No último dia da Flip deste ano, no mês passado, o fotógrafo Wilton Junior e eu arrumamos tempo para ver de perto, na baía de Paraty, a casa de fazenda em que viveu Julia da Silva Bruhns, a mãe de Heinrich e Thomas Mann, do nascimento até os sete anos de idade. As últimas informações davam conta de que o estado do casarão, o único do século 18 do gênero naquela região, era deplorável.
Quem primeiro comentou comigo sobre os planos de Johannes Kretschmer, da UFF, de retomar o projeto de um centro cultural no local foi a Ju Lugão, ex-colega de Ilustrada, que hoje faz na PUC-Rio mestrado em literatura alemã. Isso foi bem no começo do ano, logo depois que saiu no Sabático uma reportagem minha sobre o museu que será inaugurado na casa de Stephan Zweig, em Petrópolis.
Mantive contato com o Johannes até que, há um mês, comecei a apuração, porque precisava ver a casa antes de me meter a falar sobre ela. Como disseram vários entrevistados, a situação legal do imóvel é complicada, e aí entram mudanças de proprietários, questões ambientais e limitações patrimoniais para uso do imóvel, o que afasta interessados há anos. E os interesses também não são nem sempre dos mais louváveis para uma construção de importância histórica como essa. O que se ouve de histórias desencontradas não é pouco. O resumo que deu para fazer em uma página foi a capa do Caderno 2 de hoje.
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Patrimônio em risco
Impasses legais e interesses econômicos agravam situação da casa da mãe de Thomas Mann em Paraty
Raquel Cozer – Enviada especial / Paraty – O Estado de S.Paulo
Ao lado de luxuosa marina a 8 km de Paraty, a única casa de fazenda do século 18 remanescente à beira mar na região vive situação calamitosa: paredes tomadas por mofo, vigas de madeira apodrecidas e telhado invadido por mato, chegando a formar cipós. Por frestas, vê-se que o interior virou um depósito de entulho.
Não bastasse a importância patrimonial, o descaso chama a atenção pela relevância cultural do chamado Engenho Boa Vista. Lá viveu a mãe de dois dos maiores escritores alemães do século 20, Heinrich (1871-1950) e Thomas Mann (1875-1955) – e cada vez mais especialistas estudam os reflexos dessa ascendência brasileira na formação dos dois autores.
Nascida numa viagem entre Angra dos Reis e Paraty, Julia da Silva Bruhns (1851-1923) passou os sete primeiros anos de vida na casa, antes de ser levada à Alemanha. Filha de comerciante alemão e de brasileira descendente de portugueses, ela legou aos filhos memórias por escrito do lugar que chamava de “paraíso”.
Por muito tempo, a história da casa foi desconhecida. Até que, em 1997, o escritor Frido Mann, neto de Thomas, iniciou esforços para construir um centro cultural no local. Criou a Associação Casa Mann, que chegou a realizar evento na propriedade, mas, oito anos depois, entregou os pontos. “Em 2005, desistimos do projeto”, diz Paulo Soethe, professor da UFPR, que integrava a associação. “A situação legal da casas era complicada. Não seria possível fazer nada como pessoa física ou associação. Entendemos que era questão de Estado.”
Naquela época, Amyr Klink, comodatário do terreno onde fica a casa, tinha planos para o local. O navegador, que mantém logo ao lado a Marina do Engenho, estudava instalar ali sua escola de navegação para jovens carentes. Impasses com órgãos como Ibama e Iphan impediram a implantação do Projeto Escola Mar, transferido para Santa Catarina.
Três anos atrás, o professor de literatura da UFF e da Uerj Johannes Kretschmer retomou o projeto do centro cultural. Desse movimento resultou colóquio que acontece neste mês (leia abaixo). Kretschmer hoje conversa com a Secretaria de Estado da Cultura do Rio e o Consulado Geral da Alemanha no Brasil – e entende os obstáculos encontrados pelo neto de Thomas Mann. “A questão legal é muito obscura.”
