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A biblioteca de Raquel

Segue trecho inicial do décimo capítulo da biografia No Direction Home, sobre o qual escrevi no post abaixo. O texto de Robert Shelton foi feito a partir de entrevista concedida por Bob Dylan em 1966, durante voo no avião particular do cantor.
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Tenho uma coisa com a morte. Tenho uma coisa suicida, eu sei. Se as músicas são sonhadas, é como se minha voz viesse do sonho delas.
— Dylan, 1966

Judas!
— Keith Butler, ao interromper o show no Manchester Free Trade Hall, 1966. Originalmente atribuído a um espectador na plateia do Albert Hall, em 1998. Pesquisas depois revelaram que o fatídico show aconteceu no Free Trade Hall, em Manchester. John Cordwell também afirma ter proferido o famoso grito

Bob Dylan, vá para casa.
— Paris Jour, 1966

Era pouco depois da meia‑noite, numa noite de meados de março de 1966. No escuro, o aeroporto de Lincoln se fundia aos campos à sua volta. Dylan, cinco integrantes dos Hawks, dois  roadies  e um convidado estavam em dois carros que seguiam em direção ao aeroporto. Quando chegamos, as luzes da pista e da torre de controle foram acesas e mecânicos cercaram o bimotor Lockheed Lodestar, o avião particular de Dylan. O piloto e o copiloto passaram a cuidar dos procedimentos de voo. Denver era o próximo destino, depois a equipe voltaria a Nova York para trabalhar no estúdio, e então seguiria para a costa noroeste da América do Norte, Havaí, Austrália, Escandinávia, Irlanda, Inglaterra e França, e em seguida voltaria para os Estados Unidos. Esse seria o começo do fim de uma das muitas carreiras de Dylan.

Dylan entrou no refeitório escuro. Ele se serviu do café velho de uma cafeteira, então ficou à janela, ao lado de um mecânico vestido num macacão branco que perscrutava a noite. “Deve ser solitário por aqui”, Dylan disse ao mecânico. Ambos olhavam para a pista, não um para o outro. “Sim”, respondeu o mecânico, “mas é um emprego. Eu pego as horas que eles me oferecem.” “Eu sei como é isso, sei mesmo”, disse Dylan, enquanto ambos olhavam para a planura, e pouco depois seguiu para a pista. Ele acabava de fugir de 50 fãs no hotel, mas seis estavam agrupados ao redor do avião. “O show foi ótimo”, disse um dos fãs. “Gostamos muito, Bob”, disse outro. “Quando você vai voltar para cá?”. Dylan disse que não sabia, e acrescentou: “Muito obrigado, fico feliz que tenham gostado do show”.

Ele rabiscou o autógrafo algumas vezes. Um jovem tímido, com cerca de 17 anos, se aproximou. Ele usava óculos, uma camisa branca impecável e gravata. “Sr. Dylan”, ele disse com nervosismo, “também me interesso por poesia”. “Ah, é?”, respondeu Dylan. “Sim, senhor”, respondeu o rapaz. “Gostaria de saber se o senhor poderia dispor de alguns minutos, quando puder, para ler alguns dos meus poemas”. “Claro”, respondeu Bob. O jovem estendeu para Dylan um envelope grande tão cheio que mais parecia uma bola de futebol americano. “Isso tudo são poemas?”, perguntou Dylan. Orgulhoso, o rapaz respondeu: “Sim. Estou escrevendo mais desde que passei a estudar as suas canções”. “Bem,” disse Dylan, “obrigado. Vou tentar ler alguns hoje à noite. Seu endereço está no envelope? Vou escrever para dizer o que achei deles”. O rapaz incandesceu. “Isso é maravilhoso. Espero que goste.”

Dentro do avião, os músicos da banda já cochilavam, uma pilha de corpos afundados nos assentos. Bob provavelmente precisava mais de sono que qualquer um deles, mas estava desperto e parecia ansioso para usar os minutos até que o avião estivesse pronto para decolar. Literatura: “Rimbaud? Não consigo lê‑lo agora. Prefiro ler o que quero ultimamente. ‘Kaddish’ é a melhor coisa que já li. Todo o resto é falsidade. Nunca curti Pound ou Eliot. Shakespeare escrevia por encomenda. Ele não era um místico, apenas uma das arquirrainhas de tudo. Uma rainha delirante e um cérebro de anfetaminas cósmico”. Sobre a sua nova música: “Não houve nenhuma mudança. Nenhum instrumento mudará o amor, a morte, em nenhuma alma. Minha música é minha música. A música folk era fingimento. Eu nunca gravei uma canção folk. A minha ideia de uma canção folk é Jeannie Robertson ou Dock Boggs. Chamemo‑la de música histórico‑tradicional. Quero compor músicas agora. Até Bringing It All Back Home, compor era secundário. Eu ainda era um cantor. Então eu soube que precisava escrever canções. Não preciso consultar ninguém para saber que sou bom. Eu sei, eu sou honesto. Fazer com que aquelas pessoas da literatura, algumas daquelas pessoas da poesia sentassem com os meus discos, isso seria bom”. Sobre os direitos civis: “Olhe para o Sul. Os negros estão tomando o controle da cidade. Mas isso é bacana? Poder, tudo diz respeito a isso. Os negros ricos vão assumir o controle. Os jovens são apenas o pontapé inicial. Se eu fosse negro, não sei se desejaria frequentar a escola com os brancos”. As palavras jorravam. “É papo‑furado. Temo que seja tudo morte. Não quero me ver morrer. Prefiro me atirar de um penhasco em um carro do que fazer algo em que não acredito. Preciso superar a pressão [...] Eu vi Chuck Berry no aeroporto de St. Louis. Dá para escutar Buddy Holly sozinho, mas Chuck Berry? É preciso estar na estrada.”

Os gerentes da turnê, Bill Avis e Victor Maimudes, conferiram os cintos de segurança de todos. Eu e Dylan estávamos sentados frente a frente. Em um joelho, ele tinha um envelope com uma prova do seu livro, Tarantula, que acabava de receber do editor para aprovação. No outro estava o envelope do fã. Eu sabia que ele provavelmente não abriria nenhum dos dois naquela noite. Mexi no meu gravador, amaldiçoando o ruído dos motores. Eu segurava o microfone a 30 centímetros de Dylan. Os olhos dele estavam semicerrados. Ele estava exausto, mas disse que não dormiria mesmo que eu não estivesse presente. Ele simplesmente tinha muito a fazer. “É preciso de muitos remédios para manter esse ritmo”, disse Dylan. “É muito duro, cara. Uma turnê como essa quase me matou. Está sendo assim desde outubro. Isso me enlouquece, de verdade. Nunca aconteceu nada parecido antes. Tem sido um período bem estranho, me derrubou mesmo. Vou reduzir o ritmo. No ano que vem, a turnê vai durar apenas um mês [...] ou dois. Só estou fazendo isso, esse ano, porque quero que todos saibam o que estamos fazendo.” Dylan bebericou o chá, soprou uma nuvem de fumaça de cigarro acima da cabeça, ajeitou o colarinho e prosseguiu: “É absurdo que as pessoas fiquem sentadas sendo ofendidas pela própria insignificância, então elas precisam forçar que tudo mais entre no buraco com elas, e morrem tentando. Esse é o problema. Mas não estou mais envolvido com isso. Já disse isso para você mil vezes. Não sei se você acha que eu estou brincando, ou se você acha que é uma fachada. Eu simplesmente não dou a mínima — honestamente, não dou a mínima — para o que as pessoas falam de mim. Não dou a mínima ao que as pessoas pensam de mim. Não dou a mínima ao que as pessoas sabem a meu respeito. Não dou a mínima”.

