
Ontem completaram-se 120 anos do nascimento de Agatha Christie, efeméride que o Google britânico celebrou no logo (acima) e sites literários recordaram. Mas só hoje vi uma notícia, na verdade veiculada pela NPR em junho, que me chamou a atenção.
Trata-se de uma pesquisa feita por um professor da Universidade de Toronto, Ian Lancashire, e que levou em conta a obra de Christie, escritora das mais vendidas no mundo (mais de 2 bilhões de livros em 44 idiomas, é o que se diz).
Lanchashire deve ser um homem de paciência: basicamente, o que ele faz, com a ajuda de um programa de computador, é colocar em ordem alfabética todas as palavras e analisar os contextos em que são usadas. Uma das coisas que ele descobriu nesse tipo de pesquisa foi que John Milton nunca usou a palavra “because” em seus escritos, mas explicar o motivo exigiria o trabalho de um médium.
Os resultados foram mais expressivos quando ele se voltou a Agatha Christie, cuja literatura, há de se convir, é um tanto mais simples que a de um Milton. Ele pegou 16 romances dela, escritos ao longo de mais de 50 anos, e analisou o vocabulário usado, a frequência com que palavras aparecem e o número delas em cada texto.
A surpresa veio quando chegou ao 73º romance, escrito aos 81 anos. O número de palavras diferentes era 20% menor do que nos livros anteriores, o que representaria a perda de um quinto do vocabulário dela. A conclusão, para a qual contou com ajuda de especialistas, foi a de que ela sofria de Alzheimer – doença nunca diagnosticada, embora ela reclamasse da falta de concentração nos últimos anos de vida.
Por curiosidade, o livro se chama Os Elefantes Não Esquecem e trata de uma romancista que luta contra a perda de memória enquanto tenta ajudar Poirot.
No fim de semana, esbarrei numa série de cartuns do britânico Andy Riley publicada no site da revista piauí. Uma sequência de cortar os pulsos, sob a chamada “Um coelho e seu desejo obstinado de dizer adeus ao mundo cruel“. Não posso dizer que tenha sido a página mais recomendada para encontrar em meio à melancolia de um fim de tarde de domingo, mas consegui sobreviver.
Estava apenas começando a me recuperar quando, no Twitter, o quadrinista e escritor capixaba Estevão Ribeiro me perguntou se conhecia suas tirinhas Os Passarinhos. É que uma série que ele acaba de iniciar no blog, chamada Patrício, o Pato Pobre, faz pensar se o coelho do Andy Riley não está certo em procurar respostas radicais para um mundo que não faz sentido.
As duas primeiras tiras da nova série eu posto a seguir (e o resto você pode acompanhar por lá, nas próximas semanas).
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Já gosto tanto do pobre do pato que não sei se estou preparada para toda a saga – uma promessa de porções muito bem dosadas de humor e melancolia.
(Patrício acaba de nascer, mas outras aves criadas pelo Estevão inclusive saíram em livro, Hector e Afonso: Os Passarinhos, pela Balão Editorial)
Peguei daqui.
Aliás, isso me fez lembrar de uma busca que o Ricardo Lombardi faz de tempos em tempos no Twitter: muita gente está escrevendo um livro…
O vídeo abaixo, lançado mês passado nos EUA para promover o infantil It’s a Book, não deixa de representar uma contradição curiosa.
“Isso é um livro” é a frase que um macaco, um dos personagens criados pelo ilustrador Lane Smith, repete para tentar explicar a um burrinho que, não, aquele “artefato” não serve para blogar, não tuíta, não precisa de senha. É um olhar sobre como as novíssimas gerações, que nascem e crescem junto com as novas tecnologias, podem se surpreender com a leitura.
A contradição: depois de ver o vídeo, não fica a impressão de que ele conta a história tão bem quanto o livro em papel poderia fazer? O Wall Street Journal questionou o autor sobre o fato de o trailer entregar demais a trama. Ele diz que queria entregar mais ainda do que está lá. E faz comentários sobre tecnologia nos livros, reações das crianças e mais nessa entrevista aqui.
