Três semanas atrás, fui ao Rio conversar com o Galeno Amorim na sede da Biblioteca Nacional, que ele assumiu em fevereiro. Queria fazer uma espécie de raio-X da instituição, sem saber muito bem como seria isso. Só achava que algumas mudanças recentes dariam pano pra manga. De lá até o fim da semana passada quase não consegui retornar ao assunto, envolvida com outras pautas.
Nesta semana, enquanto ia conversando com intelectuais envolvidos na história da BN (daqui e de Portugal, da qual fui atrás para fazer um comparativo, já que as duas têm muita coisa em comum), senti que era mesmo interessante a discussão envolvendo a volta de toda a política de fomento ao livro e à leitura para dentro da instituição, cuja função original é preservar a memória letrada do País. Inclusive porque algumas pessoas que falaram acabaram pedindo para não ser identificadas, já que é um assunto que envolve política. De qualquer forma, procurei dar voz para todos os lados.
Enfim, taí. Saiu no Sabático de hoje.
Depositária do acervo bibliográfico e documental do Brasil, a Biblioteca Nacional voltou a comandar as políticas do livro e da leitura – reacendendo a discussão sobre os melhores rumos de suas funções
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
O anúncio foi feito com pompa em São Paulo, onde desembarcou, na última quarta-feira, o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Galeno Amorim. Instaurou-se o Circuito Nacional de Feiras de Livros, projeto de estímulo a festivais do gênero “que já nasce com 75 eventos até dezembro em todo território nacional”, como reafirmou depois a FBN por e-mail. Por enquanto, o circuito fez apenas catalogar feiras já existentes, mas o número parece cair bem. “A ideia é dobrar a quantidade até 2014″, afirmou Galeno, já de volta ao Rio, no dia seguinte, por telefone ao Sabático.
Galeno gosta de números. Com menos de seis meses na presidência da instituição, ainda precisa checar com assessores um ou outro cômputo que passará a reiterar em entrevistas, mas a tendência é que logo discorra sobre eles com o desembaraço com que hoje cita dados do mercado e de políticas do livro. E números na Fundação Biblioteca Nacional andam ainda mais assíduos desde que, em janeiro, com a divulgação de seu nome à presidência, veio também a público a informação de que a FBN passaria a comandar a Diretoria de Livro, Leitura e Literatura, antes vinculada à Secretaria de Articulação Institucional do MinC. Com isso, em vez de seguir dividindo com a DLLL a coordenação das políticas de livro e leitura implantadas no País, a Fundação aglutinou todo o trabalho.
A decisão culminou, meses depois, com o pedido de demissão de José Castilho Marques Neto. O presidente da Editora Unesp atuava desde 2006 como secretário executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura, o conjunto de projetos que norteia as ações públicas na área. Exercia o cargo representando a sociedade civil, sem receber recursos do governo. Ao deixar o PNLL, enviou à ministra da Cultura, Ana de Hollanda, carta crítica à “concentração de toda a gestão da política de leitura na Fundação Biblioteca Nacional”. Destacou: 1. que a decisão contrariava o trabalho encaminhado pelo governo anterior (lentamente, cabe dizer) para a criação de um instituto ou uma secretaria de fomento à leitura; e 2. que a alteração transferia todo o poder decisório nesse debate para o governo, já que o secretário executivo agora responde ao presidente da FBN.
Castilho e Galeno são reconhecidos pelo empenho com a causa do livro no Brasil. O primeiro, que já foi diretor da Biblioteca Mário de Andrade, acaba de ser eleito à presidência da Associação Brasileira de Editoras Universitárias (Abeu). O segundo foi secretário de Cultura de Ribeirão Preto quando Antonio Palocci era prefeito, tendo criado a feira de livros local. Castilho substituiu Galeno na coordenação do PNLL em 2006 – naquela ocasião, na primeira queda de Palocci, seu afilhado político também saiu do governo, deixando o plano em suspenso. Com as participações de Galeno e Castilho, o PNLL afirmou-se como modelo para implantação de bibliotecas públicas.
A demissão de Castilho repercutiu na discussão sobre a imagem de fragilidade da ministra, mas outro debate ligado ao imbróglio manteve-se restrito a círculos fechados. E refere-se mais especificamente à instituição Biblioteca Nacional. Deveria a depositária do patrimônio bibliográfico e documental do País, responsável por preservar a memória e representar o Brasil perante outras bibliotecas nacionais do mundo, imiscuir-se em políticas que envolvem também interesses do mercado, como o incentivo à produção editorial e a organização de feiras?
Mandos e desmandos dos governos sobre essa questão nas últimas décadas ajudaram a emperrar iniciativas de cada gestão da FBN. Um exemplo é o programa de bolsas para tradução de literatura brasileira no exterior. O instrumento de difusão foi implantado quando Affonso Romano de Sant’Anna presidia a FBN (1990-96) e se tornou irregular nos anos seguintes. Em 2010, a essa altura do ano, 20 bolsas já haviam sido concedidas – no total, foram 68. Este ano, ainda não houve edital, só a promessa do primeiro para breve. Com a homenagem ao Brasil na Feira de Frankfurt 2013, Galeno já se comprometeu a ampliar o programa, mas agentes que trabalham com literatura brasileira no exterior questionam a demora.
Aníbal Bragança, professor da Universidade Federal Fluminense e estudioso da história do fomento à leitura no Brasil, diz que a sujeição dessas políticas à FBN “tem sido há muito questionada”. “Entende-se que deva existir um órgão do governo responsável pelas políticas do livro e leitura, e que a Biblioteca Nacional deva dedicar-se à missão de preservação do patrimônio e acessibilidade para pesquisadores”. Estudioso do mercado editorial, o antropólogo Felipe Lindoso pensa da mesma forma, mas, assim como Bragança, diz confiar na experiência de Galeno.
O presidente da FBN afirma que uma prioridade é plantar as bases de um “organizado sistema de livro e leitura”. Dentro da Fundação? “Não”, afirma. “Será outra instituição”. Quanto tempo isso leva não se sabe. Castilho, que segue de longe a movimentação, acha estranho. “A partir do momento em que tudo se concentra, funcionários, departamentos, tudo dentro de determinada estrutura, a tendência é a inércia. Vai tirar tudo de um lugar para pôr em outro? Espero estar equivocado, mas me parece contra a lógica e a história das estruturas de governo.” “Havia uma duplicidade que não fazia sentido”, justifica Galeno, “como duas áreas, uma em Brasília e outra no Rio, com mesmo nome, Coordenação Geral do Livro e Leitura”.
Não poucos veem um projeto político pessoal na iniciativa de Galeno de atrair para seu comando políticas públicas bem vistas no País. Há pouco, circulou no PT de Ribeirão Preto que ele teria disponibilizado o nome para pré-candidatura às eleições locais em 2012. Isso foi antes da segunda queda de Palocci, cujo nome passou então a ser aventado. “Tenho atuado em todos os lados da política pública do livro e da leitura, dentro e fora do governo, há 20 anos. E também há 20 anos alguém diz que vou tentar cargo eletivo na minha cidade, e isso nunca ocorreu”, diz Galeno, que teve cerca de 16 mil votos na candidatura a deputado estadual em 2010.
Idas e vindas. Monteiro Lobato, ainda nos anos 20, foi um dos primeiros defensores de um instituto público para fomento ao livro e à leitura no Brasil. O Instituto Nacional do Livro saiu do papel em 1937. “Depois de quase 70 anos há pouco, se há, para se comemorar”, anotou Aníbal Bragança em estudo de 2007. Apesar de vitórias no apoio às bibliotecas públicas e no serviço de publicações – este dirigido até 1944 por Sérgio Buarque de Hollanda -, o INL atravessaria décadas com mais infortúnios que sucessos, chegando enfraquecido ao fim da ditadura militar.