“O palco é uma curtição agora. Não era antes, porque eu sabia que o que estava fazendo era simplesmente vazio demais. Eram embaixadores mortos que vinham me assistir, aplaudiam e diziam: ‘Oh, que legal, eu gostaria de conhecê‑lo e tomar um coquetel. Talvez eu traga o meu filho, Joseph, comigo. Joseph gostava muito de bater palmas. ‘Você gostou do programa, não gostou, Joseph?’. E Joseph, é claro, dizia: ‘Ah, sim, pai. Sim, eu gostei — ah, eebaaaa!’ E então eles perguntam: ‘Posso levar Isabella?’. E então, quando você menos espera, está rodeado por cinco ou seis crianças com garrafas de Coca ou ginger ale nas mãos e você é confrontado por algum embaixador que enfiou a mão no seu bolso tentando sacudi‑lo e cumprimentá‑lo. Eu não permitirei que ninguém  entre nos bastidores, nem mesmo para me cumprimentar. Não me cumprimentem. Eu simplesmente não dou a mínima.”

O ritmo do discurso e a vitalidade dos pensamentos passaram a inflamar Dylan. Seus olhos estavam despertos quando ele prosseguiu: “Você não pode me perguntar como eu durmo. Você não pode me perguntar como eu faço, não pode perguntar o que eu acredito que estou fazendo aqui. Fora isso, nos entenderemos muito bem. Pergunte qualquer coisa que eu respondo. Agora temos algo muito claro em relação ao livro. Direi a Albert que chegamos a um acordo em relação ao livro. Darei a você o quanto puder do meu tempo. Eu chego ao ponto muito fácil quando o assunto são coisas que quero que sejam feitas, mas você pode me enrolar. Você pode fazer o que quiser, sem maiores dificuldades. Mas nunca vou te perdoar se fizer isso, cara. Não será uma biografia porque eu ainda não morri. Será uma coisa atemporal, certo?”

“Ninguém me conhece. O que as pessoas sabem de verdade? Que o nome do meu pai é Zimmerman e que a família da minha mãe é de classe média? Não vou sair por aí dizendo às pessoas que isso é mentira. Não vou encobrir nada que disse antes. Não voltarei a falar sobre nada, qualquer declaração ou qualquer coisa que eu tenha feito. Não vou deixar de assumir responsabilidade por nada que tenha feito desde que nasci. Desisti de dizer às pessoas que elas estão enganadas quanto ao que pensam sobre qualquer coisa, sobre mim ou o mundo, ou o que quer que seja. Eu não dou a mínima. Você pode escrever qualquer coisa que quiser escrever.

“Mas você não vai editar esse livro, vai? Eles vão editá‑lo? Isso está no seu contrato? Porque é uma armadilha se não estiver no contrato. Não importa o quanto você for objetivo quando escrever os seus lances, não importa o que você escreva, eles podem torcer tudo acrescentando as próprias palavras. Agora, você não vai dizer ‘autorizada por Bob Dylan’. Eu escreverei isso na capa. Escreverei quatro frases na capa e assinarei o meu nome, algo como: ‘Bob Shelton levantou a minha bola no New York Times há cinco anos. Ele é um cara legal e eu gosto dele. E ele escreveu este livro, que, por sinal, não é’ — apenas para garantir que venda em Nebraska e no Wyoming — ‘não é berrante’.” Satisfeito com um endosso tão absurdo, Dylan sorriu.

“Não há nada que ninguém possa expor a meu respeito. Todos acham que há muito a desmascarar, 1 milhão de miudezas, como a mudança do nome ou o que quer que seja. Isso não me importa. O único tempo em que importou foi quando as pessoas surgiam com coisas como, ‘você teve catapora’. Ou ‘a sua cueca fica suja quando você está com os pés no chão’. Entendeu? Isso me incomodou. Não estou falando de coisas musicais. Estou falando das pessoas, as pessoas para quem elas foram escritas. Obviamente, há pessoas que gostam de ler esse tipo de merda. E as pessoas podem dizer: ‘Ah, eu não acredito’ ou ‘isso não me importa’. Mas as cutucou, sabe?”.

Remexendo‑se no assento sem parar, Dylan estava acordando, irritado com os fantasmas que o assombraram, irritado com a fome do público. Ele parecia querer se explicar. Era incomum que ele explicasse qualquer coisa, porque, de qualquer forma, ninguém parecia entender. Ele tentou um novo começo. “Penso em tudo que eu faço como a minha escrita. Chamar de qualquer coisa que não escrita seria uma desvalorização. Mas não há uma pessoa no mundo que a leve mais a sério do que eu. Eu sei que isso não vai me ajudar nem um pouco a entrar no céu. Não vai me deixar de fora da fornalha ardente. Não vai estender a minha vida e não vai me deixar mais feliz.”

“O que você acha que o deixará feliz?”, eu perguntei. “Eu sou feliz, sabe, sou feliz por ser capaz de descobrir as coisas. Não preciso ser feliz. Felicidade é uma palavra barata. Há alguns tipos de felicidade que são muito, muito esnobes. Admitamos, eu não sou o tipo de cara que corta uma orelha se não conseguir fazer alguma coisa. Eu cometeria suicídio. Daria um tiro na cabeça se as coisas ficassem ruins. Saltaria de uma janela. Eu com certeza não cortaria a minha orelha, cara, eu daria um tiro na cabeça. Posso pensar na morte abertamente, sabe. Não é algo a se temer. Não é sagrado. A morte não é nada sagrada. Vi tanta gente morrer.” Perguntei: “A vida é sagrada?” “A vida também não é sagrada”, respondeu Dylan. “Olhe para todos os espíritos que na verdade controlam a atmosfera, que não vivem, mas ainda assim atraem a você, as ideias, ou tipo jogos no sistema solar. Ou olhe para a farsa formada por política, economia e guerra.”

Era outra variação de um velho tema de Dylan: a batalha entre o desespero interno e a esperança externa. “Ficou fácil para mim fazer tudo, você não faz ideia, cara, tudo sob o meu comando. Agora sou capaz de ganhar dinheiro fazendo absolutamente qualquer coisa. Mas não quero esse tipo de dinheiro. Não sou um milionário, em termos de tudo que tenho. Mas está bem perto. No ano que vem eu serei um milionário, mas isso não significa nada. Ser um milionário quer dizer que no próximo ano você pode perder tudo. Você precisa se dar conta de que eu nunca deixei de assumir qualquer responsabilidade. É difícil para qualquer pessoa que faça o que faça não ser forçada a deixar de assumir responsabilidade por certas coisas. Quero dizer, eu amo o que faço. E também ganho dinheiro com isso. Eu, eu canto coisas honestas, cara, consistentes. É tudo que eu faço. Eu não dou a mínima para o que qualquer pessoa diga. Ninguém que me elogie tem algum efeito sobre mim e ninguém que critique o que eu faço terá algum efeito sobre mim. Ninguém. Eu não leio nada a meu favor ou contra mim que possa vir a ter algum efeito sobre mim. Então, por isso, eu nunca leio de verdade o que as pessoas dizem a meu respeito. Eu simplesmente não tenho interesse.”

