Lord Byron tomava vinagre quando tinha fome. Para manter a forma, sabe (a gente não quer imaginar o resultado em termos de hálito, então, se você pensou em tentar, pare). E Walt Whitman traçava carne com ostras pela manhã. A ilustração com os lanches preferidos dos escritores saiu neste final de semana no Sunday Book Review. É da Wendy MacNaughton, que assina a deliciosa coluna ilustrada Meanwhile no jornal literário on-line The Rumpus.
Tá virando mesmo moda isso de tirinhas em GIFs animados na web, não? Essa aqui, do fim do mês passado, é a primeira do gênero da excepcional série Mimi & Eunice, de Nina Paley (que, por sinal, vem discutindo com certa frequência os direitos autorais em tempos digitais, em tiras como essa e essa).
Em 2010, convidada a participar de votações das melhores HQs do ano pelo Telio Navega, do Gibizada, no Globo, e pela revista pernambucana O Grito, descobri que uma graphic novel lembrada por quase todos os votantes, e que acabou no topo das duas listas, eu não tinha lido: Bando de Dois (Zarabatana), do Danilo Beyruth. Taí um dos motivos pelos quais rankings e eu não nos damos muito bem, mas, enfim, agora, com o livro devidamente acomodado na estante, posso dizer que é um belo trabalho.
Na semana passada, o Bira, editor do Caderno 2, perguntou se eu podia fazer para a edição de hoje a seção Mesa para 2, um bate-papo informal com algum artista durante algum almoço ou jantar em lugar escolhido pelo entrevistado. Lembrei do Beyruth, fiz o convite e ele sugeriu o ótimo Bueno, na Liberdade.
Foi uma conversa bacana sobre a carreira dele e a atual produção de quadrinhos no País. Sem falar que, vai, comer a trabalho não é mal. O prato que aparece fumegando na foto é o bibimbap, uma espécie de risoto de origem coreana servido numa pedra superquente, cujos ingredientes são misturados só na mesa e têm de ficar descansando um tempo até formar uma crosta (o braço aí é o da garçonete).
Só aí eu soube que o Beyruth sempre faz uma ilustração com pincel quando dá um autógrafo. O fotógrafo Tiago Queiroz e eu acompanhamos passados a evolução do desenho abaixo, coisa fina.
Da conversa, saíram no Caderno 2 os trechos abaixo.
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Autor da Elogiada Necronauta, escolhida para distribuição em escolas públicas, o quadrinista é finalista em três categorias do HQMix pela graphic novel Bando de Dois
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Você estreou em HQs com histórias curtas (Necronauta) e passou à graphic novel (Bando de Dois). É muito diferente de fazer?
É, sim. Dá para traçar paralelo com o cinema, pensando em curtas e longas-metragens. A trama curta exige concisão, algo que funcione com pouco, mas a longa tem a curiosidade que é criar um esqueleto narrativo e ir povoando com cenas como se fosse trabalho de arqueologia, de reconstituir o dinossauro, até os personagens ganharem vida. Por acaso, agora estou trabalhando de novo com histórias curtas (no Necronauta 2), mas minha ambição está na história longa.
Como foi ter sua estreia em graphic novel indicada agora em três categorias do HQ Mix?
O melhor foi ser indicado pelo roteiro, porque há certo preconceito com desenhista que roteiriza. Na verdade, quem desenha e escreve tem a faca e o queijo na mão, pode fazer o roteiro de outro patamar. Nas pré-indicações do HQ Mix eu aparecia nas categorias desenhista e álbum, mas não na de roteirista. Se o álbum como um todo é bom, como pode o roteiro não ser? Leitores reclamaram na internet e fui incluído na lista final. O prêmio cria a prévia justamente para correções como essa.
O Necronauta, uma espécie de história de super-herói, foi escolhido pelo governo para distribuição em escolas. É uma HQ que possa ensinar algo a crianças?
A questão é menos poder ensinar algo e mais o fato de incentivar a leitura. Os livros selecionados pelo PNBE (Programa Nacional de Biblioteca da Escola) não são paradidáticos, estão lá para criar o hábito de ler obras originais. Se o Necronauta fizer isso, terá sua missão cumprida.
Como vê a tendência entre editoras de, por interesse em compras pelo governo, lançar adaptações de clássicos da literatura?
