No último dia da Flip deste ano, no mês passado, o fotógrafo Wilton Junior e eu arrumamos tempo para ver de perto, na baía de Paraty, a casa de fazenda em que viveu Julia da Silva Bruhns, a mãe de Heinrich e Thomas Mann, do nascimento até os sete anos de idade. As últimas informações davam conta de que o estado do casarão, o único do século 18 do gênero naquela região, era deplorável.
Quem primeiro comentou comigo sobre os planos de Johannes Kretschmer, da UFF, de retomar o projeto de um centro cultural no local foi a Ju Lugão, ex-colega de Ilustrada, que hoje faz na PUC-Rio mestrado em literatura alemã. Isso foi bem no começo do ano, logo depois que saiu no Sabático uma reportagem minha sobre o museu que será inaugurado na casa de Stephan Zweig, em Petrópolis.
Mantive contato com o Johannes até que, há um mês, comecei a apuração, porque precisava ver a casa antes de me meter a falar sobre ela. Como disseram vários entrevistados, a situação legal do imóvel é complicada, e aí entram mudanças de proprietários, questões ambientais e limitações patrimoniais para uso do imóvel, o que afasta interessados há anos. E os interesses também não são nem sempre dos mais louváveis para uma construção de importância histórica como essa. O que se ouve de histórias desencontradas não é pouco. O resumo que deu para fazer em uma página foi a capa do Caderno 2 de hoje.
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Patrimônio em risco
Impasses legais e interesses econômicos agravam situação da casa da mãe de Thomas Mann em Paraty
Raquel Cozer – Enviada especial / Paraty – O Estado de S.Paulo
Ao lado de luxuosa marina a 8 km de Paraty, a única casa de fazenda do século 18 remanescente à beira mar na região vive situação calamitosa: paredes tomadas por mofo, vigas de madeira apodrecidas e telhado invadido por mato, chegando a formar cipós. Por frestas, vê-se que o interior virou um depósito de entulho.
Não bastasse a importância patrimonial, o descaso chama a atenção pela relevância cultural do chamado Engenho Boa Vista. Lá viveu a mãe de dois dos maiores escritores alemães do século 20, Heinrich (1871-1950) e Thomas Mann (1875-1955) – e cada vez mais especialistas estudam os reflexos dessa ascendência brasileira na formação dos dois autores.
Nascida numa viagem entre Angra dos Reis e Paraty, Julia da Silva Bruhns (1851-1923) passou os sete primeiros anos de vida na casa, antes de ser levada à Alemanha. Filha de comerciante alemão e de brasileira descendente de portugueses, ela legou aos filhos memórias por escrito do lugar que chamava de “paraíso”.
Por muito tempo, a história da casa foi desconhecida. Até que, em 1997, o escritor Frido Mann, neto de Thomas, iniciou esforços para construir um centro cultural no local. Criou a Associação Casa Mann, que chegou a realizar evento na propriedade, mas, oito anos depois, entregou os pontos. “Em 2005, desistimos do projeto”, diz Paulo Soethe, professor da UFPR, que integrava a associação. “A situação legal da casas era complicada. Não seria possível fazer nada como pessoa física ou associação. Entendemos que era questão de Estado.”
Naquela época, Amyr Klink, comodatário do terreno onde fica a casa, tinha planos para o local. O navegador, que mantém logo ao lado a Marina do Engenho, estudava instalar ali sua escola de navegação para jovens carentes. Impasses com órgãos como Ibama e Iphan impediram a implantação do Projeto Escola Mar, transferido para Santa Catarina.
Três anos atrás, o professor de literatura da UFF e da Uerj Johannes Kretschmer retomou o projeto do centro cultural. Desse movimento resultou colóquio que acontece neste mês (leia abaixo). Kretschmer hoje conversa com a Secretaria de Estado da Cultura do Rio e o Consulado Geral da Alemanha no Brasil – e entende os obstáculos encontrados pelo neto de Thomas Mann. “A questão legal é muito obscura.”
Há mais de uma década, o terreno da casa pertencia à Serrana Empreendimentos. Em 2001, a empresa Arbeit adquiriu a Serrana junto com um grupo suíço. A casa veio, por assim dizer, de brinde – não havia interesse específico na construção, diz o presidente da Arbeit, Oscar Muller.
Com a saída dos investidores suíços do País, a Arbeit tornou-se em 2008 a única dona do casarão. Desde então, estuda alternativas para a ocupação, que passam ao largo dos planos acalentados por Frido e Kretschmer. “A implantação de um centro cultural no casarão não se sustenta”, diz Muller, que planeja uma marina de “padrão internacional”. Segundo ele, um contrato até já foi fechado. O empresário diz estar “estudando” a manutenção do contrato com Klink para a área da marina e a possibilidade de “reassumir a posse do casarão”. “Implantar no local uma pousada/bangalôs com um restaurante também já demonstra viabilidade econômica”, especula.