Há mais de uma década, o terreno da casa pertencia à Serrana Empreendimentos. Em 2001, a empresa Arbeit adquiriu a Serrana junto com um grupo suíço. A casa veio, por assim dizer, de brinde – não havia interesse específico na construção, diz o presidente da Arbeit, Oscar Muller.
Com a saída dos investidores suíços do País, a Arbeit tornou-se em 2008 a única dona do casarão. Desde então, estuda alternativas para a ocupação, que passam ao largo dos planos acalentados por Frido e Kretschmer. “A implantação de um centro cultural no casarão não se sustenta”, diz Muller, que planeja uma marina de “padrão internacional”. Segundo ele, um contrato até já foi fechado. O empresário diz estar “estudando” a manutenção do contrato com Klink para a área da marina e a possibilidade de “reassumir a posse do casarão”. “Implantar no local uma pousada/bangalôs com um restaurante também já demonstra viabilidade econômica”, especula.
Para aumentar o burburinho, há pouco espalhou-se em Paraty a notícia de que a empresa proprietária havia falido e que a casa iria a leilão. Muller nega com veemência. E responsabiliza Amyr Klink pelo mau estado da construção. “O contrato de comodato estabelecia que ele implantasse no local o instituto Projeto Escola do Mar. Amyr só implantou uma marina e transformou o casarão em galpão, hoje em péssimo estado. Por contrato. ele deveria manter o casarão com suas características originais.”
Klink afirma que questões contratuais e relativas a órgãos ambientais impediram os restauros. “A conservação é de minha responsabilidade, mas não a reforma. O problema é que a casa está num estado em que conservação não basta. Uma reforma dependia da participação deles e de uma autorização que nunca conseguimos.”
O navegador diz que, quando assumiu a fazenda, a casa estava em “completa ruína”. “Refiz o piso, pus o telhado, troquei as portas. A parte estrutural, que estava caindo, foi recuperada. Era o máximo que podíamos fazer sem contrariar o Iphan.” Cinco anos atrás, ele chegou a orçar o restauro como “deveria ser feito”: R$ 1,8 milhão, no mínimo.
Interessados sempre aparecem – até Rogério Fasano planejou lá um restaurante -, mas nada avança. Com Frido, Klink se desentendeu. “Não gostei da forma como ele chegava, com jornalistas, dizendo que ia fazer e acontecer.” A briga deu ao navegador a fama de não gostar de um projeto cultural no lugar. “Pelo contrário: essa é a vocação natural da casa”, diz.
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Diálogo entre culturas e influências
Prestes a morrer, em 1923, Julia Mann começou a falar num idioma que o filho caçula, sem entender, acreditava ser português. O relato de Viktor é lembrado pela estudiosa Marianne Krull no documentário Memórias do Paraíso (2005), de Marcos Strecker, e dá a dimensão da importância para Julia daqueles breves sete anos que viveu no Brasil.
O filme será uma das atrações do 1º Colóquio Internacional Intermediações Culturais Brasil-Alemanha, que acontece entre os dias 26 e 28 na Casa de Cultura de Paraty. Organizado por Johannes Kretschmer e outros estudiosos, o evento pretende jogar luz sobre a revisão que se tem feito nas últimas décadas acerca da importância da ascendência brasileira para as vidas e obras dos irmãos Mann.
“A origem brasileira dos Mann é desconhecida até mesmo entre especialistas. Estudos recentes mostram que ela pode inclusive levar a novas interpretações sobre textos seminais dos dois”, diz Kretschmer. Entre esses trabalhos está Mutterland – Die Familie Mann und Brasilien, de Karl-Josef Kuschel, Frido Mann e Paulo Soethe, publicado em 2009 na Alemanha e inédito por aqui.
O livro, segundo Soethe, busca mostrar que Julia teve mais influência sobre Thomas do que fazem crer os escritos dele. Ao contrário de Heinrich, que inclusive escreveu o romance Entre as Raças inspirado na história da mãe, Thomas pouco deixou transparecer proximidade com Julia. Chegou até a renegar a ascendência no começo da carreira, ao ser atacado em jornais alemães pelo “sangue judeu”. Mas, em 1943, o autor de A Montanha Mágica declarou: “Sempre estive consciente do sangue latino-americano que pulsa em minhas veias e bem sinto o quanto lhe devo como artista.”