“Quando me dei conta de verdade de que tinha dinheiro que não podia ver, olhei em volta para ver o que alguns dos meus agentes estavam fazendo com ele. Antes de mais nada, eu adoro motoristas. Na última vez que voltei da Inglaterra, não comprei um chofer, mas certamente aluguei um. Isso não me incomoda. Eu preciso do dinheiro para empregar pessoas. As coisas andam de mãos dadas. Se eu não tivesse dinheiro, poderia ser invisível. Mas agora o dinheiro é necessário. Agora, ser invisível custa caro. Esse é o único motivo pelo qual eu preciso de dinheiro. Não preciso de dinheiro para comprar roupas ou coisa parecida.” Mais uma vez, a raiva aflorou. “Estou farto de fazer a pessoas repulsivas ganharem dinheiro à custa da minha alma. Quando perder os dentes amanhã, elas não vão comprar novos dentes para mim. Tem um monte de pessoas para quem posso dar dinheiro e o dinheiro que é meu de direito, esse eu quero. Não gosto de pessoas pequenas que fumam cigarros Tiparillo e têm os bolsos virados para fora o tempo todo e usam óculos e que um dia quiseram ser Grouxo Marx faturando todo o dinheiro às minhas custas. E elas são muitas. Todas do mundo da música.”

“Ah, se não é o produtor te enrolando é a bilheteria te enrolando. Tem sempre alguém causando problemas. Nem mesmo os números da gravadora são confiáveis. Eles nunca estão certos. Por um motivo ou outro, nunca estão certos. Ninguém é sincero com você porque ninguém quer que a informação seja divulgada. Você sabia que até determinado momento eu ganhava mais dinheiro com uma composição minha se ela estivesse em um disco de Carolyn Hester ou de quem quer que fosse e não se eu mesmo a gravasse? Esse é o contrato que eles me deram. Terrível. Terrível!”

Os lampejos de desespero amainaram. Dylan não perdia o senso de ridículo. “Eu não vou ser aceito, mas gostaria de ser aceito pela elite literária, que usa violetas nas virilhas e cuida para ter os nomes incluídos em todas as listas de estreias de filmes. Pelos que escrevem críticas musicais e críticas literárias e críticas de cinema e críticas de TV, e também sobre moda feminina e reuniões de pais e mestres, você sabe, tudo na mesma coluna. Eu gostaria de ser aceito pelas pessoas. Não há motivo para que não seja. Mas não acho que isso acontecerá um dia. E, apesar disso, os Beatles foram”. Ele queria o tipo de aceitação dos Beatles? “Não, não, não, eu não estou dizendo isso. Estou apenas dizendo que os Beatles conseguiram, certo? Em todas as formas musicais, seja Stravinsky ou Leopold Jake the Second, que toca no Five Spot, o Blak Muslim Twine ou o que quer que seja. Os Beatles são aceitos, e é preciso aceitá‑los pelo que eles fazem. Eles tocam canções como ‘Michelle’ e ‘Yesterday’. Há muita suavidade ali.” Quando disse que Joan Baez planejava gravar “Yesterday” no próximo álbum, Bob retorquiu: “É, é a coisa a se fazer, dizer aos adolescentes ‘eu curto os Beatles’ e cantar uma música como ‘Yesterday’ ou ‘Michelle’. Ah, por Deus, elas são um engodo, cara, essas canções. Se você for à Biblioteca do Congresso encontrará coisa muito melhor do que isso. Milhões de canções como ‘Michelle’ e ‘Yesterday’ foram lançadas pelas engrenagens da indústria fonográfica”.

Não há milhões de canções como as dele sendo compostas por ninguém, eu sugeri. “Não sei se concordo plenamente com isso, porque no final implica que ninguém mais é capaz de cantar as minhas canções a não ser eu. Tipo, vou precisar me retirar do negócio. Pelo amor de Deus, precisarei lançar 10 mil discos por ano, porque ninguém vai querer cantar as minhas composições”. Ele influenciava os jovens porque quebrava as regras? “Não é uma questão de quebrar as regras, você não entende? Eu não quebro regras, porque não vejo nenhuma para quebrar. Na minha opinião, não existem regras.”

Dylan parecia Lenny Bruce. Ele dedilhava um tema, com uma corda vocal, não um acorde de guitarra. As palavras fluíam como música. Ele entrava e saía da comunicação, como um músico de jazz entrando e saindo de uma linha melódica. Era “tudo música, nada mais nada menos”, música com as palavras, música com a irreverência, música verbal e simbólica. Ele estava completamente desperto agora, dedilhando uma melodia. De cores a poesia, Dylan improvisou: “O meu lance são as cores. Não preto e branco. Sempre foi as cores, seja nas roupas ou no que quer que seja. Cor. Agora, com algo assim o impulsionando, às vezes as coisas ficam bem vermelho sangue, entende? E às vezes muito pretas”.

“Você apenas precisa chegar lá. Quando digo ‘chegar lá’, não quero dizer um astro do folk rock. ‘Chegar lá’ quer dizer encontrar seu caminho. O caminho de todo mundo está aí, em algum lugar. As pessoas acreditam que devem seguir em frente vivendo o inferno na terra, mas eu não acredito nessa atitude. As únicas pessoas que acreditam que é preciso seguir em frente vivendo o inferno na terra, ou que a vida é uma tragédia, são as pessoas simplórias, de mente curta, que precisam encontrar desculpas para si mesmas. O caminho de todos está aí. Apesar de todos que nasceram e morreram, o mundo simplesmente seguiu em frente sem elas; quero dizer, veja Napoleão — mas nós seguimos em frente. Veja Harpo Marx — o mundo continuou a girar, não parou por um segundo. É triste, mas é verdade. John Kennedy. Certo?”

A diferença não estaria, eu perguntei, no que as pessoas fazem enquanto estão na Terra? “Você não percebe que elas não fizeram nada? Alguma pessoa fez algo, de verdade? Pense em qualquer pessoa que você acha que fez alguma coisa. Diga o nome de qualquer pessoa que você acredita ter feito alguma coisa.” “Shaw”, eu disse. “George Bernard Shaw”, Dylan repetiu lentamente, um nome de cada vez. “Quem ele ajudou?” “Ele ajudou muitas pessoas a usarem a cabeça”, eu respondi, e acrescentei: “Você ajudou muita gente a usar a cabeça e os ouvidos”. “Bem”, Dylan respondeu, “eu não acredito nisso, não acredito. É engraçado que as pessoas acreditem que eu tenha ajudado. Eu certamente não vou sair por aí dizendo que é isso o que faço. Durante algum tempo, li muita coisa que era escrita a meu respeito, talvez três, quatro atrás. Agora, não leio nada. Então não faço ideia do que as pessoas dizem a meu respeito. Não sei mesmo. Mas o que eu sei é que muita gente gosta de mim. Isso eu sei”.