Num dos capítulos do recém-lançado Ler o Mundo (Global), Affonso Romano de Sant’Anna recorda o momento em que assumiu a FBN: “Em 1990, o recém-instalado governo Collor iniciou uma reforma (a que outros também chamam de desmonte) de várias instituições federais. O País assistia atônito e siderado ao que estava acontecendo”. Foi dentro desse “desmonte” que a Biblioteca Nacional recebeu o prefixo Fundação, passando a agregar o INL. “No lugar do INL, o governo mandava instalar um precaríssimo Departamento Nacional do Livro nos quadros da FBN, com apenas três ou quatro funcionários.” A gestão de Sant’Anna atravessou bem sucedida seis anos e seis ministros da Cultura.
Em 2003, nomeado secretário do Livro e da Leitura, Waly Salomão quis recriar o instituto. Sua morte, meses depois, interrompeu o projeto, mas estava plantada a semente de uma divisão: parte das políticas ficou na FBN, parte migrou para Brasília. O que Galeno frisa para explicar a volta de toda a política à FBN é justamente a divisão feita por Collor entre Fundação Biblioteca Nacional e a Biblioteca Nacional em si. Ele planeja inclusive comemorar, em breve, a “maioridade” da FBN, que completará 21 anos, embora a casa ainda celebre em 2011 efeméride nobre, os 200 anos da abertura do acervo ao público. “Com a ‘refundação’ da Fundação, que é o que está ocorrendo, a FBN passa de novo a ser a ponta de lança da política do livro, leitura e bibliotecas. E aí há que matar três leões de manhã e três tigres à tarde, e de noite espantar os lobos”, afirma Sant’Anna.
Portugal. A pouca atenção que o assunto recebe no Brasil difere do desconforto que se viu em Portugal quando, em 1992, o país viveu situação similar. Maria Leonor Machado Sousa, então presidente da Biblioteca Nacional portuguesa, lembra-se de quando soube que a instituição agregaria as políticas do Instituto Português do Livro e Leitura: “Toda gente de bom senso estava contra, mas o secretário quis assim”. Intelectuais entregaram ao governo um abaixo-assinado, e o assunto foi parar nos jornais. “Não fazia sentido. A Biblioteca Nacional tem de estar voltada ao passado, para preservar a cultura do País, e o Instituto do Livro, ao futuro, para desenvolver o leitor e o livro.”
O protesto não surtiu efeito. Foi preciso mudar o governo para, em 1997, as instituições serem separadas. O atual presidente da BN portuguesa, Jorge Couto, considera aquela junção mal sucedida: “Mantiveram-se instituições estanques, não houve transversalidade nem intercomunicabilidade”. Ele próprio corre o risco – ou corria, antes de o Partido Socialista ser derrotado nas últimas eleições pelo Partido Social Democrata – de passar pela experiência. Com a crise em Portugal, o governo que se encerra na próxima terça havia optado por voltar a unir as instituições, para cortar gastos. “Parece-me que o novo governo tem dúvidas quanto à bondade da solução. O assunto encontra-se em aberto e somente nos próximos tempos haverá uma decisão final.”
Professor de História do Brasil na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Couto lembra uma coincidência entre as bibliotecas dos dois países – ambas foram criadas por dom João VI. A de Portugal surgiu como Real Biblioteca Pública da Corte em 1796; a do Brasil teve como origem 60 mil itens da Real Biblioteca da Ajuda, cujo acervo chegou a partir de 1810. Hoje com mais de 9 milhões de itens, entre livros, mapas e outros documentos – o dobro do volume de material da BN portuguesa -, a Biblioteca Nacional brasileira é a oitava do gênero no mundo, segundo a Unesco.
Galeno tem uma infinidade de planos para a Biblioteca Nacional, incluindo exposições que “atraiam mais o público” e o desenvolvimento da Biblioteca Nacional Digital. Entre as questões da BN que merecem atenção está a segurança. Há pouco, o jornal O Globo revelou o furto de duas primeiras edições da revista em quadrinhos nacional O Tico-Tico, de 1905 – ocorreu no ano passado, após um investimento milionário para evitar problemas do tipo. Outra questão é a saturação da sede da biblioteca, no centro do Rio, e a necessidade de reformas no prédio anexo, no cais do porto. No ano passado, o BNDES anunciou repasse de R$ 31,7 milhões para recuperação dos prédios e manutenção do acervo. Acontece que as obras só começam no fim deste ano, com previsão de término para 28 meses depois, Apenas em 2010, a BN recebeu 97 mil obras referentes a Depósito Legal, o recebimento de dois exemplares de cada publicação produzida em território nacional. Até as obras estarem concluídas, serão mais 300 mil volumes.
Passagem pelo tempo da escrita
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
O sucesso como baterista nunca veio, mas não foram em vão os anos que Paul Harding dedicou à Cold Water Flat, uma das inúmeras bandas americanas surgidas na esteira do Nirvana nos anos 1990. Da música, Harding resolveu levar para a literatura sua experiência como timekeeper, numa tentativa de acelerar ou retardar o andamento da obra conforme o efeito que pretendia causar.
Dar o ritmo da leitura pela forma não era pouca ambição para um novato nas letras, mas também não foi modesto o resultado. Lançado em 2009 por uma editora minúscula, o romance A Restauração das Horas conquistou espaço aos poucos em suplementos literários até, no ano passado, ganhar o prestigioso Pulitzer de ficção, honraria quase impensável para um estreante.
Não que o tempo tenha trabalhado sempre a favor do autor. Entre o fim da escrita e o lançamento, foram três anos de rejeições (preocupação que se somou ao fato de ter entrado na graduação de criação literária só aos 30, depois de a banda acabar). Apesar das menos de 150 páginas, o livro era considerado difícil demais (leia-se pouco comercial) por editores que se deram ao trabalho de lê-lo. A publicação acabou bancada pela Bellevue Literary Press, casa especializada em títulos de medicina com raras investidas em romances sobre questões médicas – no livro de Harding, passagens envolvendo a epilepsia são centrais.
Mas é de tempo, para resumir numa palavra, que trata o romance – como deixa claro a tradução A Restauração das Horas; em inglês, o título é Tinkers, funileiros. “George Washington Crosby começou a alucinar oito dias antes de morrer”, esclarece o narrador já na frase de abertura, uma pista definitiva da densidade da história que vem a seguir. George é um relojoeiro cujas lembranças no leito de morte trazem à tona as vivências do pai, que deixou a família ao descobrir a intenção da mulher de interná-lo num manicômio.
A origem da história é real – o avô de Harding era relojoeiro, e o bisavô, que sofria de epilepsia, o abandonou -, mas o autor tomou o cuidado de não saber mais que nuances de informações sobre a família para não ficar preso a elas, “Esses fragmentos biográficos eram um caminho sugestivo para a história”, diz Paul Harding ao Estado por telefone, de Georgetown, onde vive. “Foi natural o tempo e a memória tomarem o centro da narrativa a partir disso, O desafio então foi escrever sobre tempo sem cair em clichês. Tomei o cuidado de fazer com que as analogias e metáforas sobre relógios fossem mais importantes para George, na forma dele de pensar a própria vida, do que para mim, como autor, tentando escrever.”
A morte como ponto de partida, artifício com declarada influência de A Morte de Artêmio Cruz, de Carlos Fuentes, foi decisiva para a não linearidade escolhida pelo autor – de tempos em tempos, o leitor é levado de volta a George e aos dias ou horas que faltam para sua morte. A lentidão que a narrativa toma nesses momentos, e que tem a ver com a tentativa de Harding de controlar o tempo de leitura, decorre muito daí – o que levou o site Better Book Titles, que se propõe a resumir a história de livros em títulos mais esclarecedores que os reais, a sugerir para Tinkers o nome A Boring Clockwork (algo como A Engrenagem Entediante)
“É um romance meditativo, contemplativo”, prefere o escritor, cujo rol de autores preferidos inclui só nomes da alta literatura, como Emily Dickinson e Marcel Proust. Quase sem diálogos, o romance difere muito da nova investida de Harding na ficção, que ele entrega à editora em setembro – é claro que, depois do sucesso da estreia, a editora já não é a minúscula Bellevue, e sim a gigantesca Random House, que pagou adiantamento inclusive por um terceiro livro. A trama que deve chegar às livrarias americanas em 2012 é quase inteira de diálogos, diz Harding, mas o cenário soará familiar a quem leu A Restauração das Horas: coadjuvante no romance atual, com uma aparição de menos de uma página, Charlie, neto de George, será o protagonista.