Para aumentar o burburinho, há pouco espalhou-se em Paraty a notícia de que a empresa proprietária havia falido e que a casa iria a leilão. Muller nega com veemência. E responsabiliza Amyr Klink pelo mau estado da construção. “O contrato de comodato estabelecia que ele implantasse no local o instituto Projeto Escola do Mar. Amyr só implantou uma marina e transformou o casarão em galpão, hoje em péssimo estado. Por contrato. ele deveria manter o casarão com suas características originais.”
Klink afirma que questões contratuais e relativas a órgãos ambientais impediram os restauros. “A conservação é de minha responsabilidade, mas não a reforma. O problema é que a casa está num estado em que conservação não basta. Uma reforma dependia da participação deles e de uma autorização que nunca conseguimos.”
O navegador diz que, quando assumiu a fazenda, a casa estava em “completa ruína”. “Refiz o piso, pus o telhado, troquei as portas. A parte estrutural, que estava caindo, foi recuperada. Era o máximo que podíamos fazer sem contrariar o Iphan.” Cinco anos atrás, ele chegou a orçar o restauro como “deveria ser feito”: R$ 1,8 milhão, no mínimo.
Interessados sempre aparecem – até Rogério Fasano planejou lá um restaurante -, mas nada avança. Com Frido, Klink se desentendeu. “Não gostei da forma como ele chegava, com jornalistas, dizendo que ia fazer e acontecer.” A briga deu ao navegador a fama de não gostar de um projeto cultural no lugar. “Pelo contrário: essa é a vocação natural da casa”, diz.
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Diálogo entre culturas e influências
Prestes a morrer, em 1923, Julia Mann começou a falar num idioma que o filho caçula, sem entender, acreditava ser português. O relato de Viktor é lembrado pela estudiosa Marianne Krull no documentário Memórias do Paraíso (2005), de Marcos Strecker, e dá a dimensão da importância para Julia daqueles breves sete anos que viveu no Brasil.
O filme será uma das atrações do 1º Colóquio Internacional Intermediações Culturais Brasil-Alemanha, que acontece entre os dias 26 e 28 na Casa de Cultura de Paraty. Organizado por Johannes Kretschmer e outros estudiosos, o evento pretende jogar luz sobre a revisão que se tem feito nas últimas décadas acerca da importância da ascendência brasileira para as vidas e obras dos irmãos Mann.
“A origem brasileira dos Mann é desconhecida até mesmo entre especialistas. Estudos recentes mostram que ela pode inclusive levar a novas interpretações sobre textos seminais dos dois”, diz Kretschmer. Entre esses trabalhos está Mutterland – Die Familie Mann und Brasilien, de Karl-Josef Kuschel, Frido Mann e Paulo Soethe, publicado em 2009 na Alemanha e inédito por aqui.
O livro, segundo Soethe, busca mostrar que Julia teve mais influência sobre Thomas do que fazem crer os escritos dele. Ao contrário de Heinrich, que inclusive escreveu o romance Entre as Raças inspirado na história da mãe, Thomas pouco deixou transparecer proximidade com Julia. Chegou até a renegar a ascendência no começo da carreira, ao ser atacado em jornais alemães pelo “sangue judeu”. Mas, em 1943, o autor de A Montanha Mágica declarou: “Sempre estive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista.”
Outro nome importante para as discussões do colóquio é Diuner Mello, presidente da Casa de Cultura e descendente da família Mello que, por várias décadas, ao longo do século passado, viveu no Engenho Boa Vista, a casa de Julia Mann. Diuner é um dos maiores conhecedores da história da casa e da riqueza patrimonial de Paraty.
Mas os debates não se restringem aos Mann. Metade deles será dedicada às relações entre a literatura brasileira e alemã, como a influência de Goethe sobre Gonçalves Dias e Machado de Assis. “A meta é sistematizar a pesquisa envolvendo relações entre os dois países”, diz Kretschmer. Outras informações e inscrições pelo email jk at id.uff.br.
[Publicada no Sabático]
BABEL
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
REVISTA
Machado de Assis, o primeiro antropófago brasileiro
“Nosso primeiro grande antropófago não foi Oswald de Andrade, e sim Machado de Assis.” A frase é do professor de literatura da Uerj João Cezar de Castro Rocha, que participou de duas mesas sobre o modernista na Flip, e refere-se a uma edição que ele coordenou da Portuguese Literary & Cultural Studies (revista de ensaios da Universidade de Massachusetts Dartmouth), prevista para sair aqui como livro este semestre pela Alameda. O número editado por João Cezar saiu por lá em 2005 e seu título original, The Author as a Plagiarist, causou incômodo entre acadêmicos brasileiros que entenderam “plagiário” num sentido por demais literal. “Há mais de dez anos, nos países de língua inglesa, discute-se o caráter criativo do plágio, não no sentido de cópia”, diz Castro Rocha, que busca nos textos de Machado exemplos para defender a tese, apoiada por ensaios de Alfredo Bosi, Antonio Candido e estudiosos de outros países. No Brasil, optou-se por um título comportado “até demais”, Machado de Assis – Ensaios e Revisões. Além desse volume, Castro Rocha já havia sido editor convidado de outro número da revista, em 2001. Agora, assume o cargo fixo de editor executivo da publicação semestral. Começa organizando volume sobre o futuro da lusofonia, para junho de 2012. Além disso, inicia a edição, para a mesma universidade, de New History of Brazilian Literature, primeiro livro do gênero a sair originalmente em inglês e que fica para 2014.
