“Eu posso fazer anotações nas margens dos meus livros – e compartilhá-las em redes sociais.”
Esse vídeo eu queria postar aqui desde que foi exibido no seminário sobre livros eletrônicos da Feira do Livro de Londres, mas, é claro, esqueci assim que coloquei os pés fora do auditório. Acabou de ser exibido no segundo Congresso Internacional do Livro Digital, que estou acompanhando em São Paulo, então resolvi pôr aqui antes que a lembrança escapasse mais uma vez.
A frase que abre o post, tirada do vídeo, é uma resposta a quem vê nos e-books a ameaça do fim das tão amadas marginálias. (Não sei se o fim da marginália me preocupa tanto, mas confesso que, vendo toda essa gente aqui fazendo anotações em netbooks e iPads – eu trouxe meu laptop gigante de casa, praticamente um PC dobrável – fico pensando se eles não sentem falta de rabiscar desenhos em bloquinhos enquanto os homens falam lá na frente…)
O vídeo, enfim. É propaganda, obviamente, mas vale dois minutos da sua vida. Quer dizer, eu acho.
[Publicada no Sabático de ontem. Sorry, mas precisava mencionar o quão bizarra achei a coincidência do assunto da última nota, justo no dia da morte da Amy.]
BABEL
Raquel Cozer – raquel.cozer at grupoestado.com.br
NEGÓCIOS
Novas apostas portuguesas em interesse geral e didáticos
“Chegamos antes da Leya e da Babel, mas elas aparecem mais. A meta é fazer barulho”, diz Márcio Coelho, diretor-geral da portuguesa Almedina. O brasileiro assumiu em janeiro para ampliar o leitorado da casa, instalada em São Paulo desde 2005 e hoje com 4.000 títulos no catálogo, quase todos jurídicos e de ciências sociais. Mês que vem, a Almedina passa a colocar no mercado títulos de interesse geral, começando com Entrevistas do Centro do Mundo (parceria com a Prime Books), de Henrique Cymerman, prefaciado por FHC. Outras aquisições são o novo livro do cronista esportivo Orlando Duarte, a ser lançado até o fim do ano, e a obra de Miguel Paiva, cujos títulos Gatão de Meia Idade e Radical Chique saem a partir de 2012. Enquanto isso, o bem-sucedido grupo Leya estende os braços para os didáticos, com a estreia em setembro da Leya Escolar, dirigida por Vicente Paz. O ambicioso projeto envolve livros, plataformas digitais e serviços, como treinamento de professores. Mais devagar, a Babel, lançada em março, tem só dois títulos nas livrarias.

Multilíngue: O clássico alemão O Aprendiz de Feiticeiro, de Goethe, sairá pela italiana Donzelli com as ilustrações que Nelson Cruz fez para a edição brasileira em 2006; da Cosac Naify, a Donzelli também já comprou desenhos de Guazelli
BIENAL
Leituras pop
José Wilker e Marcelo Anthony são dois dos 11 nomes confirmados para o Livro em Cena, série de leituras que a Bienal do Livro Rio promove de 4 a 11 de setembro – e que foi um dos maiores sucessos da última edição. Wilker lerá trecho de Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto; e Anthony, Seis Crônicas, de Rubem Braga.
*
Mas foi um poeta, e não um global, quem exigiu maior esforço do diretor artístico, Gabriel Villela. Ele e o adjunto, Dib Carneiro Neto, não desistiram até convencer o amazonense Thiago de Mello a liberar a leitura de Os Estatutos do Homem e Outros Poemas. Ficará a cargo do xará Thiago Lacerda.
*
Villela ainda conseguiu da família de Portinari autorização para reproduzir no cenário um enorme Dom Quixote de Cócoras.
Mestre do thriller francês, mais vendido por lá que Dan Brown na época de O Símbolo Perdido, Henri Loevenbruck vem ao Brasil para dois eventos, o Fórum das Letras de Ouro Preto e a Feira do Livro de Porto Alegre. Fala sobre A Síndrome de Copérnico, que saiu pela Bertrand Brasil em julho.
CINEMA-1
Do papel para a tela…
Vão virar filme as memórias Retrato de Um Viciado Quando Jovem, em que o agente literário Bill Clegg relatou seus tempos de dependência de crack. A produção será do próprio autor – cujo próximo livro, aliás, também foi comprado pela Companhia das Letras. 90 Days sairá em abril pela Little Brown e abordará a recuperação do vício.