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No livro, você trata de memória a partir dos dias que antecedem a morte do protagonista, marcando a contagem do tempo como referência. Em que momento a profissão dele, de relojoeiro, entra nesse contexto? Foi um ponto de partida?
A maior parte dos detalhes da trama do livro é baseada em fatos da vida do meu avô. Ele, na vida real, consertava relógios. Então, eu sabia desde o começo que essa seria a profissão. O maior desafio foi escrever sobre relógios e tempo de maneira que não fosse clichê num livro todo sobre tempo e memória. Isso se tornou muito central, mas tomei o cuidado de que os relógios fossem mais importantes para George como um assunto, na forma de metáforas e analogias que ele usa para pensar a própria vida, do que para mim, como autor, tentando escrever de uma maneira filosófica.
E daí a iniciar o livro com o anúncio de uma morte…
Talvez o modelo que eu tivesse mais claro na minha mente seja o de um romance do mexicano Carlos Fuentes, A Morte de Artemio Cruz, que é similar, uma revisão da vida a partir do final. Eu sabia que a morte estaria no início. E isso fez com que o resto do livro se tornasse tão não linear, íntimo, impressionista, ajudou a dar o tom de todo o resto do livro. Tudo funcionou por associação.
A história de Howard, pai de George, se torna central a certa altura do livro, quando ficamos sabendo da epilepsia dele. Isso também teve base real?
Sim. Eu me lembro de quando meu avô estava morrendo…. Ele não falava tanto do pai dele, mas, o pai dele, como Howard, tinha epilepsia e abandonou a família do meu pai quando ele tinha 12 anos porque a família queria interná-lo. Foi, creio, a catástrofe central na vida do meu avô, que se consolidou pelas gerações pelo resto da família, virou uma espécie de lenda familiar. Mas ele não falava tanto sobre isso, acho que o chateava tanto, ele veio de uma geração, ele e minha avó tinham aquela atitude de ficar lembrando do passado, do tempo em que viviam nas florestas. Então voltar a essa história em particular começou a se tornar irresistível. Quanto mais eu tinha George falando sobre Howard, mais eu pensava em Howard e mais ele começava a se tornar uma espécie de obsessão para mim como era para George.
Você investigou a história da sua família ou preferiu não saber muitos detalhes?
Foi melhor que não soubesse tanto sobre a família. O que sabia era isso que já te contei, a epilepsia, o pai abandonando meu avô, eu só sabia os fatos bem fundamentais. Porque se você sabe demais e se preocupa em pesquisar e descobre todos os detalhes para corroborar o que diz a família… Para mim, era um caminho sugestivo para a história, eu tinha os fatos básicos e tentei desvendá-los em uma versão puramente imaginária. A cidade em que se passa a história, Enon, por exemplo, é quase completamente imaginada. É muito levemente baseada em lugares em que eu costumava ir pescar com meu avô, a vila em que fui criado, paisagens de Massachusetts.
Seu próximo livro se passará na mesma cidade, certo?
Sim, o próximo será sobre um neto de George, Charlie, que aparece em A Restauração das Horas em tipo meia página. Será sobre esse neto e a filha dele. Mas não é uma sequência, embora também se passe no mesmo lugar. Eu queria outro romance na mesma cidade, com a mesma família, mas mais porque eu tinha tudo isso ao alcance das mãos, eu gosto do jeito como as pessoas falam, e a cara que tem a paisagem. Não quero ter que fazer nenhuma pesquisa, quero ter mundo ficcional inteiro bem ao alcance da minha mão.
Não sei se foi proposital, mas você escreve de uma forma que, pelo menos aconteceu comigo, às vezes obriga a uma leitura mais lenta, outras menos…
Num sentido mais geral, acho que é uma leitura lenta porque, quando escrevo, penso na prosa de A Restauração das Horas em algo mais como poesia lírica que como prosa regular. Queria que a língua tivesse a riqueza e a densidade e a musicalidade de uma poesia. E acho que isso ajuda a torná-la lenta. Mas também acho que é um romance meditativo, contemplativo. Tem esse pequeno plot, que, como você sabe, é sobre tempo, sobre o tempo explodindo e comprimindo e acelerando e desacelerando, e eu queria trabalhar com todos esses tempos. Mas também pode ser porque esse é o meu estilo.
Como está sendo escrever a experiência de escrever o segundo livro?
Uma das coisas mais interessantes de ser um escritor é prestar atenção nesse tipo de coisa. Acho que, a princípio, quero escrever um livro melhor do que o que escrevi, e não quero escrever a mesma coisa de novo. O que não significa que não queira escrever sobre os mesmos assuntos ou as mesmas pessoas, só quero ter certeza de que não escreverei as mesmas coisas de novo e de novo e de novo, quero algo que impressione. Um exemplo que me surpreendeu no livro novo é que em A Restauração das Horas quase não há diálogos, e nos poucos que há não se usam travessões. No novo, os dois personagens centrais, o pai e a filha, conversam o tempo todo, e eu resolvi usar os travessões. Só um exemplo específico… Em A Restauração das Horas eu pensei em mim como um escritor que não escreve diálogos, mas o segundo provou pra mim que eu só era um escritor que não tinham personagens que falassem muito. Acho que cada livro é uma combinação das demandas específicas, certos movimentos, certas abordagens.
Muitos dizem que escrever diálogos é difícil. Você está achando?
Bem, é a coisa mais engraçada. O que acho, cada vez mais, é que quando penso em algo na teoria, em termos retóricos, isso mostra que… Olha, realmente pensei que o motivo pelo qual não escrevia diálogos era que diálogos eram muito difíceis de se fazer. Agora, fazendo os diálogos, é como se ouvisse esses personagens falando. Estou achando muito fácil. Não é como se estivesse escrevendo, e sim como se estivesse na esquina ouvindo sem que eles percebessem, roubando conversas. Uma experiência psicológica meio esquisita, talvez. Estou achando fácil não pelo diálogo por si, mas por conseguir ouvir as vozes dos personagens tão claramente.
Você comentou sobre essa busca por traços de poesia no seu texto e fiquei curiosa… Se importa de falar um pouco sobre suas influências literárias?
Bem, acho, que no meu caso, conta muito o fato de, antes de ser escritor, eu ter sido um baterista numa banda de rock, por muitos e muitos anos. Eu era muito envolvido com música em geral e, em particular, com bateria. Há um termo para bateristas, o timekeeper, o que controla o tempo, então sempre fiquei interessado nessa característica. Como baterista, você pode fazer todo tipo de coisa interessante com o tempo da música, pode cortar ao meio, dobrar, ser duas vezes mais rápido, ou mais devagar, fazer coisas interessantes que mudam a experiência de quem ouve a música. E pensei nisso.. isso é algo que poetas fazem, tempo, metro, essas coisas. Poetas pensam na língua, no formato da língua e como isso soa. E pensei em mim fazendo isso…. Alguns dos meus escritores favoritos são poetas Wallace Stevens, Emily Dickinson, tenho lido muito Robert Browning. Amo o que os poetas são livres para fazer e, quando comecei a escrever, pensei que queria fazer isso na prosa. Minha escrita acho que vai e volta entre prosa e poesia. Não tenho problema com isso, eu gosto disso. Talvez alguns escritores ficam desconfortáveis de usar elementos da poesia na prosa, e não acho que deveriam. Alguns dos melhores do mundo fazem isso.
Você estudou graduação em escrita literária, certo? Como foi essa passagem da música para a literatura?
Naquela época, a banda tinha acabado como a maior parte das bandas acabam. Então eu estava numa situação difícil, estava com quase 30 anos, sem profissão, sem carreira, nunca tinha tido um trabalho de verdade, fora trabalhar em lojas de livros quando era mais jovem, empregas temporários nos tempos da banda. Daí pensava que gradução seria uma boa ideia. Sempre escrevi muito, mas, aos 30, nunca tinha escrito histórias de ficção. Era um leitor voraz, do tipo que gosta da mais alta literatura, adoro Proust e Thomas Mann e Carlos Fuentes e Julio Cortázar. E eu não era um escritor muito bom, é claro, mas não demorou muito para conseguir colocar as coisas nas páginas. Tive muita sorte de entrar num workshop da faculdade em que pude aprender com grandes escritores como Marilyn Robinson e Elizabeth McCracken.