Depende muito da qualidade da HQ. Se a adaptação é muito benfeita, se respeita a obra original, como as do Spacca, será um bom cartão de visitas e estimulará a pessoa a procurar a obra original. Mas, se for um trabalho meio malandro, feito apenas para entrar em listas de compras, existe um perigo aí. Pode acabar servindo como desculpa para não se ler o texto original. De qualquer forma, muita coisa boa vem surgindo também graças a esse interesse maior do mercado nos últimos anos. Dá para fazer uma analogia com esporte: se você investe numa certa estrutura, consegue revelar talentos.
O lançamento da HQ Garra Cinzenta dá boa dimensão da capacidade que a internet tem de fazer uma especulação virar verdade. Três semanas atrás, quando leitores de quadrinhos ficaram sabendo que sairia essa edição de luxo, voltou com tudo a boataria sobre a autoria – ninguém sabe quem é de fato Francisco Armond, que assina o roteiro. Dias atrás comecei a buscar pessoas envolvidas e lamentei não ter mais tempo. Acho que, numa daquelas reportagens que permitem semanas de apuração, dava pra descobrir. Mas ao menos deu para esclarecer detalhes que mais complicavam que resolviam.
O resultado, que saiu no Sabático de hoje, taí.
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Veiculada no jornal A Gazeta de 1937 a 1939, série nacional pioneira nos gêneros noir e terror ganha edição integral e de luxo, trazendo à tona enigmas tanto dentro quanto fora da ficção
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Quando, três semanas atrás, a editora Conrad colocou para pré-venda uma edição de luxo com a íntegra do Garra Cinzenta, antigas especulações sobre a série noir veiculada de 1937 a 1939 no jornal paulistano A Gazeta voltaram à tona, desta vez propagando-se pela internet com ares de absoluta verdade e a força de um plano maligno para dominar o mundo. O roteirista assinava como Francisco Armond, mas seria na verdade uma mulher, Helena Ferraz de Abreu. O vilão desenhado por Renato Silva teria sido covardemente plagiado por ilustradores de séries muito mais bem-sucedidas em âmbito internacional, como a americana Terror Negro. O encerramento da trama, apesar de se dar num redondíssimo capítulo número 100, envolveria motivações nunca reveladas.
As conjecturas acerca do Garra Cinzenta evocam o status de cult atingido pela saga nas décadas seguintes à publicação, quando possuí-la na totalidade era regalia de poucos colecionadores. Durante os dois anos em que circulou no suplemento A Gazetinha, a história que a princípio saía três vezes por semana teve a veiculação interrompida em mais de uma oportunidade, chegando a ficar meses sem dar sinal de existência. O grande interesse do público – restrito a São Paulo, num momento em que os cariocas Suplemento Juvenil e O Globo Juvenil eram as mais importantes publicações de quadrinhos do País – levou A Gazeta a publicar, em dezembro de 1939 e janeiro de 1940, dois álbuns com a íntegra da aventura.
Só 35 anos depois, em 1975, voltou à luz a saga do cientista com máscara de caveira responsável por assassinatos e experiências no estilo Josef Mengele (isso muito antes de os terrores promovidos pelo médico nazista ficarem conhecidos). A reedição ficou a cargo da Rio Gráfica Editora, que, no entanto, imprimiu só a primeira metade – essa versão incompleta é a que mais se encontra em sites de download. Uma edição integral saiu somente em 1998, organizada pelo jornalista e pesquisador de quadrinhos Worney Almeida de Souza, mas num fanzine com tiragem única de 500 exemplares, que logo se esgotou. É Worney o organizador da atual edição da Conrad.
É ele também quem assina a apresentação, na qual levanta algumas das especulações envolvendo o Garra Cinzenta: “Ninguém sabe com certeza quem seria Francisco Armond. Todos os indícios sugerem que fosse a jornalista Helena Ferraz, mas ela nunca assumiu a autoria publicamente”, escreve. A origem da versão que dá a ela a responsabilidade pelo roteiro é nebulosa. Uma busca na internet pelos textos defensores dessa tese faz notar que quase todos usam como base “indiscutível” um artigo do quadrinista Gedeone Malagola publicado em 2008 na revista Mundo dos Super-Heróis.
