Nenhum conhecimento literário me preparou para interpretar a estrutura acima, mas soube agora que ela diz muito sobre mim e, provavelmente, sobre você, se você é frequentador desta e de outras bibliotecas.
Essa coisa aí é a lignina, substância que dá rigidez e impermeabilidade às células vegetais. Trata-se de um polímero formado por unidades que têm estreita relação com a vanilina – o principal composto da baunilha.
Quando transformado em papel e estocado por longos períodos, esse polímero se quebra e… passa a cheirar bem. O que explica por que não há rinite capaz de impedir alguém de ser feliz num sebo.
Seria tal artifício “uma forma subliminar que a providência divina encontrou para atiçar nossa fome por conhecimento”? É esse o chute (de brincadeirinha, é claro) do cientista Luca Turin e da especialista em perfumes Tania Sanchez, que explicam todo o mecanismo com muito mais classe no livro Perfumes: The A-Z Guide, publicado lá fora faz uns anos.
E eu nem sabia que gostava assim de baunilha.
(Vi lá no Trabalho Sujo.)
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Não deu nem uma semana desse retorno à Redação e quatro ou cinco livros já entraram sorrateiros na lista de leituras até o fim da semana que vem. Um deles, o preferido, até, com algo em torno de 700 páginas (não tive coragem de checar esse número, é uma estimativa com base no espaço que ocupa na pilha). Leituras a trabalho, importante dizer. O que significa que o que não devorei por vontade desinteressada durante as férias agora só no próximo feriado, que nem sei quando cai ou se cai em algum dia que não domingo, como teve o desplante de fazer este último 1º de Maio.
Ler a trabalho está longe de ser o pior dos dramas, mas o modus operandi tem desvantagens (escrevi sobre isso faz um tempo) A liberdade absoluta de escolher um título, ou mesmo abandoná-lo, ou reler capítulos, ou ler va-ga-ro-sa-men-te… Sem férias desde 2008, nem lembrava como era essa colher de chá. Se não é fácil para ninguém escolher o que ler no tempo livre, quem trabalha com livros não pode se dar ao luxo de errar: os títulos na fila de espera terão dobrado o quarteirão até a próxima oportunidade.
Mas a seleção para essas últimas férias já estava meio cantada. Como voltei a estudar francês no começo do ano, sabia que pelo menos nos primeiros nove dias de viagem, quando estivéssemos em Paris, aproveitaria para preencher minha imperdoável lacuna sobre a atual produção francesa de HQs (vergonha para uma fã de quadrinhos, faz de conta que não assumi) e ainda treinar meus rudimentos do idioma, básicos demais para a leitura de um romance sem que um dicionário precisasse ir junto na bolsa. Numa HQ, as imagens cumprem ali vez por outra um papel extra de tradução.
A situação colaborou com meus planos. No apartamento que alugamos para o período, uma estante incluía edições locais de PyongYang, do Guy Delisle, e Gorazde, do Joe Sacco. Elas não cabem no perfil “atual produção francesa de HQs”, ok, mas garantiram a passagem do tempo até esta desavisada visitante de primeira viagem a Paris conhecer a rue Dante, o paraíso das livrarias dedicadas às bandes dessinées, perdição também para colecionadores de souvenires de HQs – não resistimos a trazer da seção pega-turistas um pequeno Asterix com javali e um Obelix esticando as calças (“Gordo? Quem é gordo?”).
Foi na Dante que cheguei à livraria onde desisti da cara de conteúdo e pedi ao vendedor uma mão na escolha de bons quadrinistas locais para uma não-iniciada. E, já que tinha esquecido a vergonha em algum bistrô, aproveitei para pedir que o fizesse com base nas melhores pechinchas.
