos Deputados, pois “o Senado não manda nada”. Segundo ele, o documento vai para lá só “pró-forma”.

Entre os deputados, o governo de Mariano Rajoy tem maioria e é dado como certo que a proposta do Orçamento 2012 será aprovada com facilidade. Nessa instância, o acordo importante que tem que ser costurado é com os representantes da Catalunha e do País Basco.

Tópicos relacionados

Crise enfraquece greve geral em Madri

29 de março de 2012 | 15h02

Karla Mendes

 

 

A população espanhola concorda com a reforma laboral do governo de Mariano Rajoy, que facilita a demissão e acaba com uma série de benefícios dos trabalhadores? É evidente que não.

No entanto, a profunda crise em que o país está mergulhado, com mais de 5 milhões de desempregados (23,8% da população), calou a voz de muitos trabalhadores, receosos de perder o emprego se aderissem à greve geral que tomou conta de todo o país nesta quinta-feira.

Fui a um Burger King perto do Museo del Prado e a funcionária me disse que, apesar de o dono ter dito que a greve era um direito assegurado pela Constituição e que eles poderiam não comparecer ao trabalho hoje, ninguém faltou. “Essa reforma não é boa, mas ficar sem o emprego é ainda pior. Com essa crise, não dá para aderir a esse tipo de movimento”, afirmou.

No centro de Madrid, muitas lojas estavam abertas. Em várias delas, manifestantes faziam piquetes, para intimidar os comerciantes a fechá-las, como ocorreu na porta do Mc Donald’s e do El Corte Inglés, que funcionava com viaturas policiais do lado de fora.

Presenciei uma discussão feia na porta de um restaurante chamado All U Can Eat, em que o dono ficou na porta discutindo com os manifestantes, que queriam forçá-lo a baixar as portas. Conversei com o comerciante e ele me disse que todos os 400 funcionários da rede quiseram trabalhar hoje.

Um sindicalista me disse que essa foi a pior greve geral da história da Espanha. Apesar de oficialmente as entidades sindicais afirmarem que a adesão foi de 85%, esse senhor me disse que foi de apenas 35%, o que ele também atribui à crise econômica do país. “As pessoas estão com muito medo de perder o emprego. Meu filho cursou duas faculdades e não consegue trabalhar”, desabafou.

Conversei com um engenheiro formado há 3 anos, que me contou que nunca conseguiu ser contratado como engenheiro. As únicas vagas que conseguiu foi como estagiário para ganhar 600 euros (o equivalente a R$ 1,5 mil) mensais. Agora, ele está apelando para conseguir trabalho fora da sua área. “Me candidatei a uma vaga na Mercadona”, confessou, referindo-se a uma rede de supermercados daqui.

Transtornos

Houve atrasos dos trens do metrô e ônibus sim, mas confesso que esperava uma situação bem mais caótica. Fiz questão de ir cedo a estações de metrô, terminais e paradas de ônibus para verificar a situação no centro da cidade e poder dar meu testemunho para vocês aqui no blog.

Os trens estavam mais cheios que o normal? Sim. Mas confesso que dos quatro metrôs que peguei, só em um tive que esperar cinco minutos. Nos outros três, esperei dois minutos no máximo. Nos terminais de ônibus, a rede foi reduzida à quarta parte, segundo a atendente. Nas redes de trens metropolitanos, só aparecia o aviso de partida de um trem na tela que tem espaço para sete. E só foi possível comprar os bilhetes usando o terminal eletrônico.

Lá conversei com uma mulher, que, antes de sair de casa, tinha olhado os horários previstos para os trens metropolitanos, mas que mesmo assim teria que esperar 40 minutos. Mas o incômodo maior para ela foi não poder ir ao trabalho porque a babá da sua filha não foi trabalhar hoje.

Perto da hora do almoço, às 14h daqui (9h do Brasil), a situação piorou um pouco. Fiquei 40 minutos esperando um ônibus para vir para o jornal em que trabalho. E foi a primeira vez que vi um ônibus cheio em Madri, pois normalmente os intervalos de trens e ônibus são muito pequenos.

As coisas funcionam tão bem por aqui que qualquer anormalidade é vista como caótica pela população, mas posso afirmar que passa longe do que vivemos no Brasil quando as linhas de metrô de São Paulo param ou quando os motoristas de ônibus fazem greve. Eu, que nunca tinha presenciado uma greve geral, esperava algo mais grandioso…

Tópicos relacionados

Rajoy paga nas urnas de Andaluzia e Astúrias o preço das reformas anticrise

27 de março de 2012 | 15h04

Karla Mendes

A crise vivida pela Espanha influenciou o resultados das eleições em Andaluzia e Astúrias realizadas no fim de semana. Pelo menos é o que me explicaram colegas de trabalho muito engajados politicamente. Aliás, quase todos os espanhóis que conheci até agora são super conectados com a política do seu país.

O que me disseram é que, principalmente em Andaluzia, a derrota do PP (partido do presidente Mariano Rajoy, caracterizado como de direita/extrema direita) foi uma espécie de “castigo” ao governo, uma reação às reformas feitas nos 100 primeiros dias da nova gestão: o aumento de impostos sobre a renda da pessoa física (que é o Imposto de Renda daqui) em dezembro e a reforma laboral anunciada no mês passado.

Em Andaluzia, especificamente, também há outro detalhe: historicamente sempre ganhou o PSOE, o partido socialista daqui. E desta vez não foi diferente, o que revela o desgaste eleitoral do PP em tão pouco tempo de governo.

Em Andaluzia o PP até ganhou as eleições, mas os 50 deputados eleitos, que correspondem a 40% dos votos deixou o partido longe da maioria absoluta pretendida. Por outro lado, o PSOE, com 47 deputados (39,5% dos votos) comemorou o resultado e deve chegar a um acordo com a Esquerda Unida, que elegeu 12 deputados, e conseguir a maioria para continuar no poder. Em Extremadura, os dois partidos já atuam unidos.

Em Astúrias aconteceu o contrário. O PSOE ganhou, o que é atribuído também às medidas adotadas por Rajoy, que não foram expostas à população com a devida clareza. Mas como o partido também não obteve maioria absoluta dos votos, a direita até poderia governar, mas o que se fala é que não há clima para um aliança com o PP depois do embate direto que o chefe do governo regional, Francisco Alvarez Cascos, abriu contra o governo Rajoy.

A situação econômica dessas comunidades autônomas é muito pior que a média do país, que tem uma taxa de desemprego de 22,8%. Em Andaluzia, que concentra 8,5 milhões dos 47 milhões de espanhóis, os desempregados já representam 30% da população. Outro agravante é que a região enfrenta o maior escândalo de corrupção no país: 1 bilhão de euros (R$ 2,4 bilhões) desviados dos fundos de auxílio aos desempregados, com envolvimento do presidente da região, José Antonio Griñán. Em Astúrias, que tem pouco mais de 1 milhão de habitantes, a taxa de desemprego é de quase 21%.

Apesar disso, Rajoy já anunciou que não congelará as reformas conômicas. O presidente anunciou que “A Espanha não pode ficar arada” e avisa que em abril haverá mais medidas de austeridade fiscal.

Tópicos relacionados

Blogs do Estadao