CINEMA-2
…da tela para o papel…
Inside Job, o documentário vencedor do Oscar de 2011, se tornará livro pelas mãos do diretor do longa, Charles Ferguson. A versão impressa da história da crise econômica de 2008 sai nos EUA no primeiro semestre de 2012 e depois por aqui, pela Zahar.
CINEMA-3
…e tudo ao mesmo tempo
Em outubro, quando entrar em cartaz no Brasil a comédia romântica What”s Your Number, a Novo Conceito põe no mercado o livro que a inspirou, de Karyn Bosnak. A versão cinematográfica tem no papel central Chris Evans – protagonista do novo Capitão América, que estreia semana que vem.
ESTREIA-1
Teju Cole no Brasil
Ficaram com a Companhia das Letras os direitos de Open City, o elogiado romance de estreia de Teju Cole. A editora fechou nesta semana contrato para publicar a obra do americano criado na Nigéria, tema da reportagem de capa do Sabático no último sábado. A trama, protagonizada por um nigeriano na Nova York pós-11/9, levou o escritor de 36 anos a ser comparado a Camus.
ESTREIA-2
A maldição do 27
Cantor de rock famoso na Alemanha, Kim Frank passou ileso pelos fatídicos 27 anos – idade com a qual morreram Kurt Cobain, Jim Morrison, Janis Joplin e outros ídolos – e tirou proveito disso. Hoje com 29 anos, o também ator e diretor publicou há pouco seu primeiro romance, chamado 27, sobre um roqueiro que perde o rumo da carreira à medida que se aproxima a tão temida idade. O livro sai em 2012 pelo Tordesilhas.
Em abril, eu estava em Londres tentando descobrir alguma novidade no blablablá sobre livro digitais que antecedeu a London Book Fair quando um diretor da Bloomsbury falou a única coisa bombástica de todo o seminário: “O enhanced ebook morreu”. Era ou isso ou que o enhanced ebook estava dando os últimos suspiros, já não lembro. (Tá, talvez não tenha sido tão bombástico assim.)
Foi curioso porque os enhanced ebooks, ou apps de livro para iPad, enfim, esses livros interativos cheios de firulas de áudio e vídeo e interação para atrair quem não gosta tanto assim da leitura stricto sensu (ou para distrair quem só faz de conta que está lendo) tinham sido assunto longamente debatido em 2010 em sites americanos e ingleses. E fazia só dois meses que eu tinha escrito uma reportagem de capa para o Sabático sobre as primeiras investidas de editoras brasileiras no formato – todas as citadas ali tateando, gastando uma grana, sem saber se a coisa daria certo.
Era uma declaração exagerada a do diretor da Bloomsbury, mas ajudou a pôr uns pingos nos is. Os enhanced ebooks não iam mesmo acabar duma vez só com os livros de papel e os eletrônicos normais, como quiseram comentaristas mais apocalípticos. Mas representavam a descoberta de um novo nicho, em especial para crianças, que agora vem sendo explorado com menos, eu diria, deslumbramento.
Digo tudo isso por causa de um link que o Alexandre Rampazo me mandou ontem, do app para iPad baseado no The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore. O vídeo que originou o aplicativo é um curta animado do fim do ano passado, vendido a US$ 1,99 na iTunes Store. É inspirado “em iguais medidas no furacão Katrina, em Buster Keaton, no Mágico de Oz e no amor pelos livros”, e nele o personagem-título, apaixonado pela leitura, perde toda a biblioteca num furacão. O trailer:
Ilustrada por William Joyce (capista da New Yorker e ex-criador da Pixar e da Dreamworks cheio de prêmios Emmy) e produzida pela Moonbot, a história voltou a ser falada agora que saiu o aplicativo, a US$ 4,99 na App Store. O fato importante sobre o app do The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore é que, a se considerar resenhas de sites especializados, ele é o primeiro “next big thing” de verdade no universo de possibilidades do ebooks 2.0 desde o de Alice no País das Maravilhas, de maio de 2010.