FILOSOFIA
Ao mestre com carinho
Sai em setembro título anunciado pela Iluminuras como a primeira biografia intelectual de Roland Barthes (1915-80) feita no Brasil. O Crítico Se Ele Ainda Existe fez Leda Tenório da Motta se debruçar sobre a farta obra completa do francês. Ex-aluna do pensador, ela se lembra da manhã, em Paris, em que viu no portão da universidade um bilhete avisando sobre um acidente de Barthes – ainda não se sabia que seria fatal.
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A conclusão do novo olhar sobre Barthes: “Você descobre, assombrado, que aquele que parecia o pensador mais frágil de sua geração é o mais coerente”. Para Leda, o filósifo “cada vez mais se mostra o melhor representante de sua geração. E, com isso, estamos falando de Michel Foucault, Levy Strauss, Jacques Lacan e Jacques Derrida”.
QUADRINHOS
Cadáver ao mar
Uma criança vê no mar um cadáver de mulher. A partir daí se desenvolve Castelos de Areia, que abre, em setembro, a linha de HQs do selo Tordesilhas. Pierre Oscar Lévy, autor do texto ilustrado por Frederik Peeters, é documentarista, vencedor da Palma de Ouro de curta-metragem de 1983.
FRANKFURT
A primeira vez
Embora a CBL tenha preparado para a Feira de Frankfurt, em outubro, um estande 50% maior que o do ano passado, uma das maiores editoras do País não participará dele. A Record, que se prepara para as celebrações de seus 70 anos em 2012, estreia estande próprio nesta edição.
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Sobre a situação do mercado nos últimos meses, a diretora editorial Luciana Villas-Boas diz que as vendas deram uma esfriada, mas percebe um efeito colateral: “Acabam saindo mais títulos, porque as máquinas ficam menos ocupadas com reimpressões”.
MINISSÉRIE
Refeito para a TV
A ficção jornalística O Analfabeto Que Passou no Vestibular (2008), de Felipe Pena, ganha este mês reedição mais enxuta e com novo título, Fábrica de Diplomas. A mudança acompanha o nome provisório de minissérie baseada no livro que o autor está adaptando para a Globo. Junto com a reedição, sai também pela Record O Verso do Cartão de Embarque, o novo romance, que costura sete vozes narrativas.
CINEMA-1
DiCaprio e o Demônio
O Demônio da Cidade Branca, de Erik Larson, vai virar filme com Leonardo DiCaprio em 2013, mas antes disso ganha reedição no Brasil. Só que pela Intrínseca, e não pela Record, que o lançou em 2005. Pela nova casa no Brasil, o best-seller publica também seu novo título, In the Garden of Beasts.
CINEMA-2
Thriller no papel
De 2005, Drive, de James Sallis, acaba de ser comprado pela Leya. O interesse na obra foi posterior ao sucesso no cinema: o thriller baseado no livro, com Ryan Gosling e Carey Mulligan no elenco, rendeu ao dinamarquês Nicolas Winding Refn o prêmio de direção no Festival de Cannes. O longa, sobre um dublê que à noite trabalha de motorista para bandidos, estreia nos EUA em setembro. Por aqui não há data prevista para o filme, mas o livro sai ainda este ano.
EXPORTAÇÃO
O livreiro na Espanha
Serão mais simpáticas que a guerra de 2010 entre polícia e traficantes notícias do Complexo do Alemão que chegarão à Espanha em 2012. Direto do morro carioca, desembarca por lá a história de Otávio Junior, que, de maleta a tiracolo emprestando livros a moradores, atraiu tantos leitores que acabou abrindo uma biblioteca na favela. A Panda Books acaba de vender os direitos de O Livreiro do Alemão para a Ediciones Ambulantes.
Gostaria de dizer que planejamos tudo desde o começo, mas foi coincidência, mesmo. A capa do Sabático de hoje é um texto, veja bem, cedido pessoalmente pelo Prêmio Nobel de Literatura de 2000, Gao Xingjian, ao repórter Jotabê Medeiros durante um evento em Turim, algumas semanas atrás. O tema: os embates entre ideologia e literatura. “Podemos dizer que a ideologia foi o mal do século”, argumenta Xingjian.