Dei nota sobre o título, que sairá pela Companhia das Letras, na coluna Babel deste último Sabático (cujo texto reproduzo abaixo do vídeo).
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[coluna publicada no Sabático de 11/9]
BABEL
Raquel Cozer – raquel.cozer@grupoestado.com.br – Estado de S.Paulo
MEMÓRIAS
Robert Capa por ele mesmo
A autobiografia do celebrado fotógrafo de guerra Robert Capa (1913-1954), Ligeiramente Fora de Foco, deve sair ainda neste ano pela Cosac Naify – lançada em 1947, a obra já foi publicada em mais de 20 idiomas, mas nunca no Brasil. Nela, cerca de 40 imagens são intercaladas pelos relatos de Capa sobre suas vivências durante a 2.ª Guerra, com destaque para o desembarque na Normandia, o Dia D, eternizado nos registros do fotojornalista.

COLEÇÃO
Viagens com escritores
Marcelino Freire lança no fim do ano o selo (ou movimento) Edith, dedicado a novos escritores. Um dos destaques será a coleção Que Viagem, para a qual convidou dez ficcionistas a viajar e escrever sobre suas experiências. Entre os estreantes, Gisele Werneck vai para onde Judas perdeu as botas, Maria Carolina Moraes segue para o beleléu, André Sala visita a casa do chapéu e Gabriel Pardal vai para onde não foi chamado.
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“Quis mandá-los a destinos clássicos de autores”, diz Freire, que teve com Andréa del Fuego (enviada para o inferno) a ideia de brincar com a coleção Amores Expressos, da Companhia das Letras. O selo será lançado na abertura da 5ª Balada Literária, de 18 a 21/11, que celebrará Lygia Fagundes Telles e terá pela primeira vez uma grande festa com DJ, no dia 19, no Goethe-Institut.
EXPOSIÇÃO
Sotaques do Brasil
O Museu da Língua Portuguesa não homenageará nenhum escritor quando terminar, no ano que vem, a mostra sobre Fernando Pessoa. A exposição a ser aberta ao público em março terá como tema os sotaques dos brasileiros. Para isso, a instituição trabalha com uma equipe de professores da Universidade Federal da Paraíba que, desde 1970, vem registrando em áudio e vídeo manifestações de cultura popular pelo País.
PREMIAÇÃO
Chance para novatos
O Prêmio Benvirá de Literatura recebeu em três semanas mais de 200 obras inéditas de todo o País. O valor de R$ 30 mil, mais a garantia de publicação e distribuição, atraíram de autores conhecidos até moradores de cidades como a pequena Pio 12, de 20 mil habitantes, no Maranhão. As inscrições vão até 30/11 pelo site www.benvira.com.br.
CINEMA
O passado de Kitano
Lançada neste ano na França, a autobiografia do cineasta Takeshi Kitano teve os direitos adquiridos pela Martins Fontes. Kitano par Kitano partiu de conversas do jornalista Michel Temman com o japonês – showman no país natal e, na França, diretor celebrado por longas como Zaitochi. A obra detalha sua infância miserável e a reação com o pai, sobre quem diz: “Eu jamais lhe dirigi a palavra. Ele nunca me disse nada.”
INFANTIL
É um livro!
It’s a Book, em que o ilustrador Lane Smith tenta destacar os méritos do livro impresso, sairá pela Companhia das Letrinhas após meteórica trajetória nos EUA, onde está nas listas de best-sellers infantis desde o lançamento, há um mês. Sucesso similar faz o trailer (acima), que entrega quase toda a trama – um burrinho, munido de laptop, perturba sem parar um macaco que tenta ler: “Dá para tuitar com isso?”.
GUERRA
Relato indesejado
O Departamento de Defesa dos EUA quer, segundo o Washington Post, comprar toda a primeira tiragem, de 10 mil cópias, de Operation Dark Heart, memórias do ex-agente de inteligência Anthony Shaffer. A intenção seria destruir o livro, previsto para este mês e no qual Shaffer descreve operações realizadas no Afeganistão, onde serviu em 2003.