Escreve Malagola: “Álvaro Armando, o autor que assinava os roteiros de A Garra Cinzenta e Nick Carter, tratava-se de um pseudônimo de Helena Ferraz criado a partir dos nomes de seus dois filhos. Todos pensavam que Álvaro Armando (por vezes grafado como Álvaro Armand) fosse homem, mas Sérgio Augusto, pesquisador e estudioso das HQs, foi quem esclareceu esse mistério.”
Há uma profusão de erros nessa versão. A jornalista Helena Ferraz, que, com o marido, editava o independente Correio Universal, de fato assinava como Álvaro Armando. Mas não é esse o signatário do Garra Cinzenta, e sim Francisco Armond. Adeptos dessa teoria argumentam que esse pseudônimo seria uma variação do outro. Acontece que as mesmas fontes dão como certo o fato de Helena ser proprietária d”A Gazeta – e o jornal pertencia, na verdade, ao empresário Cásper Líbero. Citado por Malagola, Sérgio Augusto, hoje colunista do Sabático, dá o banho de água fria final: “A única vez em que mencionei Helena foi num texto sobre o Fantasma. Nunca soube de qualquer outra conexão dela com quadrinhos, salvo traduzir as primeiras aventuras da série.”
Malagola, único que poderia esclarecer o mal-entendido, morreu seis meses após escrever o texto, que só fez disseminar uma antiga e recorrente suspeita. Para tentar esclarecer o caso, o Sabático procurou Arnaldo Ferraz, atualmente com 80 anos, um dos filhos de Helena: “Ela foi jornalista por 30, 40 anos. Escrevia também poemas, era filha do poeta (parnasiano) Bastos Tigre. Mas não tinha nada disso de terror, não.”
“O fato é que ninguém sabe quem era Francisco Armond, nem gente daquela época, nem historiadores, nem pesquisadores de quadrinhos. Ninguém o conheceu”, diz Worney, que investigou a história em busca de herdeiros. O jornalista e pesquisador de quadrinhos Álvaro de Moya acredita que fosse o pseudônimo de algum repórter d”A Gazeta. Um dos primeiros a estudar o Garra Cinzenta, Moya foi próximo de Renato Silva, o desenhista. “Nunca perguntei a ele quem tinha escrito, porque naquele tempo a gente só se preocupava em criar. Só nos anos 50 é que começamos a ter curiosidade de pesquisar”, diz.
Ilustrações. Renato Silva, que morreu em 1981, não só era conhecido como também admirado por seus contemporâneos. Não pertencia exatamente ao universo dos quadrinhos, mas, como lembra Moya, “naquele tempo desenhista fazia de tudo”. Silva era de fato polivalente. Além do vilão da HQ, destacou-se na ilustração tanto de livros infantojuvenis – na mesma época em que fazia o Garra, criou os desenhos do clássico Cazuza (1938), de Viriato Correia – quanto de histórias “mais ou menos liberais em sexo”, publicadas na revista erótica Shimmy. Sua série A Arte de Desenhar tornou-se obrigatória entre aspirantes a ilustradores.
“Da década de 30, de todos os quadrinhos brasileiros, o Garra Cinzenta foi o mais surpreendente. Os desenhos, em especial mais perto do fim, atingem padrão internacional”, avalia Moya. O pesquisador vê na HQ influência das fitas em série, histórias de aventura que passavam em capítulos no cinema, antes dos longas-metragens. Naquele momento, os grandes sucessos em quadrinhos do gênero eram quase todos estrangeiros, como Flash Gordon e Tarzan, seriados no carioca Suplemento Juvenil. Isso explica por que o brasileiríssimo vilão Garra andava pelos subterrâneos de Nova York e intimidava inspetores de nomes como Higgins e Miller. O fato de ecoar o estilo das pulp fictions americanas causou confusão até no exterior, diz Moya. Na França, onde o personagem ficou conhecido como La Griffe Grise, acreditava-se que a origem era mexicana.