E tive a confirmação da entrevista por telefone com Alice Walker, Pulitzer de ficção e National Book Award de 1983 por A Cor Púrpura, só na quarta-feira à noite, quando a capa já estava diagramada. Conversei com ela na quinta à tarde, horas antes do fechamento, sobre o livro Rompendo o Silêncio, da Bertrand Brasil, uma seleção de narrativas sobre os dias que ela passou no Congo Oriental, em Ruanda e no Oriente Médio. E a questão é que a literatura de Alice Walker, seja nos romances, seja na poesia, seja nos ensaios, é tão impregnada de ativismo que ela diz achar “impossível” a ideia de uma escrita literária sem ideologia.
Publicados juntos, os dois textos dão margem para uma boa reflexão. Segue a entrevista com ela, veiculada também hoje no Sabático.
Alice Walker e a dor do mundo
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
“Nunca soube disso que você está falando. Tem certeza de que era eu?”, pergunta a norte-americana Alice Walker, num dos únicos momentos da conversa por telefone com o Sabático em que seu tom de voz, sempre controlado, trai alguma emoção, algo como surpresa ou desconfiança. Havia sido questionada sobre o recente destaque, pela revista Forbes, de seu nome entre as dez escritoras mais poderosas do mundo – isso quase 20 anos após ter escrito A Cor Púrpura (1982), obra que rendeu o primeiro Pulitzer de ficção e o primeiro National Book Award entregues a uma afro-americana. “Nunca vi uma Forbes, não tenho a menor pista do que exista dentro dela”, conclui, após a confirmação de que seu nome figurava mesmo ao lado do de Toni Morrison e J.K. Rowling na eclética lista da publicação norte-americana.
Desde muito antes de sua mais famosa obra, adaptada ao cinema em 1983 por Steven Spielberg, Alice não quer saber o que a grande mídia tem a dizer. Mais que isso, tenta sobrepor sua voz à da imprensa do Ocidente. Poeta e ensaísta, além de romancista, a autora de 62 anos, nascida na Georgia, busca fazer ouvir os lamentos das minorias: negros, mulheres, palestinos. Recém-lançado no Brasil, Rompendo o Silêncio – Uma Poeta Diante do Horror em Ruanda, no Congo Oriental e na Palestina/Israel é um exemplo claro. O volume reúne narrativas tão sucintas quanto pungentes sobre duas viagens que fez a convite de organizações internacionais, para a África, em 2006, e para o Oriente Médio, em 2009. São histórias como a da mulher congolesa que teve a perna cortada por pistoleiros, que fritaram e picaram o naco de carne para tentar obrigar os filhos dela a comer. Ou a do judeu que desistiu de visitar Israel porque, nascido enquanto o território ainda se chamava Palestina, era despido e humilhado cada vez que apresentava seus documentos no país.
Alice Walker tem opiniões veementes que chegaram a lhe custar o contato com a filha, Rebecca. Antes do afastamento, a jovem lançou as memórias Black White and Jewish, sobre como o relacionamento complexo dos pais afetou sua identidade – o ex-marido de Alice, com quem a escritora ainda mantém uma relação amigável, é judeu. Na entrevista a seguir, a autora fala sobre ideologia e literatura (tema, aliás, do artigo de Gao Xingjian). Ela defende que a segunda não pode existir sem a primeira.
Por que resolveu juntar as viagens para a África e para o Oriente Médio, feitas em dois momentos diferentes, em um único livro?
Queria mostrar a similaridade entre as atrocidades em Ruanda, no Congo Oriental e na Palestina, porque a maioria das pessoas pensa que essas coisas horríveis em Ruanda ou no Congo só ocorrem em lugares como a África. Mas o que você vê, quando vai ao Oriente Médio, é que o governo israelense bombardeia Gaza por 22 dias e destrói pessoas de formas que nem podemos imaginar. Eles têm bombas que, ao explodir, enviam partículas para dentro dos corpos de pessoas a milhas de distância. E essas feridas não saram, continuam a queimar e apodrecer. As bombas também arrancam extremidades dos corpos; você perde seu braço ou sua perna, mas não há sangue. Isso é similar à maneira como, em Ruanda, as pessoas usam facões para cortar ossos e os corpos das outras. Eu queria fazer os leitores entenderem que a forma mecânica como os assassinatos acontecem na guerra de países civilizados não é nada mais aprimorado que os crimes cometidos face a face num país mais pobre.
Como foi saber de histórias como aquelas, sabendo que escreveria sobre elas depois?
Tomou muito tempo, porque era uma dor intensa. Só de ver e entender o que estava acontecendo tomou tempo. Precisei de amigos que sentassem comigo, me deixassem chorar e ouvissem o que eu tinha testemunhado. Especialmente sobre a mulher cuja perna foi cortada fora. Foi difícil para mim e para eles, é difícil para o mundo. Temos um planeta em que as pessoas fazem coisas assim, e o que podemos fazer a respeito? É por isso que escrevo. Para dividir com o mundo o que vi e essa pergunta.
Em obras como A Cor Púrpura, você escreve sobre violências como essa em seu país. É muito diferente o olhar como visitante?
