Passagem pelo tempo da escrita
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
O sucesso como baterista nunca veio, mas não foram em vão os anos que Paul Harding dedicou à Cold Water Flat, uma das inúmeras bandas americanas surgidas na esteira do Nirvana nos anos 1990. Da música, Harding resolveu levar para a literatura sua experiência como timekeeper, numa tentativa de acelerar ou retardar o andamento da obra conforme o efeito que pretendia causar.
Dar o ritmo da leitura pela forma não era pouca ambição para um novato nas letras, mas também não foi modesto o resultado. Lançado em 2009 por uma editora minúscula, o romance A Restauração das Horas conquistou espaço aos poucos em suplementos literários até, no ano passado, ganhar o prestigioso Pulitzer de ficção, honraria quase impensável para um estreante.
Não que o tempo tenha trabalhado sempre a favor do autor. Entre o fim da escrita e o lançamento, foram três anos de rejeições (preocupação que se somou ao fato de ter entrado na graduação de criação literária só aos 30, depois de a banda acabar). Apesar das menos de 150 páginas, o livro era considerado difícil demais (leia-se pouco comercial) por editores que se deram ao trabalho de lê-lo. A publicação acabou bancada pela Bellevue Literary Press, casa especializada em títulos de medicina com raras investidas em romances sobre questões médicas – no livro de Harding, passagens envolvendo a epilepsia são centrais.
Mas é de tempo, para resumir numa palavra, que trata o romance – como deixa claro a tradução A Restauração das Horas; em inglês, o título é Tinkers, funileiros. “George Washington Crosby começou a alucinar oito dias antes de morrer”, esclarece o narrador já na frase de abertura, uma pista definitiva da densidade da história que vem a seguir. George é um relojoeiro cujas lembranças no leito de morte trazem à tona as vivências do pai, que deixou a família ao descobrir a intenção da mulher de interná-lo num manicômio.
A origem da história é real – o avô de Harding era relojoeiro, e o bisavô, que sofria de epilepsia, o abandonou -, mas o autor tomou o cuidado de não saber mais que nuances de informações sobre a família para não ficar preso a elas, “Esses fragmentos biográficos eram um caminho sugestivo para a história”, diz Paul Harding ao Estado por telefone, de Georgetown, onde vive. “Foi natural o tempo e a memória tomarem o centro da narrativa a partir disso, O desafio então foi escrever sobre tempo sem cair em clichês. Tomei o cuidado de fazer com que as analogias e metáforas sobre relógios fossem mais importantes para George, na forma dele de pensar a própria vida, do que para mim, como autor, tentando escrever.”
A morte como ponto de partida, artifício com declarada influência de A Morte de Artêmio Cruz, de Carlos Fuentes, foi decisiva para a não linearidade escolhida pelo autor – de tempos em tempos, o leitor é levado de volta a George e aos dias ou horas que faltam para sua morte. A lentidão que a narrativa toma nesses momentos, e que tem a ver com a tentativa de Harding de controlar o tempo de leitura, decorre muito daí – o que levou o site Better Book Titles, que se propõe a resumir a história de livros em títulos mais esclarecedores que os reais, a sugerir para Tinkers o nome A Boring Clockwork (algo como A Engrenagem Entediante)
“É um romance meditativo, contemplativo”, prefere o escritor, cujo rol de autores preferidos inclui só nomes da alta literatura, como Emily Dickinson e Marcel Proust. Quase sem diálogos, o romance difere muito da nova investida de Harding na ficção, que ele entrega à editora em setembro – é claro que, depois do sucesso da estreia, a editora já não é a minúscula Bellevue, e sim a gigantesca Random House, que pagou adiantamento inclusive por um terceiro livro. A trama que deve chegar às livrarias americanas em 2012 é quase inteira de diálogos, diz Harding, mas o cenário soará familiar a quem leu A Restauração das Horas: coadjuvante no romance atual, com uma aparição de menos de uma página, Charlie, neto de George, será o protagonista.
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No livro, você trata de memória a partir dos dias que antecedem a morte do protagonista, marcando a contagem do tempo como referência. Em que momento a profissão dele, de relojoeiro, entra nesse contexto? Foi um ponto de partida?
A maior parte dos detalhes da trama do livro é baseada em fatos da vida do meu avô. Ele, na vida real, consertava relógios. Então, eu sabia desde o começo que essa seria a profissão. O maior desafio foi escrever sobre relógios e tempo de maneira que não fosse clichê num livro todo sobre tempo e memória. Isso se tornou muito central, mas tomei o cuidado de que os relógios fossem mais importantes para George como um assunto, na forma de metáforas e analogias que ele usa para pensar a própria vida, do que para mim, como autor, tentando escrever de uma maneira filosófica.
E daí a iniciar o livro com o anúncio de uma morte…
Talvez o modelo que eu tivesse mais claro na minha mente seja o de um romance do mexicano Carlos Fuentes, A Morte de Artemio Cruz, que é similar, uma revisão da vida a partir do final. Eu sabia que a morte estaria no início. E isso fez com que o resto do livro se tornasse tão não linear, íntimo, impressionista, ajudou a dar o tom de todo o resto do livro. Tudo funcionou por associação.
A história de Howard, pai de George, se torna central a certa altura do livro, quando ficamos sabendo da epilepsia dele. Isso também teve base real?
Sim. Eu me lembro de quando meu avô estava morrendo…. Ele não falava tanto do pai dele, mas, o pai dele, como Howard, tinha epilepsia e abandonou a família do meu pai quando ele tinha 12 anos porque a família queria interná-lo. Foi, creio, a catástrofe central na vida do meu avô, que se consolidou pelas gerações pelo resto da família, virou uma espécie de lenda familiar. Mas ele não falava tanto sobre isso, acho que o chateava tanto, ele veio de uma geração, ele e minha avó tinham aquela atitude de ficar lembrando do passado, do tempo em que viviam nas florestas. Então voltar a essa história em particular começou a se tornar irresistível. Quanto mais eu tinha George falando sobre Howard, mais eu pensava em Howard e mais ele começava a se tornar uma espécie de obsessão para mim como era para George.
Você investigou a história da sua família ou preferiu não saber muitos detalhes?
Foi melhor que não soubesse tanto sobre a família. O que sabia era isso que já te contei, a epilepsia, o pai abandonando meu avô, eu só sabia os fatos bem fundamentais. Porque se você sabe demais e se preocupa em pesquisar e descobre todos os detalhes para corroborar o que diz a família… Para mim, era um caminho sugestivo para a história, eu tinha os fatos básicos e tentei desvendá-los em uma versão puramente imaginária. A cidade em que se passa a história, Enon, por exemplo, é quase completamente imaginada. É muito levemente baseada em lugares em que eu costumava ir pescar com meu avô, a vila em que fui criado, paisagens de Massachusetts.
Seu próximo livro se passará na mesma cidade, certo?
Sim, o próximo será sobre um neto de George, Charlie, que aparece em A Restauração das Horas em tipo meia página. Será sobre esse neto e a filha dele. Mas não é uma sequência, embora também se passe no mesmo lugar. Eu queria outro romance na mesma cidade, com a mesma família, mas mais porque eu tinha tudo isso ao alcance das mãos, eu gosto do jeito como as pessoas falam, e a cara que tem a paisagem. Não quero ter que fazer nenhuma pesquisa, quero ter mundo ficcional inteiro bem ao alcance da minha mão.
Não sei se foi proposital, mas você escreve de uma forma que, pelo menos aconteceu comigo, às vezes obriga a uma leitura mais lenta, outras menos…
Num sentido mais geral, acho que é uma leitura lenta porque, quando escrevo, penso na prosa de A Restauração das Horas em algo mais como poesia lírica que como prosa regular. Queria que a língua tivesse a riqueza e a densidade e a musicalidade de uma poesia. E acho que isso ajuda a torná-la lenta. Mas também acho que é um romance meditativo, contemplativo. Tem esse pequeno plot, que, como você sabe, é sobre tempo, sobre o tempo explodindo e comprimindo e acelerando e desacelerando, e eu queria trabalhar com todos esses tempos. Mas também pode ser porque esse é o meu estilo.
Como está sendo escrever a experiência de escrever o segundo livro?