Aqui no Brasil estão começando a aparecer cursos de escrita criativa, e existe ainda um questionamento em relação a isso. Você recomenda a quem quer escrever?
As pessoas sempre me perguntam isso, e minha resposta é colocar uma pergunta de volta: ninguém pergunta se um ator deve estudar, ou um pintor, ou um dançarino, e nos EUA todo ator faz escola de teatro e daí por diante. Acho que escrita é a mesma coisa. É verdade. Ninguém pode ensinar você sua visão do mundo, a alma do seu trabalho. Mas, tirando isso, posso ensinar a jovens escritores, que estão começando, um monte de coisa sobre como escrever. Tecnicamente, mas também no sentido de trabalhar a imaginação. Posso ensinar como usar a linguagem, como se disciplinarem para prestar atenção em assuntos. Não acho que é necessário. Mas acho que a escrita é tão vulnerável quanto qualquer outro assunto para estudo na academia. Qualquer assunto ensinado na universidade corre o risco de ficar como que desidratado e sem vida, dependendo da forma como for ensinado.
Você ainda dá aulas de escrita criativa na faculdade?
Não, eu estava dando aulas quando o prêmio foi anunciado, mas foi só um semestre, e não fiquei mais, não teria tempo. Gostaria de voltar, mas não por enquanto. Acho ensinar gratificante.
Sua rotina deve ter mudado um bocado…
Sim, sim, dramaticamente, muito, muito. Antes do prêmio, minha editora fez um trabalho incrível, considerando que era uma miníscula editora de uma escola de medicina de Nova York. Quando publicaram, colocaram 3.500 cópias à venda, sem dinheiro para publicidade, e apesar disso o livro vendeu razoavelmente bem, acho que umas 10 mil cópias antes do Pulitzer. O livro foi muito mais bem do que imaginei que iria. Isso me faz viajar muito. Vou logo para Nova York e depois para Iowa, mais para a frente para Alemanha e Sul da África. Desde que o prêmio foi anunciado, há 13 meses, venho estado numa turnê ininterrupta.
E está conseguindo escrever o novo livro com todas essas viagens?
Sim, consigo. Sabe, tenho dois filhos pequenos e, quando escrevia A Restauração das Horas, tinha pouco tempo livro, porque dava aula o dia inteiro e parte da noite. E minha mulher e eu tínhamos dois filhos com menos de 5 anos. Me tornei bom em escrever com crianças escalando em mim e fazendo todo tipo de barulho. Então, agora consigo escrever facilmente em hotéis e aviões. Aliás, aviões são um ótimo lugar para escrever, isso me distrai horrores.
Um GIF animado em quadrinhos é muita emoção duma vez só pra uma fã de GIFs animados e quadrinhos. É uma criação do quadrinista Zac Gorman, que diz andar se divertindo com a ideia. Abaixo, o preferido dele, sobre a dificuldade de lidar com as mulheres. Zac vem postando outros aqui.
“Eu não estou muito a fim de algo sério no momento.”
Mais uma vez, por absoluta incapacidade de conciliar postagens uma apuração complicada que estou fazendo pro Sabático, trago do Twitter pra cá o GIF do dia (a primeira vez que dei esse truque foi aqui). Fico devendo a íntegra da entrevista com o Paul Harding, com quem falei para reportagem para o Caderno 2 sobre o livro A Restauração das Horas.
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Pelo menos é um GIF incrível, vai. É de uma cena do filme A Cor da Romã (1968, vídeo abaixo), do russo Sergei Paradjanov, que retrata a vida do poeta armênio Sayat- Nova (1712-1795).
[Publicada no Sabático]
BABEL
Raquel Cozer, raquel.cozer at grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo
ENCONTROS
Tabucchi, Byrne, Ellroy e outros terão eventos pós-Flip
Nove dos 21 autores estrangeiros da Flip, inclusive alguns dos mais esperados, estarão em eventos no Rio e em São Paulo ao sair de Paraty, onde já não há ingressos para vê-los ao vivo. Logo após a Flip, dia 11, James Ellroy fala sobre Sangue Errante (Record) na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (SP). No dia seguinte, no Sesc Pinheiros, David Byrne discorre sobre Diários de Bicicleta (Amarilys) em fórum de sustentabilidade. Ainda no dia 12, Claude Lanzmann lança A Lebre da Patagônia (Companhia das Letras) no Centro de Cultura Judaica, e Peter Esterházy autografa Os Verbos Auxiliares do Coração (Cosac Naify) na Livraria da Vila – Lorena. A unidade recebe no dia 13 Michael Sledge, autor de A Arte de Perder (Leya), enquanto Pola Oloixarac faz na unidade Fradique Coutinho ação sui generis: hackear ao vivo um site, como os personagens de seu As Teorias Selvagens (Benvirá). O recordista de aparições é valter hugo mãe, com duas dobradinhas Rio-SP organizadas pelas editoras Cosac e 34. O Rio, aliás, embora vá receber menos autores que SP, terá dois encontros com o mais aguardado deles, Antonio Tabucchi, em datas e horas a confirmar. Ainda por lá, Emmanuel Carrère vai à sessão de O Bigode, baseado no romance homônimo (Alfaguara), na Maison de France, no dia 11. A Companhia ainda tenta evento com Joe Sacco.
MÚSICA-1
Depois das bicicletas
A vinda de David Byrne para a Flip animou o selo Amarilys a apostar em Diários de Bicicleta como o primeiro e-book de seu catálogo. Sai em julho, época em que também deve ser impressa a terceira edição em papel – já foram mais de 7 mil cópias em duas edições. A editora também adquiriu How Music Works, em que Byrne tentará dizer “que contextos e fatores fazem a música acontecer como acontece”. O que falta é ele entregar o manuscrito. Prometido para janeiro último, já ficou para o fim do ano.
MÚSICA-2
Crônicas da fama
“Deus, ou quem quer que controle as coisas, está me dizendo para não falar nada”, argumentou um bêbado Julian Casablancas, líder dos Strokes, numa das respostas mais eloquentes de uma entrevista a Neil Strauss. O jornalista relata agruras do gênero, vividas com artistas como Lady Gaga e David Bowie, em Everyone Loves You When You”Re Dead, recém-lançado lá fora. Por aqui, o livro sai em 2012 pela Bestseller.
Figuras. Detalhe de desenho de Paulo Caruso para caneca da Jornada de Passo Fundo (22-26/8), com alguns participantes: Jorge Furtado (1), Pierre Levy (2), Ernani Ssó (3), Diana Domingues (4), Max Butlen (5), Nancy Nóbrega (6), G. Arriaga (7), Marcelo Dantas (8), Tom Zé (9), J.L. Goldfarb (10), Pedro Bandeira (11), Guilherme Fiuza (12), Wim Veen (13) e Fernando Vilela (14); ficaram de fora da homenagem nomes como Beatriz Sarlo e Alberto Manguel
ROMANCE
Mais perto do Brasil
A portuguesa Babel acaba de fechar contrato com seu primeiro autor brasileiro contemporâneo: o jornalista Cadão Volpato, que estreia em romance no próximo semestre com Pessoas Que Passam pelos Sonhos. A editora, aliás, que chegou ao País com estardalhaço em março, só agora pôs no mercado seu primeiro livro, Mensagem, de Fernando Pessoa. Outros títulos, apenas em julho.
JORNALISMO
O julgamento de Malcolm
Foi oportuno o recente relançamento de O Jornalista e o Assassino, da americana Janet Malcolm, pela Companhia das Letras. Seu novo título, Iphigenia in Forest Hills – cujos direitos a casa brasileira acaba de garantir -, a colocou de volta no noticiário internacional. Se a obra de 1990 parte da reconstituição a distância de um julgamento, na nova Janet testemunhou de perto um processo: o de uma mulher que, após perder a guarda da filha, mandou matar o marido.