Visto com sete décadas de distância, o enredo criado como algo entre o noir e o terror ganha ares involuntários de comédia, o que só torna a leitura mais interessante. O destemido inspetor Higgins, por exemplo, é adeptos de expressões como “cair na esparrela” e não consegue evitar raciocínios em voz alta, o que facilita bastante a coisa para o Garra, que tem transmissores de som em tudo quanto é lugar. O roteiro é carregado de redundâncias, com as mesmas ações explicadas na imagem, nos balões e na legenda. E Flag, o monstro de aço construído pelo vilão, “uma personagem medonha, fantasmagórica, inverossímel”, como descreve o roteiro, manifesta-se apenas por meio de um impensável “Glu! Glu! Glu” (“Meu pobre Flag! Algum dia te darei o uso da fala”, lamenta Garra, num rasgo sentimental).
“Hoje é algo engraçado, superinocente”, avalia o quadrinista Danilo Beyruth, autor da elogiada Bando de Dois e admirador da trama, “mas tanto era original que muitos acreditam que inspirou personagens americanos posteriores, como o Caveira Vermelha e o Terror Negro”. Beyruth, que no Twitter usa para se identificar uma adaptação própria da caveira que o vilão carrega no peito, tem planos de criar uma história baseada no personagem – prova de que, passados 70 anos, o Garra envelheceu muito bem à sua maneira.
GARRA CINZENTA
Autores: Francisco Armond e Renato Silva
Editora: Conrad
(128 págs., R$ 39,90)
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E o Garra Cinzenta no traço do Danilo Beyruth, que planeja uma história com o personagem.
[Capa do Caderno 2 de 24/5]
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Sandro Botticelli esboçou em pergaminho o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. Séculos depois, foi a vez de William Blake e Gustave Doré. Nas leituras de Robert Schumann e Gioacchino Rossini, os cenário dantescos viraram música, e a tecnologia tratou de transformar tudo em videogame – isso só para ficar em alguns exemplos.
Sete séculos depois de sua criação, A Divina Comédia, de Dante Alighieri (1265-1321), segue “um monumento à inspiração”, como afirma ao Estado o designer americano Seymour Chwast. A mais recente prova disso são as duas graphic novels que chegam agora às livrarias brasileiras, tão diferentes entre si como podem ser as mais radicais variações do mesmo tema.
A Divina Comédia de Dante é assinada pelo próprio Chwast, celebrado designer de produtos e peças publicitárias, que estreia no formato HQ com a edição que acaba de sair pelo selo Quadrinhos na Cia. Já A Divina Comédia em Quadrinhos é brasileira, feita a partir de traduções de Jorge Wanderley (1938-1999), Henriqueta Lisboa (1901-1935) e Haroldo de Campos (1929-2003), num roteiro elaborado pelo quadrinista italiano radicado no Brasil Piero Bagnariol e por seu pai, Giuseppe, e que chega às livrarias nos próximos dias pela Peirópolis.
Como não se sabe a data exata em que Dante escreveu o livro – as três partes foram criadas entre 1304 e 1321 -, não há, portanto, uma efeméride que explique as duas investidas simultâneas. “Foi coincidência. Soube da versão americana quando a minha já estava bem avançada”, diz Piero.
Participante ativo da política de sua Florença natal, onde ocupou cargos públicos, Dante escreveu sua obra-prima enquanto vagava pela Itália, em exílio, após ser acusado de corrupção. Nos 14.233 versos dos 100 cantos de sua A Divina Comédia, o turbulento cenário que testemunhava aparece com frequência, na forma de críticas ao envolvimento do papa na política e aos escândalos que se seguiram. A obra é uma leitura do tempo em que vivia, e as duas adaptações em HQ buscaram ressaltar esse aspecto.
A Divina Comédia de Seymour Chwast tem um quê do Poema em Quadrinhos de Dino Buzzati (artista italiano que Chwast diz desconhecer), uma saga de eras passadas reconstruída com olhar pop. No traço do americano, todo em preto e branco, Dante aparece como um detetive de histórias noir dos anos 30, de chapéu, capa e cachimbo, sendo conduzido profundezas adentro por um Virgílio de chapéu coco, gravata-borboleta e bengala.
A entrada para o Inferno é sinalizada com um letreiro cintilante, que lembra um bordel ou cassino, e dali por diante Dante e Virgílio seguem por escadas e corredores, como num prédio antigo. Da mesma forma, as disputas florentinas por poder sugerem duelos da máfia. “É o estilo que combina com o espírito da minha arte. E desenhar togas não me interessava”, diz o designer, sobre a releitura.