Aqui no Brasil, quem já testou o novo aplicativo foi o Almir de Freitas, mas tem também o trailer do aplicativo para dar a dimensão:
Acho que o segredo fica resumido nesta frase do crítico do New York Times: ”As interações são feitas com o toque de um narrador, então elas em geral servem à narrativa em vez de tirar a atenção dela.” É que, pelo que tenho visto, é comum o conteúdo extra dos enhanced ebooks não agregar nada à narrativa em si. Só que o NYT esclarece: é divertido para um adulto, mas, como experiência de leitura, não é recomendado para mais que uma criança de sete anos.
E é preciso fazer outra ressalva aí. Ao contrário do app de Alice, que nasceu de um livro, o aplicativo de Mr. Morris Lessmore é baseado em um vídeo. Parece que vai virar livro de papel, também, mas só de ilustrações – como acontece com tantos filmes animados da Disney, por exemplo. Por que ele é chamado de aplicativo de livro, e não de filme, isso já fica fora da minha capacidade de compreensão.
“Essa livraria de design impecável em São Paulo parece ser feita basicamente de livros. As portas dianteiras são estantes funcionais e as paredes são revestidas do piso ao teto com livros para onde quer que se olhe – inclusive, hm, em buracos no teto para espaço extra. Embora esta seja uma das livrarias conceitualmente menos bizarras desta lista, achamos que a estética do design forma-segue-função-segue-forma é bem instigante. Ademais, é preciso admirar uma livraria que coloca um livro em cada espaço possível e ainda consegue parecer um lugar iluminado e limpo.”
Ok, enquanto ainda estou devendo aquele post com as fotos de livrarias nacionais, o Flavorwire, que adora listas, tratou de colocar uma loja brasileira, a paulistana Livraria da Vila – Unidade Lorena, numa seleção de dez casas não convencionais mundo afora.
Quem deu a dica foi Rodrigo Levino, natural born Caçambito.
Update em 20/7: A leitora Ana Paula reclamou, com razão, que não dei o crédito do projeto da Livraria da Vila. É do conhecido arquiteto paulistano Isay Weinfeld.
[Publicadas no Sabático]
BABEL (16/7)
Raquel Cozer – raquel.cozer at grupoestado.com.br
DIGITAL-1
Estreia em e-books com promessa de preços baixos
A Novo Século, que tem no catálogo best-sellers como O Sete, de André Vianco, demorou a começar a vender e-books, mas estreia no segmento nos próximos dias com a promessa de preços bem mais baixos que os do mercado. Enquanto grandes editoras costumam oferecer livros digitais com descontos de no máximo 40% em relação aos impressos, a casa de Osasco diz que os seus custarão até 75% a menos – caso dos títulos da Coleção Virginia Woolf, que em papel chegam a R$ 39,90 e ficarão por R$ 9,90 cada um. “Queremos ganhar mercado pelo preço. Creio que os e-books ajudarão inclusive a divulgar os títulos impressos”, diz Cleber Vasconcelos, responsável por novos negócios na editora. A meta é oferecer em três meses 80% do catálogo de 510 livros nos formatos ePub ou PDF. A saber se a casa conseguirá fazer com que “exceções”, como a série House of Night – que terá desconto de apenas 37% na versão ePub -, não virem regra.
DIGITAL-2
No topo da lista
Com e-books custando no máximo R$ 12, a pequena KBR tem ficado no topo nas listas de mais vendidos. Há dez semanas, Domingo, O Jogo, de Cassia Cassitas, passou a liderar a da Cultura. Está prestes a atingir 2 mil cópias comercializadas, um feito para um e-book no Brasil – considerando que, por exemplo, há três meses o título Estrela Brasileira, também da KBR, ficou em primeiro com apenas 17 downloads numa semana.
DIGITAL-3
Autores independentes
O sistema de self publishing da Singular Digital, em fase beta há um ano, será uma prioridade da empresa daqui para a frente. Para reforçar os trabalhos nesse sentido, a Singular passará a permitir aos autores independentes publicar em e-book, além de imprimir por demanda. O trabalho fica a cargo de Carlo Carrenho, recém-contratado como diretor executivo, em equipe reforçada ainda pelo diretor de negócios João Casacio.