Outro nome importante para as discussões do colóquio é Diuner Mello, presidente da Casa de Cultura e descendente da família Mello que, por várias décadas, ao longo do século passado, viveu no Engenho Boa Vista, a casa de Julia Mann. Diuner é um dos maiores conhecedores da história da casa e da riqueza patrimonial de Paraty.
Mas os debates não se restringem aos Mann. Metade deles será dedicada às relações entre a literatura brasileira e alemã, como a influência de Goethe sobre Gonçalves Dias e Machado de Assis. “A meta é sistematizar a pesquisa envolvendo relações entre os dois países”, diz Kretschmer. Outras informações e inscrições pelo email jk at id.uff.br.
Dos filmes que estrearam em 2010, O Escritor Fantasma, de Roman Polanski, foi meu preferido. O suspense lidera indicações para o Cesar, que será entregue na França no próximo dia 25, mas na cerimônia do Oscar, dois dias depois, não se verá menção a ele. Polanski é acusado de drogar uma menina de 13 anos e fazer sexo com ela quando morava em Los Angeles, nos anos 70, e sua obra se tornou non grata junto com sua persona nos EUA.
Gosto tanto dos filmes que ele dirige que já me peguei tentando minimizar a história, em parte influenciada pelo elogio ao diretor que é o documentário Wanted and Desired, em parte apoiada pela apuração de Peter Biskind em Easy Riders, Raging Bulls, cuja descrição da Hollywood dos anos 70, repleta de histórias pesadas envolvendo sexo e drogas (e ele mal toca no caso Polanski), faz entender por que tantos atores e diretores o defendem. Depois concluí que não tenho nada que defender o indefensável. Embora a própria vítima já o tenha perdoado (mais em nome de sua própria paz, já que a imprensa revirava sua vida toda vez que o assunto voltava à tona), é um assunto delicado e complexo demais para alguém que nem tinha nascido quando tudo aconteceu pensar que pode entender.
E aí cabe a pergunta: é possível celebrar a obra de alguém cujas atitudes ou convicções pessoais causem repulsa? Ou, olhando por outro ângulo: é justo desmerecer uma criação artística genial pelos desvios de personalidade de quem está por trás dela?
O assunto veio à tona com o cancelamento das celebrações dos 50 anos de morte de Louis-Ferdinand Céline na França, escritor considerado um dos maiores da língua francesa e também antissemita. A polêmica foi abordada por Mario Vargas Llosa num belíssimo artigo traduzido no Sabático de hoje. Para acompanhar esse texto, falei com três brasileiros ligados de alguma maneira à obra de Céline e me impressionei com o quanto as opiniões podem divergir num assunto como esse. Recomendo ler o texto do Llosa e, se sobrar um tempinho, dar uma olhada no meu, abaixo.
Update em 21/2: leia mais sobre a questão neste post.
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Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
O escritor Milton Hatoum morava em Paris, no início dos anos 80, quando a obra de Louis-Ferdinand Céline passou por uma espécie de resgate, relançada com pompas após décadas de obscuridade. Na ocasião, imprensa e crítica foram unânimes em apontá-lo como um dos maiores autores em língua francesa. “A obra dele demorou a ser reavaliada após a 2.ª Guerra”, comenta. Foi com surpresa que o colunista do Estado acompanhou a atual rejeição ao romancista por parte de seus conterrâneos devido à militância antissemita. Hatoum arrisca uma análise: “A visão das artes mudou muito na França. As pessoas estão menos interessadas em literatura; a discussão ficou simplista.”
Tanto não é debate simples que o amazonense, admirador de obras como Viagem ao Fim da Noite e Morte a Crédito, não tem o menor interesse em conhecer os virulentos panfletos antissemitas que Céline escreveu entre 1936 e 1941, em plena ascensão nazista. “É evidente que discordo visceralmente da posição dele nesse ponto. Mas também discordo de Borges, que apoiou os militares na Argentina e foi condecorado pelo Pinochet no Chile. E, no entanto, é impossível não lê-lo.”