Referências dos séculos 20 e 21 são menos claras na versão cheia de cores imaginada por Bagnariol, mas aparecem. Como na obra de Dante, que permite vários níveis de leitura, o quadrinista incluiu “símbolos e gestos não visíveis a um olhar superficial”. Na passagem do Inferno com o rio onde estão condenados a ficar tiranos, Hitler e Stalin podem ser vistos mergulhados na água, em segundo plano.
Piero e seu pai também precisaram criar um enredo paralelo, colocando a história de Dante como pano de fundo. Foi uma alternativa encontrada para suprir “buracos” nas traduções escolhidas – Henriqueta Lisboa realizou a tradução de metade dos 33 cantos do Purgatório, enquanto Haroldo de Campos o fez em apenas seis dos 33 cantos do Paraíso.
Essa opção garantiu certa graça à narrativa, uma adaptação bem mais densa e fiel ao original que a de Chwast. A certa altura, por exemplo, um dos interlocutores de Dante suspira, com a cabeça apoiada sobre as mãos, ao ouvir sobre mais um desfalecimento do autor durante o percurso: “Será que ele vai continuar a desmaiar assim o tempo todo?”.
Com inspirações declaradas em histórias como Little Nemo, de Windsor McCay, e Krazy Kat, de George Herriman, Seymour Chwast não se incomoda com críticas quanto ao esvaziamento do conteúdo da obra, que em seu traço foi resumido dos três livros originais a apenas 127 páginas: “Por sorte, uma imagem vale por mil palavras”, conclui.
SEYMOUR CHWAST
Designer norte-americano
“O livro é um monumento à inspiração”
Por que adaptar um livro que já inspirou tantos artistas?
Esse livro é o monumento de um grande poeta à inspiração. Quando comecei minha adaptação, só conhecia as versões de Gustave Doré e William Blake
É sua HQ de estreia, e você evitou o formato clássico de sequência de quadros…
Quadros uniformes são estáticos e entediantes. Copiei o estilo dos melhores quadrinistas, tornando as páginas dinâmicas e animadas. Desenhei cada cena como se fosse o todo.
Por que imaginou Dante como um personagem de história noir?
É o estilo que combina com o espírito da minha arte. E desenhar togas não me interessava…
Qual foi a parte mais difícil e a mais interessante de ilustrar?
O Purgatório foi difícil pela variedade de situações com a ação à beira da montanha. A mais interessante foi o Inferno, naturalmente, porque as punições e os personagens são gráficos e prazerosos.
Não é mais difícil impactar com um Inferno em preto e branco?
Doré fez a versão dele em preto e branco, e ela é boa o suficiente para mim. Cores tornariam os desenhos menos gráficos e mais decorativos.
PIERO BAGNARIOL
Quadrinista italiano radicado no Brasil
“É quase a pedra fundamental do idioma”
Por que resolveu adaptar a Divina Comédia?
A editora me convidou a adaptar um clássico da literatura italiana, e a escolha foi meio natural. A Comédia é quase a pedra fundamental do idioma.
O quanto você já conhecia do livro e como foram as pesquisas?
Tinha lido na escola, mas meu pai, Giuseppe, conhece bem a obra e me ajudou no roteiro. Tivemos ainda consultoria da Maria Teresa Arrigoni, especialista na obra dantesca.
Como foi adaptar a partir de trechos já traduzidos?
Jorge Wanderley tinha traduzido todo o inferno, mas Henriqueta Lisboa e Haroldo de Campos tinham vertido só partes do Purgatório e do Paraíso, respectivamente. Partimos do original em italiano, e os trechos que não tínhamos, adaptamos num enredo que retrata um pouco a vida de Dante e serve de pano de fundo.
Que parte foi mais difícil e mais interessante adaptar?
O Purgatório tem a cena de uma procissão. uma alegoria da história da igreja, que foi bem difícil traduzir graficamente. O mais interessante foi a mudança de estilo de um reino para o outro: grotesco no Inferno, elegíaco no Purgatório e sublime no Paraíso
Li esses dias o Milagrário Pessoal, o romance mais recente do angolano José Eduardo Agualusa, lançado faz uns meses. É uma viagem, em vários sentidos, pela história do português (o idioma, bem entendido). O estopim são as agruras de uma linguista que, responsável por dicionarizar neologismos, descobre que alguém está criando numa rapidez incrível centenas de palavras – todas elas de repente imprescindíveis, um caos para a languidez com que a língua costuma evoluir.