Uma das coisas mais interessantes de ser um escritor é prestar atenção nesse tipo de coisa. Acho que, a princípio, quero escrever um livro melhor do que o que escrevi, e não quero escrever a mesma coisa de novo. O que não significa que não queira escrever sobre os mesmos assuntos ou as mesmas pessoas, só quero ter certeza de que não escreverei as mesmas coisas de novo e de novo e de novo, quero algo que impressione. Um exemplo que me surpreendeu no livro novo é que em A Restauração das Horas quase não há diálogos, e nos poucos que há não se usam travessões. No novo, os dois personagens centrais, o pai e a filha, conversam o tempo todo, e eu resolvi usar os travessões. Só um exemplo específico… Em A Restauração das Horas eu pensei em mim como um escritor que não escreve diálogos, mas o segundo provou pra mim que eu só era um escritor que não tinham personagens que falassem muito. Acho que cada livro é uma combinação das demandas específicas, certos movimentos, certas abordagens.
Muitos dizem que escrever diálogos é difícil. Você está achando?
Bem, é a coisa mais engraçada. O que acho, cada vez mais, é que quando penso em algo na teoria, em termos retóricos, isso mostra que… Olha, realmente pensei que o motivo pelo qual não escrevia diálogos era que diálogos eram muito difíceis de se fazer. Agora, fazendo os diálogos, é como se ouvisse esses personagens falando. Estou achando muito fácil. Não é como se estivesse escrevendo, e sim como se estivesse na esquina ouvindo sem que eles percebessem, roubando conversas. Uma experiência psicológica meio esquisita, talvez. Estou achando fácil não pelo diálogo por si, mas por conseguir ouvir as vozes dos personagens tão claramente.
Você comentou sobre essa busca por traços de poesia no seu texto e fiquei curiosa… Se importa de falar um pouco sobre suas influências literárias?
Bem, acho, que no meu caso, conta muito o fato de, antes de ser escritor, eu ter sido um baterista numa banda de rock, por muitos e muitos anos. Eu era muito envolvido com música em geral e, em particular, com bateria. Há um termo para bateristas, o timekeeper, o que controla o tempo, então sempre fiquei interessado nessa característica. Como baterista, você pode fazer todo tipo de coisa interessante com o tempo da música, pode cortar ao meio, dobrar, ser duas vezes mais rápido, ou mais devagar, fazer coisas interessantes que mudam a experiência de quem ouve a música. E pensei nisso.. isso é algo que poetas fazem, tempo, metro, essas coisas. Poetas pensam na língua, no formato da língua e como isso soa. E pensei em mim fazendo isso…. Alguns dos meus escritores favoritos são poetas Wallace Stevens, Emily Dickinson, tenho lido muito Robert Browning. Amo o que os poetas são livres para fazer e, quando comecei a escrever, pensei que queria fazer isso na prosa. Minha escrita acho que vai e volta entre prosa e poesia. Não tenho problema com isso, eu gosto disso. Talvez alguns escritores ficam desconfortáveis de usar elementos da poesia na prosa, e não acho que deveriam. Alguns dos melhores do mundo fazem isso.
Você estudou graduação em escrita literária, certo? Como foi essa passagem da música para a literatura?
Naquela época, a banda tinha acabado como a maior parte das bandas acabam. Então eu estava numa situação difícil, estava com quase 30 anos, sem profissão, sem carreira, nunca tinha tido um trabalho de verdade, fora trabalhar em lojas de livros quando era mais jovem, empregas temporários nos tempos da banda. Daí pensava que gradução seria uma boa ideia. Sempre escrevi muito, mas, aos 30, nunca tinha escrito histórias de ficção. Era um leitor voraz, do tipo que gosta da mais alta literatura, adoro Proust e Thomas Mann e Carlos Fuentes e Julio Cortázar. E eu não era um escritor muito bom, é claro, mas não demorou muito para conseguir colocar as coisas nas páginas. Tive muita sorte de entrar num workshop da faculdade em que pude aprender com grandes escritores como Marilyn Robinson e Elizabeth McCracken.
Aqui no Brasil estão começando a aparecer cursos de escrita criativa, e existe ainda um questionamento em relação a isso. Você recomenda a quem quer escrever?
As pessoas sempre me perguntam isso, e minha resposta é colocar uma pergunta de volta: ninguém pergunta se um ator deve estudar, ou um pintor, ou um dançarino, e nos EUA todo ator faz escola de teatro e daí por diante. Acho que escrita é a mesma coisa. É verdade. Ninguém pode ensinar você sua visão do mundo, a alma do seu trabalho. Mas, tirando isso, posso ensinar a jovens escritores, que estão começando, um monte de coisa sobre como escrever. Tecnicamente, mas também no sentido de trabalhar a imaginação. Posso ensinar como usar a linguagem, como se disciplinarem para prestar atenção em assuntos. Não acho que é necessário. Mas acho que a escrita é tão vulnerável quanto qualquer outro assunto para estudo na academia. Qualquer assunto ensinado na universidade corre o risco de ficar como que desidratado e sem vida, dependendo da forma como for ensinado.
Você ainda dá aulas de escrita criativa na faculdade?
Não, eu estava dando aulas quando o prêmio foi anunciado, mas foi só um semestre, e não fiquei mais, não teria tempo. Gostaria de voltar, mas não por enquanto. Acho ensinar gratificante.
Sua rotina deve ter mudado um bocado…
Sim, sim, dramaticamente, muito, muito. Antes do prêmio, minha editora fez um trabalho incrível, considerando que era uma miníscula editora de uma escola de medicina de Nova York. Quando publicaram, colocaram 3.500 cópias à venda, sem dinheiro para publicidade, e apesar disso o livro vendeu razoavelmente bem, acho que umas 10 mil cópias antes do Pulitzer. O livro foi muito mais bem do que imaginei que iria. Isso me faz viajar muito. Vou logo para Nova York e depois para Iowa, mais para a frente para Alemanha e Sul da África. Desde que o prêmio foi anunciado, há 13 meses, venho estado numa turnê ininterrupta.
E está conseguindo escrever o novo livro com todas essas viagens?
Sim, consigo. Sabe, tenho dois filhos pequenos e, quando escrevia A Restauração das Horas, tinha pouco tempo livro, porque dava aula o dia inteiro e parte da noite. E minha mulher e eu tínhamos dois filhos com menos de 5 anos. Me tornei bom em escrever com crianças escalando em mim e fazendo todo tipo de barulho. Então, agora consigo escrever facilmente em hotéis e aviões. Aliás, aviões são um ótimo lugar para escrever, isso me distrai horrores.
[Publicado no Sabático de 28/5]
Prestes a completar 70 anos, Sérgio Sant’Anna, um dos ficcionistas mais inventivos em atividade no País, lança romance centrado no sexo e diz que um escritor precisa ter coragem
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Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Foi o filho quem deu o aval. “Nihil obstat”, decretou o também escritor André Sant”Anna por e-mail ao pai, Sérgio Sant”Anna, após ler os originais de O Livro de Praga – Narrativas de Amor e Arte. O termo em latim para “nada impede”, empregado pela Igreja Católica para aprovar pelo aspecto moral obras em via de publicação, acalmou o veterano. Ele andava inquieto, ciente que estava da abordagem, por assim dizer, pouco canônica de seu novo trabalho. “É um livro sui generis… Não é muito dentro dos padrões. talvez pelo excesso de sexualidade”, ponderou Sérgio Sant”Anna na última terça, ao receber o Sabático em seu apartamento em Laranjeiras, no Rio. “Ou talvez porque se esperava de mim um romance, e eu fiz na forma de narrativas interligadas. A intranquilidade bateu.”
Entre os mais inventivos ficcionistas em atividade no País, Sérgio foi um dos primeiros nomes em que o produtor Rodrigo Teixeira pensou ao elaborar o projeto Amores Expressos, que financiou a viagem de 20 autores brasileiros a várias partes do mundo em 2007, para que a partir disso escrevessem histórias de amor. É também o mais experiente da turma – completa, em outubro, 70 anos -, mas sua criação a partir da estada de um mês na capital da República Checa respira um certo ar de molecagem: o personagem central, Antônio Fernandes, é um escritor enviado a Praga por um produtor chamado Roberto Martins, dentro de um projeto que mandou autores a várias partes do mundo. “Admiro Bernardo Carvalho, que conseguiu elaborar um protagonista russo (para o romance “O Filho da Mãe”, também integrante do “Amores Expressos”). Não me senti em condição de criar um checo”, diz o autor, que fala hoje sobre o livro no Festival da Mantiqueira, em São Francisco Xavier (SP).