[Texto publicado no Caderno 2 Domingo de 12/9]
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Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Um antigo comercial de TV começava com um menino sardento, num safári, tirando sarro de um filhote de elefante. Anos depois, homem feito, o provocador aparece tranquilo assistindo a uma parada na cidade quando uma tromba lhe cutuca o ombro – só para antecipar a trombada na cara com que o animal enfim revidaria a afronta infantil.
As imagens dessa propaganda ocorrem a Caeto, de 31 anos, quando questionado sobre o título de sua primeira graphic novel, Memória de Elefante, que o selo Quadrinhos na Cia. coloca nas livrarias nos próximos dias. O cartunista dá uma risada antes de parar e pensar nas melhores palavras para resumir a intenção: “O cara que leva a porrada não esquece. Quis usar a meu favor tudo o que me aconteceu.”
Tudo, no caso, é uma história que também se inicia na infância, mas que evolui até o ponto em que o jovem poderia fracassar pela inércia, entre a falta de grana, problemas familiares e bebedeiras, ou perceber que eram esses mesmo os ingredientes para a desforra. E havia uma infinidade deles.
Filho de pais separados, Caeto tinha 11 anos ao descobrir que o amigo inseparável do pai era, na verdade, namorado. Alternou-se na adolescência entre colégios públicos e particulares, conforme a família podia ou não pagar a mensalidade, o que lhe garantiu níveis sempre altos da sensação de inadequação. “Depois de passar por umas quatorze escolas diferentes, me tornei uma cobaia, alguém que experimentou pequenas doses dos mais diferentes métodos de ensino”, descreve, num quadro ilustrado por um rato entre injeções de “disciplina” e “decoreba”.

Mais tarde soube que o pai, livreiro à beira da falência, tinha o vírus HIV. Poderia até ser simples lidar com a questão não fosse justamente a relação com o velho o maior problema. “Ele nunca esqueceu o que aquilo tudo (livros, CDs etc.) representava para ele… Só esqueceu de cuidar de nós”, reflete Caeto na sequência da HQ em que conta como se decidiu a fazer o livro.
A tais lembranças se intercalam as vivências como ilustrador e quadrinista. “Minha primeira influência foi o Laerte, o Angeli, aquela geração. Comecei a fazer histórias em quadrinhos ainda muito moleque, com oito, nove anos”, lembra o paulista de Assis. Criado na Vila Madalena, tentava vender por bares das antigas, como o Sujinho e o Empanadas, os primeiros fanzines, feitos dentro da escola. Não que tivesse grandes expectativas na vida financeira como ilustrador. “Logo no primeiro livro que peguei para ilustrar, percebi que não ia ganhar muito com isso”, conta.
Para se distrair e tentar mais algum trocado, editou dois fanzines, Sociedade Radioativa e Glamour Popular, iniciativa que rendeu alguns frutos indiretos – foi o cartunista Rafael Coutinho, amigo que integrava o time do primeiro fanzine, quem o alertou sobre o interesse da Companhia das Letras em lançar graphic novels de autores nacionais.
Ao longo dos quatro anos em que repensou as maneiras de fazer o livro, este mudou então de casa – a Companhia entrou na história em 2008, dois anos depois de Caeto iniciá-la – e de final. A princípio, uma situação que acontece na metade da HQ seria o encerramento. O tempo passou e guardou surpresas – incluindo uma que permitiria um final poético, imaginário (e que, é claro, não será contado aqui), para uma sequência quase interminável de socos no estômago.
QUEM É
CAETO
QUADRINISTA
Caetano Melo dos Santos nasceu em 1979, em Assis (SP), e cresceu em São Paulo. Trabalhou como ilustrador para as editoras BrinqueBook e Conrad, entre outras, e editou dois fanzines de HQs. Tem um filho, Tomazo, e vive em Bragança.

Em fevereiro do ano passado, o tablóide literário do Washington Post, o Book World, deixou de circular. Isso foi dois anos depois de o Los Angeles Times aposentar o seu caderno de livros e um ano depois do Chicago Tribune fazer o mesmo. Foi ainda sob o impacto da notícia do fim do Book World que, segundo meu editor, começaram no ano passado no Estadão as primeiras conversas sobre o que poderia ser – ou não – um suplemento voltado apenas para o universo literário e editorial.