Daí esbarrei nesse cartum do gênio Tom Gauld, que costuma publicar seus trabalhos aos sábados no The Guardian Review, e achei que tinha tudo a ver.
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Reparei na semana passada que a infiltração que apareceu no teto do banheiro, uma mancha pequena e escura, com uma rachadura aberta no meio, parecia um rostinho sorrindo. Não enxergo muito bem nem com lente de contato, então precisei forçar a vista para perceber que só com muita boa vontade aquilo ali seria um smile. Na melhor das hipóteses, um problema não tão grave a resolver antes das férias.
Não costumo ser criativa assim, esse tipo de gente que vê duplo sentido até em nuvem, de modo que a ficha não demorou a cair. Sem me dar conta, ainda impressionada com Ordinário, primeiro livro com tiras do gaúcho Rafael Sica, estava tentando emular a capacidade de observação dele.
Por que, vamos combinar, é preciso ser muito observador para pensar em algo assim:
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Eu já acompanhava o blog do Sica, mas é impressionante como reunidas as tiras têm multiplicado o efeito de fazer parar para pensar. É tudo muito simples, ou parece simples, e no entanto é informação que não acaba mais. Escrevi sobre o livro no Caderno 2 de hoje.
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Ordinário desvenda a solidão e a agonia do cotidiano
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
“Daqui a pouco vou desenhar bonequinho de palito”, imagina o quadrinista gaúcho Rafael Sica, após constatar a evolução de seu traço ao longo dos últimos anos – de algo grosseiro e caricato, conforme diz, a uma simplicidade quase ingênua, cuja busca o fez deixar para trás inclusive os balões de diálogos e a cor.
Ele não planeja chegar a esse extremo, é claro, mas o fato é que em Ordinário (Quadrinhos na Cia), seu livro de estreia, vale a máxima de que menos é mais. Todo composto por tiras silenciosas e em preto e branco, com personagens anônimos em situações que à primeira vista parecem corriqueiras, o volume faz um recorte tão sutil quanto incisivo dessa condição estranha que se chama humanidade.
Nas histórias, não raro a graça se confunde com a melancolia, caso do mímico que, encurvado sobre a cama, puxa uma luva da mesa de cabeceira, veste-a na mão e aponta o dedo para a cabeça como gesto final. Em outros momentos, as narrativas avançam para o surreal, como na sequência de quadros em que o mágico começa a serrar um voluntário e continua serrando e serrando, até sobrarem apenas quadradinhos de madeira no chão.
“Meu personagem central é o comportamento humano. Por mais que eu não busque um estereótipo e deixe as situações em aberto, as pessoas acabam se vendo naquelas situações, completando a coisa. O leitor se torna também um personagem”, avalia Sica. Durante os quase três anos teve tiras diárias publicadas no jornal popular Diário Gaúcho, em Porto Alegre, no entanto, entendeu que a mensagem pode passar despercebida ao leitor menos atento. “Recebia bastante resposta de gente que não tinha a menor ideia do que eu estava fazendo”, lembra.
Nascido em Pelotas, em 1979, jornalista por formação e ilustrador autodidata, Sica mantém na internet o blog Ordinário, onde está boa parte das tiras agora publicadas – o livro, conta, estava previsto para sair desde 2007, mas de lá para cá mudou de editora e teve de esperar um novo cronograma. A estreia como cartunista aconteceu aos 17 anos, num jornal de sindicato dos bancários, e em seguida passou a publicar em um diário local. Sua fonte de inspiração eram charges humorísticas de periódicos, mas, passada a fase caricata, encontrou estilo próprio – que, argumenta, resultou de suas dificuldades como desenhista. “Essa coisa da ingenuidade que as histórias passam foi a forma que encontrei de lidar com as limitações do meu desenho. Não tenho o traço bonito, mas é algo que funciona com o que a tira tem a dizer”, avalia.