A 12 mil metros de altitude, voando sobre as Grandes Pradarias, ele fazia malabarismo com os joelhos, como as bandejas de uma balança, a prova de Tarantula num joelho e os poemas do rapaz de Nebraska no outro. Um envelope subia e o outro descia, numa oscilação inconsciente de pesagem literária. Ele acreditava que Tarantula seria aceito pela elite literária do establishment, pelos poetas sérios? “Antes de mais nada”, ele disse, animado, “você precisa perceber que se for escrever para poetas e gente da literatura…”. Ele cortou a linha de pensamento. “Eu acredito que um poeta é qualquer pessoa que não se chamaria de poeta. Qualquer pessoa que pense em se considerar um poeta simplesmente não pode ser um poeta. Eles simplesmente se acomodaram na romantização dos seus ancestrais e no conhecimento histórico de fatos que nunca aconteceram. E gostam de pensar que estão um pouco acima disso tudo. Quando as pessoas começam a me chamar de poeta eu digo: ‘Ah, que bacana, que bacana ser chamado de poeta’. Mas vou dizer uma coisa, isso não me fez bem algum. Não me deixou nada mais feliz.”

“Ah, eu adoraria dizer que sou um poeta. Gostaria mesmo de pensar em mim mesmo como um poeta, mas não posso, por causa de todas essas pessoas odiosas que são chamadas de poetas.” Quem era poeta então? Allen Ginsberg? “Ele é um poeta”, Dylan disparou. “Ser poeta não implica necessariamente que se deva escrever palavras no papel. Entende o que eu estou dizendo? Um daqueles motoristas de caminhão que desce as escadas de um motel é poeta. Quer dizer, ele fala como um poeta, o que mais um poeta precisa fazer? Os poetas”, a voz dele ficou suspensa no ar em meio a formulações vagas, as ideias fluindo rápido demais para a língua. “Poetas, velhos, morte, decomposição, pessoas como Robert Frost poetizam com árvores e galhos, mas não é isso o que eu quero dizer. Allen Ginsberg é o único escritor que eu conheço. Eu não respeito tanto assim os outros escritores. Se eles realmente quiserem fazê‑lo, precisarão cantar. Eu não diria que sou um poeta pelos mesmos motivos que não diria que sou um ‘cantor de protesto’. Tudo que isso faria seria me inserir em uma categoria com um monte de pessoas que só me importunariam. Não quero estar na categoria delas. Não quero enganar ninguém. Dizer a qualquer um que eu sou um poeta seria enganar as pessoas. Isso me colocaria numa classe, cara, com pessoas como Carl Sandburg, T. S. Eliot, Stephen Spender e Rupert Brooke. Ei, dê nome aos bois — Edna St. Vincent Millay e Robert Louis Stevenson e Edgar Allan Poe e Robert Lowell.”

“Conheço duas pessoas santas”, prosseguiu Dylan. “Conheço duas pessoas sagradas, e Allen Ginsberg é uma delas. A outra, por falta de um termo melhor, quero chamar simplesmente de ‘uma pessoa chamada Sara’. O que quero dizer com ‘sagrado’ é uma transposição de todos os limites do tempo e do valor. Ei, eu curto muita gente, eu amo muita gente, mas certamente não os considero poetas.” Dois outros escritores que ele admirava lhe ocorreram de súbito: “William Burroughs é um poeta. Eu gosto de todos os livros dele, e dos livros mais antigos de Jean Genet, mas estou falando de escritores deste país. As palestras de Genet são apenas perda de tempo, são maçantes. Mas se estamos falando em termos de escritores que eu acredito poderem ser chamados de poetas, então Allen é o melhor. O ‘Kaddish’ de Allen, não ‘Uivo’”.

“Allen não precisa cantar ‘Kaddish’, cara. Entende o que eu quero dizer? Ele pode simplesmente colocá‑lo no papel. Não consigo expor todos os meus sentimentos por ele porque são totais demais. Ele é a única pessoa que eu conheço que escreve, que apenas e totalmente escreve. Ele não precisa fazer nada, cara. Allen Ginsberg, ele é apenas sagrado, uma das duas pessoas que conheço que são sagradas.” E como Sara é sagrada? “Eu não quero incluí‑la neste livro. Quero mantê‑la fora disso, não quero chamá‑la de ‘garota’. Eu prefiro me referir a ela, se é que irei me referir a ela, não posso me referir a ela por qualquer outro nome — eu não quero parecer deslumbrado, sei que isso é muito brega, mas a única coisa na qual consigo pensar é, mais ou menos, ‘mulher madona’.”

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Desde que o Samba é Samba, romance que Paulo Lins lança no próximo semestre pela Planeta, passa-se num período entre 1928 e 1931, fala sobre a criação da primeira escola de samba carioca, a Deixa Falar, e tem como personagens nomes como Ismael Silva e Bide. Veja, a seguir, duas passagens do romance, que ainda passa por revisão.

***

O bar do Apolo estava lotado. Roda de samba batida na palma da mão, ao som de um violão e pandeiro. Aloysio chegou devagar, ficou num canto amuado, pediu um café, acendeu um cigarro de palha e se pôs a escutar os sambas. Teve uma roda de pernada, sentiu vontade de entrar, mas preferiu ficar na dele. Bide se aproximou.

– Por que tu não foi na Curimba ontem? Todo mundo lá tava perguntando por você.

Respondeu que acabou dormindo. Não iria dizer que não foi para não encontrar Laurinda. A separação estava muito recente, ela poderia perder a linha e partir pra cima de Ivete. Também não queria contato de Ivete com a rapaziada. Mulher é mulher. Amigo é amigo. Bar é bar. Também nada de intimidade de atual com ex, pois intimidade gera atrito. Atrito gera puxão de cabelo, corte de lâmina e apertão de pescoço. Nessa coisa de amor tudo é falso.

O samba comia solto, Aloysio foi se soltando, ameaçou uns passos quando Alma Branca cantou “Me faz carinhos”. Acompanhava batendo no balcão mas não conseguia se soltar completamente para também cantar uma de suas composições. No entanto, vinham-lhe à mente versos novos inspirados nos sambas que ouvia. Pegou um lápis e escreveu alguma coisa. Guardou o papel no bolso. Dois minutos depois escreveu mais um verso e foi assim até a roda de samba acabar. Se soubesse que Laurinda não estaria lá e que havia essa roda de samba imensa, com várias famílias participando, cheia de crianças, buscaria Ivete, isso se a infeliz não tivesse levantado a voz para ele. Quase foi buscá-la, mas tinha que ser forte, pois se der um pouquinho de asa pra mulher, querem voar igual gavião.