Uma das dúvidas era: não seria remar contra a maré lançar um caderno de livros quando, do lado de lá do Equador, eles estavam se extinguindo? Dos jornalões norte-americanos, afinal, restava só o Book Review do New York Times.

Embora eu não tenha feito parte daquelas discussões e conheça o desenrolar da história só de orelhada, sou suspeita para dizer que achei a decisão do jornal acertadíssima. Até porque o mercado editorial brasileiro não para de crescer. Parece que nem nota que o resto do mundo ainda sente efeitos da crise – você se distrai um segundo e aparece um novo selo literário (ando impressionada com a velocidade com que as pilhas de livros andam crescendo por aqui, um dia escrevo sobre isso).
Daí que ontem veio do Observer a notícia: o Wall Street Journal terá, pela primeira vez em sua história, um caderno semanal só sobre livros. Que, se não for tão gigante quanto o Sunday Book Review – mais de 20 páginas de tablóide abarrotadas de texto, com imagens pequeninas aqui e ali só para constar, uma equipe de mais de 12 pessoas -, será de um tamanho “significativo”, segundo a fonte do Observer.

Não preciso dizer que acho ótima notícia. Em tempos de Google Reader juntando uma infinidade de informações numa página só, não há oferta de leitura sobre livros que não seja bem-vinda. Tudo bem que não raro seja preciso esquecer a mágoa de não conseguir ler tanta notícia, marcar todos os feeds como lidos e começar outra vez…
A frase acima, slogan da livraria Anagram – uma portinha escondida num pátio do século 12 em Praga – , funciona melhor em inglês, Words create worlds. Mas as imagens da campanha publicitária deles dão o recado de um modo ou de outro.



As imagens me fizeram lembrar do vídeo que ganhou, faz alguns meses, a categoria alto orçamento do primeiro concurso de trailers de livros promovido pela independente Melville House, e que postei no blog tempos atrás. Foi feito para divulgar Going West, de Maurice Gee, publicado originalmente na Nova Zelândia em 1994. Pra quem ainda não viu, vale gastar dois minutinhos da vida nele.
O que me faz ainda pensar em uma pergunta que ouço com certa frequência, a respeito da utilidade dos trailers de livro. Você compraria um livro só por causa de um trailer? Eu não sei. Mas sei que nunca tinha ouvido falar nesse Going West e agora não só conheço como estou falando dele por aqui…

Faz oito meses que escrevi o primeiro post deste blog e, no entanto, aqui estou eu quebrando a cabeça para pensar num texto de estreia.
É que antes era mais informal – A biblioteca de Raquel surgiu em janeiro sem nenhum vínculo com o Estadão – onde trabalho desde dezembro como repórter e desde março como colunista da Babel, no Sabático – , embora eu sempre disponibilizasse no blog textos que fiz para o Sabático e para o Caderno 2. Como o tempo de quem trabalha com livros é muito escasso (cheguei a descrever essa sensação no endereço antigo) e a maior parte dos meus dias é dedicada a leituras que faço para o jornal, acaba sendo inevitável que vez por outra as duas coisas se encontrem.
Por isso mesmo acho bom esclarecer desde já: este não é um blog do Sabático nem do Caderno 2. É a minha biblioteca de curiosidades sobre o universo literário, uma revista pessoal que pode incluir textos publicados no Estadão, mas, acima de tudo, histórias e links que caço na rede (meu maior vício, a internet), opiniões e impressões sobre literatura e mercado editorial. No endereço antigo, por pura falta de tempo, acabava postando mais textos do jornal que qualquer outra coisa, mas ao transferir minhas estantes para o Estadão.com assumi – por minha conta e risco – o compromisso de escrever especificamente para cá com mais frequência. Assim como fiz, junto com a Laura Greenhalgh e o Ubiratan Brasil, no blog do Estadão na Flip.
Quem quiser saber das novidades por aqui pode assinar os feeds, favoritar ou me seguir no Twitter @raqcozer, no qual avisarei sempre houver post novo. Quem não conhecia o blog pode vasculhar o histórico, abaixo, que veio comigo na mudança.