Muito, embora meu país também tenha história brutal. Meu país fez para os nativos americanos o que vem sendo feito aos palestinos. É crucial entender sua própria história antes de vê-la repetida em outros lugares. As pessoas que não conhecem seu próprio país podem viajar o mundo e nunca vão entender que estão vendo sua história na violência contra outros povos hoje. E a verdade é que uma minoria dos americanos chega a viajar para exterior, então a maioria conhece só o que a mídia diz.
Desde quando você é envolvida com o ativismo em defesa dos palestinos?
Comecei a escrever sobre a situação palestina nos anos 70. Há um texto que escrevi quando da invasão, do massacre, dos grandes desastres no Líbano quando o governo israelense seguiu os refugiados até lá e os matou. Mas comecei a me preocupar muito antes disso, na Guerra de 1967. Eu tinha acabado de me casar com um judeu. Ele achava normal que os israelenses pegassem todas aquelas terras que tinham pego na guerra, e eu não achava. Tenho falado e escrito sobre isso já há algum tempo. Quando você me ligou, agora mesmo, eu estava distraída porque escrevia um poema sobre… Em Gaza, não sei se você sabe, os israelenses bombardeiam o sistema de água dos palestinos, então 90% da água da região não é potável. Ajudei uma organização a instalar um sistema… Bem, um pequeno sistema de água, porque ninguém pode bancar com algo muito grande. Então, estava escrevendo um poema sobre quando você vê as pessoas aplaudirem alguém que acabou de bombardear o sistema de água de um povo. Isso aconteceu recentemente, quando Benjamin Netanyahu (premier de Israel) veio aos Estados Unidos. Ele foi ovacionado muitas vezes, e não tenho certeza de que as pessoas saibam que ele bombardeia o sistema de água de um povo cujas crianças, sem a ajuda dos outros, não teriam nenhuma água para beber.
Chama atenção no livro a forma direta, sem adjetivos, como você descreve as atrocidades que testemunha ou lhe são contadas.
Isso é porque sou contadora de histórias. É deliberado. Isso é mais forte que o jornalismo, acho que porque contar histórias é algo muito mais antigo. Eu, por exemplo, prefiro ouvir audiolivros, porque sinto que, quando me contam um história, posso entendê-la melhor emocionalmente. Em Rompendo o Silêncio, tento conectar nosso tempo ao de Joseph Conrad (1857-1924), o înglês de origem polonesa que escreveu O Coração das Trevas. Nesse livro, que inspirou Apocalipse Now (1979), ele fala sobre o horror na África subsaariana. Esse é um tipo de conexão literária que faço. Também por isso as histórias surgem como um diário de viagem. O personagem dele desce o rio do Congo a barco; eu viajei de ônibus e avião.
Você é conhecida como uma voz feminista, mas uma história que chama a atenção no livro é a da mulher judia cujo marido não volta a Israel porque é sempre humilhado…
Eu me preocupo com todo mundo, mas a história das mulheres tem sido constantemente, nos últimos 2 mil anos, pelo menos, suprimida ou ignorada. É por isso que a literatura não é feminina. Então, quando vou a algum lugar, quero saber o que as mulheres têm a dizer porque elas tendem a ser silenciadas. Você mesmo deve saber disso.
Você descreve os EUA como terroristas…
Acho que qualquer um que começa uma guerra contra qualquer povo é um terrorista. Você não pode fazer uma guerra sem ser terrorista. Como você poderia? As pessoas estão aterrorizadas, você as está matando, elas não têm como escapar. Se isso não é terrorismo, o que é?
Você foi eleita há pouco pela Forbes uma das dez escritoras mais poderosas do mundo. Como essa ideia soa para você?
Nunca soube disso que você está falando, Tem certeza de que era eu?
Sim, faz uns dois meses, numa lista que incluía [a Prêmio Nobel] Toni Morrison e J.K Rowling.
Ora, bem. Nunca vi uma Forbes, não tenho a menor pista do que exista dentro dela. Acho que uma coisa boa é saber que, se você não pode mudar de vez o mundo, pode fazer isso um pouco só, usando a imaginação, papel e lápis ou computador. Vale pensar que é possível ensinar às crianças que tentar erradicar povos é uma ideia terrível.
Você não teria interesse em fazer literatura sem mensagem política ou social?
Não, não, isso é impossível. A ideia de que você possa fazer arte sem mensagem política ou social é absurda, mas querem nos dizer isso porque sabem que os povos do terceiro mundo, especialmente mulheres, sempre terão algo crítico a dizer.
Não é The King Is Dead o mais recente trabalho de Colin Meloy, vocalista da americana Decemberists – uma das minhas bandas preferidas nesta década. Wildwood, que sai agora no final de agosto nos EUA, é um livro infanto-juvenil ilustrado pela mulher de Meloy, Carson Ellis, e conta a história de uma menina que tenta salvar o irmão das garras de corvos selvagens. O trailer:
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Antes mesmo de começar a cantar no Decemberists, cujo primeiro EP saiu há dez anos, Meloy tinha o projeto do livro. O casal se conheceu na faculdade e pouco depois, em 2000, começou a trabalhar na ideia. A obra tem, veja bem, 560 páginas (pensando em infantil, logo tinha imaginado uma coisa magrinha). O site do livro traz uma entrevista em vídeo com os dois e um link para uma playlist do livro no iTunes, que inclui dois Led Zeppelin, Ramble On e Over the Hills and Far Away.