TRADUÇÃO
O Enigma em turco
O Enigma de Qaf, romance em que Alberto Mussa investiga o árabe, virou capa do suplemento literário do Vatan (A Nação), na Turquia, onde acaba de ser lançado. “É uma sorte mágica poder ler o livro de Alberto Mussa em turco”, avalia o texto.
*
A obra sai em setembro na Romênia e foi vendida à Argentina e ao Egito, totalizando sete países. Também em setembro, O Movimento Pendular sai na França com tradução de Stephane Chao, agente de Mussa.
BANCAS
Investimento no popular
Os três recentes títulos da Coleção Mitologia Superinteressante (Deuses, Heróis e Lendas) representam nova aposta da Abril no mercado de livros populares, usando a lógica da venda de revistas: tiragem alta (12 mil por volume), distribuição nacional e em bancas. Se as vendas forem expressivas, a revista deve passar a ter uma “editora Super”.
QUADRINHOS
Entre a tira e a piada
O especialista em quadrinhos Paulo Ramos dedicou o doutorado a responder a uma pergunta que, num primeiro momento, parece simples: se tiras de jornal são uma forma de piada. O resultado, defendido em 2007, sai em agosto em livro pela Zarabatana. Faces do Humor: Uma Aproximação Entre Piadas e Tiras exigiu do autor longa investigação sobre as linguagens dos dois gêneros, piadas e tiras, analisando trabalhos como As Cobras (acima), de Luis Fernando Verissimo.
MÚSICA-1
Os reis do mambo
O mais recente romance do Pulitzer de ficção Oscar Hijuelos, Beautiful Maria of My Soul, foi comprado pela Livros de Safra. A trama é centrada na musa de The Mambo Kings Play Songs of Love, o romance que rendeu a Hijuelos em 1990 aquele inédito prêmio para um hispânico. The Mambo Kings, que originou o filme Os Reis do Mambo, com Antonio Banderas, saiu em 1989 pela Objetiva e agora também pertence à jovem casa.
MÚSICA-2
O rei do soul
Ainda em fase de elaboração, The One, Life and Music of James Brown, do editor sênior da Los Angeles Magazine J.R. Smith, teve os direitos comprados pela Leya. A editora pretende publicá-lo em março, junto com a edição original – para qual o selo Gotham, da Penguin, prepara megalançamento.
***
BABEL – 9/7
CONGRESSO
Olhar acadêmico sobre livro digital
O novo papel do designer na elaboração de e-books e os fatores que influenciam a prontidão do leitor potencial na adoção da tecnologia eletrônica são dois dos temas de trabalhos que concorrem a prêmio do 2º Congresso Internacional do Livro Digital, marcado para os próximos dias 26 e 27 em São Paulo. Criado com a intenção de ampliar a discussão acadêmica em torno do assunto, o concurso atraiu apenas dez estudos, dos quais cinco foram selecionados para concorrer aos dois prêmios, de R$ 1.000 e R$ 500, que serão anunciados durante o evento. Outros temas selecionados para a final foram um estudo de como o formato estimula a democratização do acesso à produção científica e duas pesquisas de campo realizadas no mesmo Estado: um diagnóstico de como estudantes da Universidade Federal da Bahia lidam com livros oferecidos de graça na internet e uma investigação de como o e-book se torna instrumento de estudo entre alunos do Instituto Federal de Educação da Bahia.
HISTÓRIA
O descobrimento…
Recém-saído da presidência da Biblioteca Nacional portuguesa, Jorge Couto vem à Bienal do Livro Rio, em setembro, lançar pela Forense obra já clássica em Portugal: A Construção do Brasil, de 1995, que defende a descoberta do País em 1498, com base em texto desaparecido por quase 400 anos.
EXPORTAÇÃO
…e o esquecimento do Brasil
“Até maus autores hispânicos são publicados facilmente em Portugal, enquanto bons brasileiros têm dificuldades”, disse à coluna o angolano valter hugo mãe, antes de sua mesa ontem na Flip. A explicação, imagina, está na força histórica da literatura em língua espanhola em Portugal e na expectativa de editores de reproduzir no país o sucesso de obras do vizinho.
*
O autor veio ao Brasil com Alexandre Vasconcelos e Sá, diretor-geral da Alfaguara, que o edita por lá. Sá dedicou parte de seu tempo em Paraty a fazer enquetes com gente do meio editorial, em busca de jovens escritores brasileiros que a editora possa “dar a conhecer aos leitores portugueses”.