O que se seguiu foi uma mistura de busca por verossimilhança e interesse em correr riscos. Como seu personagem era um escritor brasileiro vivendo por apenas um mês no exterior, uma experiência relatada em episódios levemente interligados, o autor avaliou que uma história de amor romântico soaria descabida. Já uma trama de experiências sexuais, imaginou, faria sentido. Ainda que se tratasse de experiências um tanto fora do padrão, como um êxtase transcendental com a estátua de uma santa na rua (a santa, chamada Francisca, ele inventou, para ninguém em Praga ficar ofendido) ou a dança de uma mulher nua com suspeitos textos pornográficos atribuídos a Kafka (também devidamente imaginados pelo autor) espalhados em tatuagens fluorescentes pelo corpo.
O erotismo não é novidade na prosa de Sérgio Sant”Anna, mas ele mesmo se surpreendeu, conforme diz, com a forma “bastante espontânea” como o sexo se tornou central em O Livro de Praga – a ponto de imaginar que seria mais honesto se o subtítulo fosse Narrativas de Sexo e Arte, em vez de Narrativas de Amor e Arte. “De certa forma, eu chutei o balde, mesmo. Quando vi que o livro tinha uma sexualidade muito grande, pensei: “Vou em frente, não quero nem saber”", diz. Trata-se da mesma atitude que orienta sua literatura desde a juventude – mais precisamente, desde as temporadas que passou, de 1968 a 1971, na França e nos Estados Unidos, e que, na opinião dele, foram as responsáveis por revolucionar sua escrita: “Tem que ter coragem. Uma das coisas que acho que tem que existir no escritor é coragem. Se der errado, deu, mas, se ficar tímido demais, não sai livro nenhum.”
Cinema. O autor tem consciência de que a disposição para a coragem exige preparo para reações das mais diversas. Em geral muito bem recebido pela crítica especializada, diz ter se assustado, desta vez, com “um silêncio” por parte da editora. Dentro da Companhia das Letras, extraoficialmente, as opiniões se dividem – há quem seja fã e ache que o livro dará o que falar, há quem não tenha grande expectativa. “O livro é polêmico, e isso é ótimo. Existe uma curiosidade muito grande em relação a ele”, diz Rodrigo Teixeira. O produtor tem os direitos para o cinema de todos os livros do Amores Expressos e admite que o de Sérgio Sant”Anna parece dos mais difíceis de filmar. “É uma história que, se alguém conseguir adaptar e fizer bem feito, renderá algo sensacional. Se alguém quiser me procurar com sugestões, estou disponível.”
Enquanto essa pessoa não aparece, Teixeira trabalha na pré-produção de um longa baseado na novela O Gorila, de Sant”Anna. As filmagens começam em outubro, com José Eduardo Belmonte na direção e Otávio Muller, Mariana Ximenes e Maria Manoella no elenco. Ronaldo D”Oxum e André Sirangelo são os responsáveis por roteirizar a história do homem que desenvolve estranha relação com as mulheres para quem passa trotes, em diálogos que ficam em algum lugar entre a indecência e a autoajuda.
Sérgio Sant’Anna tem tantas narrativas com direitos comprados para o cinema que nem sabe enumerar direito. “No Brasil, todo mundo assina contrato, mas os filmes só saem se rola incentivo pela lei”, diz. Ele costuma acompanhar apenas de longe as adaptações, para nem correr o risco de querer dar ideias. Gostou de Um Crime Delicado (2005), de Beto Brant, e Um Romance de Geração (2008), de David França Mendes. Não esconde que achou Bossa Nova (2000), filme de Bruno Barreto feito a partir do conto A Senhorita Simpson, um bocado esquisito. “A questão é só que não tem nada a ver comigo. O Bruno usou os nomes dos personagens, mas fez um filme de Bruno Barreto. Não sei o que vai na cabeça dele, de comprar os direitos de uma história e fazer outra.”
Prêmios. No teatro, o escritor ficou encantado com a recente adaptação de Felipe Rocha para Um Conto Nefando?, em cartaz no Teatro Sérgio Porto, no Rio. Assim como O Gorila, esse conto faz parte de O Voo da Madrugada (2003), o livro anterior de Sant”Anna, que arrebatou elogios da crítica e lhe rendeu um segundo lugar no Prêmio Portugal Telecom e o quarto Jabuti, “esse prêmio que todo mundo já ganhou”, para sua coleção. O intervalo de oito anos entre um lançamento e outro, sobre o qual parece nem ter se dado conta (“É de 2003? Faz tanto tempo assim?”), resultou em parte do convite para o Amores Expressos. Ao focar na viagem para Praga, deixou para trás um volume quase pronto de contos, que agora já lhe parecem defasados.
O fato é que Sérgio Sant”Anna já não se cobra escrever com tanta regularidade. Diz andar sempre com um caderninho, anotando ideias que lhe ocorrem para depois passar para o computador, mas sem a ânsia para publicar que viveu em outros tempos. Ele nunca foi um best-seller como o irmão, Ivan Sant”Anna, nem tem interesse nisso. “O Ivan é muito bom no que se propõe a fazer, que é bem distante do que eu faço”, resume. O livro mais vendido de Sérgio, O Monstro, de 1994, está na casa dos 15 mil exemplares, acompanhado de perto por A Senhorita Simpson, de 1989 (os de Ivan chegam às centenas de milhares), mas o conjunto da obra lhe garante segurança – e nessa conta entram prêmios polpudos, como o Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura, que lhe agraciou com R$ 120 mil em 2008.
O carioca só não aceita bem a ideia de estar beirando os 70 anos. “Acho inacreditável. Acho um absurdo”, diz, num tom entre o indignado e o divertido, e o humor parece lhe roubar uns bons anos da aparência. “Ninguém acha que vai chegar a uma idade dessas. Você sabe disso. Quando a gente tem 15 anos, não acha que vai chegar aos 30, acha que 30 é velho pra burro. Isso me chateia.” Há anos morando no mesmo apartamento na zona sul do Rio, lamenta também a distância dos filhos – André mora em São Paulo, e Paula, em Ubatuba – e, em especial, da filha de Paula, Maria, de 6 anos, que aparece em tantas fotos quanto pode em porta-retratos pela sala.
A literatura feita hoje no Brasil, inclusive por muitos admiradores dele, Sérgio acompanha de perto. E acha que não passam de fofocas os debates literários acerca da qualidade da produção das gerações posteriores à sua: “É como sempre foi. Uns escrevem bem, outros nem tanto.” Entre as suas prioridades de leitura está Pornopopeia, de Reinaldo Moraes. Já teria lido o romance, não fosse uma recente arrumação em casa. “Minha namorada resolveu organizar meus livros e agora não encontro de jeito nenhum. Acho que vou ter de comprar outro…”, conforma-se.
O Sabático deste fim de semana incluiu um especial pelos 130 anos de nascimento de Lima Barreto (completados na sexta, dia 13), e a mim coube um estudo de 1998 do inglês Robert Oakley, enfim publicado no Brasil, pela editora Unesp, após ampla revisão. Vez por outra a gente ouve falar de estudos sobre Machado ou Clarice por pesquisadores de outros países, daí fiquei curiosa em saber o quanto se conhece de Lima Barreto na Inglaterra. A resposta, abaixo, no meu texto publicado na edição de ontem.
(A imagem eu peguei do Blog dos Quadrinhos; é da adaptação de Clara dos Anjos que o Marcelo Lelis está preparando para o selo Quadrinhos na Cia)
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“Os estudos barretianos no Reino Unido sou eu”, sintetiza o britânico Robert Oakley, professor aposentado de português e espanhol da Universidade de Birmingham. Tradutor de Fernão Lopes para o inglês e estudioso de longa data da produção brasileira no século 20, ele teve um de seus mais destacados trabalhos, The Case of Lima Barreto and Realism in the Brazilian Belle Époque, lançado em 1998 pela nova-iorquina Edwin Mellen Press – e, de lá para cá, seu objeto de estudo não despertou muito mais interesse entre leitores de língua inglesa.