Os panfletos – foram quatro – não são mais editados na França, embora estejam disponíveis para download na internet e possam ser encontrados na Universidade de Paris 7, onde há um centro de estudos celinianos. Pós-doutorada na obra do francês, Leda Tenório da Motta, professora de Comunicação e Semiótica da PUC-SP, vê importância literária inclusive nesses textos. “Os panfletos de Céline são considerados pela melhor crítica francesa como uma fase intermediária, que leva ao auge da obra dele. Ali ele formula em definitivo seu estilo da ira, hiperbólico.” O fato de se tratar de convicção pessoal, em vez de representação ficcional, não reduz, para ela, o valor poético, “se for levado em conta o estilo”. “São textos mais sombrios que antissemitas. Apesar de carregarem um antissemitismo eminentemente francês da época, carregam também um clamor contra o capitalismo americano, por exemplo.”
O tradutor e professor da Unicamp Marcio Seligmann-Silva não vai tão longe na defesa à obra do autor, que pôs no papel frases como “os judeus racialmente são monstros, são híbridos, quistos que incomodam e devem desaparecer” (em Bagatelles Pour Un Massacre, de 1937). Mas faz coro com Leda na opinião de que, ao lado de Proust, Céline foi responsável pela melhor ficção da França do século passado. Seligmann avalia que uma característica não anula a outra. “É fácil dizer que tudo é literatura, mas há momentos em que a escrita se torna apenas política. É preciso perceber os limites.”
Para o tradutor, a solução está em manter a tensão entre a admiração pelo gênio e a repulsa ao antissemita. “Entendo que um governo tenha cuidado em enaltecer a memória de alguém que teve essa postura num momento recente da história. A obra de arte não machuca, mas um panfleto pode levar à morte.”
Eu tinha uns 19 anos a primeira vez que ouvi falar em Stefan Zweig. Embora já morasse havia dois anos no Rio, por causa da faculdade, voltava para Petrópolis todo final de semana, onde viviam meus pais e meus melhores amigos. Numa dessas comecei a namorar um ex-colega de colégio, que tinha entrado fazia pouco na faculdade de medicina e não era nada aficcionado por temas literários.
Algumas semanas depois de começarmos a sair, na primeira vez que fui à casa onde ele morava com os pais, ele mandou a pergunta, na lata: “Já ouviu falar no escritor Stefan Zweig?”. Naqueles tempos, sem Google nem celular com internet, não era fácil disfarçar a ignorância. Nem tinha entendido direito como era o nome, Stefan o quê? Falei que não sabia. E ele explicou resumidamente: era um escritor austríaco consagrado que veio para o Brasil nos tempos da Segunda Guerra e escolheu Petrópolis para viver nos meses finais de sua vida. E soltou: “Ele morava aqui nesta casa. Foi aqui que ele se matou.”
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Daí ele contou que a casa tinha sido tombada, algo que a família dele ficou sabendo anos antes por um canal de TV petropolitano. Era uma casa simples, mas charmosinha, com aquela varanda grande na frente, numa esquina que separava a região central da cidade de um bairro mais bacana, o Valparaíso. Anos depois, já formada, reencontrei o ex-namorado numa festa no Rio e ele contou que os pais dele não moravam mais lá, tinham vendido a casa. Ponto, fim da história.
No início deste ano, soube que, após anos com o nome Casa Stefan Zweig sem nenhuma mudança física nem atividades culturais, o lugar entrará em reformas para se transformar em museu. O poeta e designer André Vallias, um dos personagens de uma reportagem que fiz meses atrás sobre webpoesia, estava envolvido na organização de uma mostra multimídia sobre Zweig em Petrópolis e me escreveu pra avisar. Mandou imagens de como a casa era em 1941, quando o austríaco se mudou para lá (ele e a segunda mulher se mataram meses depois, após um pacto, em fevereiro de 1942, desesperançados com o mundo) e do projeto do museu, que, se tudo der certo, será aberto para o público em agosto.