A noite foi tomando conta do pedaço. A maioria do pessoal foi embora, só ficaram os amigos de sempre em conversas costumeiras. Beberam duas garrafas de paraty, o sambista passou do café para o refresco de groselha. Baiaco quase não falava, interrompia a conversa bruscamente cantando fragmentos de um samba novo. Aloysio esperava uma oportunidade de lhe chamar no canto, falar sério com ele sobre a parceria que queria fazer, porém o amigo estava um tanto alto com a bebida, assim como os demais. Alma Branca não parava de cantar samba atrás de samba. Desistiu. Esse negócio de ficar sem beber perto de quem bebe dá nisso: o pessoal fica rindo à toa, sem falar coisa com coisa e você ali batendo, fora do compasso. Tentava se portar naturalmente, participar das brincadeiras, mas o pensamento na briga com Ivete tirava-lhe a naturalidade…

***

– É por causa das palhaçadas, da cabeça-dura, da burrice de certas pessoas que Deus e os santos ficam donos de nossas vidas na Terra, no Céu e no Purgatório. Tudo isso pra gente ter força, correria, juízo, inteligência, respeito próprio e peito aberto pra ganhar a vida… Pra ser normal, ser feliz com os filhos, os netos e os bisnetos na hora da morte por velhice. Essa é a morte de gente séria! E, pra isso, é só levar a vida certa, ter força pra trabalhar, se instruir… Sempre em frente. Pra ter luz, sorte, redenção dos deuses… Senão, a gente fica parado na vida que nem Ernesto e Valdemar. Parados na vida de ficar metidos com sinuca, bebida, jogo de chapinha, de roda de capoeira e tudo mais que não presta. Não tomam prumo de vivência por causa desse troço de samba e de mulheres de vida fácil na zona do baixo meretrício. Valdemar passa anos sem entrar numa igreja pra rezar um Pai-Nosso, uma Ave-Maria ou um Credo. Na macumba, só vai no dia de Exu pra pedir, a Seu Tranca-Rua do Cruzeiro das Almas, proteção na rua, harmonia com as negas e segurança no lar. Besteira… Eu é que não passo um domingo sequer sem igreja e uma quarta sem macumba, porque se Deus não der ouvidos, Oxalá escuta…

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22.janeiro.2011 13:41:16

Um pouco de baltazar serapião

Primeiro capítulo de o remorso de baltazar serapião, romance do angolano Valter Hugo Mãe, sobre o qual falo no post abaixo.

***

um

a voz das mulheres estava sob a terra, vinha de caldeiras fundas onde só diabo e gente a arder tinham destino. a voz das mulheres, perigosa e burra, estava abaixo de mugido e atitude da nossa vaca, a sarga, como lhe chamávamos.

mal tolerados por quantos disputavam habitação naqueles ermos, batíamos os cascos em grandes trabalhos e estávamos preparados, sem saber, para desgraças absolutas ao tamanho de bichos desumanos. tamanho de gado, aparentados de nossa vaca, reunidos em família como pecadores de uma mesma praga. maleita nossa, nós, reunidos em família, haveríamos de nos destituir lentamente de toda a pouca normalidade.

abríamos os olhos pirilampos à fraca luz da vela, porque a sarga mugia noite inteira quando havia tempestade. dava-lhe frio e aflição de barulhos. era pesado que nos preocupássemos com a sua tristeza, se havia algo na sua voz que nos referia, como se soubesse nosso nome, como se, por motivo perverso algum, nos fosse melódico o seu timbre e nos fizesse sentido a medida da sua dor. por isso, custava deixá-la sem retorno, sem aviso de que a má disposição das nuvens era fúria de passagem.

com vento a bater nos tapumes da janela mal coberta, água a inundar esterco no chão, velha, ela ficava à espera de que algo repusesse o dia e a libertasse para o campo, a fazer nada senão comer erva, vendo-nos labor ininterrupto. nós não dormíamos, ficávamos a fustigar o sono com dores de cabeça, martírios horas e horas. o aldegundes, que se levantava para a tentar acalmar, falava-lhe e prometia-lhe tudo. o meu pai dizia que, a ele, a sarga o confundia mais na ideia de família, se nascera com ela ali e, já eu um irmão muito mais velho, haveria de ser em perigo que o aldegundes se deixaria com ela em brincadeiras. que tempo de crescer o de uma criança, exclamávamos, com uma vaca pela mão em companhia, conversas a sério como se fosse entre gente, e a gostar dela como se gosta das pessoas, ou mais do que das pessoas todas, dizia ele, só algumas é que não, como a mãe, o pai, o irmão e a irmã. assim ela acalmava um pouco à voz infantil dele e nós adormecíamos instantes, mas voltávamos a acordar com a trovoada, embatendo nítida sobre a nossa casa tão pequena, e com o gemido abafado da bicha que recomeçava.

nós éramos os sargas, o aldegundes sarga, dos sargas, diziam. ele é sarga, é dos sargas cara chapada. nada éramos os serapião, nome da família, e já nos desimportávamos com isso. dizia o meu pai, o povo simplifica tudo e a nós veem-nos com a vaca e lembram-se dela, que é mais fácil para se lembrarem de nós e nos identificarem. a vaca era a nossa grande história, pensava eu, como haveria de nos apelidar a todos e servir de tema de conversa quando perguntavam pela mãe, pelo pai, perguntavam pela vaca, magra, feia, tonta da cabeça, sempre pronta a morrer sem morrer. e riam-se assim com o nosso disparate de ter um animal tão tratado como família, e não entendiam muito bem. não fazia mal, achávamos que éramos muito lúcidos, e adorávamos a sarga, mesmo nas noites de tempestade quando se amedrontava e nos obrigava a acordar. o aldegundes vinha dizer-nos que ela tinha água nas patas e que em pressas se devia varrer dali inundação que lhe dava medo, e ele não reparava que também se sujara nos pés e fedia, enquanto cheirávamos e agoniávamos de tormento sem mais sono.

o meu pai pagava ainda a ousadia de se chamar afonso. afonso segundo um rei, mas sobretudo em semelhança ao senhor da casa a que servíamos. uma ousadia disparatada, um sarga chamado afonso, um verdadeiro familiar da vaca como se viesse de rei. quem não tinha do que se honrar, que diabo honraria aludindo a tal nome, perguntavam as pessoas ocupadas com nossa vida. dom afonso, o da casa, era-o por herança e vinha mesmo das famílias de sua majestade, com um sangue bom que alastrava por toda a sua linhagem. nobres senhores do país, terras a perder de vista, vassalos poderosos, gente esperta das coisas do nosso mundo e de todos os mundos vedados. por isso, esqueciam-se quase sempre de que ele, o meu pai, se chamava afonso, e só lhe chamavam sarga, o da sarga, como ele e ela, como um casal. à minha mãe chegavam a dizer que fora à vaca que ele fizera os filhos, e ela revoltava-se. era sempre ela quem barafustava furiosa até que o meu pai viesse e impusesse o juízo e a calma. o meu pai entrava em casa muito tarde, quando estávamos recolhidos à luz da fogueira, e era feito silêncio para que aliviasse o cansaço e pedisse o que lhe aprouvesse. normalmente, tínhamos refeição da noite, jantar quente com vantagens sobre o desamparo da nossa condição social, e escutávamos as impressões do dia, as instruções para o que viria, e os votos de boa noite. por vezes, eu podia perguntar coisas. em noites de maior paz, faria perguntas sobre as mulheres e as promessas do corpo delas feitas ao desalento do nosso corpo de homens. e deixaríamos coisas ditas no ar, para continuar interminavelmente. eram coisas que se suspendiam sobre nós, como roupa a secar, e com que nos deparávamos mais tarde, como se lhes batêssemos com a cabeça numa distração qualquer, quando o trabalho era satisfeito e o tempo se permitia preciosamente ao convívio. o meu pai, o sarga, dizia-me que, se pudera pacificamente chamar-se afonso, sentiria maior felicidade. recordava os meus avós e jurava que chegaram a ter uma pequena terra só deles, escondida num muro à inveja dos trepadores e cultivada de legumes para servir uma fome só da família. era uma terra bonita de vistas, abençoada de fertilidade, calma de vento e cheia de furos de água. bebíamos e comíamos da nossa terra, lembro-me, contava o meu pai, era muito pequeno, como o aldegundes, e tudo ali nos bastava, como tínhamos galinhas e coelhos e o casal de porcos a fazer uma ninhada de leitões para cada ano, e era verdade que ninguém nos incomodava ou se acercava da nossa discrição. estávamos ali esquecidos para bem do nosso sossego. o meu pai sossegava e recolhia-se à cama, onde a minha mãe já se recolhera, a pedido de autorização, aliviada do peso do corpo em cima do pé torto, coçando longamente as pernas da comichão que lhe dava, atenta para acordar bem cedo na manhã seguinte.