“Os textos de Lima Barreto são virtualmente desconhecidos por aqui, apesar de uma tradução muito boa de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicada uns 25 anos atrás. A literatura brasileira é ensinada em universidades britânicas, mas Barreto não figura entre o limitado cânone de ‘grandes obras’ dessa produção estudada no Reino Unido”, diz Oakley ao Sabático por e-mail, de Londres. Ele próprio só tomou conhecimento da qualidade literária do autor ao terminar de ler Machado de Assis e se questionar sobre o que teria acontecido na literatura brasileira pós-Machado – questão que pôde começar a responder após adquirir, num sebo carioca, os 17 volumes das Obras Completas de Lima Barreto.
Treze anos depois da edição em inglês, The Case of Lima Barreto… ganha tradução pela Unesp, “bem revisada e atualizada”, como ressalta o pesquisador, sob o título Lima Barreto e o Destino da Literatura. O nome da edição brasileira refere-se a um dos últimos trabalhos de Lima Barreto publicados em vida, em fins de 1921, no periódico carioca Revista Souza Cruz. Intitulado O Destino da Literatura, o texto foi elaborado como teor de uma palestra que ele ministraria em meados daquele ano em São José do Rio Preto – o futuro do pretérito cabe aqui porque, no dia da conferência, o tímido escritor, que nunca havia falado a um grande público antes, desapareceu e foi localizado bem mais tarde num botequim, completamente embriagado.
Esse texto, que Lima Barreto produziu com base especialmente em ideias de Tolstoi (no ensaio O Que É a Arte) e Jean-Marie Guyau, serve como linha condutora do estudo de Oakley. A partir dele, o britânico analisa o percurso do processo criativo do ficcionista, tomando como referência também suas pouco investigadas leituras – entre as quais se destacam ainda Thomas Carlyle, Johann Gottlieb Fichte e Anatole France.
Essa costura entre influências e produção ficcional permite compreender a concepção de literatura do autor de Clara dos Anjos, para quem a beleza estética depende da “substância” da obra – em outras palavras, para Barreto a importância da literatura reside não na forma, mas no conteúdo. O destino da literatura, segundo seus preceitos, seria uma missão quase divina, de penetrar o sentido da vida e promover a solidariedade humana.
É fato destacado entre os críticos da obra barretiana que o autor nem sempre foi capaz de seguir à risca suas intenções literárias. Entre as teses que Oakley defende está a de que, apesar do compromisso inicial de Recordações do Escrivão Isaías Caminha com a criação do “negrismo” na literatura brasileira, essa cruzada foi relegada a segundo plano por muito tempo, enquanto questões como a fragmentação e a alienação do País chamavam mais a atenção do escritor. Do mesmo modo, apesar de uma “teimosa coerência”, como define Oakley, na atitude de Lima ao longo dos anos, a análise de sua produção – em especial das três versões de Clara dos Anjos, de 1904, 1919 e 1921-22 – permite entender como seu engajamento literário sofreu transformações no decorrer da vida.
Olha que coincidência. Dias atrás, escritor e jornalista Vitor Diel contou em seu blog, o Bumerangue, que tinha adiado por meses a ideia de postar o trecho a seguir do romance Partículas Elementares (1998), de Michel Houellebecq, porque não queria ferir suscetibilidades de internautas que não conhecessem a obra para contextualizar. Acabou postando no dia 11, uma semana antes de o francês ser anunciado para a Flip.
“Começava a encher o saco dessa estúpida mania pró-Brasil. Por que o Brasil? Conforme tudo o que sabia, o Brasil era um país de merda, povoado por brutos fanáticos por futebol e corridas de automóvel. A violência, a corrupção e a miséria estavam no seu apogeu. Se havia um país detestável, era justamente, e especificamente, o Brasil. Eu poderia ir ao Brasil, em férias. Passearia nas favelas, num microônibus blindado; observaria os pequenos assassinos de oito anos, que sonham em se tornar chefes de bando aos 13 anos; não sentiria medo, protegido pela blindagem; à tarde, iria à praia, entre riquíssimos traficantes de droga e de proxenetas; no meio dessa vida desenfreada, dessa urgência, esqueceria a melancolia do homem ocidental.”
[Publicado no Caderno 2 de 15/3; abaixo, a íntegra da entrevista]
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Foram dez anos desde a última incursão na literatura, com A Vida de Pi, vencedor do Man Booker Prize em 2002 e integrante de algumas listas de romances mais importantes da década segundo críticos de países de língua inglesa. Ao marcar enfim seu retorno com Beatriz & Virgílio, o canadense Yann Martel não perdeu a chance de fazer graça. Seu novo protagonista, Henry, é um escritor que passa por um bloqueio criativo após ter uma ideia de livro rejeitada por editores.
Questionado pelo Estado sobre a demora no lançamento de seu próprio romance, Martel credita a longa pausa a outro motivo: a dificuldade do tema, uma tentativa de reconstruir, de forma alegórica, o horror dos campos de concentração nazistas durante a 2.ª Guerra. “O sucesso de A Vida de Pi me manteve ocupado por uns dois anos. E você não pode escrever sobre o Holocausto sem saber sobre o que está falando. Li muito, vi filmes, documentários, viajei para Polônia e Israel, escrevi e reescrevi muita coisa. Não é fácil tomar um evento monstruoso como esse e tentar descrevê-lo de forma diferente”, argumenta.
A tal forma diferente é justamente a proposta com a qual Henry, seu personagem, não consegue convencer editores – um misto de um romance protagonizado por animais e textos ensaísticos sobre o genocídio, no qual um e outros se confundem. Na trama, durante o bloqueio criativo (período no qual arruma um emprego como garçom), Henry conhece um taxidermista que, no intervalo entre o seu trabalho de empalhar animais, encontra tempo para escrever (há algumas décadas) uma peça protagonizada por uma mula, Beatriz, e um macaco, Virgílio. Quando se dá conta, o escritor está imerso na história com a qual não queria se envolver – e que passa a tomar proporções inesperadas.
“Existem muitos relatos factuais do que aconteceu com os judeus da Europa nas mãos dos nazistas e seus muitos colaboradores”, afirma o escritor, destacando os testemunhos de Elie Wiesel e Primo Levi como essenciais, “mas não podemos simplesmente parar nisso, no relato com base nos fatos. Minha hipótese artística é a de que só podemos compreender verdadeiramente um evento quando podemos aplicar metáforas a ele.”
A volta ao universo animal, central também em A Vida de Pi, ele explica, decorre da percepção da riqueza de significados que proporciona. “Poucos autores de ficção adulta recorrem a animais. O resultado não é só uma ausência cada vez maior de animais no nosso mundo real, mas também imaginário. Só autores da literatura infantil fazer muito uso de animais. É uma pena. Eu não sei o que há de infantil sobre um tigre ou um elefante.”
BEATRIZ & VIRGÍLIO
Autor: Yann Martel
Tradução: Maria Helena Rouanet
Editora: Nova Fronteira
(200 páginas, R$ 34,90)
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Como pergunta um livreiro ao personagem principal de Beatriz e Virgílio: sobre o que é o seu livro? (no livro, o personagem não consegue resumir o misto de romance e ensaio que apresenta a editores e livreiros) É um romance sobre um escritor com bloqueio criativo que encontra um taxidermista que escreve uma peça? É um ensaio sobre o Holocausto?