TRADUÇÃO
Terras baixas à vista
Para não bater de frente com as grandes, a jovem Livros de Safra foi buscar um nicho pouco explorado. Adquiriu três títulos holandeses: Confetti on the Threshing Floor, primeiro romance de Franca Treur, com 100 mil cópias vendidas; The Girl with Nine Wigs, relato da luta de Sophie van der Stap contra o câncer, vertido para 16 idiomas e que vai virar filme, e On Behalf of My Wife, de Aliefka Bijlsma, ficção com passagens pelo Rio. Difícil é achar tradutores. Por ora, só o primeiro tem dono, Cristiano Amaral.
O lançamento da HQ Garra Cinzenta dá boa dimensão da capacidade que a internet tem de fazer uma especulação virar verdade. Três semanas atrás, quando leitores de quadrinhos ficaram sabendo que sairia essa edição de luxo, voltou com tudo a boataria sobre a autoria – ninguém sabe quem é de fato Francisco Armond, que assina o roteiro. Dias atrás comecei a buscar pessoas envolvidas e lamentei não ter mais tempo. Acho que, numa daquelas reportagens que permitem semanas de apuração, dava pra descobrir. Mas ao menos deu para esclarecer detalhes que mais complicavam que resolviam.
O resultado, que saiu no Sabático de hoje, taí.
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Veiculada no jornal A Gazeta de 1937 a 1939, série nacional pioneira nos gêneros noir e terror ganha edição integral e de luxo, trazendo à tona enigmas tanto dentro quanto fora da ficção
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Quando, três semanas atrás, a editora Conrad colocou para pré-venda uma edição de luxo com a íntegra do Garra Cinzenta, antigas especulações sobre a série noir veiculada de 1937 a 1939 no jornal paulistano A Gazeta voltaram à tona, desta vez propagando-se pela internet com ares de absoluta verdade e a força de um plano maligno para dominar o mundo. O roteirista assinava como Francisco Armond, mas seria na verdade uma mulher, Helena Ferraz de Abreu. O vilão desenhado por Renato Silva teria sido covardemente plagiado por ilustradores de séries muito mais bem-sucedidas em âmbito internacional, como a americana Terror Negro. O encerramento da trama, apesar de se dar num redondíssimo capítulo número 100, envolveria motivações nunca reveladas.
As conjecturas acerca do Garra Cinzenta evocam o status de cult atingido pela saga nas décadas seguintes à publicação, quando possuí-la na totalidade era regalia de poucos colecionadores. Durante os dois anos em que circulou no suplemento A Gazetinha, a história que a princípio saía três vezes por semana teve a veiculação interrompida em mais de uma oportunidade, chegando a ficar meses sem dar sinal de existência. O grande interesse do público – restrito a São Paulo, num momento em que os cariocas Suplemento Juvenil e O Globo Juvenil eram as mais importantes publicações de quadrinhos do País – levou A Gazeta a publicar, em dezembro de 1939 e janeiro de 1940, dois álbuns com a íntegra da aventura.
Só 35 anos depois, em 1975, voltou à luz a saga do cientista com máscara de caveira responsável por assassinatos e experiências no estilo Josef Mengele (isso muito antes de os terrores promovidos pelo médico nazista ficarem conhecidos). A reedição ficou a cargo da Rio Gráfica Editora, que, no entanto, imprimiu só a primeira metade – essa versão incompleta é a que mais se encontra em sites de download. Uma edição integral saiu somente em 1998, organizada pelo jornalista e pesquisador de quadrinhos Worney Almeida de Souza, mas num fanzine com tiragem única de 500 exemplares, que logo se esgotou. É Worney o organizador da atual edição da Conrad.
É ele também quem assina a apresentação, na qual levanta algumas das especulações envolvendo o Garra Cinzenta: “Ninguém sabe com certeza quem seria Francisco Armond. Todos os indícios sugerem que fosse a jornalista Helena Ferraz, mas ela nunca assumiu a autoria publicamente”, escreve. A origem da versão que dá a ela a responsabilidade pelo roteiro é nebulosa. Uma busca na internet pelos textos defensores dessa tese faz notar que quase todos usam como base “indiscutível” um artigo do quadrinista Gedeone Malagola publicado em 2008 na revista Mundo dos Super-Heróis.
Escreve Malagola: “Álvaro Armando, o autor que assinava os roteiros de A Garra Cinzenta e Nick Carter, tratava-se de um pseudônimo de Helena Ferraz criado a partir dos nomes de seus dois filhos. Todos pensavam que Álvaro Armando (por vezes grafado como Álvaro Armand) fosse homem, mas Sérgio Augusto, pesquisador e estudioso das HQs, foi quem esclareceu esse mistério.”
Há uma profusão de erros nessa versão. A jornalista Helena Ferraz, que, com o marido, editava o independente Correio Universal, de fato assinava como Álvaro Armando. Mas não é esse o signatário do Garra Cinzenta, e sim Francisco Armond. Adeptos dessa teoria argumentam que esse pseudônimo seria uma variação do outro. Acontece que as mesmas fontes dão como certo o fato de Helena ser proprietária d”A Gazeta – e o jornal pertencia, na verdade, ao empresário Cásper Líbero. Citado por Malagola, Sérgio Augusto, hoje colunista do Sabático, dá o banho de água fria final: “A única vez em que mencionei Helena foi num texto sobre o Fantasma. Nunca soube de qualquer outra conexão dela com quadrinhos, salvo traduzir as primeiras aventuras da série.”
Malagola, único que poderia esclarecer o mal-entendido, morreu seis meses após escrever o texto, que só fez disseminar uma antiga e recorrente suspeita. Para tentar esclarecer o caso, o Sabático procurou Arnaldo Ferraz, atualmente com 80 anos, um dos filhos de Helena: “Ela foi jornalista por 30, 40 anos. Escrevia também poemas, era filha do poeta (parnasiano) Bastos Tigre. Mas não tinha nada disso de terror, não.”
“O fato é que ninguém sabe quem era Francisco Armond, nem gente daquela época, nem historiadores, nem pesquisadores de quadrinhos. Ninguém o conheceu”, diz Worney, que investigou a história em busca de herdeiros. O jornalista e pesquisador de quadrinhos Álvaro de Moya acredita que fosse o pseudônimo de algum repórter d”A Gazeta. Um dos primeiros a estudar o Garra Cinzenta, Moya foi próximo de Renato Silva, o desenhista. “Nunca perguntei a ele quem tinha escrito, porque naquele tempo a gente só se preocupava em criar. Só nos anos 50 é que começamos a ter curiosidade de pesquisar”, diz.
Ilustrações. Renato Silva, que morreu em 1981, não só era conhecido como também admirado por seus contemporâneos. Não pertencia exatamente ao universo dos quadrinhos, mas, como lembra Moya, “naquele tempo desenhista fazia de tudo”. Silva era de fato polivalente. Além do vilão da HQ, destacou-se na ilustração tanto de livros infantojuvenis – na mesma época em que fazia o Garra, criou os desenhos do clássico Cazuza (1938), de Viriato Correia – quanto de histórias “mais ou menos liberais em sexo”, publicadas na revista erótica Shimmy. Sua série A Arte de Desenhar tornou-se obrigatória entre aspirantes a ilustradores.
“Da década de 30, de todos os quadrinhos brasileiros, o Garra Cinzenta foi o mais surpreendente. Os desenhos, em especial mais perto do fim, atingem padrão internacional”, avalia Moya. O pesquisador vê na HQ influência das fitas em série, histórias de aventura que passavam em capítulos no cinema, antes dos longas-metragens. Naquele momento, os grandes sucessos em quadrinhos do gênero eram quase todos estrangeiros, como Flash Gordon e Tarzan, seriados no carioca Suplemento Juvenil. Isso explica por que o brasileiríssimo vilão Garra andava pelos subterrâneos de Nova York e intimidava inspetores de nomes como Higgins e Miller. O fato de ecoar o estilo das pulp fictions americanas causou confusão até no exterior, diz Moya. Na França, onde o personagem ficou conhecido como La Griffe Grise, acreditava-se que a origem era mexicana.