Diz o editor sênior da Canongate que será o novo Nárnia. Se você der um curtir na página do livro Facebook, consegue baixar os quatro primeiros capítulos, num total de 51 páginas. Nunca fui entusiasta de Nárnia nem sou muito entendida de literatura para crianças ou adolescentes (tirando Harry Potter, sobre o qual, prometo, ainda escrevo por aqui. É que demanda até certa coragem…), mas, a se julgar pelo trabalho de Meloy como letrista, tem boas chances de ser interessante. Não que eu seja isenta nessa avaliação…
Diz o Telegraph que será o primeiro livro à prova d’água: The Greater Bad, de Alan Cork, que por enquanto existe só em versão para Kindle. Da editora, Palamedes, que nem citada pelo jornal é, eu nunca tinha ouvido falar, mas bem pode ser uma dessas lacunas de informação que a gente tem na vida. Está previsto para maio, com revestimento em polímero resistente à ruptura e que promete aumentar o prazo de validade do volume em até 200%, sem deixar que a água cause aquelas coisas enrugadas nas bordas.
A nota conclui que só livros de crianças ou de especialistas em mergulho hoje em dia usam essa tecnologia, e que este será o primeiro modelo de um “livro comum”. É um romance de suspense.
Não sei como andam esses lançamentos nos EUA, mas lembrei que já chegou aqui na Redação, no ano passado, uma Bíblia à prova d’água. O que me chamou a atenção na época foi que ela veio numa leva junto com a Bíblia do Surfista, que, por sua vez, não era resistente ao mar.
O GIF acima é do designer Uno Moralez, que posta uns trabalhos esquisitões no live journal Supernature.
Lord Byron tomava vinagre quando tinha fome. Para manter a forma, sabe (a gente não quer imaginar o resultado em termos de hálito, então, se você pensou em tentar, pare). E Walt Whitman traçava carne com ostras pela manhã. A ilustração com os lanches preferidos dos escritores saiu neste final de semana no Sunday Book Review. É da Wendy MacNaughton, que assina a deliciosa coluna ilustrada Meanwhile no jornal literário on-line The Rumpus.
Houve um momento, ano passado, em que percebi que não adiantava mais favoritar textos no Google Reader com a ideia de voltar a eles depois. Estrelas em feeds ou no Twitter servem só para aplacar a culpa pela incapacidade que a gente tem de parar para prestar atenção no tanto de informação que invade nossa vida.
Como as estrelas de favorito já não surtiam nem o efeito placebo de enganar a consciência, criei no email uma pasta para a qual passei a enviar tudo o que pretendia olhar com calma depois. Mandar email tipo post it pra si mesmo é prática antiga de qualquer um, vai, mas eu nunca tinha organizado numa pastinha, então sempre acabava apagando as mensagens depois que a validade delas tinha vencido. Desta vez, criei um enorme depósito de tranqueiras virtuais relacionadas a livros, literatura e afins, das quais até hoje só consegui resgatar uma ou outra imagem para posts carentes de ilustração.
Lembrei do banco de dados improvisado dia desses, quando li no jornal sobre a exposição Além da Biblioteca. Ela teve abertura neste último sábado e fica em cartaz até outubro no Museu Lasar Segall, em São Paulo, com trabalhos de vários artistas que evidenciam a forma e o conteúdo funcional do livro. Como esse aqui (o meu preferido dentre os que aparecem no site do museu), de Odires Mlászho:
Ainda não pude ir ao museu para comentar, então resolvi reunir num post, numa curadoria bem pessoal, exemplos de arte feita a partir de ou inspirada em livros, entre links que separei ou me foram enviados (estando Ronaldo Bressane e Thais Caramico, aos quais sou grata, entre os doadores da tranqueira virtual).
À arte, então.
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Neste primeiro, Jill Sylvia remove blocos em branco de livros de contabilidade para criar uma malha de papel. Com os esqueletos de livros, constrói réplicas de prédios famosos, como o Capitólio e a Casa Branca.
A ideia de Meg Hitchcock, abaixo, é “desconstruir a palavra de Deus”. Pega trechos da Bíblia, do Alcorão e do Torá, corta as letras e as remonta, como malhas, recriando textos de outros livros sagrados. Deve ser mais legal para quem lê, mas não achei com resolução para enxergar o que dizem os crochês de citações.
Este abaixo já vai mais para decoração: o designer Michael Bom transforma livros em lustres.
Aliás, isso me fez lembrar de uma outra espécie de lustre, abaixo, que o Bressane me mandou por email, da livraria portenha Eterna Cadencia. A autoria eu desconheço, e também não achei no site deles.