A imagem acima eu tirei daqui.
A reportagem abaixo saiu neste último sábado, dia 28, como parte do material de capa do Sabático sobre literatura infantil, acompanhando texto do Toninho feito a partir de entrevista com o teórico Peter Hunt. A foto é do Robson Fernandes/AE e foi feita na Biblioteca Monteiro Lobato.
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RAQUEL COZER
O boom de séries como Crepúsculo e Percy Jackson colocou o filão literário juvenil entre os mais visados desta década, o que ajudou a encobrir, para o público em geral, a percepção de outro crescimento significativo no setor editorial do País – o da literatura para crianças.
Uma análise das últimas quatro pesquisas anuais de Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro, conduzidas pela Fipe (Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas), dá essa dimensão. Em 2006, editoras brasileiras colocaram no mercado 321 milhões de exemplares de livros, número que passou para 386 milhões em 2009 – aumento de cerca de 20%. A literatura juvenil foi a que mais engrossou no período (256%), seguida da infantil (124%). Ainda assim, a produção de obras literárias para crianças (28,7 milhões de exemplares em 2009) permanece à frente das obras para jovens (26,8 milhões).
Hoje, só livros didáticos e religiosos são mais produzidos que os de literatura infantil no País, mas o fenômeno é recente. Até o ano retrasado, o terceiro lugar era da literatura adulta, cuja produção teve queda de 6% desde 2006.
Para quem acompanha de perto esse cenário, os números não chegam a surpreender. Historicamente dominado por empresas que também editam didáticos, como Ática e Moderna, o mercado de literatura infantil ganhou variedade e qualidade nas últimas décadas, quando passaram a se dedicar à área editoras já estabelecidas com catálogo adulto, como Martins Fontes (nos anos 80), Companhia das Letras (nos 90) e Cosac Naify (anos 2000), e chegaram outras especializadas nesse público, como Brinque-Book e a espanhola SM.
A grande virada aconteceu depois que, em 1997, o Ministério da Cultura criou o Programa Nacional de Biblioteca na Escola (PNBE), pelo qual o governo passou a adquirir enormes quantidades de títulos literários. Os critérios foram (e ainda são) muito questionados. A princípio, pouquíssimas editoras emplacaram dezenas de títulos. Com o tempo, restringiu-se o número de obras por editora, mas então algumas das maiores passaram a concorrer com títulos espalhados por diferentes registros de empresa.
Ainda assim, a simples possibilidade de concorrer a uma das generosas tiragens da compra federal estimulou os grupos a editarem mais e melhores livros. “O mercado infantil ainda tem vendas baixas. A maior parte sai com 3.000 cópias e demora anos para vender”, diz Júlia Schwarcz, editora da Companhia das Letrinhas. “Mas, se o governo seleciona, a compra é de 20 mil, 40 mil exemplares. Com isso, os selos infantis ficaram importantes dentro das editoras.”
A Cosac Naify ilustra bem esse efeito. Dos cerca de 750 títulos de seu catálogo, um terço é de literatura infantil, mas o faturamento desse nicho já corresponde a 40% do total anual da empresa, tornando-se seu carro-chefe. A editora teve ainda papel central na evolução da qualidade gráfica dos títulos editados, sendo inclusive bem-sucedida em duas áreas nas quais as casas brasileiras ainda são tímidas, os prêmios internacionais e as vendas de títulos infantis para o exterior – só neste ano, comercializou três obras.
A produção maior alimentou também o setor livreiro. Lojas voltadas para o público infantil, como as paulistanas Novesete e Casa de Livros, ganharam destaque e passaram a competir com seções cada vez maiores nas megastores. “Você precisa de mais espaço para armazenar a produção. A venda justifica isso”, diz Frederico Indiani, diretor comercial da Saraiva. Na Cultura, a comercialização de infantis cresceu 25% em relação aos oito primeiros meses de 2009, enquanto as vendas gerais tiveram aumento de 15%.