Beatriz e Virgílio é minha tentativa de dar um testemunho do Holocausto, mas não de forma direta e factual. Existem muitos relatos factuais sobre o que aconteceu com os judeus da Europa nas mãos dos nazistas e seus muitos colaboradores. Esses textos, como os de Elie Wiesel e Primo Levi, para dar apenas dois exemplos bem conhecidos de sobreviventes que descreveram suas histórias, são essenciais; só podemos processar o que foi aquele evento depois de sabermos o que aconteceu. Mas não podemos parar apenas nisso, no relato com base em fatos. Minha hipótese artística é a de que só podemos compreender plenamente um evento quando podemos aplicar metáforas a ele, uma vez que podemos “trabalhar” com ele em nossas mentes, pois aplicar metáforas implica compreender o objeto da metáfora. Se isso é uma compreensão verdadeira (na comparação com a de um sobrevivente, por exemplo) é uma outra questão. Assim, para responder sua pergunta, meu romance é uma tentativa de responder ao Holocausto de forma alegórica e metafórica. A vantagem disso é que uma metáfora é mais fácil de entender que o acontecimento histórico que lhe deu origem.
E escrever sobre o Holocausto de forma alegórica fez você compreender algo de novo sobre o genocídio?
Não especialmente. Genocídio não é uma coisa sutil. É um evento tão grosseiro e brutal quanto possível. Um genocídio é o assassinato em massa de um grupo de pessoas, porque elas compartilham uma característica que um outro grupo odeia. Se essa característica é ser judeu, Tutsi, negro, indígena, mulher, gay e assim por diante, o processo de desumanização total é o mesmo. Além de compreender os detalhes processuais – o que, como e onde -, não há muito mais a “entender”. Minha preocupação era outra, não tanto entender, mas expressar, representar. Acredito que a realidade histórica do Holocausto foi exaustivamente explorada e, de modo geral, bem entendida. O que falta é variedade nas formas como é representada. O Holocausto é predominantemente representado em termos não-ficcional, por meio da memória do sobrevivente ou do historiador, com raro uso da metáfora como recurso artístico. Isso significa que perdemos tudo o que a metáfora pode oferecer.
Por que optou por usar animais mais uma vez como elementos centrais da história?
Usei animais em A Vida de Pi e Beatriz e Virgílio (e vou usá-los novamente no meu próximo romance), porque em cada caso esse uso se mostrou o artifício literário que melhor funcionou. Um animal pode tanto ser o que ele é – um tigre, um macaco, um rinoceronte, o que quer que seja – quanto um símbolo ou uma metáfora. Essa riqueza de significados em potencial é muito útil para um escritor, ou pelo menos para mim. Poucos escritores de ficção adulta usam animais de forma interessante e variada. Acho que essa pobreza é o resultado de uma crescente urbanização e da diminuição do contato da maioria dos habitantes da cidade com o mundo natural. O resultado não é somente a ausência cada vez maior de animais no nosso mundo natural, mas também no nosso mundo imaginário. Só escritores da literatura infantil fazem uso de animais. É uma pena. Não sei o que há de infantil sobre um tigre ou um elefante. Esse é outro motivo para eu usar animais, além de sua eficácia como elementos literários: tenho a sensação de trabalhar em um campo completamente deserto.
Por que incluiu tantos paralelos com sua própria vida no livro (como o personagem, por exemplo, o escritor ficou muitos anos sem lançar um livro depois de um sucesso de crítica e vendas)?
Porque funcionavam na ficção. Se eu colocar no meu romance que meu personagem Henry luta com seus editores, por exemplo, não significa que tenha acontecido comigo de alguma forma, mas a ideia de um escritor que para de escrever, que cai em silêncio, pareceu-me o ponto de partida ideal para um romance sobre o Holocausto, porque essa é a reação comum da maioria das pessoas em relação a esse terrível acontecimento, tanto sobreviventes como gente que não viveu aquilo, cair em silêncio, um silêncio de respeito, luto, vergonha, incompreensão. Também queria envolver o narrador na história, porque é assim que vivemos a História: esta não é uma história externa que contamos, como se fôssemos escritores invisíveis. A História é um diálogo. A maneira como podemos ver o passado afetar a forma como vivemos o presente e o que faremos no futuro. Um diálogo. Por isso quis um escritor no meu romance, o que lhe dá aparência de autobiografia. É só aparência. Beatriz e Virgílio é um romance, isto é, uma invenção de fatos para chegar a uma verdade moral.
No romance, Henry não entende a ideia do taxidermista criar uma história em que os personagens não evoluem nada com o que veem ou fazem. Você acha que as coisas funcionam assim na vida?
Henry aponta que uma história convencional envolve uma mudança nos personagens ao longo da narrativa. Uma descoberta, um momento de iluminação, um rito de passagem, algo que faz a personagem aprender e mudar e, por extensão, o leitor também aprender e mudar. Mas os nazistas permaneceram roboticamente com tanto ódio dos judeus no final do Terceiro Reich como estavam no início. Eles odiavam sem conhecer suas vítimas. Se um judeu era rico ou pobre, urbano ou rural, educado ou não etc., era irrelevante para alguém da SS. Tudo o que importava para ele era que o cidadão diante dele era judeu. Não houve mudança de caráter lá. E o mesmo para as vítimas judias; sua personalidade era completamente irrelevante para o que os vitimava. Anne Frank, por exemplo, ter sido uma adolescente brilhante, linda, vivaz não teve qualquer influência sobre por que foi vítima dos nazistas. Ela foi apanhada porque ela era judia, e não por outro motivo. Poderia ter sido bobo, feio e sem graça, ela ainda não teria merecido o seu destino terrível. Portanto, não há evolução de personagem porque o personagem era irrelevante. Para responder à sua pergunta, então: na arte, podemos mudar, mas na vida não raro não o fazemos.
Por que levou tanto tempo para escrever um livro depois de A Vida de Pi?
O sucesso de A Vida de Pi me manteve ocupado por cerca de dois anos. E você não pode escrever sobre o Holocausto sem saber sobre o que está falando. Li muito, vi documentários e filmes, viajei para a Polônia e Israel, pensei, escrevi e reescrevi muita coisa. Isso levou tempo. Não é fácil tomar um evento monstruoso como o Holocausto e tentar fazer algo diferente de descrevê-lo. E tenho um filho de 19 meses de idade. Quero gastar tempo com ele. Por último, há esse projeto maluco que fiz durante quatro anos, quando enviei ao primeiro ministro do Canadá um livro a cada duas semanas com uma carta descrevendo como poderia se beneficiar da leitura. Isso também tomou parte do meu tempo. Mas o próximo livro vai demorar menos. Está muito claro na minha cabeça e eu o quero para logo.
Como foi essa história com o ministro do Canadá?
Stephen Harper, o primeiro-ministro canadense, é um homem um pouco duro, de mente rígida. O tipo de político ideológico que normalmente se vê mais nos EUA. Não há evidências de que ele tenha lido um romance, um poema ou qualquer coisa literárias de qualquer espécie desde que deixou a escola. Durante as eleições de 2004, ele disse que seu livro favorito era o Guinness Book, uma resposta que eu esperaria de um garoto de 15 anos, não do homem prestes a conduzir os assuntos da minha nação. Então, mandei-lhe bons livros de todos os tipos a cada duas semanas durante quatro anos, sempre com uma carta. Meu objetivo era mostrar a ele que a literatura não é só entretenimento, mas uma ferramenta incrível para conhecer as pessoas, o mundo, a vida. Você não pode ser o pensador intuitivo que aspira liderar um país sem ter imaginação. O papel de um político não é apenas administrar mas também sonhar, dizer: “Tenho um sonho em relação à direção em que quero liderar esta nação”. E como você pode sonhar grandes sonhos sem ler livros? Eu não me importo se as pessoas comuns leem, mas me preocupo com os hábitos de leitura de alguém que tem poder, porque os seus sonhos podem se tornar meus pesadelos.
Você tinha medo de críticas sobre o novo livro, depois de lançar um tão bem sucedido?
Não. As expectativas dos críticos e dos leitores nunca foi uma preocupação minha. Se tivesse sido, eu não teria escrito um livro sobre o Holocausto. A arte é um dom. O artista dá. O que aqueles que recebem esse dom fazem com ele, se o colocam em um pedestal ou o jogam na sarjeta, é preocupação deles, e não dos artistas. Depois da A Vida de Pi, fechei a porta a todo o barulho que tinha gerado e voltei para o trabalho calmo, solitário, de escrever uma outra história.
Como você recebeu as críticas sobre Beatriz e Virgílio (ao contrário do anterior, o novo romance recebeu muitas críticas negativas na imprensa dos países de língua inglesa)?