Visto com sete décadas de distância, o enredo criado como algo entre o noir e o terror ganha ares involuntários de comédia, o que só torna a leitura mais interessante. O destemido inspetor Higgins, por exemplo, é adeptos de expressões como “cair na esparrela” e não consegue evitar raciocínios em voz alta, o que facilita bastante a coisa para o Garra, que tem transmissores de som em tudo quanto é lugar. O roteiro é carregado de redundâncias, com as mesmas ações explicadas na imagem, nos balões e na legenda. E Flag, o monstro de aço construído pelo vilão, “uma personagem medonha, fantasmagórica, inverossímel”, como descreve o roteiro, manifesta-se apenas por meio de um impensável “Glu! Glu! Glu” (“Meu pobre Flag! Algum dia te darei o uso da fala”, lamenta Garra, num rasgo sentimental).
“Hoje é algo engraçado, superinocente”, avalia o quadrinista Danilo Beyruth, autor da elogiada Bando de Dois e admirador da trama, “mas tanto era original que muitos acreditam que inspirou personagens americanos posteriores, como o Caveira Vermelha e o Terror Negro”. Beyruth, que no Twitter usa para se identificar uma adaptação própria da caveira que o vilão carrega no peito, tem planos de criar uma história baseada no personagem – prova de que, passados 70 anos, o Garra envelheceu muito bem à sua maneira.
GARRA CINZENTA
Autores: Francisco Armond e Renato Silva
Editora: Conrad
(128 págs., R$ 39,90)
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E o Garra Cinzenta no traço do Danilo Beyruth, que planeja uma história com o personagem.
[Publicada no Sabático.]
BABEL
Raquel Cozer – raquel.cozer at grupoestado.com.br
TRADUÇÃO-1
Burton e a história da melancolia
Espécie de psicanalista avant la lettre, o clérigo e intelectual inglês Robert Burton (1577- 1640) passou 30 anos trabalhando em Anatomia da Melancolia, tratado pioneiro sobre o tema que virou algo como um best-seller do século 17, com cinco edições revisadas e ampliadas entre 1621 e a morte do autor. A sexta edição, lançada postumamente, está em tradução por Guilherme Gontijo Flores para a Editora da UFPR. Será a primeira publicação da obra no Brasil, em quatro volumes que devem somar 2 mil páginas, com o primeiro previsto para agosto. O ineditismo da tradução do título – ao qual Moacyr Scliar dedicou boa parte de seu Saturno nos Trópicos – explica-se por dificuldades impostas pelo texto: “É uma obra quase bilíngue. Ele cita muito em latim, tanto que às vezes o texto fica macarrônico”, diz Gontijo, que também ressalta a técnica literária do estudo, “com muitas subordinadas, hipérboles, inversões e metáforas”.
Trecho de Anatomia da Melancolia, por Guilherme Gontijo Flores
TRADUÇÃO-2
Variações do mesmo tema
A caprichada edição da Odisseia recém-lançada pela Editora 34, com tradução de Trajano Vieira, é a primeira de várias versões do épico de Homero que chegam até o ano que vem. Após anos batalhando pelos direitos da versão de Carlos Alberto Nunes (1897- 1990), a Hedra publica a sua edição em julho. A Penguin-Companhia das Letras comprou da portuguesa Cotovia o texto vertido por Frederico Lourenço e prevê publicá-lo em setembro. Ficou para 2012 a da Cosac Naify, a cargo de Christian Werner.

Paisagem. Seis pinturas e desenhos de Elizabeth Bishop (1911-1979), como Brazilian Landscape (acima), além de tradução inédita do poema Five Flights Up, por Paulo Henriques Britto, estarão na #serrote 8 1/2, que será distribuída gratuitamente na Flip
MÚSICA
Fé em Miles Davis
Em setembro, exatos 20 anos após a morte de Miles Davis, a Casa da Palavra publica The Blue Moment, livro de Richard Williams definido pelo Guardian como “uma carta de amor, uma afirmação de fé religiosa” sobre Kind of Blue, obra-prima do jazzista.
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A ampliação no número de títulos internacionais do catálogo faz parte das mudanças pelas quais a editora passa após unificar operações com a Leya. Outra novidade se dará na área de publicações de arte, uma das marcas da Casa da Palavra. Além do formato de livro de arte, os títulos sairão em versão trade, com preços mais acessíveis.
ORÇAMENTO
Mais com menos?
A Fundação Biblioteca Nacional foi menos afetada pelo corte de verbas do MinC que outras instituições. A queda no orçamento do ministério de 2010 (R$ 2,3 bilhões) para 2011 (quase R$ 1,9 bilhão) foi de 19%. Na FBN, ficou nos 14% (de R$ 86,2 milhões para R$ 73,9 milhões). Como a FBN incorporou a Diretoria do Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, agregou ainda suas verbas, de R$ 12,6 milhões. No total, terá R$ 86,5 milhões.
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Mesmo com orçamento mais enxuto, o presidente da instituição, Galeno Amorim, acumula projetos. Uma meta para este ano é criar um selo editorial, com projeto gráfico definido e coleções a partir do acervo. A FBN, diz ele, “não concorrerá com o mercado, mas publicará de forma mais sistematizada”.
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Enquanto isso, quem divulga a literatura brasileira no exterior teme uma redução no programa de bolsas de tradução da FBN, que fora ampliado antes da mudança de governo. “Estamos à espera, urgente mesmo, de que seja reiniciado”, diz a agente Nicole Witt, que acompanha a preparação da presença do Brasil na Feira de Frankfurt 2013.
FILOSOFIA
Duas vezes Barthes
Um dia após a morte de sua mãe, em outubro de 1977, o francês Roland Barthes (1915- 1980) iniciou um diário com reflexões sobre solidão, tristeza e resistência da sociedade à dor. Publicado em Portugal como Diário de Luto e inédito no Brasil, Journal de Deuil sai em agosto pela WMF Martins Fontes.
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Por curiosidade, uma das obras que ele escreveu junto com o diário, A Câmara Clara, estudo sobre fotografia editado aqui em 1984, volta às livrarias na mesma época. Sai pela Coleção Fronteira, da Nova Fronteira, que resgata títulos há muito fora de catálogo.
Eu ia dizer que segue abaixo a íntegra da entrevista publicada hoje no Caderno 2, mas seria mentira. Não tirei a fita toda. Digamos então que é a edição revisada e ampliada da conversa que tive por telefone com a colombiana Laura Restrepo, que vem para a Flip lançar o romance Heróis Demais.
Laura é uma simpatia de pessoa, mas, em tempos de extrema polarização política no Brasil, tem grandes chances de inflamar ânimos mais exaltados por suas convicções um tanto (e assumidamente) românticas de esquerda. Rezarei pela paz da minha caixa de comentários…
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Um embate entre duas gerações
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Ao final da entrevista por telefone ao Estado, a escritora colombiana Laura Restrepo, de 61 anos, pede licença para inverter os papéis – tem algumas perguntas a fazer. Como foi ler o romance estando no Brasil?, quer saber. Há elementos reconhecíveis? As reações do protagonista coincidem com as de sua geração?
O jornalismo que deixou em segundo plano desde o início da carreira como ficcionista – é autora, entre outros, do premiado Delírios (2004) – lhe parece agora necessário por uma razão muito pessoal. Em Heróis Demais, romance recém-lançado sobre o qual vem falar na Flip, em julho, pela primeira vez ela expõe suas próprias vivências na ficção.
Também por esse motivo, o romance centrado nos anos em que Laura militou contra a ditadura na Argentina demorou a sair do campo das ideias. Na narrativa, Mateo, filho de Lorenza (baseado em Pedro, filho de Laura), nascido enquanto ela e o marido participavam da resistência não armada, quer entender quem é seu pai e por que ele o abandonou. Veja trechos da entrevista concedida desde o México, onde vive a escritora.
O romance tem forte viés autobiográfico, referente a vivências de décadas atrás. Por que não escreveu essa história antes?