[publicada no Sabático de 28/8]
BABEL
Raquel Cozer – raquel.cozer at grupoestado.com.br – O Estado de S.Paulo
CLÁSSICO
Reedição de A Comédia Humana organizada por Rónai sai em 2011
A Globo Livros coloca nas livrarias no começo do ano que vem o primeiro volume da íntegra de A Comédia Humana, de Honoré de Balzac, na celebrada tradução coordenada por Paulo Rónai (1907-1992). O projeto, que reuniu em 17 livros os 88 títulos da obra, começou a ser organizado pelo tradutor e crítico literário ainda na década de 40 e demorou dez anos para ser concluído, contando com versões de Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana e Brito Broca, entre outros. Na década de 80, a Globo fechou acordo com Rónai para revisão geral, e os títulos voltaram a ser editados, desta vez com mais de 7 mil notas de rodapé e um prefácio do húngaro naturalizado brasileiro para cada volume. O primeiro livro da edição de 1989 teve 15 mil cópias vendidas. O conjunto estava fora de catálogo havia 15 anos e, após contrato com as herdeiras de Rónai, sairá em novo projeto gráfico. A princípio, a edição ficará a cargo de Joaci Furtado – mesmo com a despedida dele da Globo Livros, anunciada na semana passada, para se dedicar a um novo trabalho.
CINEMA
Revista resgatada
Editada de 1954 a 1958 no Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais, com curta sobrevida nos anos 60, a Revista de Cinema ganhará neste ano, pela Azougue, antologia organizada por Marcelo Miranda e Rafael Ciccarini. A previsão é a de que saia em dois volumes, resgatando textos de nomes como Cyro Siqueira, Jacques do Prado Brandão e José Haroldo Pereira.
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A publicação repercutiu no País e chegou a ser reconhecida no exterior ao discutir temas como neorrealismo italiano e cinema brasileiro. Prestes a ser fechada, recebeu de Paulo Emílio Sales Gomes, no Suplemento Literário, do Estado, apelos para que não deixasse de circular. O colunista do Sabático Silviano Santiago, um dos principais articulistas da revista, assinará o prefácio.
NO BRASIL-1
Best-seller contra a maré
O americano Nicholas Sparks, que entre anjos e vampiros cavou espaço para seus romances açucarados e hoje aparece em dose dupla nas listas de mais vendidos, com Querido John e A Última Música, chega ao Brasil na primeira semana de dezembro para visitar Rio, São Paulo e Porto Alegre. Antes disso, a Novo Conceito publica outro título dele, Diário de Uma Paixão.
NO BRASIL-2
Britânico no Rio ComiCon
O desenhista inglês Kevin O”Neill, parceiro de Allan Moore na série As Aventuras da Liga Extraordinária, confirmou participação no primeiro Rio ComiCon, que ocorre durante dez dias de novembro, com exposições, palestras, oficinas, vídeos e venda de quadrinhos. Segundo a Casa 21, organizadora do evento, a vinda do italiano Milo Manara ainda depende de “pequenos acertos”.
QUADRINHOS
Nova adaptação de Dante
A Peirópolis lança em 2011 HQ de A Divina Comédia, de Dante, ilustrada a nanquim e aquarela pelo cartunista e grafiteiro Piero Bagnariol. O texto do Purgatório será o adaptado por Henriqueta Lisboa (1901-85). Outra versão em quadrinhos de A Divina Comédia, já antecipada pela coluna, será a de Seymour Chwast, pela Quadrinhos na Cia.
INTERNET
Suas estantes combinam?
Uma nova rede social, Alikewise.com, propõe-se a encontrar o par perfeito para os usuários com base no gosto literário. O criador, Matt Sherman, disse que teve a ideia ao imaginar que sua mulher ideal deveria conhecer A Lógica do Cisne Negro, livro de Nassim Nicholas Taleb sobre o improvável.
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Por enquanto, a rede só aceita usuários de países de língua inglesa. E precisa de ajustes. Em procura por Borges, localizou 13 usuários (um deles aceitava companheiras de 18 a 99 anos), mas avisou que havia “expandido a busca” para incluir títulos com alguma relação com o argentino. Na busca por Thomas Pynchon, a obra mais recorrente foi 1984, de George Orwell, prefaciada pelo autor de O Arco Íris da Gravidade.
2011
2010
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