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Um dos objetivos da mostra em Petrópolis é justamente anunciar o início dessas reformas. Uma exposição numa cidade média fluminense dificilmente renderia reportagem grande num jornal paulistano, mas, como tenho lá uma relação afetiva com a cidade, resolvi ir atrás. Conversei com o jornalista Alberto Dines, diretor da casa e biógrafo de Zweig, e soube que além do museu ele também prepara mais dois livros sobre o autor. O resultado foi publicado no Sabático de ontem, 22/1, e segue abaixo.
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Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Foi sem festa, com discrição, que entrou em cartaz em Petrópolis, no último dia 14, uma mostra multimídia sobre o escritor austríaco Stefan Zweig (1881- 1942). No dia anterior, a cidade havia amanhecido em luto pelas destruições da pior chuva em décadas a atingir a região serrana fluminense. A organização decidiu cancelar o evento de abertura, de modo que muitos daqueles que passaram desde então pelo Centro de Cultura Raul de Leoni, onde também fica a principal biblioteca da cidade, foram pegos de surpresa pela homenagem a um dos mais célebres moradores que Petrópolis já teve.
Não muito longe dali, há exatos 70 anos, Zweig encontrou o refúgio para os momentos finais de sua vida, ao lado da segunda mulher, Lotte. Uma “casa minúscula, mas com um amplo terraço coberto e uma bela vista”, como descreveu o já então consagrado autor em setembro de 1941. E que, neste ano, passará a abrigar um centro de memória dedicado não só a Zweig, mas a vários intelectuais que, como ele, encontraram abrigo no Brasil durante os horrores da 2.ª Guerra – estão incluídos aí nomes como Otto Maria Carpeaux, ensaísta austríaco; Paulo Rónai, tradutor nascido na Hungria; e George Bernanos, ficcionista francês.
Tombada desde os anos 80 e comprada do antigo morador em 2005, a Casa Stefan Zweig acaba de entrar em obras para a inauguração como museu, conforme projeto do arquiteto Miguel Pinto Guimarães. A meta é que a reforma esteja concluída em agosto, quando se completam sete décadas de um livro-chave do austríaco, Brasil, Um País do Futuro, escrito nos meses anteriores à mudança para Petrópolis. O intervalo entre a aquisição da casa e o início das obras é explicado por questões kafkianas, segundo o diretor da instituição e principal biógrafo de Zweig, Alberto Dines. “Para fazer qualquer reforma era necessário fazer pedidos por escrito, mostrar pesquisas históricas e geológicas, porque a casa estava tombada. O curioso é que durante anos o lugar sofreu alterações. Ou seja, desfigurar foi fácil, difícil foi provar a importância de reconfigurar”, diz o jornalista, cuja biografia de Zweig, Morte no Paraíso, lançada em 1981, foi fundamental para a renovação do interesse do público brasileiro pelo escritor, o que levou ao tombamento da construção.
O local, que incluirá biblioteca e auditório, privilegiará exposições audiovisuais. O jornalista deixará no museu seu próprio acervo sobre Zweig, que inclui livros e fotos – a maior parte do material que o austríaco doou à biblioteca municipal de Petrópolis antes de morrer se perdeu; outros documentos estão conservados na Fundação Biblioteca Nacional. Pesquisadores comandados pelo historiador carioca Fábio Koifman agora tratam de encontrar no Arquivo Nacional documentos sobre outros intelectuais a serem lembrados nessa espécie de “museu dos exilados” – por coincidência, a Casa Stefan Zweig fica na Rua Gonçalves Dias, batizada em homenagem ao poeta criador da Canção do Exílio.
Stefan Zweig Vive!, a exposição multimídia atualmente em cartaz na cidade, organizada por Dines e pelo poeta e designer André Vallias, é a primeira homenagem do que o jornalista chama de “ano Stefan Zweig”, juntando as efemérides do lançamento de Brasil, Um País do Futuro; os 130 anos do nascimento do escritor, em novembro; e os 70 anos de sua morte, em fevereiro de 2012. Além da mostra e do museu, Dines pretende lançar duas edições fac-similares de material deixado por Zweig.s, é um conceito amplo demais.