As ideias para as histórias vêm da observação do cotidiano, ainda que por vezes resulte em situações surreais (como a do peixe que fisga uma bota no lago, calça a bota e segue à margem da água empunhando a vara de pesca). E o ambiente de solidão e agonia, diz, pode ser qualquer lugar, mas encontrou cenário nas ruas de Pelotas, cujas fachadas neoclássicas “meio decadentes” o quadrinista procurou reproduzir.
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Há tempos estava querendo escrever sobre o mercado em expansão dos quadrinhos, mas não tinha ideia de como levantar essa lebre, já que a expansão em si vem ocorrendo já faz alguns anos. Daí ouvi falar na intenção da Companhia das Letras de começar a lançar adaptações literárias pelo selo Quadrinhos na Cia e, juntando isso com o tanto de clássicos em quadrinhos que chegaram na redação em 2010, achei que tinha pano pra manga.
Falei com tanta gente que muita coisa teve de ficar de fora, inclusive a boa contextualização feita pelo Guazzelli, que além de quadrinista é mestre em comunicação e estudioso da história de HQs. Entre outras coisas, o fato de os quadrinhos terem até influenciado o cinema em sua origem; a força da Editora Brasil-América Ltda (Ebal) no segmento de adaptações em décadas passadas; e a diferença das atuais adaptações em relações àquelas (porque as da Ebal eram quadradas, “amarradas”, nas palavras dele, na comparação com as características mais ousadas das atuais).
Taí o texto, publicado no Sabático de hoje.
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Raquel Cozer – O Estado de S. Paulo
Clara dos Anjos, a personagem-título do último romance escrito pelo carioca Lima Barreto (1881-1922), demorou décadas para tomar forma. Nasceu numa versão rascunhada em 1904 e ficou de lado até 1921, quando o autor decidiu retomar a história, concluída no ano seguinte e publicada mais de duas décadas depois, em 1948. Em julho próximo, uma quarta etapa desta lenta evolução chegará às livrarias pela Companhia das Letras. Trata-se da versão em quadrinhos roteirizada por Wander Antunes e ilustrada por Marcelo Lélis, e que sinaliza uma forte entrada da editora numa disputa cada vez mais acirrada: a de adaptações de clássicos da literatura, especialmente a brasileira, com o objetivo de adoção por escolas das redes pública e privada.
Com duas adaptações traduzidas previstas para este semestre – A Divina Comédia, de Dante, por Seymour Chwast, e Na Colônia Penal, de Franz Kafka, por Sylvain Ricard-Mael -, o selo Quadrinhos na Cia está em negociações com artistas e escritores para outras versões de obras nacionais, segundo o editor André Conti: “Há mais projetos em andamento. Um selo tem que ser saudável, e uma das maneiras de um selo ser saudável é ter livros para adoção em escolas.”
Por saúde, entenda-se retorno financeiro. Embora o selo de HQ da editora paulistana tenha emplacado grandes lançamentos desde 2009, quando foi criado, a venda para o governo é garantia de tiragens até dez vezes maior que as usuais, estas em torno de 2 mil ou 3 mil exemplares. Além disso, obras baseadas em clássicos da literatura têm mais chance de serem escolhidas para uso em escolas particulares – o que garante as vendas de tiragens inteiras, mesmo que não tão grandes quanto as adquiridas pelo governo.
Não que quadrinhos com roteiro original também não venham sendo beneficiados pelo Programa Nacional de Biblioteca da Escola (PNBE), que selecionou 38 títulos em HQ ou imagem dentre os 300 a serem distribuídos para uso em aula neste ano. Os eleitos incluem adaptações como O Guarani e O Cortiço (Ática), mas também as sagas de heróis Necronauta (HQM), de Danilo Beyruth, e Demolidor, o Homem sem Medo (Panini), de Frank Miller e Romita Jr.
Mas, num momento em que o gênero apenas começa a superar o que o quadrinista Eloar Guazzelli define como preconceito histórico, as HQs derivadas de clássicos assustam menos por envolverem literatura. “Elas formam um caldo de cultura em que as crianças crescem e ampliam horizontes”, avalia o autor, que já adaptou O Pagador de Promessas (Agir), de Dias Gomes, A Escrava Isaura (Ática), de Bernardo Guimarães, e Demônios (Peirópolis), de Aluísio Azevedo.