O resultado: Les Complots Nocturnes, de David B (o melhor dele é L’Ascension du Haut Mal, mas daí seriam seis volumes que eu não teria nem como carregar pra casa); Bureau des Prolongations, de Simon Hureau; Comme um Poisson Dans l’Huile, de Guillaume Long; e Sunnymoon Tu Es Malade, do Blutch, que somados deram menos de 20 euros. Por conta, peguei na bancada de superpechinchas um Cours, Camarade, do Baru, e um Blitz, do Floch & Rivière, um ou dois euros cada um. E ainda, em homenagem ao momento dois coelhos com uma cajadada, uma edição local do Bunny Suicides, do inglês Andy Riley (não, de cajadadas o coelhinho não morre, até porque a expressão em inglês é com pássaros e pedras).
Li as três primeiras em Paris. E ainda circulei pelas ruas com um velhinho Les Malheurs de Sophie debaixo do braço, tirando vantagem do risco quase zero de esbarrar em algum conhecido, porque não é sempre que você pode se deliciar com um título para pré-adolescentes no metrô impunemente.
Dali fui pra Londres, e os livros então já eram outros quinhentos…
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A foto no alto é da Enriqueta, gatinha de dois meses que há dois dias mata de ciúme (e de amor, embora ainda não assumido) a Whatever, nossa gata de sete anos. O nome dela é homenagem à personagem do Liniers que, por coincidência, ilustrou meu post sobre leituras a trabalho.
[Excepcionalmente hoje, um post das ferias, sem acentos nem muita preocupacao. Qualquer dia a programacao normal volta por aqui.]
Ontem foi o dia mais quente do ano em Londres e tambem o mais quente nesta epoca do ano em sei la quantas decadas, li ali meio por cima no Independent. Parece que continua assim ate domingo. E eh claro que numa manha como essa, em plenas ferias, eu deveria estar estirada na grama de um parque lendo ou apenas aprimorando o potencial para a preguica em vez de na frente do computador, escrevendo.
Mas resquicios de Paris nos impedem de sair, um longo imbroglio envolvendo a recusa de cartoes de credito pelo sistema de locacao de bikes frances, o Velib, seguido de pelo menos tres altissimas cobrancas indevidas. O que causou tambem bizarros danos no Mastercard do Gui e no meu Visa que nem sei ou quero mais explicar (embora saiba que ainda va ter que fazer isso vezes sem fim ate encontrar uma solucao).
Nos tempos do escambo, a vida devia ser mais facil.
Alias, para impedir situacoes como essa (manter em cativeiro a pessoa em ferias num dia de sol), seria bacana se a Uniao Europeia institucionalizesse para turistas o sistema de trocas, ja tao em voga entre quem gosta de ler. Lembrei disso agora porque aqui do lado, na estacao de trem de Raynes Park, tem um daqueles postos de troca de livros, o que evita qualquer “abandon debit” ou “pin blocked” no momento da aquisicao. Embora nem tenha sido essa a iniciativa mais legal do genero que vi nestas ferias.
Foi ainda em Paris, no apartamento que alugamos no 10eme para a estada de nove dias. Chegamos la, um quarto e sala/cozinha do tamanho ovo-padrao para duas pessoas, e encontramos uma estante com seus 30 e poucos livros. Achei que fossem todos do proprietario ate prestar atencao nos titulos – coisas tao variadas quanto uma traducao francesa das Mil e Uma Noites, uma edicao americana de Quicksilver, de Neal Stephenson (tem cara de best-seller, mas nao faco ideia do que seja e nao sera agora que vou checar), um guia sobre sabores da Polinesia e dicionarios varios para o frances.
E o que me deixou mais feliz enquanto fa de quadrinhos e estudante de frances: duas edicoes locais de HQs, PyongYang, do Guy Delisle, e Gorazde, do Joe Sacco. Antes de eu me encher de quadrinhos em sebos (depois escrevo sobre isso), essas duas salvaram minha vida.