A primeira delas será um volume contendo a “rede social” do escritor, feito a partir de uma cópia da agenda telefônica que o austríaco trouxe consigo ao chegar ao Brasil e que inclui contatos de pessoas próximas a ele, como os alemães Thomas Mann e Albert Einstein, o regente húngaro Eugen Szenkar (primeiro diretor artístico da Orquestra Sinfônica Brasileira) e, entre os brasileiros, o jurista Afonso Arinos de Melo Franco e o empresário Roberto Simonsen (o responsável pela orientação de toda a parte econômica de Brasil, Um País do Futuro). “São cerca de 150 nomes, já pesquisamos a maioria. Alguns não conseguimos, são absolutamente desconhecidos”, afirma Dines, que agora organiza fichas biográficas de cada nome, a entrarem no livro junto com as reproduções da agenda.
A outra edição fac-similar terá como base o manuscrito de Zweig para uma conferência que proferiu em 1936 no Rio, em sua primeira visita ao Brasil, e que repetiria com poucas variações anos depois em Buenos Aires, sob o título A Unidade Espiritual do Mundo. “Foi num momento em que tinha acabado de começar a Guerra Civil Espanhola, em que o nazismo já botava os dentes para fora, e vinha o cara falar sobre unidade espiritual. Devia parecer ingenuidade naquela época, mas o curioso é que hoje esse virou um tema importante para a ONU, discutido nos fóruns Aliança das Civilizações”, avalia Dines.
É possível dizer que Zweig foi visionário nessa discussão, assim como, de certa forma, o foi em Brasil, Um País do Futuro, o tratado otimista que daria origem ao aposto mais famoso sobre a república brasileira e às maiores críticas já feitas ao escritor. Afinal, sete décadas depois, o País é apontado como um protagonista no cenário econômico mundial, uma alternativa à qual Zweig apontava lá atrás, embora os problemas internos ainda a superar – e as tragédias na região serrana do Rio são exemplo – façam crer que futuro, no fim das contas, é um conceito amplo demais.
Estive na sexta na Fundação Biblioteca Nacional para evento de lançamento da mostra Biblioteca Nacional 200 Anos: Uma Defesa do Infinito, que fica aberta de amanhã até fins de fevereiro e sobre a qual escrevi no Caderno 2 de hoje.
A curadoria do poeta e ensaísta Marco Lucchesi garimpou preciosidades literárias e afins – tem até exemplar da célebre Enciclopédia de Diderot (1713-1784) -, além de manuscritos, gravuras, fotos e objetos históricos, como um apontador (yad) para leitura de Torá, do séc. 19, da Coleção Paulo Herkenhoff.
Mesmo ciente da capacidade que teria de transformar volumes seculares em pó, deu pena não poder folhear uns e outros títulos. Mas, ok, no caso dos livros de 500 anos eu abriria mão da mania de cheirar.
Seguem algumas imagens que o Fabio Motta, da Sucursal do Rio, fez por lá. Clicando nelas, você consegue vê-las ampliadas.
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Luis de Camões. Os Lusíadas. Lisboa, 1572. A obra teve duas edições datadas deste mesmo ano. Dos 200 exemplares da primeira, conhecida como “Edição E”, este é um dos raros de que atualmente se tem notícia
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Kammavaca: manuscrito tibetano contendo textos budistas, em folha de palmeira e capa de madeira. Século XIX. Coleção Paulo Herkenhoff.