Geralmente ignoro opiniões, positivas e negativas. Há apenas tantas vezes você pode ler sobre o seu próprio livro antes de ficar entediado. Mas eu estou ciente da tendência geral das análises. Foi interessante para mim como os críticos estavam divididos sobre Beatrice e Virgílio. Alguns odiava ele, alguns adoraram. Não é surpreendente, eu imagino, já que o Holocausto é, curiosamente, um tema controverso. Eu teria pensado que um massacre de tantos inocentes seria uma afronta, uma afronta unânime, mas não uma controvérsia, se você receber a distinção. Foi estranho ler os críticos, a partir do New York Times, por exemplo, dizem, em resumo, que as ferramentas da literatura – metáfora, alegoria, simbolismo – foram adequados para cada tópico, exceto o Holocausto. Em outras palavras, eles estavam rejeitando as ferramentas do seu ofício. Para mim, nada está fora do alcance da metáfora desde uma metáfora jamais visa substituir uma realidade, apenas para apontar para lá.
Como foram suas conversas com o Moacyr Scliar depois do episódio em que você foi acusado de plagiá-lo?
Falei com Moacyr Scliar uma ou duas vezes, no auge do escândalo absurdo de plágio. Você não pode plagiar um livro que você não leu. Li Max e os Felinos muito tempo depois de escrever e de publicar A Vida de Pi. O que tinha lido antes de escrever foi apenas uma resenha do livro, e um dos eventos descritos nela, o de um homem preso num bote salva-vidas com uma pantera (no livro de Martel, um adolescente divide o espaço com um tigre e outros bichos), me surpreendeu. Então, houve a influência, o que tive prazer em reconhecer na Nota do Autor no meu romance, mas não plágio. De qualquer forma, tenho a impressão de que Scliar era de um homem gentil e generoso, dono de uma imaginação brilhante. Fiquei triste ao saber que morreu.
Falando em animais … Li uma entrevista em que você diz que seu próximo romance terá três chimpanzés e se passará em Portugal. É verdade?
Chimpanzés e rinocerontes, na verdade. E personagens humanos. Quero olhar o papel dos grandes mestres em nossas vidas. Como podemos manter viva a sabedoria de um mestre depois que o mestre se vai? Seja esse mestre Jesus, Buda ou seu professor de história nota 10, como podemos evitar que a sabedoria de torne um dogma obsoleto? Quero olhar para essa questão sob o prisma de três chimpanzés, um vivo, um morto, uma escultura e uma manada de rinocerontes. Se isso soa implausível, assim soava A Vida de Pi.
Saiu hoje no Caderno 2 meu texto sobre Diário da Queda, quinto romance de Michel Laub. Achei o livro tão bom que fiquei com pena de, contra o relógio, no fechamento, não ter conseguido escrever algo que fizesse jus ao romance, ao menos como eu gostaria. Publico abaixo, para constar, mas para quem quiser ter uma ideia melhor recomendo a leitura do primeiro capítulo, que o Laub postou no blog dele.
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Na quinta incursão em romance, Michel Laub volta o olhar para o judaísmo
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Aos 13 anos, um garoto judeu participa de uma brincadeira que deixa um colega gói (sem origem judaica) machucado e humilhado em sua própria festa de aniversário. Mais ou menos na mesma época, toma conhecimento de detalhes cruciais sobre a história do avô, que chegou ao Brasil após sobreviver ao Holocausto.
“Se na época perguntassem o que me afetava mais, ver o colega daquele jeito ou o fato de meu avô ter passado por Auschwitz, e por afetar quero dizer sentir intensamente, como algo palpável e presente”, pondera, passadas algumas décadas, o narrador desses acontecimentos, “eu não hesitaria em dar a resposta.”
O cenário a partir do qual se desenrola o romance Diário da Queda permite entrever os temas delicados sobre os quais o autor gaúcho Michel Laub discorrerá nas quase 150 páginas seguintes – um tratamento ficcional, como explica, “no limite do questionamento ético que a ficção pode e muitas vezes deve fazer”. O narrador é um escritor de 40 anos, casado pela terceira vez, na iminência de ver o relacionamento seguir o mesmo caminho dos anteriores e que, entre recordações sobre o avô, o pai e aquele colega que ajudou a humilhar, tenta unir as pontas da própria identidade.
Em sua quinta incursão nas narrativas longas, Laub aborda pela primeira vez a temática judaica. “Até uns anos atrás, achava que nunca escreveria sobre isso. Na minha vida pessoal, esse é um tema muito pouco presente. Em algum ponto devo ter percebido que, mesmo sem aparecer na superfície, era algo essencial”, diz o filho de judeus, nascido e criado na mesma Porto Alegre de seu protagonista, e ex-jornalista assim como ele – as coincidências com seus personagens, diz, já viraram costume, uma aproximação capaz de causar no leitor a sensação de que tudo na ficção pode ter um fundo de verdade.
O narrador apresenta seu universo numa espécie de fluxo de memórias, em pequenas notas numeradas e aparentemente aleatórias, que vão e voltam no tempo, espalhadas por partes que recebem títulos como Algumas Coisas Que Sei Sobre o Meu Avô e Algumas Coisas Que Sei Sobre Mim.
O leitor logo fica sabendo que o avô, ao desembarcar no Brasil, começou a escrever uma estranha enciclopédia, ou algo que o valha, que mais parece se referir ao mundo como ele deveria ser do que ao mundo como ele é – e na qual, portanto, não se encontrará nenhuma referência aos tempos do Holocausto. No passado, ao mesmo tempo em que toma conhecimento dessas anotações, o narrador se aproxima de João, o colega ferido. A essas duas memórias se une a descoberta, esta já no presente, de que o pai sofre de mal de Alzheimer – e cabe ao narrador dar essa notícia a ele.
Memória. O interesse de Michel Laub pelo tema da memória se manifesta em toda a sua obra, com semelhanças como o narrador único, em primeira pessoa, que relaciona fatos de um passado relativamente distante com o presente, seja uma relação entre irmãos, caso de O Segundo Tempo (2006, finalista dos prêmios Portugal Telecom e Jabuti), seja um casamento, caso de O Gato Diz Adeus (2009). Em Diário da Queda, o escritor se deu conta de que tinha em mãos duas manifestações muito contundentes dessa característica.
“Em algum momento, percebi que não há assuntos mais ligados ao tema que os deste romance: a doença de Alzheimer, que encerra em si a questão da memória individual, biológica, e o Holocausto, que é uma espécie de símbolo da questão da memória histórica, coletiva”, avalia Laub, que aborda também, como nos livros anteriores, a manipulação possível nas recordações: “Se eu falar hoje com qualquer dos colegas envolvidos na queda de João, é possível que nenhum deles lembre dos detalhes da festa, dos motivos que nos levaram a planejar aquilo, que nenhum deles faça relação entre o desfecho do plano e o fato de João não ser judeu, porque as conveniências sociais (…) e a autoimagem que cada um construiu ao longo dos anos posteriores criaram os mecanismos de defesa que impedem a memória de registrar algo do gênero”, analisa, implacável, o narrador.
DIÁRIO DA QUEDA
Autor: Michel Laub
Editora: Companhia das Letras (152 páginas, R$ 38,50)
Estava na praia ontem, de folga, quando recebi a notícia da morte do Moacyr Scliar. Havia já sete dias que o filho dele, Roberto, não atualizava o Twitter com notícias do pai, uma saga de melhoras e pioras que a gente acompanhava com aflição. Parei para ajudar na cobertura, já que o Bira estava em Los Angeles e não poderia dar conta disso também. Enquanto recebia depoimentos de escritores, me impressionou a coincidência: “generoso” foi palavra quase unânime para defini-lo, por autores de diferentes gerações.
Agora, parando para escrever aqui no blog, me dei conta de que nunca o encontrei pessoalmente. Nós nos falamos tantas vezes por telefone quando eu cuidava das páginas de livros da Ilustrada (além de colunista da Folha, ele era colaborador frequente na seção de resenhas) e a figura dele era tão presente em eventos e programas literários que eu tinha a certeza de já tê-lo visto frente a frente.