Pela variedade de temas, generos e idiomas para uma biblioteca tão pequena, so podiam ser livros deixados por hospedes do apartamento para os proximos visitantes, essa generosidade que so a felicidade de umas boas ferias alimenta. Quis fazer a minha parte e deixar o primeiro titulo em portugues na minibiblioteca, o romance Outra Vida, do Rodrigo Lacerda. Mas, envolvida com a leitura das HQs, nao consegui terminar o livro a tempo e nao tive o desapego de abandona-lo antes de saber o fim.
Deixei entao, a titulo de quebra-galho, o livrinho com a programacao do Louvre ate agosto. Foi o que deu pra fazer, desculpem. Mas, se voltar, prometo deixar algo mais representativo da minha boa intencao, ate porque a minibiblioteca anda carecida de doacoes.
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Ok, parece que tudo o que se podia fazer a respeito do cartao por enquanto ja foi feito. Ignorem os erros do texto escrito as pressas. Vou la aproveitar porque a vida eh breve, e as ferias, ainda mais.
Semana passada o Rodolfo Viana postou no Substantivo Masculino (“O blog de literatura da VIP, porque nem só de orgias, bebedeiras e jogatinas vive um homem.” Sei.) sobre a versão de O Grande Gatsby em videogame. Joguei e achei divertido, ao menos no meio minuto que durou a aventura antes de eu morrer.
Daí que soube hoje dessa nova investida dos games no universo literário, o jogo Esperando Godot.
Um emocionante jogo sobre dois homens esperando um terceiro homem que nunca chega.
Atente para o vídeo.
Não é incrível? Baixe aqui o seu jogo e espere Godot você também.
Update tipo dois segundos depois: assim que dei send neste post, por coincidência recebi um email da Mariana Delfini com um link pro blog dela, o Galharufa, que, por sua vez, tinha alguns posts pra baixo um link pro mesmo game… no blog do Prosa e Verso! E de uma semana atrás! Shame on me, que manterei o post mesmo assim, com o argumento de que inclui o link para baixar o jogo. =P
Ainda falando em Twitter… Li no Huffington Post que hoje rola por lá o Writer Wednesday, uma espécie de Follow Friday literária (precisa explicar pra quem não está no Twitter? Acho que quem não está já parou de ler este texto na quarta palavra!). Em homenagem à data, o site listou uma série de aforismos sobre o ato de escrever. Seguem meus preferidos.
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"Espera-se da boa escrita que evoque sensação no leitor – não o fato de que está chovendo, mas a impressão de que se está sob a chuva"
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"Sem lágrimas do escritor, sem lágrimas do leitor. Sem surpresa para o escritor, sem surpresa para o leitor"
Na Amazon, o livro All My Friends Are Dead é descrito como um “delicioso guia para rir do inevitável”. Eu colocaria na categoria “ficar de coração partido”, mas o GIF é fofo.

Roubei do Trabalho Sujo, do Alexandre Matias.
Interrompemos a programação normal deste blog (que hoje em dia é a falta de atualizações) para uma historinha que me distraiu em meio aos trabalhos.
Dois designers, Thilo Folkert e Rodney La Tourelle, criaram um jardim literário numa floresta no Quebec. Usaram 40 mil livros, placas de madeira e cogumelos numa estrutura orgânica na qual os livros se decomporão e os cogumelos crescerão.
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Chamaram o negócio de Jardim do Conhecimento, mas, como explica o Arch Daily, não é uma referência a um retorno à natureza (que foi minha primeira impressão, né, em tempos de sustentabilidade) nem traz mensagem bíblica. A ideia é confrontar “instrumentos de conhecimento com a temporalidade da natureza” e convidar o visitante a um “envolvimento emocional” ao expor a fragilidade dos livros.
Não sei se eu iria tão longe no raciocínio, mas esta última imagem me fez pensar que seria bom começar a arrumar melhor as minhas estantes.
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“Plagiarism is back in style! You can read about it in my new book The Hobbit.”
Não faço ideia de como surgiu, mas é a série Literary Pigs, assinada por Jim Behrle. Vi aqui. E você pode clicar na imagem abaixo para ver outros porquinhos da série.
2011
2010
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