DIREITOS
Mercado de língua inglesa
Um dos estrangeiros convidados da Apex-Brasil a Paraty, o agente literário Jonah Strauss negociou nos últimos dias a venda de títulos nacionais para grandes e pequenas editoras de língua inglesa. Estação Carandiru (Companhia das Letras), de Drauzio Varella, por exemplo, sai pela gigante Simon & Schuster UK.
*
Já Paulo Emilio Sales Gomes e Lygia Fagundes Telles, que foram casados até a morte dele, em 1977, chamaram a atenção da pequena Dalkey Archive, conceituada editora independente norte-americana. A editora vai publicar Três Mulheres de Três PPPs (Cosac Naify), de Paulo Emilio, e As Meninas (Companhia das Letras), de Lygia.
DEDICATÓRIA
Prêmio de consolação
Rubem Fonseca não quis ir ao lançamento de seus próprios livros em Paraty, os inéditos José e Axilas e Outras Histórias Indecorosas, mas guardou presente para fãs: na quarta-feira, no Rio, ele assinou 200 cópias, que serão distribuídas a princípio em livrarias do Rio e de São Paulo, ainda não definidas. A Nova Fronteira prepara uma campanha para a internet pós-Flip.
POLÍTICA-1
Blog impresso
O célebre artista dissidente chinês Ai Weiwei (acima, com a obra Sunflower Seeds, na Tate), libertado pelo governo de seu país no fim de junho após três meses de prisão, terá os textos que escreveu para seu blog de 2006 a 2009 publicados no Brasil pelo selo Martins da editora Martins Fontes. Sairá com o nome Blog de Ai Weiwei, ainda sem data definida.
POLÍTICA-2
Enfim, o Irã no papel
Já tem data a publicação no Brasil da versão imprensa da HQ Zahra’s Paradise (imagem), veiculada em capítulos na internet desde fevereiro de 2009, em vários idiomas. A história do desaparecimento de Mehdi, jovem ativista iraniano, sai em outubro pela Leya.
MÁGICA
Como funciona a ilusão
Os neurologistas Stephen L. Macknik e Susana Martinez-Conde convenceram ilusionistas a revelarem segredos de suas técnicas para o livro Truques da Mente, que sai em setembro pela Zahar. A partir disso, contam como funciona o cérebro quando você é tapeado ou cai no papo de um vendedor.
Logo que a Sonia Racy deu, sucintamente, na Direto da Fonte de ontem, a informação de que a obra de Mário Quintana passaria para a Alfaguara, ligamos lá pedindo detalhes. Quintana é um nome enorme para qualquer catálogo, não apenas como prestígio mas também em possibilidades de comercialização, consideradas vendas para escolas e em antologias, entre outras. Mandamos uma série de perguntas para Isa Pessoa, diretora editorial da Objetiva, que preferiu mandar uma mesma resposta a todos os jornalistas.
A Editora Globo, que teve Quintana como funcionário e onde ele era publicado, preferiu não se pronunciar, assim como Lucia Riff, agente literária responsável pela obra do poeta gaúcho, que chegou só a dar umas aspas ontem para o Publishnews.
As obras a sair pela editora são: A Rua dos Cataventos (1940), Canções (1946), Sapato Florido (1948), O Aprendiz de Feiticeiro (1950), Espelho Mágico (1951), Caderno H (1973), Apontamentos de História Sobrenatural (1976), A Vaca e o Hipogrifo (1977), Esconderijos do Tempo (1980), Antologia Poética (1985), 80 Anos de Poesia (1986), Baú de Espantos (1986), Da Preguiça como Método (1987), O Batalhão de Letras (1987), Preparativos de Viagem (1987), Porta Giratoria (1988), A Cor do Invisível (1989), Velorio sem Defundo (1990), Poemas para Ler na Escola – Mário Quintana.
Sobre Quintana na Alfaguara, então, os principais pontos do texto de Isa Pessoa:
“Esperamos ampliar a presença do poeta nas escolas, apostando (…) (no) relançamento de sua obra nas livrarias, e também no formato digital”
“São 19 títulos, uma obra vasta (…) que será relançada a partir de meados do ano que vem.”