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Andreas Cellarius. Harmonia macrocosmica… 1661. Esta edição, impressa em Amsterdã, inclui exposição dos sistemas de Ptolomeu, Ticho Brahe e Copérnico
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Pertencente ao acervo original da Real Bibliotheca, a Bíblia de Mogúncia, de 1462, é o primeiro impresso que contém data, lugar de impressão e nome do impressor no colofão – os impressores, por sinal, eram ex-sócios de Gutenberg. É um dos itens mais valiosos da Biblioteca Nacional, que tem dois dos cerca de 60 exemplares de que se tem notícia
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Le Grand Theatre de l'Univers… 1741. v.1. Esta tabela cronológica dos príncipes da Europa desde o nascimento de Cristo, faz parte da coleção de gravuras holandesas Le Grand Théâtre de l'Univers, do século XVIII. O volume integra a Coleção do Conde da Barca, incorporada ao acervo da Real Biblioteca em 1819
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À frente, Georges Louis Leclerc Buffon. Histoire naturelle, générale et particulière, avec la description du Cabinet du Roi. 1749-1804. O naturalista desenvolve na obra estudo sobre a origem, evolução e classificação dos seres vivos, incluindo ideias que seriam desenvolvidas depois por Lamarck e Darwin. A obra, em 44 volumes, demorou mais de 50 anos para ser finalizada, postumamente. Em segundo plano, Encyclopédie, ou, Dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des métiers… 1751-1765. A Enciclopédia, organizada por Diderot e D’Alembert, é talvez a expressão máxima do pensamento iluminista. Contém mais de 70 mil verbetes e procura difundir todo o conhecimento humano
Raquel Cozer – O Estado de S.Paulo
Alguns anos antes de morrer, Eça de Queiroz (1845- 1900) comprou uma máquina fotográfica e improvisou em sua casa na cidade de Neuilly-sur-Seine, ao oeste de Paris, uma câmara escura na qual ele mesmo revelava as imagens que capturava no jardim. O interesse por se aprofundar na arte do retrato decorrera da convivência do escritor português naqueles tempos com o jovem amigo Alberto Frazão, o visconde de Alcaíde, detentor à época de um dos modelos mais avançados de câmera fotográfica. São dessa fase os melhores registros que se tem do autor de Os Maias e As Cidades e as Serras, a maior parte feita por Frazão.
A série de fotografias nas quais o ficcionista aparece com a mulher, Emília de Castro, e os quatro filhos, resistiu bem ao tempo e pode ser vista em Eça Queiroz – Fotobiografia, de A. Campos Matos, lançada em 2007 em Portugal e que ganha agora edição ampliada no Brasil, com mais de 400 páginas e 700 ilustrações, pela Leya. As imagens em questão permitem entrever curiosidades da personalidade de Eça. Embora tenha se tornado fotógrafo tardio, o escritor apreciava já havia muito a ideia de estar em frente às lentes – como descreve o biógrafo Campos Matos na introdução, Eça, “consciente do valor de sua arte, tivera também o desígnio de posar para a posteridade”. Posava então lendo o Le Fígaro, sozinho ou por cima do ombro da mulher, ou ainda folheando um imponente livro em meio aos filhos Maria e José Maria.
A iconografia contida no volume é a mais completa publicada em torno do universo do escritor – outro trabalho de destaque nesse sentido, Imagens do Portugal Queirosiano (1976), que retrata localidades reais onde se desenrola a ficção de Eça, foi também organizado por Campos Matos, criador ainda do Dicionário Eça de Queiroz (1988). Postais, fac-símiles, mapas e fotografias de contemporâneos do autor servem de base para textos em ordem cronológica, divididos em capítulos temáticos, com destaque para os relacionados à vida universitária, em Coimbra, e às viagens que fez como cônsul, a Cuba, Estados Unidos, Inglaterra e França. Em meio a uns e outros momentos, são registradas as situações em que contos, romances e folhetins tomavam forma.