E então me lembrei de algo curioso. Sempre fui uma fechadora meio cheia de cuidados (chata, diriam alguns). Na Folha, onde acumulava as funções de repórter e redatora, vivia conversando com os críticos para perguntar se podia mudar um ou outro detalhe, errinhos que tivessem passado no envio das resenhas, coisas pequenas que pudessem ser melhoradas na edição. Certa vez, falei para minha então editora que esperava resposta dele sobre alterações que tinha sugerido, e ela respondeu que era impensável mexer no texto de um colunista da casa. Achei melhor nem comentar que, em inúmeras outras ocasiões, mudanças foram feitas aqui e ali, sempre com o consentimento e até boas sugestões dele.
Parando para pensar, agora, não há como não reconhecer a enorme generosidade intelectual que representava ele aceitar sugestões de alguém com menos tempo de vida do que ele tinha de carreira. Nem todo mundo leva isso na boa.
Segue meu texto sobre ele, capa do Caderno 2 de hoje. É só um apanhado da trajetória, mas achei que não podia passar em branco aqui no blog.
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“Não preciso de silêncio, não preciso de solidão, não preciso de condições especiais. Preciso só de um teclado.” Em meio a dezenas de depoimentos de autores sobre as mais diferentes manias no momento de escrever, publicados desde o início do ano passado no blog do escritor Michel Laub, o de Scliar se destacou pelo pragmatismo: para o criador prolífico e naturalmente inspirado, o único impedimento para a escrita seria a falta da ferramenta com a qual levá-la a cabo.
Tanto era assim que, em quase 50 anos de carreira literária, o porto-alegrense publicou mais de 80 livros – o primeiro, Histórias de um Médico em Formação, em 1962, mesmo ano em que concluiu a faculdade de medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul; e o mais recente, o romance Eu Vos Abraço, Milhões, em setembro do ano passado. Entre um e outro, publicou romances e livros de crônicas, contos, literatura infantil e ensaios, numa média de mais de um livro por ano, com destaque para O Ciclo das Águas, A Estranha Nação de Rafael Mendes, O Exército de um Homem Só e O Centauro no Jardim.
Tudo isso mantendo os critérios que o tornaram um dos mais reconhecidos autores brasileiros contemporâneos em solo nacional, com uma cadeira na Academia Brasileira de Letras desde 2003 e três Jabutis (1988, 1993 e 2009); no exterior, teve obras publicadas em 20 países e recebeu honrarias como o Prêmio Casa de Las Americas, em 1989.
E também sem deixar de lado a carreira na medicina. Na área, destacou-se desde 1969 em cargos como chefe da equipe de Educação em Saúde da Secretaria da Saúde do RS e diretor do Departamento de Saúde Pública. Entre o lançamento do livro de contos que Scliar preferia considerar como sua primeira obra profissional, O Carnaval dos Animais, em 1969, e o primeiro romance, A Guerra no Bonfim, em 1971, encontrou tempo ainda para cursar pós-graduação em medicina comunitária em Israel. Ainda no início da década passada, em 2002, concluiu doutorado em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública, com a tese Da Bíblia à Psicanálise: Saúde, Doença e Medicina na Cultura Judaica.
A tradição judaica o acompanhou em toda a carreira literária, assim como o imaginário fantástico – nascido em 23 de março de 1937 no bairro do Bom Fim, que até hoje reúne a comunidade judaica de Porto Alegre, e alfabetizado pela mãe, Sara, que era professora primária, Scliar chegou a ter o romance O Centauro no Jardim incluído numa lista com os cem melhores livros relacionados à história dos judeus dos últimos dois séculos, elaborada pelo National Yiddish Book Center. Também se tornou um grande porta-voz do País sobre temas relativos ao judaísmo, mantendo laços de amizade com alguns dos maiores autores israelenses no mundo contemporâneo, como David Grossman, A.B. Yehoshua e Amos Oz.
A especialização em saúde pública, por sua vez, deu a Scliar a oportunidade de vivenciar temas como a doença, o sofrimento e a morte – características que podem ser percebidas tanto em sua ficção, em obras como A Majestade do Xingu, quanto na não ficção, caso de que A Paixão Transformada: História da Medicina na Literatura é um dos exemplos mais claros.
Casado desde 1965 com Judith Vivien Oliven e pai de Roberto, nascido em 1979, Scliar também dedicou atenção especial às obras infanto-juvenis. Costumava dizer que, escrevendo para os jovens, reencontrava o jovem leitor que havia sido. Boa parte de sua produção nessa área foi considerada “altamente recomendável” pela Fundação Biblioteca Nacional.
Além de produzir textos para vários jornais e revistas, o autor também teve trabalhos adaptados para o cinema, caso do romance Um Sonho no Caroço do Abacate, adaptado em 1998 por Luca Amberg sob o título Caminho dos Sonhos, em cujo elenco apareceram atores como Taís Araújo, Caio Blat e Mariana Ximenes. Em 2002, o romance Sonhos Tropicais também virou filme, sob direção de André Sturm, com Carolina Kasting, Ingra Liberato e Cecil Thiré no elenco.
Depois de muito ler aqui, no Facebook e no Twitter opiniões as mais variadas possíveis sobre o post O gênio e o monstro, pensei em alguns pontos sobre a questão:
1) Ela ficaria mais bem colocada da seguinte maneira: é justo celebrar um autor cujas atitudes ou convicções causem repulsa, mas cuja obra seja genial? (Lembrando que eu complementava: é justo desmerecer uma criação artística genial pelos desvios de personalidade de quem está por trás dela?).
Afinal, toda a polêmica sobre Céline está na celebração do autor, não da obra – a efeméride que motivou a discussão na França não é relacionada a algum livro dele, mas à biografia, já que diz respeito aos 50 anos de sua morte. Mesmo quem prefere analisar a obra sem pensar na biografia há de convir que a celebração por efeméride envolve a imagem do autor. É claro que essa homenagem pode ser feita com a contextualização de pontos positivos e negativos do pensamento do autor. A homenagem a Gilberto Freyre na última Flip, por exemplo, deu margem para uma boa discussão nesse sentido.
2) Meu editor colocou na sexta-feira uma questão (já analisada na ficção, como lembraram) que cheguei a levantar no Facebook, mas para a qual não tive resposta: Hitler, como muitos sabem, era escritor e desenhista frustrado. Se, em vez disso, tivesse deixado junto com seu legado político uma criação literária ou artística absolutamente genial… seria possível fazer essa separação?
Dos filmes que estrearam em 2010, O Escritor Fantasma, de Roman Polanski, foi meu preferido. O suspense lidera indicações para o Cesar, que será entregue na França no próximo dia 25, mas na cerimônia do Oscar, dois dias depois, não se verá menção a ele. Polanski é acusado de drogar uma menina de 13 anos e fazer sexo com ela quando morava em Los Angeles, nos anos 70, e sua obra se tornou non grata junto com sua persona nos EUA.
Gosto tanto dos filmes que ele dirige que já me peguei tentando minimizar a história, em parte influenciada pelo elogio ao diretor que é o documentário Wanted and Desired, em parte apoiada pela apuração de Peter Biskind em Easy Riders, Raging Bulls, cuja descrição da Hollywood dos anos 70, repleta de histórias pesadas envolvendo sexo e drogas (e ele mal toca no caso Polanski), faz entender por que tantos atores e diretores o defendem. Depois concluí que não tenho nada que defender o indefensável. Embora a própria vítima já o tenha perdoado (mais em nome de sua própria paz, já que a imprensa revirava sua vida toda vez que o assunto voltava à tona), é um assunto delicado e complexo demais para alguém que nem tinha nascido quando tudo aconteceu pensar que pode entender.
E aí cabe a pergunta: é possível celebrar a obra de alguém cujas atitudes ou convicções pessoais causem repulsa? Ou, olhando por outro ângulo: é justo desmerecer uma criação artística genial pelos desvios de personalidade de quem está por trás dela?