Este abaixo não é bem livro, mas, vá lá, leitura. É do japonês Ryo Shimizu, que pegou caracteres chineses e os reestruturou na forma do alfabeto romano.
A australiana Kylie Stillman cava livros. Selecionei essas três imagens abaixo, mas no site dela tem mais um monte. Parece que tem uma galera que faz esse tipo de arte. O mais famoso é o Brian Dettmer, cujo trabalho postei por aqui no início do ano.
E este último é tão simples que acho que é o meu preferido: a italiana Emanuela Ligabue pega blocos de madeira e pinta como se fossem livros de verdade.
Fontes: web urbanist, Boing Boing, swiss-miss e Fubiz
Em tempo: Aqui, o post Não tente fazer isso no seu Kindle, parte 1.
BABEL
Raquel Cozer – raquel.cozer at grupoestado.com.br
DIGITAL-1
Entrada da Amazon na Itália estimula queda de preços
Horas antes de Ricardo Cavallero, gerente geral da Mondadori, embarcar para São Paulo – onde participou na quarta do Congresso Internacional do Livro Digital -, a gigante italiana assinou com a Amazon contrato para venda de 2.000 títulos para Kindle. Há nove meses vendendo e-books, a maior editora da Itália pretende lançar no formato outros 1.000 dos 10 mil títulos de seu catálogo até o fim do ano – quando a Amazon, no país desde novembro, deve iniciar a venda do Kindle. “Não houve razão para assinarmos o acordo antes de termos certeza de que eles entrariam no mercado italiano”, disse Cavallero à coluna. Ciente das dificuldades da varejista de fechar contratos no Brasil, o gerente compara a situação aqui com a dos EUA em 2009. “A tendência é que as editoras batalhem pelo direito de definir os preços sem que ninguém possa mudá-los. O problema dessa típica reação de defesa da indústria é que, para que esse mercado dê certo, os preços precisam cair. Está provado que as pessoas gastam no máximo 10 dólares ou euros em compras pelo celular.” Enquanto no Brasil descontos costumam chegar a no máximo 40%, a Mondadori oferece reduçoes de 50% nos preços de todos os seus e-books. Quer reduzir ainda mais os preços até o fim do ano.
DIGITAL-2
Enquanto isso, no Brasil…
Apesar de a Amazon ainda não ter chegado de fato ao Brasil, sua presença no País é significativa entre livrarias virtuais. Segundo o Google AdPlanner, que estima audiência de sites, a loja americana tem aqui mais visitantes únicos por mês (1,9 milhão) que a Cultura e a Fnac (com 1,2 milhão cada uma). A Saraiva fica na frente das três, com 4,6 milhões.
DIGITAL-3
As vendas por aqui
Na Cultura, 15 mil e-books foram vendidos este ano. Mauro Widman, coordenador da área na livraria, diz que as vendas dobram a cada dois ou três meses. A previsão é que, até dezembro, a comercialização de digitais chegue a 1% do faturamento da loja. Parece otimismo: ficaria em torno de R$ 3 milhões, se levado em conta o faturamento de 2010.
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As editoras que mais vendem livros digitais na Cultura são a KBR, cujos títulos não passam de R$ 12, e a Zahar, devido aos preços e ao alto número de títulos no formato: 300.
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Os e-books “made in Brazil” não chegam a 2% do total de títulos digitais oferecidos pela Cultura e pela Saraiva. Embora os importados dominem, suas vendas são menos expressivas. Cerca de 70% dos títulos no formato vendidos nas duas lojas são nacionais.
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Segundo a Saraiva, há dez títulos nacionais cujas vendas em e-book já equivalem a mais de 5% das de papel no mesmo período.
ILUSTRAÇÃO
O Duplo triplo
A primeira edição da tradução de Paulo Bezerra para o romance O Duplo, de Dostoievski, sai pela editora 34 em agosto com três versões de capa (acima, duas delas), para destacar as ilustrações do expressionista austríaco Alfred Kubin – 26 delas foram publicadas originalmente na edição alemã de 1933 e são agora reproduzidas no interior da edição
FEIRA-1
O passado e o futuro
Sai Roger Chartier, entra Bob Stein. Com a mudança de agosto para outubro, a 1.ª Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica) perdeu o francês historiador do livro, mas garantiu o americano pioneiro em estudos sobre e-books. Em comum, os dois creem que o digital vai gerar um novo tipo de obra literária, mas Stein é mais radical. No Congresso do Livro Digital, ele mostrou não ver lugar para o impresso no futuro.
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A Flica, de 11 a 16/10, também quer ser pioneira. É anunciada como o primeiro evento do gênero “festa literária” na Bahia.
FEIRA-2
Entre a fábula e a farmácia
É curioso o perfil de Alejandro Roemmers, que a Bienal do Livro Rio anuncia na terça entre seus convidados. Membro de poderosa família argentina, ele divide a direção dos laboratórios farmacêuticos Roemmers com a poesia. E seu novo livro é um “complemento espiritual” de O Pequeno Príncipe. Escrito com autorização da família de Antoine de Saint-Exupery, O Retorno do Jovem Príncipe (Fontanar) se passa na Patagônia.