quando chovia noite inteira era o pior. o aldegundes, fraco, um repolho de gente quase a querer ser homem, era descarnado e enfezado de altura e largura. que haveria de poder ele quando a sarga estava mais assustada e escutava menos as suas palavras. imaginava eu que ela assustada quisesse fugir para onde conhecesse mais seguro, soubéramos nós o que ela soubesse e talvez se acalmasse em algum lugar. mas, sem diálogo, ela ali ficava a debater-se com o coração aos saltos e o aldegundes choramingando súplicas, o meu pai infinitamente paciente, abdicado de descanso pela vaca, e eu sempre fazendo conta à atenção que lhe era dada, uma permissão desmedida no prejuízo das nossas noites. o aldegundes apossava-se do corpo da sarga pela cabeça, mas era verdade que ela era tonta, como fosse destituída da pouca inteligência que as vacas podiam ter. não tinha nem uma, o mais que fazia era reconhecer-nos e gostar de nós, isso sentíamos, e mais do que isso, nada. entornava os recipientes, perdia os caminhos, batia com o focinho nas paredes, enganada das portas. mas o aldegundes lá lhe esfregava a cabeça, olhos nos olhos, na escuridão. punha vela a arder protegida e queria muito não demorar. mas água que entrava era desordenada e cruel. e era certo que seria o que mais assustava a sarga, por isso ele se dava ao trabalho de varrer cuidadosamente tudo, porta aberta ao campo a enxotar esterco lá para fora, a vaca detida pela corda ao pescoço.

o meu pai levantou-se sem que a irritação lhe turvasse os sentidos. levou vela a juntar à do aldegundes e não se ouviu mais nada. a sarga calou-se de sossego e sono, especada na noite como uma coisa que só parecesse ser ela sem o ser. era como um objeto, sem voz nem movimento, disposto para o tempo da noite sem serventia nem mais nada. e nós adormecemos também, espantados com a obediência ao meu pai, discernido superiormente sobre todas as coisas da nossa vida.

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Reproduzo abaixo trecho do livro Biografia de Um Poema (ver post abaixo), uma das histórias compiladas pelo próprio Drummond sobre os versos de No Meio do Caminho, publicada originalmente em 1º de maio de 1948, no caderno Letras e Artes do jornal A Manhã.

***

Poesia até o infinito

Por Lygia Fagundes Telles

“- Li o livro do Carlos Drummond – ele disse. E prosseguiu com uma careta: – Horrível! Então aquilo é poesia? Eu também sou moderno, gosto dos modernos, mas assim também é demais!

- Pela primeira vez ouvi hoje alguns versos dele. Gostei muito! – confessei.

- É impossível que você tenha gostado! – retorquiu o poeta. – Ouça só esta maravilha que tive a paciência de decorar… (…) – Começou:

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

(…) Calou-se e ficou a me olhar ansiosamente. Dei uma risada:

- Não acho horrível coisa nenhuma! Acho gozado – exclamei.

O moço da gravata-borboleta tirou então do bolso alguns versos que compusera.

Leu-os. E depois disse:

- Como você acaba de ver, nos meus também não há rima nem métrica. Mas há ideia e ritmo, compreendeu? Ao passo que…

- Sim, eu sei! – interrompi-o, impaciente. Não há como um dia de mau humor para se dizer as verdades todas. Pensei naquele alexandrino e não resisti. Disse-lhe: – Mas o fato é que já esqueci sua poesia. E não esqueci e “nunca me esquecerei desse acontecimento” a que você acaba de se referir.

(…) Fui pela rua com o livro debaixo do braço e pensando em meu exame. A nota era muito baixa e isto era uma coisa aborrecida, apenas aborrecida. Mas inesquecível. Como se fosse uma pedra no sapato. No sapato não, que também era demais. Mas uma pedra no meio do caminho, bem no meio do caminho. Está claro que seria fácil contorná-la. Mas, em redor de mim, fisionomias empedernidas também iam encontrando outras pedras: um encontro desfeito por causa da garoa, uma carta que não chegou no momento desejado, uma vaga que foi preenchida por outro… Pedras, pedras, pedras. Haverá outros encontros, chegarão outras cartas, abri-se-ão muitas outras vagas. Mas a garoa caindo forte justamente naquele momento, e o carteiro passando reto, e aquele sujeito sentado num lugar que quase foi nosso… Não, esses acontecimentos nunca mais serão esquecidos.

Agora eu já não achava essa poesia gozada. Tinha um autêntico gosto de vida e era um gosto bem amargo.”

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23.março.2010 20:45:30

O caso Annabella Serdovvi

A volta do caso Isabella Nardoni ao noticiário me fez lembrar de um conto lindo da Beatriz Bracher, Cloc, Clac. Ele faz parte da coletânea Meu Amor (2009), sobre a qual escrevi quando ainda estava na Folha, e foi a forma que a autora encontrou para transportar para o papel todo o mal-estar que a história lhe causava.

Resolvi pedir na Editora 34 autorização para publicar um trecho aqui n’A Biblioteca de Raquel, e a Bracher, num belo exemplo de como escritores podem se aproximar de leitores via internet (só para voltar ao assunto do último post), liberou esse trecho enorme – o conto é ainda maior do que isso.

Sim, ler também causa certo mal-estar, com todas essas letras e situações que se repetem o tempo todo. Mas a sensação que passa é algo que o professor de literatura Alcir Pécora, da Unicamp, consegue explicar muito melhor do que eu poderia neste texto (só para assinantes da Folha).

As “regras” da internet diriam que é um texto longo demais para qualquer pessoa que não tenha nascido com um mouse na mão enfrentar na tela de um computador. Então, se a tela incomoda, imprima, mas dê um jeito de ler, porque vale a pena.