“Planejaremos esse cronograma (…) em conjunto com especialistas no autor, sempre ouvindo a Elena Quintana, sobrinha do poeta e conhecedora profunda da sua obra, e também sua agente, Lúcia Riff. A obra completa sairá pela Alfaguara, mas pretendemos explorar possibilidades editoriais novas, publicando alguns títulos pelo selo Objetiva.”
“Vamos trabalhar para estabelecer um projeto gráfico elegante, capas cheias de luz e cor (…).”
“Nossa ideia inicial, ainda sujeita a alterações, é iniciar a série com dois lançamentos simultâneos. O primeiro: a Antologia Poética, clássico do autor, editada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos nos anos 60. A meta é fazer um resgate da edição original, assinada por dois titãs da literatura brasileira, sem intermediários – recuperando ainda a fortuna crítica da época (a antologia foi publicada em homenagem aos 60 anos do autor, junto a uma célebre saudação feita em sua homenagem na Academia Brasileira de Letras, onde Quintana, por mais inacreditável que pareça, nunca foi eleito imortal). “
“Com o título provisório No Retrato Que Me Faço, primeira linha de um poema do autor, o outro volume de estreia será cria.do a partir de frases e haicais do poeta, famoso por suas tiradas anticonvencionais, em que nunca perdoava os chatos nem o tédio de existir”
“Sob o selo Objetiva, esperamos incluir um volume de Quintana em nossa coleção Para Ler na Escola. Criada há cerca dois anos, a série tem tido um desempenho extraordinário nas escolas, reunindo contos, poemas ou crônicas de autores que são referência em seu gênero (…) . Mario Quintana – Poemas Para Ler na Escola, será organizado e apresentado, seguindo a estrutura da coleção, por curadoras irretocáveis como Marisa Lajolo e Regina Zilberman.”
Peguei One Day, de David Nicholls, para ler uns meses antes de sair por aqui. Enfiei na mala quando fui para Londres, porque tenho essa mania de legendar viagens com referências literárias locais, e a primeira coisa que nosso anfitrião disse quando abri o livro no metrô londrino foi: “Mas qual é a dessa história? Por que tá todo mundo lendo isso?”
Acho que, das pessoas que conheço que leram Um Dia (aqui saiu pela Intrínseca), sou a menos entusiasta. É um bom livro, fluente, leitura divertida, boas sacadas, mas confesso que fiquei ali tentando entender por que se tornou tão cult em tão pouco tempo na comparação com outros do gênero. O fato é que vendeu 2 milhões de exemplares no mundo, recebeu elogios de críticos e escritores em vários países e, agora em agosto, vai virar filme, dirigido pela Lone Scherfig (diretora também do ótimo Educação).
A história toda do romance se passa num 15 de julho, como hoje (a propósito de digressão, ouvi mais cedo na rádio Estadão que dia 15 de julho é Dia Internacional do Homem, mas só no Brasil – um dia internacional nacional é dessas coisas que só aqui mesmo). Como ainda não tinha escrito sobre o romance no jornal, e achava que por várias razões ele merecia ser comentado, aproveitei a data para entrevistar Nicholls sobre o livro e o filme, do qual ele é roteirista.
Segue o texto que saiu hoje no Caderno 2, abaixo do trailer do longa.
***
É hoje o dia
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Há exatos 23 anos, numa sexta-feira, 15 de julho, Emma Morley e Dexter Mayhew se conheceram. Ok, o registro pode não parecer importante, até porque Emma e Dexter nem existem de verdade, mas para milhões de pessoas no mundo a data ganhou jeito de efeméride desde que, dois anos atrás, chegou às livrarias inglesas o romance Um Dia, de David Nicholls – lançado por aqui em maio passado, pela Intrínseca.
A data aparece logo no topo da primeira página, quando os recém-formados Emma e Dexter passam no apartamento dela uma noite não propriamente romântica. E o dia 15 de julho volta a cada capítulo, sempre um ano após os acontecimentos do capítulo anterior, em relatos sobre como transcorreram as vidas de ambos ao longo de duas décadas.