Produção. O ambiente tinha forte influência sobre a produção de Eça. “Convenci-me de que um artista não pode trabalhar longe do meio em que está sua matéria artística”, desabafa, em 1878, durante um bloqueio criativo, ao amigo e escritor Ramalho Ortigão (1836-1915). “Balzac não poderia escrever a Comédia Humana em Manchester e Zola não lograria fazer uma linha dos Rougon em Cardiff.” Naquele momento, em Newscastle – seu segundo posto consular (1879- 1888), onde “nem a natureza, nem a sociedade, nem os teatros, nem as mulheres” eram “capazes de atrair alguém” -, ele tentava levar a cabo uma promessa um tanto ambiciosa feita ao seu editor. Tratava-se do projeto Cenas Portuguesas, que previa a publicação de nada menos que 12 volumes, de 200 páginas cada um, no intervalo de dois anos. Se não cumpriria na completude a proposta de registrar os “12 estudos sobre a vida contemporânea em Portugal”, conforme anúncio reproduzido na fotobiografia, tiraria de lá algumas de suas obras-primas, como uma nova versão de O Crime de Padre Amaro e os romances O Primo Basílio e A Capital. Da produção literária, aparece ainda a reprodução de uma folha de papel ofício em que Eça declara de próprio punho a venda de Os Maias, recebendo adiantamento com a promessa de terminar o texto até o final de 1883 – seria capaz de concluí-lo apenas cinco anos depois.
A edição brasileira de Eça de Queiroz – Fotobiografia inclui um prefácio no qual Campos Matos trata da relação do português com o Brasil. Neto do carioca responsável pelo primeiro recenseamento populacional do Rio, em 1821, Eça colaborou por quase duas décadas, a distância, com a Gazeta de Notícias da cidade, de 1880 a 1897. Embora tenham vindo do Brasil, de Machado de Assis, as críticas mais duras a seus livros O Primo Basílio e O Crime do Padre Amaro – críticas, aliás, que acabaram sendo as responsáveis pela popularidade de Eça do lado de cá do oceano -, saiu também daqui um de seus amigos mais próximos, o jornalista e escritor Eduardo Prado (1860- 1901), com quem conviveu em Paris.
Prado esteve com Eça e Ortigão em Glion-sur-Montreux, na Suíça, quando o amigo já estava muito doente, possivelmente com tuberculose. Foi ele quem, a 5 de agosto de 1900, escreveu carta sugerindo a Emília que fosse para junto do marido. “Achei-o muito desanimado no primeiro dia. Depois ficou mais alegre e estou convencido de que o ar das alturas lhe fará muito bem. É mau entretanto ficar só e creio que o isolamento neutraliza algum tanto o bom efeito dos ares”, escreveu, em carta reproduzida na fotobiografia. Onze dias depois, com a mulher ao lado, Eça morreu.
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O texto acima, sobre Eça de Queiroz – Fotobiografia (Leya), foi publicado no Sabático de 9/10. Abaixo, seguem algumas imagens do volume que selecionei para o blog.
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Documento em que Eça se compromete a terminar Os Maias até fins de 1883 – algo de que só seria capaz cinco anos depois
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Ilustração feita por Eça em 1890, para paródia com base no drama de Inês de Castro feita em parceria com Olavo Bilac e Benedita de Castro
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Estante em Chernobyl, na Ucrânia, em fotografia tirada 24 anos depois da devastação do acidente nuclear de 1986. Registro de Roman Kudryashov. Tirei daqui (as usual, clique para ampliar).
Saiu faz algum tempo no Guardian, mas alcancei só agora via Google Reader, uma lista feita por John Mullan, professor de inglês da University College, com dez dos melhores livros de ficção sobre eleições na história da literatura.
Todos os títulos que ele escolhe foram publicados originalmente em língua inglesa, à exceção de Ensaio Sobre a Lucidez (traduzido por lá como Seeing), do Saramago. Os outros são Coriolannus, de William Shakespeare; Os Cadernos de Pickwick, de Charles Dickens; Sir Launcelot Greaves, de Tobias Smollett; Middlemarch, de George Eliot; The Way We Live Now, de Anthony Trollope; The Tragic Muse, de Henry James; Primary Colors, de autor anônimo; A Linha da Beleza, de Alan Hollinghurst; e The Absence of War, de David Hare.
Sem parar para pensar em como engrossar essa lista, o que me vem à cabeça é que por aqui temos eleições que parecem ficção. Serve?
2011
2010
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