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Cloc, Clac

Beatriz Bracher

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A aglommeração cresce em frente à delegaacia. O crimme aconteceu há duas semanas, a pequena Annabella, 6 anos, foi jogada do 6º andar do edifício Villa Londdon, na Vila Mazzei, Zona Norte da cidade de São Paulo. Atrás da repórter poppulares aglomeram-se olhando para a câmera.
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Janaína Silva, dona de casa, casada, 27 anos, mãe de 4 filhos, fala no microfone, desespera-se sobre o microfone: eu queria pegar elle, jogar elee no chão, jogar elle e cuspir na cara ddele, pisar no pescoço delle e quebrar, pisar e quebrar o pescoço deele, do Niccolau Serdovvi. 9, 7, 5 e 4 são as idades dos filhos de Janaína Silva, ela deixou os 4 filhos com a sogra, porque ela não conseguia ficar em casa com aquillo tuddo acontecendo, tinha que ver de perto a cara dos assassinnos. Em frente à deleggacia o que há para ser visto são fios, microfones, helicópteros, Janaína Silva, popullares e jornnalistas que lá estão para cobrir a chegada e a saída do casall suspeito e a aglommeração que elles reproduzem. O barulho de helicópteros das redes de tellevisão atrapalha a audição das entrevistas, o som das frases se perde, ainda assim todos entendem o que não ouvem, palavras diferentes para o mesmo sentimento de ira e pasmo, ira e pasmo, e pasmo, pasmo que perdura dias e semanas. Agora o barulho dos hellicópteros e das sirennes dos carros de pollícia fica sozinho no ar.
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De volta ao estúdio, o apresenttador Vicente Vantoni, 42, casado, 4 filhos, olha grave para a câmera, foi o som da meninna caindo no chão ainda viva, disse o zellador, o senhor Nesttor Carneiro, 60 anos, casado, 4 filhos e 5 netos. Elle ouviu um barulho alto e seco, anotou no livroo de regisstros do edifício Vvila London. Após a palavra seco, o Nesstor anotou: a meninna estava viva. A frase, a menina estava viva, é iluminada no primeiro plano da tela da tellevisão, destacando-se do restante do texto do livvro de reegistro do Viila London. Era meia-noite, diz o apresentaddor Vicente Vantoni sobre a imagem da folha de papel com a letra ruim do zellador do Villa London, os algarismos que indicam o horário aparecem ilegíveis.
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O noticiáriio segue com outros assuntos. Depois volta para a frente da dellegacia, o casall Serddovi aparece em meio à agllomeração. A madrastta, Ana Bette Mennezes de Carvalho, 24, 2 filhos pequenos, 1 ainda bebê, e a enteada que morreu há poucos dias, e o ppai da meninna morta, Nicollau Serddovi, 27, 2 filhos do ssegundo-casamento e a mmenina de 6, do primmeiro casamento, agora morta, e o jovem advvogado caminham para o carro ladeados por polliciais. Elees são comprimidos pelos popullares. O casall quase some no meio dos popullares. Elle e eela, o paai e a maddrasta da meninna jogada do 6º andar, 6 anos, o aniversário seria em poucos dias, os ddois saem da dellegacia e andam um pouco abaixados, no meio dos poppulares, em direção à porta do carro já aberta, prontos para mergulharem nos assentos do carro. A reppórter Maria Mara de Moraes, 25 anos, solteira, sem-filhos, narra o que se vê na tela da televisão, neste momento o casall sai da delegacia, o Nicollau ddelegacia onde prestaram deppoimentos por mais de 5 horas, eless caminham direto para o carro. Os polliciais fazem um cordão de isolamento para conter os poppulares. O casall Serdoovi e o jovem advvogado entram no carro. O carro do casall parte com os 3 dentro, a Ana Bette Mennezes de Carvalho, o Nnicolau Seerdovi e o jovem advoggado, Marcello Jordano, 26, casado, 1 filha de 6 anos de uma relação-anterior e a esposa-atual grávida de 10 semanas. Um tijolo é lançado em direção ao carro, o som dos popullares ocupa o espaço da vozz da Maria Mara. Ella retorna: um tijollo quase atingiu o carro dos Serdovvi. O carro do casaal Serddovi afasta-se, a imagem balança, a câmera gira e para em um pollicial prendendo um dos poppulares. O policiaal segura as mãos do ppopular atrás do corpo delle e abre caminho em meio à aglommeração, que olha curiosa. O popullar seguro pelo poolicial mantém a expressão indignada, diz a Maria Mara de Moraes.
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A pollícia afirma que o sanngue no banco traseiro do ccarro do Nicollau Serdoovi, o ppai da Anabella, 6 anos, assassinada na noite do dia 6, um Ford Kaa cinza-prata, analisado com equipammentos especiaiss, é da Anabella Sserdovi, 6. O sanggue no chão da garagemm, dentro do carroo, no aparttamento e na frallda, a fraldda que elles usaram para limpar o rosto da Annabella, de modo a mascarar o crimme, o ssangue é da meninna de 6 anos jogada pela janella do 6º andar do Viila London, a Anabelaa Serddovi, filha do primmeiro-casamento do Nicolaau Serdovii com a Anna Beth Parentte.
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A cena sai do estúdio e vai para o edifício Vilaa London, que aparece ao fundo do reppórter Paulo Perneira Pontigo, 29, solteiro, 1 filho de 12 anos de uma relação-da-juventude. No domingo haverá a reconstituiição do crimme. O Nicollau e a Anna Beti não são obrigados a participar, o paii e a maddrasta da Anabbela, morta no último dia 6, não deverão participar, segundo informou o addvogado do pai da Anabella, que caiu do 6º andar do Villa London, o senhor Marcello Jordano, 26, isso porque, segundo a legisslação brasileira, ninguém pode ser obrigado a produzir provvas contra si mesmo. Amanhã, quinta-feira, serão colhidos depoimmentos do paii e da irmmã do Niicolau Serdovvi: o Mennelau Serdovvi, 60, viúvo, pai de 1 rapaz e de 1 moça e avô de 2 crianças vivas e de 1 morta, e a Anna Bolena Serddovi, 37, divorciada, sem-filhos. Apenas após o depoimennto dos parenttes do ppai da mennina Annabella, 6, morta asfixiada, no caarro, na garaagem, no apartaamento, sobre a caama e após a queda do 6º andar, e da reconsttituição do crimme é que a pollícia revelará os lauddos dos últimos exammes realizados. Especiallistas afirmaram que o adiamento na divulgação dos lauudos é uma estratégia adotada pela políícia para que os depoimmentos não sejam influenciados pelo resultaddo dos examess realizados pelos perittos da Políciaa Civil de São Paulo.
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De volta à frente da dellegacia, não dá para ouvir o início da fala da Maria Mara de Moraes, os popullares começam a dispersar-se, a reppórter do ttelejornal finaliza sua participação: a Anna Bety e o Niicolau Seerdovi não deram quaisquer declaraçções à imprenssa.