O assunto veio à tona com o cancelamento das celebrações dos 50 anos de morte de Louis-Ferdinand Céline na França, escritor considerado um dos maiores da língua francesa e também antissemita. A polêmica foi abordada por Mario Vargas Llosa num belíssimo artigo traduzido no Sabático de hoje. Para acompanhar esse texto, falei com três brasileiros ligados de alguma maneira à obra de Céline e me impressionei com o quanto as opiniões podem divergir num assunto como esse. Recomendo ler o texto do Llosa e, se sobrar um tempinho, dar uma olhada no meu, abaixo.
Update em 21/2: leia mais sobre a questão neste post.
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Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
O escritor Milton Hatoum morava em Paris, no início dos anos 80, quando a obra de Louis-Ferdinand Céline passou por uma espécie de resgate, relançada com pompas após décadas de obscuridade. Na ocasião, imprensa e crítica foram unânimes em apontá-lo como um dos maiores autores em língua francesa. “A obra dele demorou a ser reavaliada após a 2.ª Guerra”, comenta. Foi com surpresa que o colunista do Estado acompanhou a atual rejeição ao romancista por parte de seus conterrâneos devido à militância antissemita. Hatoum arrisca uma análise: “A visão das artes mudou muito na França. As pessoas estão menos interessadas em literatura; a discussão ficou simplista.”
Tanto não é debate simples que o amazonense, admirador de obras como Viagem ao Fim da Noite e Morte a Crédito, não tem o menor interesse em conhecer os virulentos panfletos antissemitas que Céline escreveu entre 1936 e 1941, em plena ascensão nazista. “É evidente que discordo visceralmente da posição dele nesse ponto. Mas também discordo de Borges, que apoiou os militares na Argentina e foi condecorado pelo Pinochet no Chile. E, no entanto, é impossível não lê-lo.”
Os panfletos – foram quatro – não são mais editados na França, embora estejam disponíveis para download na internet e possam ser encontrados na Universidade de Paris 7, onde há um centro de estudos celinianos. Pós-doutorada na obra do francês, Leda Tenório da Motta, professora de Comunicação e Semiótica da PUC-SP, vê importância literária inclusive nesses textos. “Os panfletos de Céline são considerados pela melhor crítica francesa como uma fase intermediária, que leva ao auge da obra dele. Ali ele formula em definitivo seu estilo da ira, hiperbólico.” O fato de se tratar de convicção pessoal, em vez de representação ficcional, não reduz, para ela, o valor poético, “se for levado em conta o estilo”. “São textos mais sombrios que antissemitas. Apesar de carregarem um antissemitismo eminentemente francês da época, carregam também um clamor contra o capitalismo americano, por exemplo.”
O tradutor e professor da Unicamp Marcio Seligmann-Silva não vai tão longe na defesa à obra do autor, que pôs no papel frases como “os judeus racialmente são monstros, são híbridos, quistos que incomodam e devem desaparecer” (em Bagatelles Pour Un Massacre, de 1937). Mas faz coro com Leda na opinião de que, ao lado de Proust, Céline foi responsável pela melhor ficção da França do século passado. Seligmann avalia que uma característica não anula a outra. “É fácil dizer que tudo é literatura, mas há momentos em que a escrita se torna apenas política. É preciso perceber os limites.”
Para o tradutor, a solução está em manter a tensão entre a admiração pelo gênio e a repulsa ao antissemita. “Entendo que um governo tenha cuidado em enaltecer a memória de alguém que teve essa postura num momento recente da história. A obra de arte não machuca, mas um panfleto pode levar à morte.”
[publicado no Caderno 2 de 25/1]
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Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
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Kittur é uma cidade localizada entre Goa e Calcutá, ali na beirada do mar Arábico, e que, pelas paisagens e riquezas históricas, merece no mínimo uma semana de atenção do turista interessado em conhecer o sudoeste da Índia. A partir dessas informações, é importante para o leitor saber também que Kittur é uma localidade fictícia, cenário inventado pelo escritor Aravind Adiga para interligar os contos de seu mais recente livro, Entre Assassinatos. Mas uma cidade que, por sua diversidade de religiões, raças e línguas, poderia ser qualquer outra no país.
É assim, como destino turístico, que a cidade-personagem é apresentada no volume pelo premiado escritor de 36 anos, destaque da atual literatura indiana. Após recomendar a estadia de uma semana no local, Adiga passa a descrever como podem ser aproveitados esses sete dias, em trechos no estilo de um guia turístico que aparecem intercalados com os contos propriamente ditos. Entre uma e outra história, ficamos sabendo, por exemplo, que o local tem 193.432 habitantes segundo o mais recente censo, dos quais apenas 89 declaram não ter religião ou casta.
“A sobreposição do guia turístico em relação aos contos é em parte funcional, já que nos ajuda a ver essa cidade, e em parte irônica, porque as histórias contadas são sempre mais sombrias do que o tom claro dos parágrafos introdutórios poderia sugerir. Foi uma tentativa de explorar a diferença entre as versões oficiais da história do que realmente acontece em uma cidade”, afirma, em entrevista ao Estado por e-mail, o autor que, em 2008, venceu o prestigioso Man Booker Prize por seu romance de estreia, O Tigre Branco.
Embora tenham sido publicados bem depois do livro que tornou Adiga conhecido, os contos de Entre Assassinatos surgiram de forma simultânea à história do romance. “Muitos dos temas de O Tigre Branco estão presentes nos contos, de formas diferentes. Por exemplo, no conto em que o chofer de uma madame que, para mudar de vida, está tentado a cometer um crime”, diz.
A diferença maior está nos períodos em que transcorrem as histórias. Os assassinatos a que se refere o título da coletânea de contos são os dos líderes indianos Indira Gandhi, em 31 de outubro de 1984, e seu filho Rajiv Gandhi, em 21 de maio de 1991. É uma fase anterior à da abertura da economia da Índia, que aconteceu no ano do segundo crime, de modo que refletem os desafios da população na era socialista. A narrativa de O Tigre Branco se passa nos dias atuais, de capitalismo consolidado.
“A Índia hoje é muito diferente da velha Índia socialista da era pré-1991. No entanto, se as histórias são boas, o leitor deve sentir como se fossem atuais. Os leitores na Índia responderam bem aos contos, então devem sentir que são histórias ainda relevantes para o que eles vivem hoje.”
Castas e religiões. Os personagens apresentados em Entre Assassinatos têm em comum, na maioria dos casos, uma vontade intrínseca de mudar de vida, que esbarra em tanto em barreiras sociais quanto psicológicas – sempre descritas com a característica ironia do autor.
Um exemplo é a história do menino Ziauddin, no conto que abre o livro. Muçulmano, o garoto batalha para se firmar profissionalmente num bairro de maioria hindu, mas não resiste a pequenos deslizes que comprometem seu discurso de que “muçulmanos não fazem safadeza”. E, no entanto, é justamente um momento de reflexão que o coloca num dilema quando, enfim, alguém o trata com o respeito que ele tanto acredita merecer.
Conceitos estabelecidos localmente sobre as diferentes castas e religiões, aliás, movem a maior parte dos contos. Em outra história, uma velha cozinheira virgem de origem brâmane, a casta mais alta da sociedade, tenta mostrar para o patrão que tem mais valor que a jovem empregada de origem hoyka, casta desfavorecida à qual pertence a grande maioria da população: “Não sou eu quem está fazendo barulho, patrão: é aquela menina hoyka. Ela não conhece os nossos modos brâmanes!”, argumenta, a certa altura.
Apesar da forte crítica social que desfia ao longo das narrativas, Adiga destaca o caráter democrático da Índia, onde a população pode expressar por meio do voto a raiva e o sentimento de injustiça alimentados pelo cotidiano. “Para mim, o evento-chave que mostra essa força da democracia foi a derrota do governo em Délhi, nas eleições gerais de 2004. Num momento em que a economia estava crescendo, o governo perdeu de forma inesperada. Foi um sinal claro de que a maioria dos indianos não estava se beneficiando do tão falado boom econômico. Isso forçou os políticos a prestar atenção aos pobres.”
Mas ele admite que não só o governo tende a esquecer a pobreza. Até o início da vida adulta, conta, conheceu apenas personagens como aqueles de classe média retratados no livro. “Só fui conhecer a realidade dos pobres depois que me tornei jornalista. Até então, eles eram pessoas invisíveis: meus serviçais e cozinheiros.”
2011
2010
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