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Embora o PNBE tenha sido instituído em 1997, HQs só passaram a ser adquiridas para uso em sala de aula em 2006. A possibilidade de venda para os governos federal e estadual levou editoras a prestar atenção nesse nicho.
Foi no ano passado que se tornou notável o número de adaptações em quadrinhos. A Companhia Editora Nacional, que entrou nesse mercado em 2005, publicou em 2010 sete de seus 15 títulos do gênero. A DCL, após o sucesso de Domínio Público (2008), com versões de vários autores, comprou no ano passado uma coleção com sete clássicos e criou o selo Farol HQ, disponibilizando, entre outros, Robinson Crusoé e Moby Dick – só este último teve 25 mil cópias distribuídas para escolas públicas e 9 mil para livrarias e colégios particulares. Para 2011, a editora prevê 12 publicações do gênero, incluindo suas primeiras adaptadas por artistas brasileiros.
“A aceitação de HQs na escola é fenômeno novo. Três anos atrás, ouvia-se que era melhor investir em prosa. Hoje é possível lidar com essa linguagem diferente. Quando o governo validou os quadrinhos, as escolas particulares passaram a rever seus conceitos”, diz Daniela Padilha, editora da DCL. “Muitas vezes, os professores é que perguntam se não vamos lançar tal título, e então avaliamos.”
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Responsável pela publicação de um dos maiores sucessos dessa tendência – O Alienista, com ilustrações e roteiro de Fábio Moon e Gabriel Bá, vencedor do Prêmio Jabuti de livro didático ou paradidático em 2008 e hoje com quase 100 mil exemplares vendidos -, o Grupo Ediouro amadureceu o método de produção. “Começamos com o trabalho de adaptação e preparação de texto dentro de casa. Analisamos com muito cuidado o texto, para que não perca o ritmo nem o estilo, e até a pertinência do tema em aula”, diz a diretora editorial Leila Name.
Para este ano, o grupo prepara seis títulos, a começar por Pedro Mico, de Antonio Callado, para maio. Outros três, de autores contemporâneos e com os quais o público mais jovem já se identifica, também prometem virar sucesso: Morangos Mofados e Onde Andará Dulce Veiga, de Caio Fernando Abreu, e Mandrake, de Rubem Fonseca. “O formato renova o público leitor. Tem garotada lendo Machado de Assis com mais entusiasmo. Uma leitura difícil como Os Sertões torna-se mais palatável”, diz Leila, referindo-se à adaptação de Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa que chegou às livrarias no fim de 2010.
É justamente o discurso de porta de entrada para a literatura o que mais alimenta críticas contra as adaptações. “Não acredito que alguém vá ler Dom Casmurro só porque leu Machado em quadrinhos antes. O sujeito vai se sentir desobrigado a ler”, diz Thales Guaracy, diretor editorial de ficção e não ficção da Saraiva, responsável pelos selos Benvirá, Caramelo e Arx, que, no ano passado, publicou Frankenstein e Histórias de Poe. “Não foi um grande negócio. Não vamos fazer mais”, diz.
Para o professor de literatura brasileira da USP Alcides Villaça, a questão é mais simples. “Literatura e quadrinhos são formas narrativas diferentes, linguagens que têm valor em si mesmas.” Villaça é a favor do uso de HQs em aulas, mas não como substituições às obras, e sim dialogando com elas. “Não gosto da ideia de “porta de entrada”. O professor deveria definir o âmbito das linguagens, respeitando ambas.” A argumentação é simples: na literatura, a articulação verbal é fundamental, enquanto na HQ ela não é central. Usar uma no lugar da outra seria, então, como exibir em sala de aula um filme baseado numa obra e acreditar que os alunos estão dispensados de ler o livro.
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É mentira que farei uma grande pausa no Natal. Não ficarei mais tempo sem escrever do que costumo ficar normalmente. No Réveillon vou dar uma pausa de uns quatro, cinco dias, isso é fato, mas antes disso ainda volto aqui, até porque o plantão me obrigará a isso. Só quis roubar a ideia do ilustrador Frank Chimero, que usou no contexto de pausa para os feriados esta página da graphic novel Retalhos, do Craig Thompson.
2011
2010
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