Por isso mesmo. É meu único romance baseado na minha própria história. Sempre recorri a histórias alheias ou de ficção justamente para evitar as minhas. Mas isso se tornou imprescindível por uma questão literária, porque me parecia possível uma nova forma para contar as histórias daquele período. Tanto os tiranos que tivemos no continente como os rebeldes que se opuseram a eles têm caráter pré-moderno e geram um tipo de épica que tende a ser contada em termos épicos. O romance, um gênero moderno, não tem nada a ver com isso, tende a ser a história de anti-heróis. Dei o título Heróis Demais porque queria contar uma história épica sem heróis. Já do ponto de vista pessoal, eu tinha uma conversa pendente com meu filho. Era tema delicado, sobre sua origem, sobre seu pai. Escrever foi uma forma de travar esse diálogo. Foi um processo bonito. Enquanto eu escrevia, ele terminava seu doutorado em literatura e começava seu primeiro romance, uma história juvenil chamada Épica Patética, sobre um adolescente que quer crer num mundo heroico enquanto a realidade se impõe. Conversando pela literatura, e não diretamente, pudemos digerir um tema difícil.
Por que resolveu colocar o filho, e não a mãe, que seria você, como protagonista?
Me custou decidir isso. A princípio, a protagonista era ela, o que me dava duas opções: ou Lorenza usaria sua retórica de esquerda, de justificar e até exaltar a atuação antiditatorial, e isso, como falei, não me interessava; ou teria um olhar contemporâneo, menos adulador, mas essa opção falsearia a personagem. Enquanto Lorenza foi o centro do romance, ele não funcionou. Deu certo quando Mateo cresceu como personagem e se impôs. Eu queria que o leitor, ao abrir o livro, encontrasse um rapaz cheio de dúvidas, sem segurança por desconhecer sua origem, e, quando o fechasse, visse um Mateo adulto, que toma as rédeas de sua história.
Embora tenha base pessoal, a narrativa é também o retrato de uma geração pós-militância?
Penso que é o retrato da relação das duas gerações, a militante e a que veio depois, uma geração convencida de seus atos e outra que a questiona. Militei por muitos anos e, basicamente, sigo com as mesmas convicções de então. Também no caso de todos os meus amigos da época, os filhos se saíram muito críticos, não estão convencidos de que tenha valido a pena o sacrifício da vida familiar, nada sabem do que se conseguiu politicamente. Creio que em todo o continente, onde houve luta antiditatorial, exista uma geração que questiona os supostos heróis. Isso leva outra vez ao título Heróis Demais. Mateo quer que a mãe lhe apresente um homem de carne e osso, que abandona o filho aos 2 anos, mas Lorenza lhe fala de um herói.
Você fala em convicções… Mas a visão de Matteo não é também de certa maneira a sua, tantos anos depois?
Sim, de certa forma sim, é claro, senão não teria escrito o livro. Isso tem a ver com o personagem que cresce na história, que não é Lorenza, que de alguma maneira permanece fiel a seus esquemas velhos, e sim Matteo, que se permite uma visão diferente. Mas eu não queria para a mãe uma visão desencantada com o que fez naquela época, porque eu não me sinto assim. Apesar de tudo, estou convencida de que o que a esquerda e a clandestinidade fizeram foi definitivo para a queda das ditaduras, embora sempre tenha havido uma torpeza por parte da esquerda para assumir o poder. Mas estou convencida de que esse tipo de grupo, o não armado – nunca participei da resistência armada, detesto as armas, sou colombiana, estou até aqui de mortes e para mim as armas não são o símbolo de nada bom… Enfim, a resistência, a oposição à ditadura, na Argentina, no Brasil, porque tinha que ser clandestino porque todos os partidos estavam proibidos… Não queria uma visão desencantada nem olhar da direita um processo de esquerda, mas sim mostrar esse grande vazio geracional que produz um certo tipo de linguagem quando se confronta o passado.
Verdade que você precisou refazer o manuscrito várias vezes para fugir do tom panfletário?
Sim, isso me custou muito. Havia uma linguagem dura, difícil de romper. Também foi difícil por se tratar de um momento em que não se podia fazer anotações. Foi a única época da minha vida em que não tomei notas, uma época particularmente sem recordações, porque, quanto menos se soubesse, mais seguro era. Lorenza tenta a todo custo apagar a memória, enquanto Mateo precisa que ela a recupere, pois é o único elo que ele tem com o pai. O que se passa com Lorenza se passou comigo. Você pode fazer um retrato político minucioso de cada detalhe da ditadura, mas o que você sentia? Não se pergunta. Para mim, foi um estremecimento, eu não tinha ideia. Era preciso desvendar algo que estivera vendado por muito tempo, o que eu não tentaria fazer, não fosse a pressão do meu filho.
Você voltou a Buenos Aires enquanto escrevia o livro, o que também acontece no romance. Fora da ficção, como foi reencontrar os colegas de militância?
Ah, foi muito genial. Conto no romance que estava num teatro apresentando uma obra e apareceram os companheiros. Foi bem assim. Durante os anos de militância, era gente absolutamente próxima de você, você estava nas mãos deles e eles nas suas. Você tinha uma relação muito estreita, mas não sabia como se chamavam, seu endereço, seu telefone, qual a profissão que tinham quando não estavam militando, você não podia saber isso. Então, quando regressei a Buenos Aires, não sabia como encontrá-los, não tinha telefones de quase ninguém, só de uns três ou quatro. Então, como coloco no livro, fiz uma apresentação aberta em Buenos Aires e vários ex-companheiros da clandestinidade apareceram. Foi muito emocionante, nós todos já mais velhinho, meio gordinhos (risos), muito emocionados. Nos inteiramos sobre qual era a profissão de cada um, quantos filhos tínhamos. Esse tipo de coisa. E gritando! Porque na época da ditadura eram só sussurros, conversas de cinco minutos antes de sair para não ter problemas de segurança. Foi estupendo o reencontro. O livro também serviu para isso, para voltar a ver pessoas que havia perdido na vida.
Como tem sido a recepção ao romance?
Olha, olha, não tão fácil. Por exemplo, lembrando entrevistas que fizeram comigo na Europa… Os europeus são mais rígidos que os latinos americanos, e os norte-americanos também defendem certos esquemas e se incomodam se são rompidos. Um desses esquemas é que não se pode juntar o pessoal com o político. Porque o romance também é político, mas uma coisa que me interessava era estabelecer a ponte entre o pessoal com um conteúdo profundamente político e vice-versa. Parte de um esquema arcaico estava em separar essas duas coisas. Quando jornalistas me questionavam sobre isso, eu gostava de dar o exemplo da vanguarda da luta antiditatorial na Argentina, as Mães da Praça de Maio, mulheres que não pertenciam a nenhuma organização nem tinham formação política, mas foram levadas pela urgência de recuperar seus filhos, as que primeiro se atreveram a sair para as ruas e encarar a tirania. Aí está claríssima a junção do pessoal e do político. Parte do processo de conseguir uma linguagem passava por unir as duas coisas, mas senti que isso despertou resistências. Na Colômbia, teve gente de esquerda reclamando: “Esperávamos que nos contasse de verdade o que foi a ditadura”. E eu respondia: “Bem, é a ditadura contada por como uma militante a vivia.” A posteriori, você consegue muita informação, fica sabendo da relação dos tiranos argentinos com Kissinger, por exemplo, mas, naquele momento, era muito pouco o que se sabia, porque a informação não circulava. Quem militava tinha um encontro semanal de cinco minutos com o responsável e o que ele dizia ali era tudo o que se sabia. Não queria fazer uma Lorenza hiperinformada, seria violentar a personagem. A verdade é que você se move como um cego, tateando na escuridão, esse era o essencial da clandestinidade. Quis manter isso e reclamaram, porque o romance não conta mais. Mas o que eles queriam todo mundo já contou! E eu queria recriar o ambiente em que se vivia na resistência não armada. Essa era outra questão: me parece que toda a épica da luta armada já se contou, mas essa outra resistência, muito mais discreta, feita de atos mínimos, como atravessar a cidade para levar jornais a um contato, muito menos heróica, muito menos vistosa, muito menos literária, era o que me interessava resgatar.
Como é sua relação com a ideia de militância hoje, com a política?