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Em outro lugar da cidade, um homem diz a outro homem: ainda não faz nem um mês, e a mãee da Annabela, morta barbaramente aos 6 anos de idade, a Anna Beth, não a madrastta, que é Carvalho, mas a mããe, Parentte, nem um mês, e a Anna Bett Parennte já desistiu do ccaso, abandonou a fillha, não dá mais entrevistas, deixou ao destino a resolução do casoo. E o paai, o Niccolau Serddovi, era um mau ppai. Preste atenção, elle não correu desesperado para abraçar a fillha após a queda deela, da Anabella. Pense, diz um homem a outro dentro de um táxi, em uma sala de espera ou no balcão de uma padaria. O homem, provavelmente 50 anos, separado e pai de 3 jovens, o homem com algumas gotículas de suor no buço diz: veja, um pai quando se dá conta de que a filha caiu da janela do seu apartamento no 6º andar corre desesperado para abraçar a filha. E o Niicolau Serdovvi não correu desesperado para abraçar a fillha. Elle primeiro ligou para o ppai, o Menellau, ligou para o paai que é advoggado criminalista. Entende? Elle sabia que a filhha tinha caído do 6º andar, isso elee não nega, afirma que entrou no apartammento, com os dois filhos do segundo casamentoo, viu a redde de protteção da jannela rasgada e entendeu que a fillha havia sido jogada pela janella de seu apartamentto, não é uma hipótese da invvestigação. Elle disse que viu a rrede de proteçção da janela rasgada, aproximou-se e viu a fiilha caída no gramado 6 andares abaixo. E o que elle fez? Correu? Chorou? Não, eele ligou para o ppai, um advogaado criminalista. Ella não era amada, podemos dizer que a Anabella era uma menina rejeitada. Veja, na Inglaterra os cientistas fizeram uma pesquisa para descobrir qual a maior dor que um ser humano pode suportar, de todas as dores, os cientistas britânicos constataram que a maior dor que um ser humano é capaz de suportar é a perda de um filho de menos de dezesseis anos, principalmente para as mulheres. E a mmãe da Anabella já abandonou o casoo, não fala mais com a imprenssa, não presta contas, não aparece, abandonou a ffilha. E se nos lembrarmos que logo após a morte da ffilha de 6 anos, no enterro, na missa de sétimo dia, no dia que seria o do aniversário da Anabella, mesmo nesses momentos a Ana Bbeth apareceu calma, fria, sem nenhum traço de dilaceramento, sequer de dor em sua face, podemos então concluir que ella não amava a Anaabela. O ppai não desceu desesperado para abraçar a fillha e chorar. E por quê? Porque elee não ficou desesperado. A verdade é que elle sempre amou mais os filhos do seggundo-casamento. A Anna Bet teve a Anabella muito jovem, não estava preparada, não foi capaz de amar a ffilha. A verdade é que eela deixa muito a desejar, deixa a desejar como mãe, amor materno. A Anabbela foi uma criança rejeitada, agora elaa só tem a nós para defendê-la, por isso não podemos abandoná-la.
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A cidade arde, um rastilho espalhou-se e não cessa de queimar exalando um cheiro adocicado no ar inspirado e expirado pelos pulmões e chiando nos ouvidos dos que se interessam e dos que não se interessam pelo assassinato de Anabella, comentam eles, na sala. O artigo definido é utilizado na televisão, ruas e padarias, em vez de “Anabella faria aniversário em poucos dias”, falam “a Anabella faria aniversário etc.”, ou “apartamento do Nicollau”, no lugar de “apartamento de Nicollau”, o que transforma a família Serdovvi em velhos conhecidos. Na sala eles analisam essa proximidade forjada que aumenta a dramaticidade do caso, transforma a tragédia real em farsa. Não se ouve a palavra “defenestrar”, que significa exatamente “jogar pela janela”. Talvez porque seja uma palavra fora do cotidiano daqueles que acompanham o caso. Jogada ou lançada pela janela, sim, são verbos que fazem parte da vida da cidade e, portanto, comportam a violência do destino da menina.
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As pessoas na sala sabem que não adianta dizer: “eu não me interesso por esse assunto”, pois todos são convocados a participar da investigação, é necessário comentar e concluir a respeito dos testes, dos depoimentos, das análises dos especialistas. Sendo o assunto inevitável, os que participam apenas por educação e dizem: “quem sabe não foram eles, é preciso esperar, a prisão é somente para quem  foi pego em flagrante ou que possa atrapalhar o andamento da investigação, a polícia chegar a uma conclusão e oferecer a denúncia não significa que eles já foram julgados culpados”, os que dizem isso são obrigados a ouvir ainda mais sobre o assunto, e não podem apenas ouvir, precisam recuar, afirmar, nada de talvez, quem sabe, é um lado ou outro.
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Na sala eles ponderam sobre a histeria que tomou conta da cidade, a necessidade de as pessoas saírem de casa e irem até a delegacia, até a frente do edifício onde o crime ocorreu, parece que apenas assim elas se sentem  fazendo parte de uma história real, que existe porque sai na televisão, como se a vida apenas se formasse em história quando televisionada e escrita.
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Uma pessoa comenta a coincidência de vários nomes deste caso terem letras dobradas, como Anabella, Nicollau, Villa London, não que isso signifique qualquer coisa ou possa ajudar a desvendar o crime, ela acrescenta. Outro lembrase que significa a origem social das pessoas envolvidas. Além das letras, ele continua, são repetidas na televisão e nas conversas informações como: “o sangue no carro é da Anabella”, ou “as marcas no colchão são da sandália do pai que apoiou o pés para subir e jogar a filha pela janela”, e dessa maneira transformam suposições em fatos incontestáveis.
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A interpretação do homem com gotículas no buço, “a mãe deixa muito a desejar”, chega a ser cômica. Sua frase, “ele não desceu desesperado para abraçar a filha”, é repetida diversas vezes, na sala, com sotaque e ritmo que  reforçam o pedantismo do homem. A repetição da frase e o tom farsesco a esvaziam definitivamente de qualquer verdade, não do seu conteúdo, pois que esse não é o foco da conversa, mas sentimento de autoridade das pessoas mais simples e de pessoas pacíficas que tornam-se sanguíneas na tragédia alheia. É repetida também a frase “pegar ele, jogar ele no chão, jogar ele e cuspir na cara dele, pisar no pescoço dele”, que é analisada em seu teor de insanidade. Não se comenta a ausência do pronome oblíquo, embora a sintaxe das orações machuque os ouvidos dos que conversam. E as expressões “pegar ele” e “jogar ele” são repetidas outras vezes. A cidade torna-se vampiresca, compulsiva.
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A análise da repercussão do caso chega até a sobremesa, quando alguém, 72, casada, 4 filhos, 8 netos, fala, a verdade é que elee estava usando uma dessas sanddálias tippo ridder e a marca no lençol era delle mesmo. E isso delle não ter descido logo é muito forte. E outro, 17, solteiro, pergunta, mas issoo já ficou comprovado? Sim, elees têm como rastrear e saber o horário do tellefonema, o horário em que o caarro delle entrou na garaagem, em que elle desceu no ellevador após a fillha ter caído, o número de telefone para o qual eele ligou, de fato elle telefonou para o paai antes de descer. A hipóttese mais plausível, até agora, é que quem sufocou foi a madrastta, e o ppai, achando que a filhaa já estava morta, jogou-aa pela janela.
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E um terceiro, pai de dois filhos pequenos, conclui: um surto, um momento de insanidade. Qualquer um poderia. Um pai. Qualquer um. É apavorante.
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A morte recente iça do lago escuro de nossa memória outra criança morta, que emerge na forma do rosto de um menino de quatro anos sorrindo na fotografia de seu aniversário. A lembrança do assassinato do menino Victor Hugo, em Cascadura, no Rio de Janeiro, caminha dentro de cada um, e em poucos dias a cidade lembra-se e comenta em voz baixa a morte ocorrida meses atrás.
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