FEIRA-3
A Cabana, três anos depois
No evento carioca, a Sextante espera anunciar os 3 milhões de exemplares vendidos de A Cabana. O romance de William P. Young saiu na Bienal do Livro de 2008, em São Paulo, e já passou os 2,9 milhões.
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Mas é em outro filão a nova aposta da Sextante. Ela divulgará na feira os primeiros autores de sua linha de autoajuda nacional, editada por Anderson Cavalcante. Reflexos de Ágape (Globo), de Padre Marcelo, que completa um ano, em agosto, perto dos 6 milhões de exemplares vendidos.
Alguém me diz onde estão os livreiros e distribuidores na discussão sobre o livro eletrônico? A dúvida voltou anteontem entre uma e outra mesa do Congresso Internacional do Livro Digital, quando vi que a programação reservou uma só mesa para tratar do papel de livrarias e distribuidoras nesse cenário. Ontem, o diretor da Sextante, Marcos Pereira, começou a tal mesa pedindo aos livreiros na audiência que levantassem a mão. Eu para fazer estimativas de público consigo ser pior que a Polícia Militar em eventos paulistanos, mas, de, sei lá, umas 300 (chutei) pessoas no auditório, uns 15 gatos pingados, se tanto, se manifestaram. Distribuidores, convocados em seguida, idem. O resto era quase todo de editores.
“Acho curioso que haja aqui um número tão maior de editores que de livreiros e distribuidores, considerando que livreiros e distribuidores estão com a vida tão mais em risco neste momento”, seguiu Pereira. É fato: no processo evolutivo do cenário editorial as primeiras classes em risco de extinção são essas, mas por isso mesmo é estranho que não estejam lá para acompanhar o debate.
Cá entre nós, eu mesma fico cansada com todo esse exercício de futurologia. Às vezes, acho que sou cética demais, para não dizer chata. O falatório hoje me parece bem menos interessante do que quando comecei a escrever sobre o assunto, em 2009. Só que a ideia do congresso é boa. Num contexto geral, entre muita coisa vendida como novidade (diz que a palestra do Bob Stein é a mesma há anos, com pequenas variações), você pesca informações aqui e ali e depois nem se dá conta de que está repetindo dados que ouviu ontem como se fizessem parte da bagagem cultural conquistada na primeira infância.
Na comparação com o congresso do ano passado, editores parecem menos receosos, pelo que se pode apreender das perguntas feitas pelo público. Um pouco só. Não que estejam mais animados; parecem apenas menos preocupados após tanto falar desse tema que demora a engrenar. Em 2010, a grande questão, colocada com pequenas variações, era: “Como lucrar?”. Neste ano, houve até gente no público questionando a necessidade do DRM, a tecnologia que limita o uso de conteúdo digital para assegurar direitos autorais. Aos editores com quem falei, mais que o medo de verem o impresso ser engolido pelo digital, incomoda o alto investimento em algo que não dá retorno, porque quase não tem público no Brasil.
Livreiros e distribuidores tradicionais, no entanto, eu não faço ideia do que pensam. Digo isso sem considerar as megastores, que mesmo no e-comerce entraram faz algum tempo, e empresas criadas já com foco na distribuição digital – uma das maiores do país, a DLD, por exemplo, é cria de editores, não de distribuidores. Um dos palestrantes do congresso, o americano Edward Nawotka, editor do Publishing Perspectives, comentou que também nos EUA os mais antigos no ramo evitam a discussão. É claro que meu coração de leitora, fetichista por estantes, espera que as lojas físicas durem. Que virem pólos culturais, com pockets shows e leituras de autores entre ilhas de livros, como especulou dia desses um editor. Mas achei significativa a questão, feita ao fim da palestra, por um dono de livraria independente, ainda que qualquer resposta caia na futurologia: “As livrarias têm realmente um papel no futuro do livro?”
A semana passou tão apressada na minha vida que não tinha visto o vídeo dessa linda animação de Morte e Vida Severina, do João Cabral de Melo Neto, citada no texto da Flavia Guerra sobre o Anima Mundi.
Foi feita a partir das ilustrações de Morte e Vida Severina em Quadrinhos, livro de Miguel Falcão lançado sem alarde em 2006 pela pequena Massangana. Não li a HQ, mas as ilustrações, fora de série, ficaram melhores ainda animadas em 3D. A direção é de Afonso Serpa, o personagem central foi dublado Gero Camilo, a trilha sonora ficou a cargo de Lucas Santtana e Rica Amabis e o resto dos créditos vocês que ainda não viram façam o favor de ver no vídeo.
O filme, de 56 minutos, teve exibição no Anima Mundi hoje, terá outra amanhã (às 13h, no CCBB-SP) e depois será lançado num combo graphic novel + DVD.
No YouTube, dá pra continuar vendo aqui, aqui e aqui. E tem também o making of.
2011
2010
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