Dito assim, não parece mais que romance água com açúcar, mas o texto do ficcionista e roteirista David Nicholls, ágil e cheio de referências da recente história e cultura britânica, tornou a obra quase unanimidade entre público e crítica – elogios do Guardian, do Independent e de outros jornais, e de autores como Jonathan Coe e Nick Hornby aparecem estampados na capa e nas primeiras páginas das edições inglesa e nacional, para que ninguém fique na dúvida.
Desde 2009, Um Dia teve 2 milhões de cópias vendidas em 34 idiomas – no Brasil, foram quase 40 mil em dois meses. E a trama alcançará público ainda mais abrangente daqui a um mês, quando estreia nos EUA Um Dia, o filme, com direção de Lone Scherfig (de Educação), Anne Hathaway e Jim Sturgess nos papéis centrais e roteiro de Nicholls.
“Nunca achei que pudesse virar filme. Achava que era extenso demais, caro demais, que seria um desafio encontrar atores que pudessem ter tanto 22 quanto 42 anos”, disse Nicholls por telefone ao Estado, duas semanas atrás, interrompendo um passeio de bicicleta pela Londres que é praticamente uma personagem no romance. Experiente no trabalho de transportar histórias alheias para a tela (e mesmo suas, caso do menos bem-sucedido Starter for Ten), Nicholls admite que foi sofrido abrir mão de trechos da narrativa. “Num romance, você se dá ao luxo de construir monólogos internos, fluxos de pensamento. Não há equivalente para isso na tela. Tive de cortar alguns dos meus momentos favoritos, linhas de raciocínio, emoções. O livro também tem capítulos na forma de cartas, que não ficam bem no filme, porque a voz em off não fica bem se usada em demasia. Uma vez que aceitei que teria de me concentrar mais em eventos que em descrições, foi divertido trabalhar nisso”, diz.
O filme, segundo Nicholls, tem também menos momentos soturnos que o livro. Um dos melhores capítulos do romance, por exemplo, o filhinho de papai Dexter Mayhew atravessa sob o efeito flashback das drogas que tomou numa festa. A depressão e a euforia decorrentes disso se somam à lembrança de que precisa visitar a mãe, com câncer terminal, e à percepção do quão superficial é sua vida como apresentador de TV. “No filme, com uma passagem tão acelerada do tempo, não ficava bem estender tanto momentos depressivos. Longos capítulos do livro precisaram ser resumidos a cenas de dois a três minutos, enquanto outros chegam a 16 minutos.”
Mas é com Emma, e não com o personagem masculino, que o autor se identifica. Enquanto Dexter vem de uma família rica e não tem grandes ambições além de alimentar a vaidade, Emma é nascida num lar de classe média e carrega consigo os clássicos planos juvenis de salvar o mundo. O processo de amadurecimento de ambos torna o romance mais interessante já uns bons capítulos depois do começo.
Nos primeiros capítulos, como admite o romancista, os dois “são jovens com princípios e ideias muito pouco maleáveis”. “O interessante de criar essa história foi permitir que os personagens mudassem ao longo dos anos, como nós mudamos na vida real, mas que ao mesmo tempo fossem reconhecíveis”, diz Nicholls. “A imagem que eu tinha na cabeça ao escrever o romance era como a de olhar um álbum de fotos: a roupa muda, o cabelo muda, mas o sorriso, o olhar, alguma coisa continua lá.”
QUEM É
DAVID NICHOLLS
ESCRITOR E ROTEIRISTA
O britânico, de 44 anos, formou-se em dramaturgia e inglês em Bristol antes de ser ator em Nova York. Estreou como roteirista adaptando Simpático, de Sam Shepard, ao cinema. Levou à telona ainda outros romances próprios, como Starter for Ten, antes de escrever e roteirizar Um Dia.
***
Tá virando mesmo moda isso de tirinhas em GIFs animados na web, não? Essa aqui, do fim do mês passado, é a primeira do gênero da excepcional série Mimi & Eunice, de Nina Paley (que, por sinal, vem discutindo com certa frequência os direitos autorais em tempos digitais, em tiras como essa e essa).