Bem, não milito, mas a política segue me apaixonando. Tenho a sensação de que a crise é tão profunda que requer uma transformação no terreno cultural. É algo muito mais amplo que só atividade política, e acho que literatura, música, teatro e cinema são terrenos propícios para iniciar a mudança. Não milito como antes, tampouco tenho a energia, era preciso um vigor que eu perdi, mas sinto que o vínculo com a política segue na vida cotidiana e também pelas questões… Ainda que eu não tenha tentando passar mensagem política, isso seria absurdo de se pretender, um romance com isso seria nefasto.
Quando fala de crise que requer transformação, você se refere exatamente a que?
Acho que agora está claro que os velhos esquemas estão esgotados, cada vez se vê mais que capitalismo batendo para uns poucos se beneficiarem e uma imensa quantidade da humanidade que fica de fora e não tem nada o que esperar. Antes isso era uma visão de esquerda, e me parece que está se tornando mais claro para setores maiores. Sinto um processo geral que está rompendo esquemas do Ocidente. No Oriente Médio, por exemplo, nesse embate entre democracia e islamismo antidemocrático. Foi um movimento geral de caráter democrático, coisa que não se esperava e que foi a grande surpresa desses tempos.
Você já veio ao Brasil?
Muito pouco… Estive aí várias vezes, mas nunca mais de 24 horas. Será a primeira vez que poderei passar mais tempo. Vou com enorme entusiasmo, porque sinto que uma característica desta é a aproximação do Brasil com o resto da América Latina. Acho que elementos culturais muito fortes podem partir disso.
Sua obra dialoga com a de seu conterrâneo Hector Abad, com quem debaterá na Flip, certo?
Sim, e me encantou saber que estaremos na mesma mesa. Somos amigos há muito tempo, e há muita afinidade entre os livros. Fui eu quem deu o título do livro que ele vem lançar (A Ausência do Que Seremos). A história de Hector também é autobiográfica, ele também buscou um tom íntimo para relatar uma história política, e no livro dele a figura do pai é importante como em Heróis Demais.
TRECHO
“Quando Lorenza anunciou em Madri que estava disposta a se mudar para Buenos Aires para militar na linha de frente, foi encarregada de imediato de levar no avião, camuflados, uns microfilmes, uns passaportes de diferentes nacionalidades e uns dólares em dinheiro vivo, não se lembrava quantos, mas eram muitos, ou pelo menos nesse momento tinha parecido que era uma quantidade enorme. Tudo isso para entregar para ele, Forcás. Como encontro Forcás?, tinha perguntado, e lhe disseram você não procura por ele, ele procura por você.
- Meeerrrda – Mateo disse -, meu pai, o Indiana Jones da revolução. Você faz cada novela, mãe!
Quem dá a resposta à pergunta acima é o jovem artista gráfico venezuelano Hansel Gonzalez, por meio de um projeto de estímulo à leitura que batizou de Entre Palabras: El Placer de Leer. O que há entre uma invasão de trípodes e você, ele resume, é um livro. No caso, Guerra dos Mundos, de HG Wells.
Até aí é somente uma frase de efeito que, vamos combinar, nem causa tanto efeito assim.
É que o legal do projeto são as maquetes de papel que Gonzalez cria para ilustrar frases do gênero, partindo de romances como Guerra dos Mundos e 20 Mil Léguas Submarinas (o terceiro pôster ele não especifica de que livro trata, mas só da Agatha Christie poderiam ser mais de 80).
Tem também umas imagens de bastidores, abaixo, que ajudam a entender o jeitão dessas maquetes.
(Esse projeto me lembrou um outro trabalho até mais bonito envolvendo livros e maquetes de papel, o vídeo The Ice Book, que linkei aqui uns meses atrás.)
Não lembro onde foi que ouvi a expressão. Quase certo que foi de um ex-editor meu, gênio das frases lapidares. Ou talvez tenha surgido numa mesa de bar, uma dessas criações coletivas que na verdade nunca são coletivas, sempre têm um dono, mas depois do calor da conversa ninguém sabe apontar quem seria. Só sei que minha, infelizmente, não é.
Mas dia desses, tentando equilibrar novos pacotes sobre livros que esperam avaliação na mesa de trabalho, me veio à mente a convicção: vivemos tempos de incontinência editorial.
Tinha pensado em postar uma foto da minha mesa aqui na Redação para dar a dimensão do peso desta afirmação, mas concluí que isso poderia só depor contra mim. Porque, né, sem que se saiba a velocidade com que os lançamentos invadem resquícios de espaços livres, o registro fotográfico corre o risco de não parecer mais que prova inequívoca de uma incapacidade crônica de organizar as coisas.
Tudo bem que historicamente é essa, mesmo, de pura bagunça, a impressão que tem quem vê as mesas de editores e repórteres de literatura, facilmente identificáveis nas redações de jornal (lembrei agora do mocinho que comandava, anos atrás, incursões escolares pela Redação da Folha. Sempre que ele chegava à Ilustrada, apontava para as mesas dos repórteres de literatura, como se os jornalistas ali instalados fossem mero acidente geográfico, e repetia para o grupo de visitantes da vez: “Prestem atenção na quantidade de livros dessas mesas. Que editoria vocês acham que é essa?”).
Mas ando especialmente abismada com a quantidade de títulos chegando ao mercado nos últimos meses. E falo isso levando em conta quase apenas publicações de ficção e não ficção, sem considerar didáticos, jurídicos e outros tantos que não têm divulgação em cadernos literários. Tudo bem, faz apenas três anos que lido com isso, mas do alto dessa experiência meio embrionária não me lembro de outra ocasião em que o ritmo da chegada de material tenha sido tão desproporcional à capacidade de vazão. Não me lembro de tantas editoras, tantos selos, tantos autores independentes, tantas investidas no mercado infantil e no de quadrinhos, tantos e tantos títulos disputando espaço na mídia em tão pouco tempo. E isso porque muitas casas guardam boa parte dos lançamentos para a Bienal do Rio, que acontece só em setembro.
Acho sintomático deste momento que um dos 10 finalistas do Prêmio SP de Literatura (e também dos 50 finalistas do Portugal Telecom) seja o romance Poeira: Demônios e Maldições, do Nelson de Oliveira. Nelson é conhecido no meio literário pelo apoio que dá a jovens escritores, tendo inclusive lançado antologias com a recente produção do País. Mas esse livro dele, uma delícia de romance que acabou menos falado do que merecia à época do lançamento (soterrado por outros lançamentos, talvez?), trata justamente de uma distopia que agora já não me parece tão distópica: o narrador testemunha um mundo abarrotado de livros, ao ponto de governos terem de proibir lançamentos, e onde edições clandestinas cismam em encher bibliotecas e quaisquer outros cômodos onde se possam enfiar caixas de livros.
O mercado editorial brasileiro vive um ótimo momento, ninguém há de negar, tendo sido capaz até de atravessar sem maiores arranhões a crise que abalou o cenário internacional em 2008. Mas a dúvida volta e meia me atormenta. Existe comprador para tanto livro? Desconsideradas as generosas aquisições feitas pelo governo, a partir de uma seleção de títulos a serem espalhados por bibliotecas País afora, será que a maior parte desses lançamentos não permanece tão intocada quanto chega às livrarias?
Sei lá. Acho que prefiro nem evoluir os pensamentos que me vêm a partir disso, porque em algum lugar esses livros todos têm de parar.
***
Na falta da foto da minha mesa, lembrei que poderia ilustrar o post com um trabalho do ótimo estúdio de design The Project Twins. Tinha separado essa imagem no meu banco de imagens (quem lê isso até pensa que, no fim das contas, sou organizada) pelo simples fato de tê-la achado bonita. Só ao pesquisar antes de postá-la soube que, na verdade, ela faz parte de um projeto de ilustrar palavras pouco usuais do alfabeto. Esta imagem em específico se refere a uma prática que ninguém em sã consciência defende: biblioclasmo, ou queima de livros, geralmente por motivos morais, religiosos ou políticos.
(Já que falei no Project Twins, vale espiar verbetes menos mal-afamados que eles ilustraram: acersecomic, referente a pessoa que nunca teve o cabelo cortado; cacodemonomania, crença patológica de que alguém carrega um espírito maligno; e por aí vai. As soluções gráficas do estúdio são lindas.)
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