Entrevista coletiva com Antonio Candido, na quarta de manhã. Para mim, valeu toda a Flip (eu tô no chão à esquerda da imagem, dá para ver só o meu cabelo…)
Pausa para um chá com torradas e geleia de pimenta verde. Não chega a ser folga, já que tenho dois livros a ler para uma entrevista depois de amanhã, mas é um alento esticar as pernas depois de uma cobertura como a nossa, com equipe reduzida e meios ampliados – além do impresso, do blog e do Twitter, ainda teve o Bira fazendo três entradas por dia na rádio Estadão ESPN, a primeira delas às 6h30 da manhã. Por sorte, o fotógrafo que foi com a gente, o Wilton Junior, teve a sacada de levar também uma câmera de vídeo e fez, no improviso, as vezes de TV Estadão, garantindo, por exemplo, os vídeos com histórias do Antonio Candido antes da participação dele na mesa de abertura. Para repetir uma expressão que ouvi durante a Flip, diria que foi uma equipe de poucos e bons (foram também o Toninho e o Ivan Marsiglia, que ficaram mais focados em especiais. A Laura Greenhalgh foi como mediadora da mesa do Nicolelis e do Pondé e, solidária, acabou dando uma forcinha no blog no fim de semana).
Sérgio Rodrigues já fez no Todoprosa um post bem contundente sobre o grande baixo e o grande alto desta Flip, então disso eu vou me abster. Mas pensei que, antes de abandonar o assunto e enfrentar a pilha de livros lá na Redação, valia ainda escrever sobre algo que me chamou a atenção nesta edição.
Acho que daria pra resumir num título de release que o Delfin tuitou: “Pela primeira vez, literatos e críticos terão cadeiras Herman Miller durante os debates”. O caráter comercial em torno da coisa cresceu de um jeito que tem uma parte da “nova Paraty” – ou sei lá como chama aquele lindo novo passeio ao lado do canal – que lembra os estandes das Bienais do Livro. Aquele tanto de anúncio paralelo, gente e empresas querendo aparecer, ida de ministra, tudo aquilo contribuiu para o meu cansaço de uma forma que até de pensar em contar dá preguiça. Ok, você vai me dizer que é bom que empresas invistam num evento literário e você pode estar certo, olhando a situação só até a parte em que se fala de investimento e não de pura tentativa de pegar carona em prestígio. Só me deem o direito de achar que podia ser menos ostensivo.
(Aqui preciso abrir um parêntese para comentar o quanto gostei da mudança da Tenda do Telão para o lado de fora do centro histórico. Ao migrar para o fim do passeio ao lado do canal, ele levou a Flip à praia. Vi a mesa do Ubaldo de lá, à beira de um quiosque, esperando para tomar minha cervejinha enquanto tuitava as melhores frases, e cercada de gente espalhada pela areia. O chato foi só que o vento do litoral obrigou a tenda a ficar com um dos lados fechados, reduzindo a capacidade do público não-pagante.)
Tinha pensado em falar neste post também das mediações, essa função difícil e ingrata que é tipo juiz de partida de futebol; se for bem, pouca gente percebe, mas, se for mal, o povo cai matando. Teria coisas a dizer sobre essa tênue fronteira entre falar bem e falar demais. Mas tenho amanhã essa sabatina com o valter hugo mãe em São Paulo, e não sou lá muito experiente como mediadora, então deixo para fazer quaisquer comentários depois, se ainda quiser voltar ao assunto.
Esta caótica semana literária que, ufa, está acabando começou com a exibição do Roda Viva com o angolano José Eduardo Agualusa, da qual participei como entrevistadora convidada (ou ao menos tentei) junto com a Francesca Angiolillo, editora adjunta da Ilustrada. Vocês finjam que não dá para perceber que eu estava sem jeito até não dar mais. E não quero falar sobre bochechas.
(Achei no YouTube só o primeiro bloco, mas dá para ver os outros no site da TV Cultura)
E, para completar este post angolano* (e também começar uma nova caótica semana literária), aproveito para lembrar que na terça-feira participo do 34 Leituras Íntimas, sabatinando o escritor-sensação da Flip, valter hugo mãe. Pra quem não veio a Paraty, digo que vale muito a pena ouvi-lo falar. Pra quem veio ou viu pela internet, olha, assuntos que ficaram de fora da mesa dele na Tenda dos Autores podem render.
* valter hugo mãe é descrito como “português nascido em Angola”, porque mora desde muito novo em Portugal, e saiu de Angola quando o país ainda era colônia portuguesa.
2011
2010
Posting tweet...